Capítulo 22 – Overdose
Desde que fora adotado pela Casa do Marquês Highon e visto a diferença entre ele e a meia-irmã, Cyril começara a estudar magia para conquistar sua própria força.
Afinal, ter uma base sólida em magia lhe daria alguma vantagem na sociedade aristocrática.
Ele de fato tinha um talento para a magia que a meia-irmã não tinha. Nascido com mais mana do que a maioria das pessoas, ele começou a estudar arduamente — mas, por causa disso, uma doença começou a se desenvolver dentro dele.
— Síndrome de Overdose de Mana.
Os seres humanos só conseguem armazenar mana em seu recipiente interno, mas não conseguem gerar mana a partir dele. Em vez disso, podem recuperá-la absorvendo pequenas quantidades de mana do ambiente externo.
Assim, o corpo humano não consegue armazenar mais mana do que a capacidade de seu recipiente. Uma vez que o recipiente está cheio, o corpo rejeita e para de absorver mais mana.
E o estado em que o recipiente está cheio, mas o corpo ainda julga que há falta de mana e continua a absorvê-la por conta própria — isso é a overdose de mana.
Pode ser algo parecido com comer demais. Assim como o centro de saciedade não funciona corretamente, fazendo o corpo continuar buscando comida, o corpo de Cyril não reconhecia que seu recipiente estava cheio e continuava absorvendo mais mana. E o excesso de mana que corroía seu corpo era a causa da overdose de mana. Por isso, ele precisava liberar regularmente, para fora do corpo, o excesso de mana que não cabia em seu recipiente.
Segundo seu médico, os sintomas foram causados por treinos imprudentes e repetidos.
Quando desenvolveu essa doença, Cyril mergulhou em desespero. Tinha certeza de que seria abandonado pela família do Marquês.
No entanto, o Marquês Highon preparou uma ferramenta mágica para Cyril, capaz de absorver e liberar seu excesso de mana. Era o broche que ele sempre usava na lapela. Ao usá-lo, o excesso de mana em seu corpo era absorvido e descarregado para fora.
Enquanto usasse aquele broche, ele não deveria ter problemas para levar sua vida diária adiante.
Então, por que isso está acontecendo…
Vagando pela floresta atrás do dormitório, Cyril entoou um cântico curto.
Congelando a árvore à sua frente, transformando-a em uma estátua de gelo. Com o uso de feitiços, a quantidade de mana em seu corpo diminuiria, dando-lhe um alívio temporário. No entanto, mais uma vez, o corpo de Cyril rapidamente absorveu mais mana.
Sua velocidade de recuperação estava claramente mais rápida do que o normal. Rápida demais, na verdade. Não importava quantos feitiços usasse, a mana em seu corpo não se esvaziava. Na verdade, só aumentava.
O excesso de mana que transbordava do recipiente corroía o corpo humano, seguido de dores latejantes na cabeça e uma sensação de náusea.
Ajoelhando-se, Cyril agarrou o broche em sua lapela enquanto se encolhia.
Um broche feito sob medida, que o Marquês Highon — seu pai adotivo — preparara para ele.
Com este item, ele conseguiria absorver a mana dele.
Com este item, ele conseguiria controlar sua overdose.
Com este item… ele conseguiria corresponder às expectativas do Marquês Highon.
Eu preciso corresponder às expectativas dele!
Cyril vivera uma vida que dificilmente poderia ser chamada de aristocrática, mas ele queria corresponder às expectativas de seu pai adotivo, que o aceitara na família do Marquês.
Ele também queria corresponder às expectativas do segundo príncipe, que precisara dele e o escolhera como vice-presidente.
E mais do que isso…
— Ele queria corresponder à expectativa deles.
Era por isso que Cyril não deveria estar se arrastando pelo chão ali.
Mas, contrário à sua intenção, seu corpo absorvia mais mana por conta própria. Cyril entoou um cântico abreviado e liberou seu feitiço de gelo.
Então, depois de congelar a pedra à sua frente, os sintomas deveriam ter aliviado… ou foi o que pensou, mas seu corpo continuava absorvendo mana.
Embora sua absorção de mana costumasse ficar descontrolada quando estava doente, esse ritmo ainda era anormal.
Por quê! Por quê! Por que isso está acontecendo?!
Ele precisava entoar rapidamente e usar o próximo feitiço, mas seu pulso estava errático e sua respiração, descontrolada. Nessa situação, não conseguia entoar e usar um feitiço.
— Haa… Haa…
Cyril arranhou o chão e convulsionou, encharcado em suor frio.
Sua visão escureceu, e sua consciência ficou distante, e foi então que…
Ele ouviu o miado do gato.
* * *
Com a magia de vento de Lynn (movida devagar, por insistência de Monica), o grupo de Monica, Nero e Lynn, que haviam escapado de seus quartos no dormitório, seguiu os rastros de mana até a floresta, chegando por fim às sombras das árvores onde Cyril estava.
Ele se contorcia em agonia, disparando uma rajada de magia de gelo. Claramente, ele não estava em estado normal.
