Extra 2 – Família Erudita, Família Mediadora
A família Ashley era conhecida como a “Família Erudita” havia gerações, mas originalmente eram uma família de bibliotecários.
Talvez como um resquício de seu legado, a família Ashley possuía uma biblioteca e três salas de estudo. O número de livros na biblioteca não era inferior ao da biblioteca da capital real.
Claudia, que crescera cercada por essa quantidade enorme de livros, naturalmente os lia em seu tempo livre.
Os adultos ao redor a chamavam de garota amante de livros, mas Claudia não era particularmente apaixonada por leitura. Ela tinha um passatempo um pouco diferente.
Para Claudia, o ato de ler um livro era um “ato natural”.
Assim como comer quando está com fome, ela lia livros quando não sabia algo. Era só isso. E, por esse motivo, Claudia não considerava o ato de ler nada além disso.
O mesmo podia ser dito do resto dos membros da família Ashley. E o pai de Claudia não era exceção.
Por isso, seu pai erudito, o Marquês Highon, era visitado todos os dias por quem buscava seu conselho. Alguns representavam seu próprio povo, alguns eram nobres locais… e alguns vinham de outros países.
— Estou com problemas porque meus campos não produzem. Por favor, me diga como cultivar mais colheitas mesmo em uma seca.
— É sobre o controle da propriedade de herança, por favor me diga como levar vantagem sobre meu irmão.
— Um marinheiro adoeceu durante uma viagem. Por favor, me diga como tratá-lo.
Todos se agarravam ao pai dela, dizendo: “Me diga, por favor me diga.”
Ao observar essas cenas, a pequena Claudia pensava consigo mesma.
Por que essas pessoas nunca tentavam descobrir as coisas sozinhas?
A maioria das perguntas que traziam eram coisas que podiam ser encontradas em um livro. Ninguém nunca se dava ao trabalho de descobrir por conta própria. Só queriam saber a resposta.
Claudia vivenciava a mesma coisa também. Em sua escola primária, as pessoas iam até ela perguntar sobre coisas que não entendiam.
Tratando-a como nada além de uma “biblioteca ambulante”, todos também pensavam que todos os membros da família Ashley eram assim.
Era ainda pior quando sentiam gratidão por ela. Depois de se sentirem gratas a Claudia por poderem contar com ela, voltavam a perguntar a ela de novo, e de novo. Era por isso que Claudia desprezava a gratidão delas.
Então, quando as pessoas tentavam falar com ela, Claudia mostrava seu rosto sombrio, como se não tivesse vontade de conversar. Aquela melancolia era como a de alguém que parecia ter perdido um familiar.
O efeito era tão grande que ninguém mais se aproximava de Claudia depois, deixando-a com bastante tempo para ler um livro em paz.
Claudia estava verdadeiramente feliz com isso.
* * *
Um dia, uma carta chegou à porta do pai.
Um certo barão queria visitar o pai dela para pedir seu conselho sobre algo.
Depois que o pai leu a carta, seu rosto ficou sem expressão, mas de alguma forma jubiloso, ela tinha certeza disso. Ele até providenciou para que os criados preparassem uma recepção para aquela pessoa.
— …quem é nosso convidado hoje?
Depois de ser questionado por Claudia, seu pai ajeitou os óculos e falou.
— O Barão Maywood gostaria de discutir algo comigo.
— …Ele veio pedir algum conselho, não é? Mas o senhor parece bem animado com isso, até providenciou os criados para receber essa pessoa.
Em resposta ao comentário ácido da filha, o pai murmurou “Entendo”, como se já esperasse aquela resposta.
Para um estranho, ele podia parecer frio e impassível, mas, para a família, sua empolgação era evidente. Os cantos de sua boca estavam levemente erguidos sob a barba bem aparada.
— O Barão Maywood sempre vem me pedir conselho depois de já ter esgotado tudo o que estava ao seu alcance, antes de buscar um ponto de vista diferente. Ele não vem buscar minha “sabedoria”, mas minha “opinião”.
O vinho que eu bebo sempre tem um sabor melhor quando ele me acompanha, disse o pai, encerrando a história.
