Capítulo 3 — Avanço sobre a Capital Imperial
Estava quase completando um ano desde que me instalei no Império.
Enquanto a Companhia Traitre, tendo absorvido a Companhia Gazal, ampliava seu porte de uma vez, muitas das companhias pequenas e médias que negociavam cosméticos com base no território do visconde Lebrick foram tendo a gestão abalada, pressionadas pela qualidade dos produtos da Companhia Traitre.
Aproveitei para comprá-las e fui trazendo uma após a outra para debaixo da minha asa.
E na sala de reuniões dessa Companhia Traitre em ascensão estavam reunidos vários funcionários.
Gente contratada da Companhia Gazal e os mais capazes escolhidos entre as outras companhias absorvidas: os atuais diretores da Companhia Traitre.
Entre eles há também alguns rostos de quem trabalhava como meu subordinado na companhia do reino.
São os que viram a mensagem levada pelos Saint Birds invocados e vieram correndo no ato.
Os demais estão em movimento cada um a seu modo: uns ainda em viagem para cá, outros preparando o terreno para uma futura expansão da Companhia Traitre a outros países.
— Desculpem a demora.
Quando entrei na sala com Mireille, os diretores se levantaram e baixaram a cabeça.
— Sentem-se, por favor. Desculpem tomar o tempo de vocês em meio à correria.
Hoje tenho um comunicado importante a respeito das perspectivas da Companhia Traitre.
Olhei um a um os rostos ligeiramente tensos dos diretores e falei devagar.
— A nossa Companhia Traitre vai avançar sobre a capital imperial.
A reação dos diretores foi variada: uns prenderam a respiração, outros assentiram com o olhar afiado, outros abriram um sorriso audacioso.
— Para começar, eu vou à capital imperial. Nesse período, os negócios desta cidade ficam nas mãos de vocês.
Um gole do chá que Mireille preparou.
— Grantz.
— Sim.
— Enquanto eu estiver fora, deixo você como presidente interino.
— E-eu?!
— Sim. Terá apoio, evidentemente. Mas, depois que a base do negócio se mudar para a capital imperial, você atuará como meu representante aqui no território do visconde Lebrick. Conto com você.
— S-sim!
Em seguida chamei pelo nome a mulher miúda sentada ao lado de Grantz.
— Stia.
— Sim.
— Você fica como secretária de Grantz; auxilie-o.
— Às suas ordens.
Stia trabalhava na companhia do reino como parte do time de gestão.
Há de assessorar com firmeza um Grantz ainda inexperiente.
— Pois bem, pessoal, conto com vocês enquanto eu estiver fora.
◇
Depois disso discutimos algumas pautas e a reunião de diretores terminou.
De volta à sala da presidência, Mireille e eu nos sentamos frente a frente à mesinha de visitas.
— Vamos só nós duas para a capital imperial?
— Deixe-me ver… vamos levar a Lunoa também. Vai ser boa experiência para a menina.
— Às suas ordens. E quanto ao deslocamento?
— Uma carruagem pequena serve.
— Não vamos levar amostras de divulgação?
— Vamos, mas para transportar a carga eu uso o 【Grimoire Mammon】.
— A senhorita permite?
— Permito, sim. Por ora ainda escondo, mas não vejo problema em contar do meu verdadeiro artefato divino a quem é de confiança.
Sem ao menos isso, não dá para destruir o reino, não é?
O 【Grimoire Mammon】 — o Grimório da Avareza — é o grimório que registra propriedade.
É o artefato divino que permite guardar dentro do livro aquilo que me pertence.
Se eu tivesse guardado meus bens antes de deixar o reino, não teria sido preciso tomar dinheiro emprestado de Lucas; só que na época eu escondia o verdadeiro artefato divino, então lá dentro havia apenas comida de emergência, algum dinheiro e remédios. A maior parte do patrimônio estava no cofre da companhia e na residência da casa ducal Leiston.
Não havia, evidentemente, folga para retirar tudo aquilo.
Hoje, aliás, guardo lá dentro uma boa soma em dinheiro e suprimentos.
— Na viagem basta eu, você e Lunoa. Mande alguns na frente, para a capital imperial.
Que investiguem imóveis adequados a uma sede e o preço corrente dos cosméticos na capital imperial.
Nós vamos para lá acompanhando a temporada social.
— Às suas ordens.
A temporada social da nobreza está para começar.
Nessa época os nobres promovem saraus, estreitam laços, medem forças uns com os outros, procuram noivos e noivas.
Não só os nobres de toga que vivem na capital imperial: quase todos os nobres de terras e de toga das províncias aparecem na temporada da capital a cada dois ou três anos. Lucas, senhor do território do visconde Lebrick, já deve estar lá.
E aos saraus da nobreza também são convidados, em número pequeno, comerciantes influentes e aventureiros de alto nível.
É lugar feito sob medida para divulgar a companhia.
Prontos os preparativos, Mireille, Lunoa e eu partimos do território do visconde Lebrick rumo à capital imperial.
A carruagem era pequena, com pouco mais que um teto improvisado, mas os cavalos, sem serem de raça, eram animais sadios.
Além disso, a bagagem era tão pouca que ninguém diria tratar-se de uma viagem longa, e avançávamos leves pela estrada.
Quanto à carga, expliquei o básico a Lunoa.
Observei a menina nestes últimos meses: não é do tipo que sai espalhando.
E, de todo modo, como ela nunca soube nada sobre meu artefato divino, aceitou aquilo como sendo assim mesmo.
Um dia talvez eu possa lhe contar meu objetivo e os outros poderes.
O que vai na carruagem, e não guardado no 【Grimoire Mammon】, são os pertences pessoais de Mireille e Lunoa — roupas para trocar e coisas assim — e água e comida para emergências.
O 【Grimoire Mammon】 é um artefato divino muito prático, mas evidentemente não guarda qualquer coisa.
Só é possível guardar o que constitui propriedade minha.
As amostras de divulgação podem ser guardadas porque a própria companhia me pertence; já os pertences de Mireille e Lunoa, não.
Também não é possível guardar seres vivos; e coisas como a água de um rio ou o ar precisam ser postas num recipiente e reconhecidas como unidade para poderem ser guardadas — há uma porção de restrições.
Como íamos leves, avançávamos ligeiro pela estrada; mas, passados dois territórios de outros nobres depois do de Lebrick, a qualidade da estrada piorou visivelmente.
— Ui, ui! Começou a sacudir de repente!
— Pois é. Se não me engano, no Império a conservação das estradas cabe ao nobre que detém as terras.
O senhor daqui não deve andar cuidando muito da estrada.
— Nossa, é mesmo? É a primeira vez que saio do território do visconde Lebrick.
— Para a gente comum é assim mesmo. Quem atravessa territórios são mascates, aventureiros e, no mais, peregrinos.
Disse isso a Lunoa e voltei o rosto para Mireille, que segurava as rédeas.
— Mireille, atenção.
— Sim, estou ciente.
Nisso veio a voz intrigada de Lunoa.
— Atenção a quê?
— Uma estrada conservada melhora o fluxo de mercadorias e aquece a economia do território. Isso você entende, não?
— Entendo. Melhorando o fluxo, a circulação de bens dentro do território fica mais fluida, o padrão de vida da população sobe e a disposição de comprar também. E ainda atrai comerciantes e aventureiros de fora. Como resultado, a arrecadação aumenta e o território prospera.
Por isso o senhor das terras se empenha em conservar e manter as estradas. …É isso, não é?
— É isso mesmo.
Afaguei a cabeça de Lunoa, que recitava o que eu lhe ensinara antes, e continuei.
— Então, se a estrada está em petição de miséria, o que você acha que acontece?
— Ahn…
Lunoa pensou um pouco e foi dizendo devagar o que lhe ocorria.
— …O fluxo de mercadorias dentro do território trava.
E aí… ahn… os suprimentos deixam de chegar em quantidade suficiente às zonas rurais e às aldeias isoladas?
— Isso. E o que mais?
— Ahn… e também sobe o custo de levar até a cidade o que se colhe no campo e as ervas medicinais das regiões afastadas.
Então… ah, entendi! Alimentos, remédios e outros artigos de primeira necessidade disparam de preço!
— Correto. Sobretudo por aqui, que é terra do interior, longe do mar: só se obtém sal trazendo de outro território ou extraindo sal-gema. Por isso, nas cidades em que o frete fica especialmente caro, os preços disparam, a começar pelo sal. Para poder comprar o essencial, o povo aperta o cinto, e a demanda por supérfluos cai.
E aí, naturalmente, a economia afunda.
Ergui o dedo em riste, como uma professora dando aula à Lunoa, que assentia sem parar.
— E o sal e os demais bens essenciais disparam também no campo e nas regiões isoladas; camponeses sem o que comer viram salteadores, o risco na estrada aumenta e, para contratar escolta, o frete sobe ainda mais — e os preços sobem junto. Um círculo vicioso.
— Nossaaa. Então por que o senhor das terras não conserva a estrada?
— Bem, deve ser burro, provavelmente.
Ou não tem interesse na administração do território, ou só enxerga o dinheiro à frente do nariz e faz economia com a conservação da estrada.
