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Silent Witch – Volume 3 Capítulo 23

Um Monstro Silencioso

Capítulo 23 – Um Monstro Silencioso

Embora o pai de Cyril tivesse o sangue da família do Marquês Highon correndo nas veias, não possuía título algum e nunca fora rico.

Ainda assim, seu pai tinha tanto orgulho disso a ponto de não conseguir um emprego e agir com arrogância para com sua mãe.

Cyril não gostava dessa atitude, então sempre ficava do lado da mãe. À sua própria maneira, tentava fazê-la feliz.

Mas, toda vez que sua mãe olhava para o rosto dele — o rosto que a lembrava do rosto aristocrático do pai — ela sempre fazia uma expressão triste.

Por fim, quando seu pai morreu afogado em álcool, um membro da família do Marquês Highon foi até sua casa fazer uma proposta para adotar Cyril.

Cyril ficou radiante ao ouvir aquela notícia.

Isso com certeza vai aliviar a vida da minha mãe! E eu vou fazer minha mãe feliz!

Mas sua mãe, ao ver o rosto feliz de Cyril, apenas soltou um suspiro antes de dizer,

“Ah, você realmente é de uma família nobre. Um filho de família nobre.”

— Não, eu não sou, mãe. Eu sou seu filho.

Foi justamente essa única frase que ele não conseguiu dizer à mãe.

* * *

Diante dos olhos de Cyril estava uma figura com o capuz puxado bem baixo sobre os olhos. Aquela pessoa tinha um físico pequeno e não parecia ser adulta.

Mas, assim que a figura ergueu de leve a mão direita, a serpente que derretera a parede de gelo de Cyril circulou ao redor dela.

E ele tinha certeza de que a pessoa sob o capuz era uma maga — quem derretera seu gelo.

O gato preto que levara o broche de Cyril miou e correu até a figura encapuzada. Esta ergueu o gato preto e pegou o broche em sua boca.

— …então esse gato… era seu…?

Apesar do rosnado baixo de Cyril, a figura encapuzada não lhe deu atenção, apenas olhava para o broche.

Essa atitude irritou Cyril ainda mais.

— Devolva esse broche!

Furioso, Cyril entoou um feitiço para criar uma corrente de gelo.

Cyril estalou os dedos, e os membros da figura encapuzada ficaram enrolados em correntes de gelo — mas, no instante seguinte, as correntes se dissolveram.

— …o quê?

A figura encapuzada não fizera nada. Ele nem sequer a vira entoar um cântico.

E, ainda assim, a corrente de gelo se estilhaçou sem deixar vestígios, espalhando-se pelo chão.

Será que eu executei o feitiço errado? Cyril recitou o feitiço de novo. Mas o resultado foi o mesmo. A corrente de gelo se desintegrou assim que se manifestou.

— Como, como… Você fez alguma coisa comigo?!

A figura encapuzada continuou a fitar o broche sem dizer uma palavra. Como se Cyril nem estivesse ali.

…E aquele tipo de atitude parecia tão bizarra.

— Me responda!

Cyril criou uma flecha de gelo e a disparou contra a figura encapuzada. No entanto, pouco antes de a flecha alcançá-la, foi engolida por chamas e derreteu, desaparecendo.

Será que ela tinha aliados por perto?, pensou Cyril. Caso contrário, era inexplicável. A pessoa sob o capuz nem sequer entoava um cântico. Não havia como alguém neutralizar o feitiço de Cyril sem entoar.

— Maldita seja… maldita seja…

Cyril criou um grande número de flechas de gelo e as disparou em todas as direções, aleatoriamente. Se houvesse algum aliado daquela figura encapuzada por perto, ele queria que se revelasse.

No entanto, a figura encapuzada apenas ergueu o olhar de leve, e, com isso, suas flechas de gelo foram engolidas por chamas e desapareceram sem deixar vestígios.

O que foi aquilo… que diabos foi aquilo…

Bloquear flechas disparadas aleatoriamente com um escudo não era assim tão difícil.

Mas ser capaz de neutralizar cada flecha disparada aleatoriamente… esse era um feito além do humano.

O que Cyril via diante de si agora era exatamente esse tipo de feitiço.

Além disso, as chamas que derretiam o gelo desapareciam sem se espalhar para as árvores ao redor. Em outras palavras, ela usara aqueles feitiços com esse tipo de precisão.

Cada chama fora tecida com cálculos assustadoramente precisos. Ela lançara tantos feitiços em menos de poucos segundos?

O que é isso, o que está acontecendo? O que estou vendo?