Claudia sabia que o pai não gostava muito de beber.
Para conseguir fazer um pai como aquele apreciar a bebida, o Barão Maywood devia ser um homem excepcional como nenhum outro, ela pensou na época.
* * *
— Bem, é bom vê-lo, Marquês Highon. Faz tempo. Ah, aquela ali é a Senhorita Claudia? Ela está encantadora.
A primeira impressão de Claudia sobre o Barão Maywood se resumia a uma palavra: “comum”.
Ele parecia mais jovem do que o pai dela, e suas roupas eram simples, com poucos enfeites. Provavelmente era um barão que não vinha de uma família rica.
O sorriso em seu rosto parecia um tanto pouco confiável, com as sobrancelhas relaxadas, o que o fazia parecer amigável, mas não muito inteligente.
— Trouxe meu filho comigo hoje. Neil, se apresente.
Diante do incentivo do Barão Maywood, um garotinho saiu de trás dele, olhou diretamente para o Marquês Highon com um sorriso tímido, e o cumprimentou.
— Meu nome é Neil Clay Maywood, filho mais velho do Barão Maywood. É uma honra conhecê-lo.
Ele era um garoto de olhar sincero. Embora parecesse ter apenas cerca de dez anos, diziam que tinha treze, a mesma idade de Claudia. Aparentemente, aparentar ser jovem era um traço de família.
Conduzidos até a sala de estar pelo pai de Claudia, o Marquês Highon, junto com o Barão Maywood, tiveram uma breve discussão. O assunto era principalmente sobre a mediação entre a Associação de Magos e o Conselho da Nobreza. Aparentemente, a Associação de Magos solicitara ao conselho o levantamento da proibição dos feitiços médicos.
E o Barão Maywood fora encarregado de arbitrar o encontro.
Por gerações, a família do Barão Maywood estivera envolvida principalmente na mediação desse tipo de negociação.
Se a família do Marquês Highon era conhecida como a “família erudita”, então a família do Barão Maywood era conhecida como a “família mediadora”.
Apesar de sua posição como nobre, o trabalho de um mediador é guiar os dois lados do debate a chegarem a um acordo satisfatório, de forma imparcial, sem tomar o lado do conselho da nobreza.
— Levantar a proibição dos feitiços médicos certamente salvaria algumas vidas. Isso é fato. No entanto, na minha opinião, ainda é “cedo demais”. Precisamos que tanto o desenvolvimento médico quanto o da pesquisa de feitiços atinjam o mesmo nível de maturidade… mas o desenvolvimento médico neste país ainda não está maduro.
— Concordo. Em algumas regiões, ainda há médicos que usam superstição como forma de medicina. Levantar a proibição dos feitiços médicos nessa situação só vai agravar as ações desses fraudadores.
— Primeiro de tudo, o efeito ruim da mana no corpo humano… acho que precisamos verificar mais isso. Os dados coletados pela Associação de Magos ainda são insuficientes. Se as coisas continuarem assim, o desenvolvimento médico pode ser ofuscado pelo desenvolvimento mágico.
— Com certeza. Além disso, deveríamos treinar aqueles proficientes tanto em medicina quanto em feitiços. Tenho certeza de que os feitiços médicos vão se desenvolver no futuro, mas, no momento, a fundação para isso nem sequer foi lançada. Então, deveríamos nos concentrar em cultivar o solo.
— O senhor tem razão. No entanto, ouvir que alguém tem um familiar com uma doença intratável pelos tratamentos médicos de hoje… tende a me deixar emotivo na mediação… “A proibição dos feitiços médicos deveria ser levantada o quanto antes. Você está tentando matar minha filha?” quando alguém diz isso, isso me deixa tão deprimido… Eu entendo o quão doloroso é sentir isso.
— Se o método errado de tratamento causasse envenenamento por mana e a levasse à morte, não haveria como salvar a criança.
— É, é por isso que deveríamos proceder com mais cuidado.
Enquanto ouvia em silêncio a conversa entre o pai e o Barão Maywood, este virou a cabeça e olhou para Claudia.
Ele então relaxou as sobrancelhas e sorriu, sem graça.