Quando quem está no alto é tolo, o povo é infeliz.
Brato, rei do Reino de Haldoria, é bronco de músculos, mas não é um mau soberano.
E ele tem consciência de que não é um grande rei. Por isso dá muito ouvido à opinião de quem está ao redor e, enquanto esse entorno for competente, seu reinado seguirá sem sobressaltos.
O filho, Friede, é outra coisa. Aquele idiota é mau soberano no sentido exato — ou melhor, talvez se possa dizer tirano.
Se um sujeito daqueles virar rei, o povo será infeliz.
Bom, para mim tanto faz o que aconteça com a maioria do povo; mas os comerciantes que foram bons comigo, esses eu gostaria de ver a salvo.
…………Sim, está tudo bem.
Segundo o relatório de quem deixei infiltrado na capital do reino, boa parte dos comerciantes de quem eu era próxima, pouco depois de eu deixar o país, começou a inventar um motivo ou outro para transferir a base para outros países ou a organizar o patrimônio de modo a poder partir a qualquer momento.
Comerciante é criatura resistente.
— Ué? Então aquele “atenção” de agora há pouco quer dizer…?
Junto com a voz de Lunoa, que parecia ter percebido alguma coisa, chegou-me ao ouvido o assobio de penas de flecha cortando o ar.
Girei o corpo depressa, desviei da flecha que vinha e peguei no ar, um instante antes de perfurá-la, a que mirava o ombro de Lunoa.
— Hã?! Aaai!
Amparei Lunoa, que quase caiu para trás, e olhei para Mireille: ela também repelira uma flecha com a adaga.
Quando os cavalos relincharam e pararam, dos arbustos ao redor surgiram homens de espada e arco na mão, cercando a carruagem.
— Onde há estradas malcuidadas assim, quase não passa patrulha das tropas do território; por isso aparecem salteadores desse tipo. É por isso o “atenção”.
— Rê-rê-rê! Cuidado, meninas, isso é perigoso. Andar por um lugar destes sem escolta…
É que aparece gente como nós, sabe?
Diante da fala do homem, os salteadores em volta soltaram uma risada baixa.
— P-Presidente Ellie…
— Fique tranquila.
Afaguei a cabeça de Lunoa, que tremia, e saltei com leveza da carroceria.
— Mireille, proteja a Lunoa.
— Às suas ordens.
Mireille desceu carregando Lunoa, colocou-a atrás de si de costas para a carruagem e ergueu a adaga.
— Hein? Que é isso, menina? Não vai me dizer que pretende enfrentar a gente sozinha?
— Pretendo. Algum problema?
— Rá-rá-rá! Que nada, é raro achar um docinho como você.
Fica tranquila que a gente cuida bem das três.
Os salteadores riram de novo, torpes.
— Ah, é?
Diante daquilo, girei o dedo de leve.
Em resposta ao gesto, espinhos de gelo afiados irromperam do chão e trespassaram os quatro salteadores que empunhavam arcos.
É o 【Espinho de Gelo】, classificado na afinidade água.
— O quê?!
— Aaah!
— M-magia! E sem encantamento! É maga de nível superior!
— Merda! Cerquem! Não deixem ela usar magia!
À ordem do que parecia ser o chefe, os salteadores ergueram as espadas e avançaram.
— Não é um mau julgamento. Só o julgamento.
Desembainhei a espada que trazia à cintura.
O florete, que abre mão da durabilidade em troca apenas do fio, partiu em dois — armadura de couro, espada e tudo — os três salteadores que se aproximavam, sem encontrar a menor resistência.
Este florete é a espada sagrada que estava guardada na câmara do tesouro do castelo real do Reino de Haldoria, de nome 【Flügel】, o Portador de Asas. Foi dádiva do rei quando, na guerra de alguns anos atrás, o plano que concebi repeliu o exército imperial.
Arma mágica feita com material de dragão celeste, sua lâmina, forjada fina a ponto de ser translúcida, se orgulha de um fio capaz de partir até mithril; em contrapartida, a durabilidade é praticamente nula: longe de aparar um golpe, ela se despedaça só de ser brandida numa trajetória forçada.
Por essa natureza, é uma lâmina notável que um espadachim comum não consegue empunhar.
Sinceramente, é desperdício usá-la contra salteadores, mas paciência.
— M-mas que droga é essa! Merda!
— Iiih!
Perdidos os companheiros num instante, os salteadores vacilaram.
— Ora, que tranquilidade a sua.
Concentrei poder mágico nos pés e, com 【Passo Instantâneo】 — o passo que desloca a uma velocidade que o olho não capta —, surgi bem ao lado do salteador que praguejava despreocupado.
— Hã?
Decepei a cabeça do salteador de cara idiota. Restava um.
— Iih! E-espera, espera aí! E-eu me rendo! Me rendo!
— Rende-se?
— Sim! E-eu era só um camponês! Mas, depois de pagar o imposto, não dava para viver, e eu não tive escolha…
— Não preciso de desculpas. Seja qual for a razão, você é um salteador; e eu, como comerciante, não tenho a menor intenção de perdoar salteadores.
— E-espera! Eu não faço mais isso! Prometo! Por isso peç…
Abati o salteador no meio da ladainha.
— Gu… ah… bá…
Ele expeliu espuma de sangue e morreu se contorcendo.
Olhei na direção de Mireille: aos pés dela havia dois salteadores caídos, mas nem ela nem Lunoa pareciam feridas.
— A-acabou?
— Acabou. Nenhum ferimento, certo?
— Nenhum. Ahn… a senhora… matou eles, não foi?
— Matei. …Lunoa, salteador é igual a goblin e a orc.
Eles roubam o dinheiro que o comerciante suou para ganhar — às vezes junto com a vida.
Se você tem pena e deixa escapar, outra pessoa é atacada. Por isso a regra de ouro é: salteador encontrado, salteador morto, sem falha.
Um dia eu ensino você a lutar. Quero você forte o bastante para, no mínimo, se defender — e, na hora H, não pode hesitar.
— S-sim.
Descartamos rapidamente os corpos dos salteadores e a carruagem voltou a rodar.
◇
No dia seguinte ao dos salteadores, pouco depois do meio-dia.
— Senhorita Ellie.
Eu aproveitava o tempo ocioso da viagem para dar aula à Lunoa quando Mireille me chamou da boleia.
— O que foi?
— Aquilo ali.
Olhei na direção dela: havia um vulto acenando para nós.
— Ora, uma caroneira.
Acontece de vez em quando: viajantes que andam a pé — porque o horário da diligência não bateu, porque o orçamento não fecha, por um motivo qualquer — pagam alguns trocados para pegar carona numa carruagem de passagem.
Se são aventureiros ou mercenários, chegam a viajar em troca de servir de escolta no caminho.
Mas, como há risco de ser um salteador ou um criminoso, muita gente ignora.
— …Pare, por favor.
Depois de pensar um pouco, mandei Mireille parar a carruagem.
Por mais que Mireille e eu confiemos em nossos braços, somos três mulheres viajando — e ainda com Lunoa, que não sabe lutar.
Se fosse alguém de aparência suspeita, ou um aventureiro homem, eu teria ignorado; mas a caroneira era uma jovem.
E, ainda por cima, de hábito religioso e com um amuleto trazendo o brasão da Igreja de Ibris, sinal do clero. Ignorar seria péssimo para a reputação.
◇
— Ufa, vocês me salvaram, viu. Só de pensar em seguir a pé até a capital imperial eu já ia desanimando.
A nova passageira da carruagem que sacolejava disse isso enquanto coçava sem cerimônia os cabelos cor de fio de ouro, cortados na altura dos ombros.
— Foi coincidência boa. Nós também íamos para a capital imperial.
— Muito obrigada mesmo. Esse encontro com certeza é obra dos deuses, viu.
A irmã, que se apresentou como Tida, era uma pessoa alegre, de fala solta demais para alguém do clero.
Mais parece uma menina do que uma mulher, mas ao que consta já é adulta: perguntei e ela tem a minha idade.
— Ah, e outra: eu tô meio sem trocado agora, então não posso pagar uma gratificação decente…
— Não precisa. Não vou cobrar de uma religiosa por tão pouco. A senhorita Tida é clériga itinerante, não é?
— É, mais ou menos isso, viu. Andei zanzando pelo interior, passando de aldeia em aldeia; agora achei que era hora de mudar de região.
Clérigo itinerante é aquele religioso que, como parte da formação, viaja pelas regiões e presta magia de cura nas aldeias do interior.
Em aldeias afastadas, onde não há mago capaz de curar — nem sequer um médico ou boticário decente —, é comum não existir mais que os remédios que algum velho prepara por experiência própria.
Para uma aldeia dessas, o clérigo itinerante que aparece de vez em quando e cura de graça é uma dádiva.
Não é comum que uma mulher do clero faça isso, mas também não é inédito.
— Tem a minha idade e faz uma coisa admirável dessas.
— Que nada, a Ellie é que é impressionante: tão nova e já presidente de uma companhia.
Ah, e comigo não precisa de tratamento nem de linguagem formal, viu.
— É mesmo? Então vou chamá-la de Tida.