Para qualquer um que não fosse familiarizado com magia, teria ficado impressionado com a aparência chamativa da serpente de fogo.

Mas quem tivesse tido qualquer contato com magia, mesmo que por pouco tempo, teria notado que a pequena chama que derrubara a flecha de gelo era algo incomum.

A defesa fundamental em combate mágico é o escudo — em outras palavras, a barreira protetora.

No entanto, a pessoa à sua frente interceptara suas flechas sem usar um escudo, mostrando a Cyril a diferença esmagadora de habilidade.

— O que você é… o que diabos você éééé?!

Cyril abandonou o controle fino e converteu toda a mana que tinha em vento gélido, que lançou contra a figura encapuzada.

— Congele! Congele! Eu vou te congelar em uma estátua de gelo muda!

O vento gélido que ele soltava enquanto gritava histericamente congelou tudo ao redor de Cyril. O chão, as árvores, e até mesmo o próprio Cyril.

Não importava se seus membros sofriam queimaduras de frio ou não, Cyril continuava a soprar vento gélido contra ela.

Mas então ele percebeu.

Seu vento gélido, em plena força, estava sendo lentamente empurrado de volta — ou melhor, desviado. Para o céu.

A figura encapuzada usava um feitiço de vento para desviar o vento gélido de Cyril.

Ao mesmo tempo, o gelo que se agarrara aos membros de Cyril foi gradualmente se soltando — seguido por uma barreira que fora colocada sobre o corpo de Cyril, para protegê-lo do vento gélido.

É claro que Cyril não lançara nenhuma barreira, já que usava seu feitiço sem se importar com a própria segurança.

Será que essa pessoa…

A figura encapuzada lançara um feitiço de vento para desviar o vento gélido, enquanto protegia o corpo de Cyril com uma barreira defensiva, o que significava… que ela estivera usando aqueles feitiços avançados simultaneamente.

Os aliados da figura encapuzada deviam ser os que usavam essa técnica em segredo, escondidos nos arredores. Devia ser isso.

Mas, e se não for esse o caso?

Se aquela figura encapuzada, sozinha, fosse capaz de usar todos aqueles feitiços… então aquilo faria dela um monstro.

Cyril empalideceu, e seu corpo inteiro estremeceu.

A empolgação e a embriaguez que sentia ao exercer seu feitiço se dissiparam, e o sangue se esvaiu de todo o seu corpo.

— Ah…

Tudo diante de seus olhos ficou embaçado enquanto a força se esvaía de seu corpo. Ele ficara sem mana.

Pouco antes de perder a consciência, Cyril viu… aquela figura encapuzada correndo até ele de forma desajeitada, antes de estender sua mãozinha.

* * *

— V-Você está bem?

Monica correu até Cyril, com sua corrida desajeitada, antes de colocar a cabeça dele em seu colo, para se certificar de que estava bem.

Cyril estava inconsciente. Seu pulso enfraquecia um pouco, mas não parecia representar risco de vida. Ele deveria conseguir se recuperar após um breve descanso.

— Que alívio…

Os sintomas iniciais do envenenamento por mana são uma forte empolgação em usar feitiços, era o que ela sabia.

Se piorar, sintomas como alucinações, palpitações cardíacas e tontura ocorrem, e, por fim, o corpo inteiro é corroído pela mana, levando à morte.

Por isso, a forma mais rápida de tratar pessoas que sofrem de envenenamento por mana em estágio inicial é deixá-las usar a mana até se esgotar.

— Bom trabalho.

Lynn, que observava das sombras, surgiu à vista e viu o broche na mão de Monica.

— Encontrou algo de errado com essa ferramenta mágica?

— Sim… as fórmulas embutidas nela se deterioraram com o tempo… na verdade, para evitar a deterioração, essas fórmulas costumam ser cobertas com camadas de fórmulas protetoras…

— Está dizendo que não havia fórmula protetora nela?

Quando Monica assentiu diante das palavras de Lynn, Nero disse “Então é produto com defeito mesmo!”, balançando o rabo, irritado.

— Nossa, quem diabos fez esse trabalho porcaria?

— Bem… o nome dessa pessoa deve estar gravado atrás do broche.

Virando o broche, as bochechas de Monica se tensionaram ao ver o nome gravado nele.

— …Emanuel Darwin, o [Mago das Joias]…

— O quê? Você conhece esse cara?

Monica não sabia o que responder, mas Lynn respondeu com naturalidade.

— Assim como a Senhorita Monica, creio que ele é um dos Sete Sábios. Não se dá bem com Louis. É um membro do Segundo Príncipe. Um velho babuíno ganancioso, segundo o senhor Louis.