— Desculpe, isso não foi muito interessante, foi?
— Não, eu achei muito interessante… consigo perceber os argumentos dos magos, que tentam defender seu caso com base no emocionalismo, sem dados suficientes, e os do conselho da nobreza, preocupados que os interesses da associação médica fluam para os magos, se médicos e magos se juntarem.
O Barão Maywood arregalou levemente os olhos diante das palavras de Claudia. No entanto, não pareceu particularmente ofendido, e, em vez disso, relaxou as sobrancelhas com calma e sorriu.
— Você é muito esperta. De fato. É precisamente por isso que preciso proceder com mais cuidado… antes de tomar minha decisão.
Neil, sentado ao lado do Barão Maywood, arregalou os olhos e olhou para Claudia. Ele devia ter ficado surpreso com a declaração dela.
Não sei o quanto aquele garotinho de rosto jovem entende minhas palavras… talvez nem consiga entender tudo.
Enquanto Claudia pensava nisso, o pai lançou um olhar para ela e disse em voz baixa.
— Claudia. Vá mostrar a mansão para o jovem Neil.
O pai provavelmente também achava que Claudia estava entediada.
Ela suspeitava que os assuntos que discutiriam a seguir seriam coisas que crianças não deveriam ouvir.
— Er, por favor, cuide bem de mim!
— ……
Isso é como se eu tivesse me tornado uma pessoa que mostra o caminho para crianças, Claudia pensou consigo mesma.
* * *
— …Algum lugar que você queira ver?
— Er, eu quero ver o jardim de vocês.
— Certo…
Ele se interessar por jardins, em vez de livros, na família Ashley — que ostentava uma coleção tão vasta de livros — era bastante incomum.
Claudia conduziu Neil até o jardim, pensando secretamente que seria mais fácil para ela se ele simplesmente ficasse quieto e lesse um livro.
Depois de caminharem lado a lado por um tempo, ela achou que ele parecia ainda mais jovem. Era um pouco mais baixo do que Claudia, e sua aparência não combinava com sua idade.
Ao notar que Claudia lhe lançava um olhar de esguelha, Neil respondeu com um sorriso muito parecido com o do pai.
— A senhorita é incrível, Senhorita Claudia. Compreendeu até o verdadeiro significado por trás de um evento tão difícil.
— ……
— Eu não tinha pensado no motivo por trás do conselho da nobreza. Não esperava que a Associação Médica e o conselho da nobreza tivessem uma conexão tão forte… Meu pai me deixou presente na reunião para eu estudar, mas ainda não estou pronto…
— ……
Aparentemente, ele mal conseguia compreender o significado por trás da discussão dos pais.
Neil cruzou os braços, gemendo com uma expressão de dificuldade.
— Será que existe alguma prova que mostre claramente a conexão entre o Conselho da Nobreza e a Associação Médica… o atual chefe da Associação Médica é… er…
Neil gemia enquanto pergunta após pergunta lhe vinham à mente, sem nunca perguntá-las a Claudia.
Inesperadamente, Claudia abriu a boca.
— …você não vai perguntar?
— Hã?
— Eu sou a filha do Marquês Highon… a Família Erudita. Tenho sabedoria suficiente para responder à maioria das suas perguntas.
Na verdade, Claudia tinha todas as respostas para as perguntas que Neil mencionara.
No entanto, Neil demonstrou um leve sinal de reflexão e então balançou a cabeça com firmeza.
— Não, eu vou pesquisar quando chegar em casa. “Se você não sabe algo, deveria pesquisar sozinho. Se ainda assim não conseguir descobrir, pergunte a alguém que saiba.” foi o que meu pai me disse.
— …certo.
— Ah, desculpa! Desculpa por recusar quando a senhorita pretendia responder às minhas perguntas, mas…
Claudia não dissera que responderia às perguntas dele. Só dissera que sabia a resposta.
No entanto, aquele garoto aparentemente bondoso parecia ter interpretado a declaração de Claudia como uma de boas intenções.
— Vou fazer uma pesquisa em casa, então, se eu ainda não entender, por favor me conte.