◇
Com Tida somada ao grupo, passamos por duas aldeias e, pouco antes de entrar no território seguinte, fomos cercadas outra vez por salteadores.
— Quanto salteador. Isso é desleixo do senhor das terras.
Desci da carruagem já de mau humor.
— Mireille, cuide da Lunoa e da Tida.
— Às suas ordens.
— Que nada, eu vou pra frente também, viu.
Por um instante pensei “será que dá certo?”, mas me corrigi: ela viajou sozinha até aqui, deve saber se defender em alguma medida. Respondi a Tida com um aceno.
— Rá!
Avancei com 【Passo Instantâneo】 e cravei a espada ainda embainhada na boca do estômago de um salteador, tirando-lhe os sentidos.
— Sua vaca!
Agarrei o braço do salteador que baixava a espada e, usando a própria força dele, arremessei-o e o deixei desacordado.
Dá trabalho e é incômodo, mas matar diante de uma pessoa do clero me constrange.
Naturalmente, se minha segurança estivesse em risco, eu mataria sem hesitar. Não é que o clero proíba até matar em defesa própria — mas no livro sagrado da Igreja de Ibris há o mandamento «não matarás».
Por isso, diante do clero, o preferível é evitar matar tanto quanto possível.
Desacordei mais um e, quando olhei de relance para Tida…
— Morram, escória! Ira divina, viu! Por ordem dos deuses, eu desço sobre vós o castigo divino!
Tida vinha abatendo o cajado de ferro que trazia na mão em cheio no alto da cabeça de um salteador.
Neutralizados os salteadores ao meu redor, voltei para junto de Mireille e Lunoa e perguntei quase num sussurro:
— …………Aquele ali está morto, não está?
— Está morto.
O salteador que levou o cajado de Tida tinha o crânio afundado e se contorcia em espasmos.
Entre eles há quem esteja com a massa encefálica espalhada.
Morte instantânea, por qualquer ângulo.
Ela deve estar reforçando o corpo com poder mágico para aumentar a força.
Não se diria olhando aqueles braços finos, mas o cajado de ferro vai partindo os corpos dos salteadores como se fossem gravetos secos.
— Ufa, por aqui já acabou, viu.
— S-sim. Bom trabalho.
— A Ellie não matou nenhum, né. Você é filantropa, por acaso?
— Não, não é bem isso…
— Ah, foi consideração comigo, então. Desculpa aí, viu.
Tida abriu um sorriso amarelo e se dirigiu aos salteadores que eu havia desacordado.
— Salteador vivo só atrapalha os outros, então, por mim, pode acabar com eles sem peso na consciência, viu.
Posso acabar com esses aí também, né?
— P-pode.
Dito isso com toda a leveza, Tida foi baixando o cajado de ferro na cabeça dos salteadores caídos.
— Ai… hmpf…
Quando restava um único salteador, ele acordou.
Devo ter pegado leve demais.
— Ora, acordou, foi?
— Iih!
O salteador olhou ao redor e gritou.
— Espere, por favor! Senhora irmã! Eu vou mudar de vida. De hoje em diante trabalho pelo mundo e pelas pessoas! Por isso, poupe a minha vida! Me dê uma chance de recomeçar!
— Não dá, viu.
Ao salteador que implorava com a testa no chão, Tida respondeu sem misericórdia.
— Não é possível! Me disseram que a Igreja de Ibris ensina que até o criminoso deve receber a chance de recomeçar!
Por favor, tenha piedade!
— Ah… Os deuses são clementes, e o homem é criatura que peca. Se ele se arrepende e muda de vida, os deuses concedem clemência, viu.
— E-então!
— Só que salteador não é gente. Fica fora da clemência divina.
— Ii… ii…
Tida ergueu o cajado num movimento lento.
— Castigo divino, viu!
O cajado de ferro rachou a cabeça do salteador e o combate se encerrou.
Tida era forte — e absolutamente sem clemência.
Como arremate da luta, juntamos os corpos dos salteadores e recolhemos o que havia de útil.
Olhei para Tida, supondo que fizesse o mesmo, e lá estava ela agachada diante de um cadáver, remexendo em alguma coisa.
— Hmm, mais um pouquinho… pronto, viu!
Ao que parece, ela arrancou algo do corpo.
— Tida? …O que você está fazendo?
— Hã? Ah, olha, é isto aqui, viu.
Tida mostrou, na palma da mão, um caquinho ensanguentado.
— Isso é… um dente de ouro?
— Isso. Salteador com gosto de novo-rico, hein. Esses aí ainda têm bastante dinheiro vivo e as armas são de boa qualidade. Salteador premiado, viu.
— Isso conta como prêmio?
Recuando um pouco diante de Tida, que exibia sorridente um dente de ouro sujo de sangue, criei uma 【Esfera de Água】 por magia para que ela pudesse lavar as mãos — e o dente.
◇
— Moça! Mais uma cerveja, viu!
— Já vai!
Ao chamado de Tida, a garçonete do povo-cão respondeu com alegria.
Passado aquele território largado, entramos no seguinte, com estradas devidamente conservadas e sem salteadores à vista.
E, chegando enfim a uma cidade de tamanho razoável, jantávamos um pouco mais cedo numa hospedaria com taberna.
— Ah, isso é que é ressuscitar. Na casa de comida de aldeia não tem disso, viu.
— Pode beber tudo isso? Você é do clero, em tese.
— Pode, sim. Bebida é a água da vida que os deuses nos deram. Os deuses dizem assim: «bebe aí, vai», viu.
— Vai cair um raio na sua cabeça.
Havia um tempo que Tida despejava cerveja naquele corpo miúdo com um empenho impróprio para uma religiosa.
Não é que a Igreja de Ibris proíba o clero de beber; só que em geral se evita virar canecas em público desse jeito…
— Mas foi bom mesmo. Graças àqueles salteadores meu bolso ficou bem quentinho, viu.
— Ora, já converteu tudo em dinheiro?
— E como. Assim que chegamos na cidade. Enquanto vocês pegavam a hospedaria, eu já tinha ido vender.
Deu um bom dinheiro, viu. Ah, claro, a gente divide.
— Pode ficar com o que apurou, Tida.
— Sério?! Pode mesmo?!
— Considere uma esmola.
— E-Elliiie!
— Ei, e-espera, sai! O ranho, aaah!
Enquanto eu arrancava de cima de mim uma Tida que tentava enfiar o rosto na minha roupa, Mireille e Lunoa se deliciavam com a primeira refeição decente em muito tempo.
— Presidente Ellie parece bem alegre, não?
— Também acho. A Senhorita Ellie sempre teve rivais com quem disputar, mas nunca teve amigos da mesma idade com quem se sentisse à vontade… Antigamente vivia com o rosto tenso. De uns tempos para cá, porém, tem rido de felicidade cada vez mais.
Lunoa, prove isto também.
— Ah, que gostoso!
— É uma sopa cozida de shirone com linguiça.
Parece que leva, como toque secreto, suco do fruto da mika, especialidade desta cidade.
— Fruto da mika? É a fruta com muita água, que estraga fácil, e por isso quase não circula fora da região de origem.
— Isso. Tem perfume bom; talvez sirva para um cosmético novo. Depois compramos algumas.
O jantar barulhento durou muito mais do que se esperava.
◆
— Alteza! Isto é impossível. Reconsidere, por favor!
Um funcionário de meia-idade entrou a passos duros no gabinete com um projeto na mão. Encarando-o com desagrado, Friede jogou na boca um biscoito fino de uma confeitaria famosa da cidade baixa.
— Que barulheira. De que se trata?
— Deste projeto que Vossa Alteza apresentou!
O funcionário estendeu o documento diante de Friede.
— Hm? …É o plano de distribuição de comida no bairro pobre?
Onde está o problema disso? É coisa que se faz periodicamente.
— Alteza………… Vossa Alteza tem passado os olhos no relatório orçamentário?
Se continuarmos com distribuições sem planejamento algum como esta, o tesouro seca num piscar de olhos.
— Que tolice é essa? Aquela mulher fazia caridade aos pobres praticamente toda semana.
— Quando fazia distribuições e obras de caridade, a Senhorita Elizabeth tirava todo o orçamento do próprio patrimônio.
Fora as propostas apresentadas a Sua Majestade, ela jamais tocou no tesouro. Além disso, a Senhorita Elizabeth intermediava trabalho para os pobres e os assistia para que a vida deles se estabilizasse.
Socorrer os pobres não é simplesmente dar comida sem pensar em nada.
— Tsc! Então cancele a distribuição e pronto!
— A-Alteza! Espere, por favor!
— Cale a boca!
O funcionário acompanhou com um suspiro fundo a saída de Friede, que berrava ao deixar o gabinete.
◇
As rodas da carruagem rolavam ruidosas em linha reta rumo ao grande portão que se via à frente.
Cercada por uma muralha robusta, a capital imperial é tão grande que nem do alto de uma colina se abarca o conjunto.
Lunoa, que aprendia a conduzir a carruagem na boleia, arregalou os olhos diante da primeira metrópole da vida dela.
Chegando perto do portão, viajantes e aventureiros faziam fila para a verificação de identidade.
Como havia muita gente, Mireille tomou as rédeas de Lunoa, ainda pouco habituada, e a menina foi para a carroceria, onde estávamos eu e Tida.