— O estado dele parece estranho demais para ser apenas um treino secreto de magia.
Monica assentiu diante das palavras de Lynn.
— Eu acho… que o senhor Ashley está sofrendo de envenenamento por mana.
— Envenenamento por mana? — disseram Lynn e Nero em sincronia. Aparentemente, nenhum dos dois sabia nada sobre esse tipo de doença.
— C-Comparado a espíritos e dragões, o corpo humano é menos resistente à mana, então o corpo piora se absorver mana demais… E esse estado é chamado de envenenamento por mana… No pior dos casos, pode levar à morte.
Monica já vira algumas pessoas com os mesmos sintomas quando ainda estudava na Minerva.
— O senhor Ashley provavelmente… tem uma constituição que absorve mana com facilidade. Essas pessoas costumam usar magia com frequência para reduzir a mana, ou usar ferramentas mágicas que absorvem o excesso…
Provavelmente era por isso que Cyril constantemente convertia sua mana em ar frio, ou fazia blocos de gelo no copo. Era assim que liberava o excesso de mana do corpo.
Ele se preocupava tanto com o broche na lapela que este provavelmente era uma ferramenta mágica para absorver essa mana.
Depois de ouvir a explicação de Monica, Lynn formou um círculo com o indicador e o polegar e observou Cyril através dele.
— Confirmei o fluxo de mana dele. O broche na lapela parece estar coletando a mana liberada para fora do corpo e devolvendo-a a ele.
— Eu sabia! Essa ferramenta mágica está com defeito!
Aquela ferramenta mágica estava funcionando ao contrário do pretendido. Aquele broche precisava ser removido o quanto antes.
No entanto, se Monica se aproximasse, Cyril perguntaria por que ela estava ali.
Embora Monica estivesse usando uma capa com capuz, se chegasse perto o suficiente para tocar o broche, ele notaria sua presença.
Enquanto Monica hesitava, Nero miou com bravura.
— Acho que vou cuidar disso para você!
* * *
Nero saltou de trás das sombras da árvore e se lançou sobre Cyril, agarrando o broche em sua gola com a boca.
— Um gato…?! Pare… não toque nisso…!
Cyril agitou os braços para resistir, mas Nero facilmente o esquivou para arrancar o broche. Depois disso, se afastou de Cyril.
— Devolva isso… Devolva issooo!
Gritando histericamente, com os olhos injetados de sangue, Cyril entoou um cântico abreviado.
O caminho para onde Nero se dirigia foi instantaneamente bloqueado por uma parede de gelo.
Ugh!
Nero rapidamente mudou de direção e tentou fugir para a floresta… mas a parede de gelo se espalhou vigorosamente, bloqueando sua rota de fuga.
Sem perceber, Nero e Cyril foram cercados por uma parede de gelo.
Isso é ruim… E eu não sou lá muito bom com friooo.
O ar gélido fluindo ao redor de suas patas fez Nero se encolher.
Ainda assim, ele manteve o broche na boca e não o soltou.
— Devolva… Devolva para mim…
Cyril se aproximou de Nero com os olhos injetados de sangue.
Entre sua respiração ofegante, ouviu Cyril falar em voz baixa.
— Esse broche… foi um presente… do meu pai adotivo… para conquistar o reconhecimento dele… eu tenho…
Os olhos de Cyril, turvos de obsessão, haviam perdido a razão.
Ao ver sua figura, Nero não conseguiu deixar de sentir pena dele.
Por que todos os humanos são tão idiotas?
Talvez ele tivesse seus próprios motivos para ser obcecado por aquele broche. Mas isso não tinha nada a ver com Nero.
Cyril entoou um cântico abreviado. Mais de uma dúzia de flechas de gelo flutuaram ao seu redor.
Cada uma delas era tão grossa quanto um braço, mais parecendo estacas do que flechas. Fosse lá o que fosse, um acerto direto não terminaria bem.
— Eu fui… reconhecido… pelo meu pai adotivo… e por… sua alteza… mesmo assim, por que…
Os olhos febris de Cyril fitavam Nero com um olhar vazio.
Mesmo assim, o que aparecia diante de seus olhos não era Nero.
Enquanto seu corpo inteiro era consumido pela mana, imerso em febre, o que ele via eram visões de alguém que Nero não conhecia.
— Por quê…
Seu rosto de traços delicados se contorceu em uma expressão de dor, quase às lágrimas.
— Por quê… Por que a senhora não me reconhece… Mãe?
Naquele instante, a parede de gelo desabou sem som algum.
A parede de gelo e as flechas que flutuavam ao redor de Cyril foram engolidas por chamas.
O gelo que Cyril criara derreteu e desapareceu em poucos segundos, e as chamas que haviam derretido o gelo se reuniram em um só lugar, como se tivessem vontade própria, transformando-se, por fim, em uma serpente de fogo.
E, do outro lado da parede de gelo em desmoronamento, estava uma bruxa pequena, com o capuz puxado bem baixo sobre os olhos.
E ela era uma dos Sete Sábios, usuária da magia sem cântico.
Monica Everett, a Bruxa Silenciosa.