Claudia nem confirmou nem negou. Não era que estivesse sendo má. Era porque não conseguia decidir qual seria a melhor resposta.
Se dissesse a ele “de jeito nenhum eu daria a minha resposta”, ou algo assim, em tom frio, talvez aquele garoto nunca mais a visitasse. E ela sentia que se arrependeria disso depois.
Abrindo a porta sem dizer nada, Claudia caminhava direto pela trilha bem demarcada.
— …chegamos ao nosso jardim.
— Uau, tem muitas ervas medicinais.
A família do Marquês Highon tinha metade do jardim plantada com flores ornamentais, e metade com ervas medicinais. Estas últimas eram cultivadas pelo pai, como forma de colocar em prática seu conhecimento sobre ervas medicinais. O pai era um homem que acreditava que esse tipo de conhecimento só tinha valor se fosse colocado em prática.
O Marquês Highon tinha o ar de um homem taciturno e culto, mas era surpreendentemente um homem de ação.
— Olha isso, Senhorita Claudia. Essa erva é do tipo que ajuda com feridas cortantes!
— …como eu não saberia?
— Bem, você tem razão.
Coçando a bochecha, envergonhado, Neil se agachou no lugar e estendeu a mão para uma erva daninha crescendo fora do canteiro.
— Então a senhorita sabe o que é isto?
— …é erva daninha.
Ela até poderia lhe dizer o nome científico, se ele quisesse. Junto com seu habitat, também.
Diante de Claudia, pensativa, Neil arrancou uma erva daninha, quebrou as duas pontas, colocou-a na boca e soprou.
*Fiu* Um som agudo ressoou.
— Se você cortar essa grama aqui e apertar essa área, dá para fazer apitos. Nossos pastores fazem isso com frequência.
— …nunca tinha ouvido falar disso antes.
Enquanto Claudia falava baixinho, Neil riu e soprou a flauta de grama com alegria.
O som era agudo, claro e agradável.
* * *
Assim que o Barão Maywood e o filho saíram para voltar para casa, Claudia imediatamente fez um anúncio ao pai.
— Pai, eu gostaria de me casar com o Neil.
Claudia disse isso com seu habitual ar sombrio, mas o Marquês Highon não se surpreendeu nem a repreendeu, apenas a fitou em silêncio.
Depois de se encararem em silêncio por um tempo, o Marquês Highon lentamente abriu a boca.
— Neil é o filho mais velho que vai herdar a família Maywood, então não posso fazê-lo vir para nossa casa como meu genro.
Claudia pensou que o pai continuaria com a recusa depois disso, mas, enquanto brincava com o bigode, ele soltou.
— Acho que eu teria que adotar um filho para assumir a família.
A mãe de Claudia morrera pouco depois de dá-la à luz, e o pai nunca tomara uma segunda esposa, então, naquele momento, Claudia era a única pessoa na linhagem direta da família do Marquês Highon.
Certamente, se ele adotasse o filho que sucederia a família do Marquês Highon, Claudia poderia se casar com Neil sem problema algum. No entanto, ela sabia que o pai desejava que ele viesse morar em sua casa como genro.
— Então o senhor não discorda disso…
— Eu sei que você vai acabar amando ele…
As palavras que o pai disse, tentando conter a língua, estavam repletas de uma sensação estranha de realidade. De fato, tanto o pai quanto a filha tinham um fraco pela família do Barão Maywood.
O Marquês Highon não mencionou o fato de que o sangue da linhagem direta da Família Erudita seria interrompido. Ele também sabia que o conhecimento não era transmitido pelo sangue, mas pela educação.
— Agora, devo fazer alguns arranjos para uma adoção… gostaria que fosse alguém com desejo de se aprimorar, mesmo que venha de uma família distante.
Depois de dizer isso, o Marquês Highon tirou um documento atrás do outro de sua escrivaninha.
Claudia, a filha, quis se casar com ele no dia seguinte ao encontro, e o pai, ao ouvir a filha desejar aquele casamento tão de repente, imediatamente começou a preparar os documentos de adoção e noivado.
Tal pai, tal filha — suas decisões rápidas eram tão parecidas.