A verificação no portão da capital imperial corria rápido, com muitos guardas, e em pouco tempo chegou a nossa vez.
— Próximo.
— Sim.
Chamada pelo guarda, Mireille adiantou a carruagem.
— Somos comerciantes vindas do território do visconde Lebrick.
— Certo. Deixem-me conferir as carteiras de guilda.
Carteira de guilda é o documento emitido a quem é filiado a uma guilda.
Como nós três somos filiadas à Guilda Comercial, tiramos as nossas e mostramos ao guarda.
— Ah, eu peguei carona no caminho, sou uma irmã, viu.
Tida mostrava o amuleto gravado com o brasão que atesta o clero da Igreja de Ibris.
Em regra, para entrar numa cidade, quem não é morador dela precisa pagar taxa de entrada.
Mas quem é filiado a uma guilda tem, da anuidade paga à guilda, uma parcela repassada ao Estado como tributo — e é isso que permite circular livremente entre as cidades.
Os religiosos também são isentos de parte dos tributos. E a taxa de entrada é um deles.
Uma praça logo depois da entrada da capital imperial.
Foi ali que Tida saltou da carruagem com um pulinho.
— Bom, eu fico por aqui. Ellie, Mireille, Lunoazinha: obrigada por tudo, viu.
— Nós é que agradecemos. Foi uma viagem animada e divertida.
— Senhorita Tida, até um dia.
— Passe bem.
Despedidas de Tida, que acenava com os dois braços, fizemos o registro numa hospedaria de qualidade perto do distrito central.
Instaladas num quarto para três, decidimos discutir os planos.
Sentei-me no sofá do quarto, Lunoa preparou um chá e demos uma pausa.
— E-eu também num quarto tão bom assim… será que pode mesmo?
— Vá se acostumando. Nós vamos começar um negócio nesta capital imperial. Não se sabe onde há ouvidos e olhos de quem.
Se nos hospedássemos em qualquer espelunca, poderiam nos subestimar, não é?
— S-sim.
— Vamos nos mexer já?
— Não. Hoje vamos descansar com calma.
Amanhã encontramos quem mandamos na frente… e vamos também entrar em contato com o Senhor Lucas.
Ele também deve estar agora na residência do visconde, aqui na capital imperial.
— Às suas ordens.
Naquele dia curamos com calma o cansaço da viagem na hospedaria.
E, no dia seguinte, o encontro com quem havia entrado antes na capital imperial se deu de imediato.
— Estava à sua espera, Senhorita Ellie.
Ele devia ter obtido a informação de que tínhamos chegado à capital. Sem que fosse preciso avisar, um cavalheiro de idade nos abordou assim que terminamos a refeição na hospedaria.
O cabelo, já entremeado de branco, penteado para trás sem uma falha; um traje de mordomo sem um vinco fora do lugar. O nome do homem é Arnaud Langley.
Servia como intendente numa certa casa nobre do Reino de Haldoria, mas a família a quem servia morreu numa epidemia. O título passou a parentes distantes e, ao que consta, o novo chefe da casa comunicou a Arnaud uma aposentadoria um pouco antecipada, alegando a idade. Foi aí que o recrutei.
Na companhia do reino, deixei sob sua responsabilidade a administração do prédio da sede.
A Arnaud eu só dera a instrução de ir à capital imperial e preparar o negócio, mas ele já sabia que eu me chamo Ellie. Continua o mordomo competente de sempre.
— Senhorita Ellie, a seleção dos imóveis a comprar está concluída. E esta manhã enviei um mensageiro para solicitar audiência com Sua Excelência o visconde Lucas Lebrick.
— Que rapidez, como sempre. O Senhor Lucas vai precisar de tempo para ajustar a agenda, então hoje vamos ver os imóveis.
Vai ser a face da Companhia Traitre nesta capital imperial.
Precisa ser escolhida com todo o critério.
Desta vez pretendo comprar dois imóveis: a base de operações na capital imperial e a sede comercial da Companhia Traitre.
O primeiro é sobretudo a base para trâmites administrativos, reuniões e negociações de porte. A intenção é que sirva também de residência particular minha.
Considerando a impressão que causa em clientes e concorrentes, precisa ser um prédio à altura.
O segundo é a loja em que os clientes efetivamente entram e compram.
A aparência importa, evidentemente, mas neste caso a localização pesa ainda mais.
— Bastante bom.
Guiadas pelo corretor de imóveis que Arnaud chamou, fomos levadas a uma casa.
Um bairro residencial nobre, perto do bairro dos nobres, onde ficam as casas dos nobres de toga residentes na capital imperial e as residências secundárias dos grandes nobres das províncias.
Não é o centro exato desse bairro, mas é uma casa grande, construída em local de boa conveniência.
Foi originalmente uma residência secundária erguida por alguma casa de barões por ostentação; depois, sem conseguir bancar a manutenção, abriram mão dela.
Precisa de alguns reparos, mas é um achado e tanto.
Estoura um pouco o orçamento, só que um imóvel desses, se escapa uma vez, não aparece de novo.
Depois de inspecionar tudo, fechei contrato com o corretor ali mesmo.
O corretor esboçou surpresa com a decisão imediata de uma pessoa que ainda é pouco mais que uma menina, mas logo passou a atender com um sorriso.
Definida a base que serve também de residência, fomos ao imóvel candidato a sede comercial.
O público-alvo principal dos cosméticos, carro-chefe da minha companhia, são as damas da nobreza.
Um dia quero desenvolver também produtos baratos, que a gente comum possa comprar; hoje, porém, o gasto por cliente é alto e a mira está nos nobres e numa parcela dos ricos, que têm poder de compra.
Por isso a sede que Arnaud encontrou era um imóvel grande, num trecho de rua de lojas de luxo perto do bairro nobre.
O preço é bem salgado, mas, pensando na localização, não há o que fazer. Antes não era uma sede comercial, e sim uma hospedaria de luxo.
Por isso tem espaço amplo para estacionar carruagens e muitas salas privativas.
O nobre não compra como a gente comum, perambulando entre montes de produtos expostos e avaliando o que levar.
Ou chama o comerciante em casa, ou é conduzido a uma sala privativa da sede comercial e, enquanto é recebido com todas as honras, tem apresentados com esmero os produtos que deseja e os que se recomendam. Por isso um imóvel com várias salas privativas onde acolher nobres cai muito bem.
Fechado o contrato sem demora, o corretor me indicou uma firma de reformas e voltamos à hospedaria em que estávamos.
Lá, o mensageiro que Arnaud enviara a Lucas já retornara com a resposta.
Lucas dizia que abriria um horário no dia seguinte.
— Sendo assim, esta tarde não temos nada de específico a fazer.
— Então eu cuido de providenciar o mobiliário da casa.
— Boa. Deixo com você.
Nas mãos de Arnaud, os preparativos ficam completos. Entreguei-lhe um saco de couro cheio de moedas de ouro e o despachei.
— Pois bem, e nós, o que fazemos? Há algo que queiram fazer?
— Senhorita Ellie, nesse caso eu gostaria de procurar pessoal.
— Pessoal? Ainda é cedo para reunir os funcionários que vão atuar na capital imperial.
— Não são funcionários; quero aumentar a criadagem.
— A criadagem?
— Sim. É preciso quem mantenha a casa da capital imperial, e também uma serva pessoal para a Senhorita Ellie.
Se eu pudesse fazer tudo, ótimo; mas, se os negócios se expandirem mais que isso, não vou dar conta.
Por isso quero, para começar, contratar gente que possa trabalhar sob minha orientação.
— Deixe-me ver………… Sim, de fato é necessário.
Mireille é competente.
Preciso dela não só como serva pessoal, mas também atuando como funcionária da companhia.
Por isso ela não pode estar ao meu lado o tempo todo.
Isso a incomodava havia tempo.
— Nesse caso, abrimos vaga na Guilda Comercial?
— Para os criados da casa, que ficarão sob Arnaud, acho que serve; mas contratar pela via comum uma serva pessoal para a Senhorita Ellie me deixa um pouco insegura.
— Concordo.
— Por isso considero melhor comprar uma escrava.
Escravo é a pessoa comprada e vendida por dinheiro como força de trabalho.
Como em regra se lhes aplica uma espécie de magia de vínculo, praticamente não há risco de traição.
— Escrava…
Há basicamente dois tipos de escravo.
O escravo criminoso, condição de quem cometeu um crime, a título de punição.
Divide-se entre o escravo por delito leve, sujeito a trabalho forçado por prazo determinado em minas e afins, e o escravo por crime grave, que tem os direitos suprimidos e é submetido, até morrer, a experimentos com remédios e a serviços em zonas perigosas.
O escravo por dívida é quem foi vendido pelos pais por dinheiro ou quem, sem conseguir pagar o que devia, se vendeu a um mercador de escravos.
Diferentemente do escravo criminoso, o escravo por dívida tem os direitos protegidos: matá-lo intencionalmente configura homicídio, e o proprietário tem o dever de zelar pela vida dele………………… na aparência.
Em tese há proteção legal, mas na prática, salvo massacre escancarado, nada disso vira grande problema.