Nero ficou em silêncio por alguns segundos antes de abrir a boca.

— Não existe gente decente entre os Sete Sábios?

Foi uma declaração dolorosa de se ouvir.

Ao ouvir aquela frase, Monica, que ainda reescrevia o broche com uma nova fórmula mágica, apertou o peito de dor.

A magia que adiciona mana a esse tipo de material era chamada de magia auxiliar.

Monica não era especialista em magia auxiliar, mas aquele broche não era complicado o suficiente para dificultar sua modificação.

Por exemplo, o amuleto que Louis fizera para Felix. Era uma ferramenta mágica muito avançada, para detectar perigo e erguer uma barreira protetora, mas aquele broche só tinha a função de absorver e liberar mana.

A quantidade de mana absorvida pode ser ajustada de acordo com a mana restante em seu corpo — será que eu poderia colocar nele uma fórmula de autoajuste?

Monica tinha o mau hábito de querer aplicar qualquer tipo de fórmula mágica assim que via uma.

Mas isso confundiria Cyril se a função do broche mudasse de repente.

Então, Monica consertou o problema na fórmula mágica, incorporando apenas a fórmula de autoajuste, seguida de uma aplicação dupla da fórmula de proteção, para proteger a própria fórmula.

Isso deveria evitar que se deteriorasse com tanta facilidade.

Enquanto Monica prendia de volta o broche na gola de Cyril, Nero olhou para ela como que zombando.

— Você precisa mesmo ir tão longe assim? Acho que dava para cobrar pelo menos cinco moedas de ouro só pelo conserto dessa ferramenta mágica.

— Bem…

Monica hesitou, tentando organizar as palavras, e então parou.

Monica estava só um pouquinho com inveja de Cyril.

O fato de ele conseguir se orgulhar de ser reconhecido por outra pessoa. E o quanto estava disposto a se esforçar por isso.

— …a constituição de absorção de mana costuma ser inconveniente, mas, se a pessoa se acostuma, ela pode dar uma vantagem como maga.

Quanto mais rápido se consegue absorver mana, mais rápido se consegue recuperá-la.

Quanto mais rápida a recuperação, maior a vantagem sobre outros magos a longo prazo.

Na verdade, alguns magos estavam dispostos a ir a extremos para aumentar a velocidade com que absorviam mana, forçando-se a alcançar esse tipo de constituição.

E a constituição de Cyril podia ser chamada de “talento”.

— …eu não quero… que ele pense nesse talento como uma maldição…

Para Monica, que não conseguia se orgulhar do próprio talento, tudo o que conseguia pensar era que era uma maldição.

Por esse motivo, ela não queria que Cyril se tornasse como ela.

Ela queria que ele fosse confiante e orgulhoso de si mesmo.

— e por Monica, que não conseguia se orgulhar de si mesma.

— A propósito… o que você vai fazer com ele? Quer deixá-lo aqui?

Nero apertou a bochecha de Cyril com a pata.

Certamente ainda não era inverno, mas ainda assim era desconfortável deixar uma pessoa doente deitada na floresta desse jeito.

Enquanto Monica ponderava o que fazer, Lynn deu sua sugestão.

— Devo soprar esse corpo humano com uma rajada de vento e arremessá-lo para dentro do dormitório masculino?

— S-Se possível, por favor, faça isso de forma mais pacífica…

— Então, deixe-me criar um tornado para soprá-lo para dentro do dormitório masculino…

— Só está piorando cada vez maaais…

No entanto, mesmo que Lynn se infiltrasse no dormitório masculino com seu feitiço de voo, ela não conseguiria levá-lo até o quarto dele, porque não sabia onde ficava o quarto de Cyril.

Enquanto Monica ponderava o que fazer, Nero soltou um suspiro de exasperação antes de dar um salto.

Assim que girou no ar e caiu de pé, sua aparência já não era mais a de um gato preto, e sim a de um jovem de cabelos negros e olhos dourados.

— Deixa eu carregá-lo até o portão do dormitório masculino. Vou deixá-lo lá para o porteiro notar.

— A gente realmente tem que deixá-lo do lado de fora?

— Se a gente se infiltrar aí dentro e formos descobertos, estamos ferrados.

Depois de dizer isso, Nero ergueu o corpo de Cyril sem muita cerimônia, carregando-o sobre o ombro.

— Er, Nero, pelo menos carregue ele nas costas…

Ignorando a voz de Monica, Nero deu um leve impulso no chão e começou a correr.

Por fim, as costas de Nero se dissolveram na floresta noturna, antes de desaparecer de vista.

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