Bem, eu não tenho a menor intenção de fazer coisa assim.
Sendo assim, um escravo preso por magia de vínculo não é má opção.
— Está certo, então esta tarde vamos ao mercador de escravos.
◇
Almoçamos na hospedaria e seguimos para um canto da capital imperial onde se concentram as casas que negociam escravos.
O lugar, próximo à favela, não parecia lá muito seguro; Lunoa segurava firme a mão de Mireille.
Entramos numa dessas casas e percorremos, guiadas pelo dono, as pessoas mantidas em jaulas.
Havia várias amontoadas em jaulas pouco higiênicas e, ou porque só recebiam o mínimo de comida, ou por outro motivo, não pareciam em boas condições.
Mireille e eu compreendemos que isso também faz parte da ordem deste mundo, e sabemos que a escravidão tem um lado que funciona como uma espécie de rede de proteção; mas Lunoa deve ter se chocado com o tratamento dispensado aos escravos, porque se escondeu atrás de Mireille e desviou o olhar.
— Obrigada. Vou pensar um pouco.
Disse isso ao dono e saímos.
— Não havia gente muito boa.
— Pois é. Quem vira escravo é sobretudo criança vendida pelos pais ou comerciante que quebrou; deve ser raro alguém muito capaz.
— Concordo. Vez ou outra acontece de uma pessoa talentosa ser vendida por alguma circunstância, mas…
— Vamos à próxima casa. …………Lunoa, está tudo bem?
— S-sim. Está tudo bem.
Afaguei a cabeça de Lunoa e seguimos para a casa seguinte.
Depois disso rodamos várias casas de escravos, mas ninguém me chamou a atenção.
E então, com o sol já se inclinando, estávamos diante de mais uma sede.
Aquela era diferente das anteriores: todo o entorno estava impecavelmente limpo e, à entrada, dois seguranças em roupas caras que imitavam um traje de cavaleiro. No pescoço deles havia gravado o desenho característico da magia de vínculo aplicada aos escravos.
Eram escravos, ao que parecia.
Mas, diferentemente dos escravos que vimos nas outras casas, tinham boa cor e corpos bem treinados.
— Sejam bem-vindas. Aqui é a Companhia Cedric, que negocia escravos. Em que podemos servi-las?
Ao contrário do aspecto avantajado, o escravo da guarda perguntou o que desejávamos com toda a polidez.
— Sim. Podemos ver os escravos?
— Certamente. Vou chamar imediatamente quem as acompanhe; aguardem um instante.
Acompanhando com os olhos as costas do segurança que ia chamar alguém, eu ruminava o nome que ele dissera: Companhia Cedric.
Ah, então esta era a companhia de Cedric Ruins, «o Educador».
Cedric Ruins é um dos conselheiros do Conselho da Guilda Comercial Imperial.
O Conselho da Guilda Comercial Imperial é o órgão formado pelos grandes comerciantes que dominam o mundo financeiro do Império, e tem influência até sobre a política nacional.
Os grandes comerciantes que ocupam esses assentos são figuras com poder muito superior ao de um nobre qualquer.
Presidindo o Conselho, o Grão-Mestre da Guilda Comercial Imperial, «o Conde Vidente», conde Albert Guido.
O maior ferreiro do Império, «Mão Divina», Gaien Drafan.
O dono da rede de hospedarias com filiais por toda parte, «Olho de Longo Alcance», Rotton Flywalk.
O financista temido até por nobres, «o Chefão», Darc Hawkins.
A boticária genial vinda do oriente, «Negrume», Yuka Kusunoki.
A mulher de fibra que subiu de prostituta a soberana do distrito de diversões, «Borboleta de Prata», Hilde Callard.
E o mercador de escravos que fornece pessoal até para a corte imperial: «o Educador», Cedric Ruins.
Não é exagero dizer que esses sete dominam o mundo financeiro do Império.
— Perdoem a espera. Vou acompanhá-las.
A mulher em traje de criada que veio trazida pelo segurança curvou-se com elegância, em movimentos refinados, e nos conduziu para dentro.
No pescoço dela também se via o desenho da servidão.
Ela nos levou a uma sala de visitas, com peças de bom gosto dispostas com bom gosto.
Sentadas no sofá, tomamos o chá que ela preparou.
Folhas de qualidade. E boa mão.
Depois de alguma espera bateram à porta; a mulher a abriu e entrou um homem de rosto sereno.
— Perdoem a demora. Sou o presidente desta companhia, Cedric Ruins.
Diante da apresentação, arregalei ligeiramente os olhos.
Eu não esperava que o próprio «Educador» Cedric Ruins aparecesse em pessoa.
Antes que eu abrisse a boca para me apresentar, Cedric falou com um sorriso:
— É um prazer conhecê-la, Senhora Ellie Leis, presidente da Companhia Traitre.
E também a Senhora Mireille Katarina e a Senhorita Lunoa Carlton. É uma honra recebê-las.
Diante daquele Cedric que sorria sem deixar ler emoção alguma, percebi um clima de que não se podia baixar a guarda.
— Como… sabe os nossos nomes?
À minha pergunta, Cedric respondeu sem desfazer o sorriso:
— É que a Companhia Traitre se tornou, num prazo curto — cerca de um ano desde a fundação —, uma das maiores do território do visconde Lebrick.
Um rumor desses chega aos ouvidos mesmo sem intenção.
— É uma honra ter meu nome conhecido por um grande comerciante como o presidente Cedric.
— Também me alegra travar conhecimento com a Presidente Ellie aqui.
Trocamos um aperto de mão, ambos sorrindo.
Esta sensação de esconder o que se pensa e falar de amizade sorrindo — faz tempo que não a sentia.
Ele diz aquilo, mas trata-se apenas de uma companhia num território de visconde.
Se isso é assunto que mereça a atenção de um grande comerciante da capital imperial, tenho de pôr em dúvida.
Então por que um comerciante do porte dele se interessaria por mim?
Provavelmente conhece a minha origem.
Mas Cedric passou ao assunto comercial sem deixar transparecer nada disso.
— E então, que tipo de escravo procuram hoje?
Mireille explicou a Cedric o motivo da busca.
— Ah, procuram alguém capaz de cuidar do dia a dia?
— Sim. Como ficará junto à Presidente Ellie, precisa ser mulher; a raça é indiferente.
Como haverá muitos deslocamentos entre territórios, é preferível alguém que aguente viagem.
— Compreendido. Vou providenciar; aguardem um instante.
Deixando uma reverência impecável, Cedric saiu.
Passamos um tempo entretidas com chá e doces, até que ele voltou.
— Está tudo pronto. Incomodo-as pedindo que me acompanhem?
— Claro, sem problema.
Saímos com Cedric e passamos a caminhar atrás dele.
O corredor da companhia é limpo, decorado com pinturas e esculturas de bom gosto.
Ele leva a várias salas amplas; as salas não têm porta, e do corredor se enxerga o interior.
Numa delas havia crianças escravas sentadas a mesas, aprendendo aritmética com um escravo idoso à frente; noutra, uma jovem escrava aprendia costura com uma escrava mais velha.
E, no pátio interno visível pela janela do corredor, homens de boa compleição treinavam golpes de espada no ar.
As roupas que vestem são singelas, mas limpas, e cabelo e barba estão bem aparados.
— É bem diferente das outras casas de escravos.
— Sim. Nas outras companhias procura-se lucrar reduzindo ao máximo o custo com o escravo.
Já na minha companhia nós educamos os escravos e elevamos seu valor agregado. É evidente que um escravo que lê, escreve e faz contas vale mais. Quem tem alguma habilidade vale mais do que quem não sabe fazer nada.
Por isso desenvolvo as capacidades dos escravos conforme a aptidão de cada um.
Além disso, o escravo é mercadoria, mas é também um ser humano vivo. Quem está saudável e limpo tem melhor cor.
O preço sobe na mesma medida, mas há muita gente que compreende o valor disso.
O modo de pensar de Cedric era algo até então inédito.
Foge da imagem do escravo como trabalhador do estrato mais baixo.
Mas é também extremamente racional.
Espalhou-se que os escravos negociados por sua companhia têm capacidade muito alta, e isso virou uma marca.
Outras companhias devem ter cogitado imitá-lo, mas educação custa caríssimo.
Inferiores em capacidade financeira, e diante de uma Companhia Cedric já consolidada como marca, devem estar sem conseguir vencê-la.
— Pois bem, façam o favor.
Instadas por Cedric, entramos numa sala simples: pouquíssimo mobiliário, apenas mesa e cadeiras.
Estávamos sentadas, esperando, quando Cedric entrou com uma mulher de meia-idade.
Ela devia ser uma das escravas candidatas.
Depois dela, Cedric apresentou mais algumas.
Todas devem ser destinadas a atendimento: vestiam roupas de qualidade e passaram pela entrevista com toda a polidez.
Habilidades e modos eram refinados a ponto de não se pensar em escravos.
— A próxima é a última.
A última a entrar era uma menina de uns dez anos, não muito diferente de Lunoa.
Talvez por nervosismo os movimentos eram um pouco duros, mas curvou-se com esmero.
No alto da cabeça, orelhas de gato tremiam, e o rabo balançava sem saber onde se pôr. Povo-gato.
— M-meu nome é Misha Tail, muito plazer.
Depois de tropeçar na palavra, Misha corou e ficou tremendo.
— Perdoem. É a primeira entrevista da Misha com uma cliente interessada em compra, e ela parece um pouco nervosa.
Cedric emendou a ressalva sem perder tempo.
— Como se vê, Misha ainda é muito nova, então as habilidades atuais são inferiores às das que apresentei antes; mas o desempenho no treinamento é excelente. Sendo do povo-gato, tem poder mágico baixo e só usa a magia 【Reforço Corporal】; em compensação, a capacidade física natural é alta, e ela aguenta bem uma viagem longa.
E, embora não chegue a ser escolta, luta o suficiente para se defender.
— Ora, tem experiência de combate?
— Sim. Antes de virar escrava, viajava com os pais como mascate, e diz ter aprendido esgrima com adaga com o pai.
Aqui na casa também demos treinamento básico.
Segundo o instrutor, o nível dela passa raspando como aventureira iniciante.
Misha foi atacada por salteadores no meio de uma viagem de comércio, perdeu o pai e, depois, a mãe, por causa dos ferimentos daquele dia.
Ainda muito nova, com o patrimônio roubado pelos salteadores e mais as dívidas do tratamento da mãe, não tinha como viver sozinha; segundo consta, foi ela mesma que procurou Cedric, na base do “antes isso do que morrer”.
Sim, poder se defender é um ponto importante.
Dependendo de como ela crescer daqui em diante, pode se transformar em algo notável.
Olhei para Mireille e ela também assentiu de leve.
— Pois bem, presidente Cedric: fico com esta Misha.
Furei a ponta do dedo com uma agulha e encostei o sangue vermelho que aflorou no desenho gravado no pescoço de Misha.
Cedric usou então a magia inata 【Servidão】, e a dona de Misha passou a ser eu.
— Com isso o contrato está concluído.
— Sim, muito obrigada.
— O desenho no pescoço pode ser tornado invisível pela vontade do dono. A lei determina que o desenho fique visível no caso dos escravos de propriedade de mercadores de escravos, dos escravos criminosos e em certos lugares, como a corte imperial; fora isso, é melhor mantê-lo oculto.
— Certo.
Toquei o desenho de Misha e, deixando fluir poder mágico enquanto o desejava, ele se apagou como se derretesse.
— Misha, sirva bem à Presidente Ellie.
— S-sim, Senhor Cedric. Obrigada por tudo até aqui.
Misha baixou a cabeça num cumprimento rápido.
As palavras pareciam sinceras: nos olhos que dirigia a Cedric não se lia nenhum dos sentimentos ruins que vi nos escravos das outras casas em relação aos donos.
Cedric constrói, então, uma relação amistosa com os escravos.

Acompanhadas pelo olhar de Cedric, deixamos a sede; quando voltamos à hospedaria, já era noite fechada.
— Por hoje cada uma faz o que quiser. Misha fica com Mireille.
— Às suas ordens.
— S-sim! Conto com a senhora, Senhora Mireille.
— Sim. A formação propriamente dita começa quando o senhor Arnaud terminar de preparar a casa.
Por ora vou ensinar, sobretudo em aulas teóricas, o funcionamento da Companhia Traitre e o que é preciso saber como serva.
— Sim!
A formação de Misha pode ficar com Mireille e Arnaud.
Falta ainda definir a remuneração… escrava que é, não seria necessário, mas ao menos uma mesada é melhor ter. Por mais escrava que seja, fazer alguém trabalhar sem folga nem recompensa derruba a eficiência.
E, se Misha trabalhar com seriedade, um dia posso libertá-la da condição de escrava e contratá-la formalmente como serva.
Adormeci naquele dia organizando as coisas que precisarei decidir daqui em diante.
◇
— Há quanto tempo, Presidente Ellie.
— Há quanto tempo, Senhor Lucas.
No dia seguinte, eu estava reunida com Lucas na residência do visconde Lebrick na capital imperial.
— Com licença.
Uma criada pousou diante de mim e de Lucas xícaras e bolinhos assados.
— Ora?
Quando levei a mão à xícara, percebi que o que a enchia não era chá.
— Café? Que raridade.
— Ah, ando gostando ultimamente.
Café é a bebida feita com grãos torrados, muito consumida no continente meridional.
Como o clima dos países desta região não permite cultivá-lo, deve ser importado. Coisa bastante cara.
— Se não gosta, mando servir chá.
— Muito obrigada. Mas não precisa: eu gosto bastante.
Apreciando o aroma tostado, levei à boca o líquido preto que soltava vapor.
Amargor forte e uma acidez leve, com um sabor de fruta escondido lá no fundo.
Depois de conversarmos de leve sobre a estação e as novidades de cada um, tomando café, Lucas entrou no assunto.
— Ontem tive audiência com Sua Majestade o imperador.
— Ah, sim? Conseguiu entregar aquilo?
— Consegui.
Eu havia confiado a Lucas um conjunto especial de cosméticos para presentear Sua Majestade o imperador.
Para todas as mulheres da casa imperial: a imperatriz e as princesas.
Para Sua Majestade e para o príncipe herdeiro imperial preparei também fixadores para o cabelo e colônias.
— Eu já havia comunicado a respeito da Presidente Ellie por carta, mas desta vez me pediram explicações pessoalmente…
— Desculpe o transtorno.
— Não tem jeito. Quando decidi ajudar na sua fuga, já contava com pelo menos isto.
— E então… o que Sua Majestade disse a meu respeito?
— Por ora, observação. É preciso relatar os movimentos, mas, por enquanto, entende-se que as ações da Presidente Ellie trazem benefício ao Império, e o Estado não pretende interferir.
— Ah, sim? Eu estava um pouco preocupada, mas assim não há problema.
Afinal, minha vingança traz benefício ao Império.
— …………É verdade.
◆
— Ufa.
Um horário um pouco cedo demais para se chamar de madrugada.
Largando a pena que tinha na mão e soltando de leve os ombros, Godwin Yutear, o homem que ocupa o topo do Império de Yutear, encerrava o expediente do dia.
— Bom trabalho, Majestade.
— Hm.
Entregando à secretária os documentos que redigira, Godwin atravessou o castelo rumo à ala residencial da família imperial, acompanhado da guarda pessoal.
Ergueu a mão em agradecimento às criadas e aos soldados que baixavam a cabeça pelo corredor, e chegou à entrada da ala residencial.
— Até aqui basta. Bom trabalho.
— Sim, senhor! Boa noite, Majestade!
Despediu-se dos guardas que o saudavam e entrou na sala de estar em que a família costuma relaxar; a esposa e a filha conversavam animadas, um tanto exaltadas.
— Ah, papai.
— Bom trabalho, Godwin.
— Ah, hoje me cansei muito. Do que estavam falando?
— Do xampu, do fixador e do óleo perfumado que o visconde Lucas presenteou hoje; nós experimentamos.
— É completamente diferente do que havia até agora.
Diante das duas, que falavam com alegria dos cosméticos novos, ele se lembrou da conversa da tarde com aquele jovem nobre.
Cerca de um ano antes, a filha de uma casa ducal do país vizinho fugira para cá.
E não uma moça qualquer.
Ex-noiva do príncipe herdeiro e figura profundamente envolvida com a política do reino.
Consta que hoje está sendo procurada no reino, mas por baixo dos panos a busca é desesperada.
Uma peça-chave do país vizinho está em suas mãos.
E ela, ao que parece, guarda rancor do reino, e junta forças para se vingar.
Essa vingança, ao fim, será proveitosa para o Império.
Pensando nisso…
— Ai…
O estômago dói.
— Papai, o senhor está bem?
— A-ah, temos o remédio de sempre?
— Sim, mando trazer agora mesmo.
Godwin é um imperador grandioso, de firmeza e liderança.
É o que pensam os súditos; na verdade, porém, ele é de temperamento medroso e delicado.
Dizem que é um ambicioso que ampliou os domínios do Império numa só geração — mas nada disso: foi só o correr das coisas.
Godwin pretendia ser um imperador medíocre, governando sem glória nem vexame o Império que herdou do pai.
Mas, entre repelir países que o atacavam e proteger aldeias do interior atacadas por monstros e abandonadas por seus Estados, sem que percebesse aquilo já era um imenso império.
— Papai, o remédio.
— Ah, obrigado.
Recebeu o remédio e o empurrou com água.
É um remédio especial para o estômago que ele conseguiu, a muito custo, encomendar à boticária genial vinda do país insular do oriente, Yuka Kusunoki.
Ultimamente não larga esse remédio.
— Ai… Se a Senhorita Elizabeth prosperar, o Império lucra.
Só que, ao mesmo tempo, o Lucas vai ganhando força junto, não vai?
— Pai, o senhor ainda se atormenta por tê-lo posto na fronteira?
Alguém novo entrou na sala de estar.
O filho de Godwin, Orkist, o príncipe herdeiro imperial.
— E como não? Uma alocação daquelas é praticamente mandar alguém servir de escudo contra o reino.
Lucas há de me odiar.
— Meu pai pensa de forma negativa demais. É verdade que há esse aspecto, mas os méritos dele são avaliados de forma justa.
O Lucas compreende isso.
— Será?
— Sim. Trazer Elizabeth Leiston, do reino, para o nosso lado não foi um feito dele? Dizem que a arrecadação do território do visconde Lebrick disparou depois que ela chegou.
— Isso é verdade, mas…
— O governo dele é excelente; se em breve alcançar algum feito de destaque, por que não elevá-lo de título?
— É… tem razão.
Naquele dia, Godwin se recompôs e passou a noite com Orkist, ouvindo os debates da esposa e da filha sobre cosméticos.
◇
Num salão de festa transbordando de figuras ilustres em trajes deslumbrantes, eu observava as pessoas com uma taça de vinho na mão.
Fazia tempo que não vinha à sociedade, mas, sem a pressão de carregar um país como antes, era coisa tranquila.
— Ellie, gostaria de lhe apresentar algumas pessoas. Você permite?
— Evidentemente, Senhora Melanie.
Uma das muitas festas da alta sociedade que se abrem na capital imperial nesta época.
Eu estava ali por indicação da Senhora Melanie.
A Senhora Melanie é figura central da sociedade do território do visconde Lebrick e tem trânsito amplo também na capital imperial.
É cliente desde os primeiros dias da Companhia Traitre, e me convidou algumas vezes para chás em que convivemos.
Ao saber que o barão Melanie participaria da temporada social deste ano, pedi à Senhora Melanie que me apresentasse às jovens damas e às senhoras da nobreza na capital imperial. Ela aceitou de bom grado, e é por indicação dela que venho divulgando a Companhia Traitre aos nobres da capital.
— Já ouvi falar da Presidente Ellie pela Senhora Melanie.
— Reencontrei a Senhora Melanie depois de muito tempo e me espantei com o quanto ela ficou ainda mais bela.
— Faço questão de comprar os cosméticos da companhia da Presidente Ellie.
Mal terminadas as apresentações, as pessoas que a Senhora Melanie me apresentou já falavam de cosméticos.
A Senhora Melanie, já celebrada como flor da sociedade pela beleza e pela simpatia, aprimorou ainda mais essa beleza. É natural que queiram saber o segredo e, se possível, obtê-lo também.
— Minha companhia se prepara neste momento para operar na capital imperial.
Por limitação de produção, pretendo fazer a venda por sistema de sócios.
Ah, mas como as senhoras vêm por indicação da Senhora Melanie, concedo-lhes títulos de sócia com prioridade.
— Ora! É verdade?!
— Muito obrigada, Presidente Ellie, Senhora Melanie.
— Aguardarei ansiosa a abertura.
Honestamente, a capacidade de produção da Companhia Traitre, no porte a que chegou, é considerável.
Mas o sistema de sócios visa a elevar o valor de raridade e o gasto por cliente e, ao mesmo tempo, a fazer do título de sócia da Companhia Traitre uma espécie de símbolo de status para as damas da nobreza.
E há ainda o aspecto de servir de cortesia a uma formadora de opinião como a Senhora Melanie.
As pessoas que conseguiram o título graças à apresentação dela ficam em dívida com ela.
Ou seja: é a recompensa à Senhora Melanie, que divulga a minha companhia.
— Se as senhoras aceitarem, envio-lhes um conjunto de amostras dos cosméticos da nossa companhia.
Para agarrar com firmeza o coração dos futuros clientes que a Senhora Melanie me apresentou, segui sorridente com o discurso de venda.
Na volta da festa, recusei com toda a cortesia o convite da Senhora Melanie para me levar de carruagem e caminhei pela capital imperial com Mireille, deixando o vento noturno esfriar o corpo um pouco aquecido pelo álcool.
— A esta hora fica bastante silencioso.
— Pois é. De dia é uma agitação; parece outro lugar.
Demos uma volta um pouco mais longa, passeando pela região do mercado, movimentada durante o dia.
— Ei, você! Fica aí, sua vaca!
Foi então que, do fundo de um beco ali perto, veio o berro de um homem.
— Briga?
— Mesmo sendo a capital imperial, parece haver muita rua de trás com segurança ruim.
— Quem está sendo perseguida parece ser uma mulher; vamos dar uma olhada. Se acontecer alguma coisa, eu não durmo bem.
— …………Eu, sinceramente, não posso concordar muito…
— Ora, ora, uns arruaceiros de rua não teriam como nos fazer nada.
— Ah…
Puxei comigo uma Mireille relutante e fui até o fundo do beco.
Lá havia um espaço um pouco mais largo, como um pátio.
E nele, homens de má catadura cercavam uma moça.
— Não tem mais como fugir, ô!
— Você acha que sai barato depois de zombar da gente daquele jeito, hein?!
— Vou te vender pra um bordel, pode ir se preparando!
Os homens ameaçavam a moça.
Mireille e eu demos um passo à frente para socorrê-la e………… paramos.
— Vocês já estão me enchendo, viu!
O que foi que eu fiz, hein?!
— Hã? A gente sabe muito bem que você trapaceou.
— Se não quer se machucar, devolve a grana quietinha.
— Ha! Tem alguma prova de que eu trapaceei, viu?
— Que é que você disse, ô!
O homem ergueu o punho, mas a moça mergulhou por baixo dele mais rápido, varreu-lhe as pernas, girou-o no ar e o estampou na calçada de pedra.
— Ugh!
— Sua…!
O outro homem partiu para cima, mas a moça bloqueou o soco de frente.
— O quê?!
O homem soltou um som de espanto; Mireille e eu, no entanto, vimos que a moça envolvia a mão em poder mágico.
— Hmpf!
O chute da moça acertou a boca do estômago do homem e o apagou.
— Tsc!
O último tirou uma faca do casaco.
— 【Bala de Gelo】.
— Hã?!
O pequeno projétil de gelo que disparei arrancou a faca da mão dele.
Na brecha, o punho da moça acertou o queixo do homem.
— Não parece que se machucou, Tida.
Ignorando os homens caídos, chamei a moça… ou melhor, Tida, em roupas comuns.
— Ellie! Mireille! Ufa, vocês me salvaram, viu.
Obrigada pela força.
— Ainda que eu não ajudasse, você daria conta.
Mas por que estava sendo perseguida?
— Ah, esses caras vieram me acusar de ter trapaceado nas cartas…
Tida parou a frase ali.
— …………Aaah, é… é isso! Eles vieram me importunar quando eu estava pregando o amor divino na taberna, viu!
Desculpa mal-ajambrada.
— Entendo. Jogatina.
O olhar gelado de Mireille trespassou Tida.
— N-não é isso! Quando eu, pelo amor divino, consegui juntar as cartas certas, eles me deram um dinheiro como oferta, viu.
— Isso é jogatina.
— É jogatina.
— …………N-não conta pro templo, viu.
Tida desviava o olhar desesperadamente.
Depois, seguimos pela cidade noturna acompanhando Tida, que voltava à hospedaria.
— Nossa, então a loja na capital imperial abre logo, é?
— Sim. Agora, enquanto espero a reforma da sede, estou divulgando nas festas da nobreza.
— Festa de nobre! Deve ter uma comida incrível, bebida boa, né?
— Bem, sim. Servir o que é mais saboroso e mais raro é uma demonstração de força econômica do anfitrião, então os nobres capricham.
— Que boa vida, hein, a dos nobres. É bem diferente da gente do povão, viu.
— Nem tanto. Tirando os grandes nobres do centro, os nobres de toga de baixo escalão, sem terras, vivem economizando desesperadamente para poder ir às festas da temporada social.
Como a aparência é importante para um nobre, visto de fora parece que levam uma vida de luxo todo dia; mas nos bastidores há quem viva pior que um plebeu abastado.
— É mesmo? Eu pensava que todo nobre era rico, viu.
— Depende da pessoa, digamos. Há nobres de toga que lucram com atividades paralelas.
— E quem tira o dinheiro desses nobres é a Ellie, né.
Diante da fala de Tida, dei uma risadinha.
— Exato.
Enquanto conversávamos, chegamos à hospedaria de Tida.
— Bom, eu fico por aqui.
— Sim. Ah, é mesmo!
Eu decidi que vou deixar a capital imperial em breve, viu.
— Ora, é mesmo?
— É. Com as cartas… ãh, ãh. Com as oferendas de boa vontade eu já juntei dinheiro de viagem, então vou salvar as ovelhinhas desgarradas por aí.
— Ah, é? E para onde?
— Por enquanto vou usar a capital imperial como base e rodar as aldeias pequenas por perto.
Volto para cá de vez em quando, então, quando sua loja abrir, eu apareço, viu.
— Certo. Vou esperar.
E foi assim que me despedi por um tempo da minha nova amiga de conduta um tanto duvidosa.
◆
No gabinete do castelo real, cercado de papéis, Brato olhava o vazio.
Como Elizabeth se afastou dos assuntos de governo, empilhava-se mais que o dobro de documentos de antes.
Apertando a cabeça dolorida, Brato perguntou a Sieg:
— Sieg. E se a senhorita Roselia Fadogal, da casa ducal…
— Majestade, esse assunto já foi encerrado.
— Mas, em vez de fazer daquela pirralha a princesa consorte…
Roselia Fadogal é a jovem dama que fora candidata a noiva de Friede.
A noiva de Friede estava definida desde o nascimento na pessoa de Elizabeth, mas trata-se de matrimônio da Casa Real. Caso a capacidade de Elizabeth não atingisse o que a Casa Real exigia, ou caso ela morresse por algum imprevisto, havia várias candidatas de reserva preparadas. Elas foram dispensadas quando Elizabeth demonstrou capacidade suficiente e chegou em segurança à maioridade.
Roselia era, entre elas, a jovem dama com o segundo melhor desempenho, atrás apenas de Elizabeth.
— A senhorita Roselia já está noiva. E é um noivado arranjado por Vossa Majestade, em reconhecimento por ter sido candidata.
Logo depois do episódio de Elizabeth, mexer no noivado de uma casa nobre por conveniência nossa derrubaria ainda mais a confiança na Casa Real.
— Sei… tens razão.
— Já estamos, de todo modo, criando transtorno à senhorita Roselia. Peço encarecidamente que não faça nada de mais.
— …Hm.
Um som agudo de metal contra metal ressoou, e a espada de treino de lâmina rombuda saltou da mão do cavaleiro para o ar.
— M-me rendo.
Com a ponta rombuda de uma lança apontada à garganta, o cavaleiro declarou-se derrotado.
Diante daquilo, Friede baixou a lança e disse com escárnio:
— Hmpf! Falta treino, não é? Tenha consciência do que é ser cavaleiro do nosso reino.
— P-perdão, Alteza. Obrigado pela instrução.
— Treine direito!
Friede assentiu satisfeito para o cavaleiro que baixava a cabeça, cuspiu aquilo e deixou o campo de treinamento.
Depois de dar treino a um cavaleiro, Friede, de bom humor, lavou o suor e voltou ao campo de treinamento com a ideia de dirigir mais uma palavra ao rapaz.
Foi então que escapou uma conversa do vestiário ao lado do campo.
— Sua Alteza é mesmo um problema.
— E como. Perder de propósito também exige um bocado de atenção.
— Mas, se vencermos, podemos acabar mandados para uma fortaleza de fronteira, como o Connie.
Então é mais esperto perder de propósito e bajular.
— Sua Alteza tem o sangue de Sua Majestade, o pai. O jeito até que não é ruim.
— Por mais talento que se tenha, sem esforço ninguém fica forte.
Se ao menos se esforçasse metade do que a Senhorita Elizabeth se esforçava, já melhoraria um pouco.
— E como.
— Rá-rá-rá.
Friede cerrou os molares.
Queria invadir a sala naquele instante e retalhar aqueles cavaleiros insolentes; mas, se fizesse algo assim, mesmo sendo príncipe herdeiro, atrairia a ira do rei.
Com uma chama escura fumegando nos olhos carregados de raiva, Friede deixou o lugar.
Molares cerrados, avançando a passos duros sobre o tapete fino com uma brutalidade impensável para um jovem nobre, Friede seguia.
— Todos eles, Elizabeth para cá, Elizabeth para lá. O príncipe herdeiro deste reino sou eu!
E não eram só aqueles cavaleiros. Funcionários e criadas do castelo, jardineiros, cozinheiros — todos abrem a boca e dizem “se a Senhorita Elizabeth estivesse aqui…”, “a Senhorita Elizabeth teria…”.
— Ela é uma foragida! Uma traidora do país! E por que ainda passam por cima de mim…
Irritado, Friede abriu a porta da ala privativa.
— Bem-vindo, Senhor Friede.
Talvez tendo ouvido o barulho da porta, Sylvia apareceu na sala de visitas contígua aos aposentos dele.
— Ah, Sylvie. Cheguei. Você está linda hoje também.
— Ora, muito obrigada, Senhor Friede.
Desde que ficou oficialmente noiva de Friede, Sylvia Lockit vivia enfurnada nos aposentos dele.
No começo os funcionários trataram de lhe dar educação de rainha, mas em poucos dias Sylvia desistiu, aos prantos, e apelou a Friede.
Como resultado, Friede deu um jeito, e a educação de rainha avança a um décimo da velocidade prevista.
— Ah, sim, Senhor Friede, venha aqui.
Sylvia o chamou para a sala de visitas.
Quando Friede entrou, uma mulher que estava sentada no sofá se levantou e baixou a cabeça.
— Há quanto tempo, Senhor Friede.
— Ah, é a Kris.
Kris é uma mascate apresentada pela casa do barão Lockit, família de Sylvia.
Friede e Sylvia gostavam dos artigos estrangeiros que ela trazia, e a valorizavam a ponto de lhe permitir entrar assim na área privativa dele.
Depois que Sylvia lhe implorou e ele comprou alguns produtos, a conversa migrou para amenidades.
— Entendo. Então as pessoas do castelo estão desprezando o Senhor Friede?
Kris, como não podia deixar de ser em alguém apresentada à Casa Real, é boa de conversa, e sem querer Friede acabou falando do que o vinha irritando.
— Defender essa tal de Elizabeth, que passa por cima do Senhor Friede e se mete na política — e sendo servidores do Estado. É lamentável.
— Ah, é exatamente isso.
— Hmm. Não seria o caso de o Senhor Friede demonstrar mais uma vez a autoridade de príncipe herdeiro?
— Autoridade? Mas como?
— Deixe-me ver. Não haveria um bom jeito de demonstrar a autoridade do Senhor Friede de modo que qualquer um entenda?
Diante de Friede e Sylvia, que torciam o pescoço, Kris pensou um pouco e respondeu:
— Para quem está no alto, demonstrar autoridade de forma clara é, no fim das contas, feito de armas.
— Feito de armas.
— Sim. O povo quer um governante forte, que o proteja. Se o senhor conduzir tropas e alcançar méritos na guerra, ninguém mais poderá desprezá-lo.
— Guerra…
— Sim, mas em torno do reino só o Império é hostil, não é?
E, como Império e reino têm um pacto de não agressão em vigor, seria pouco realista o reino mandar tropas atacarem o Império diretamente — no caso de um Estado vassalo talvez, mas não do Império.
Aqui o efeito é um pouco menor, mas não seria o caso de acumular méritos aos poucos, com caça a monstros e coisas assim?
— Hm, caça a monstros…
Friede murmurou, como quem pondera a proposta de Kris.
Depois que Kris foi embora, Friede resolveu dar uma volta para mudar de ares e caminhava pelo corredor do castelo com Sylvia quando franziu o rosto ao ver quem vinha à frente.
— Ora, Sua Alteza o príncipe herdeiro Friede e a Senhorita Sylvia. Muito bom dia.
Cabelos louros suntuosos, olhos vermelhos que denunciavam um temperamento forte e um vestido carmesim que, em outra pessoa, pareceria vulgar, mas nela se fazia esplêndido — a mulher fez uma reverência elegante e abriu um sorriso de aparência amistosa.
— Enquanto todos trabalham sem tempo para dormir, por conta da tolice que uma certa pessoa aprontou, Vossa Alteza chama comerciantes e vai às compras… O príncipe herdeiro e sua noiva são mesmo de uma elegância admirável.
— …?!
— Roselia! Isso é desacato!
— Desacato? Que coisa engraçada de se dizer. Respeito é o que se dirige a quem merece ser respeitado.
Vossa Alteza julga-se digno do meu respeito?
— Eu sou o príncipe herdeiro!
— Homem sem graça. Só tem o nascimento de que se orgulhar.
— Como ousa! Acha que uma mera filha de duque me insulta e sai impune?!
Roselia escondeu a boca atrás do leque e riu baixinho.
— E o que pretende fazer um príncipe herdeiro que não dá conta nem dos assuntos de governo sem a ajuda de uma mera filha de duque? A nossa casa ducal Fadogal, ao contrário de certa casa ducal, não é um cão que abana o rabo e mostra a barriga de felicidade para a Casa Real.
— Ugh…
A casa ducal Fadogal é uma casa de tradição que responde pelos assuntos militares.
Seu exército, organizado à parte da ordem de cavaleiros, é inferior aos cavaleiros no valor individual, mas de porte incomparavelmente maior. Ter contra si a casa ducal Fadogal, que comanda esse exército, não sai barato nem para a Casa Real.
— E, ao contrário de certas pessoas, eu estou trabalhando. Trate-me por Assessora Extraordinária do Príncipe Herdeiro, Fadogal.
Roselia não conteve o riso diante das próprias palavras.
— Rá, “Assessora Extraordinária do Príncipe Herdeiro”.
Com um sucessor incompetente, a vida de Sua Majestade também é dura, não? Ter de criar um cargo destes para dar apoio, senão a coisa não funciona.
— …………
Ignorando um Friede que a fuzilava com os molares cerrados, Roselia lançou um olhar de desprezo a Sylvia, que tentava se esconder atrás dele.
— Iih!
— Mas, ser rebaixada por alguém do seu calibre… será que eu superestimava a Elizabeth?
Ah, ou talvez você fosse tão insignificante que nem sequer entrava no campo de visão dela.
— …………
Roselia riu pelo nariz dos dois, que não tinham o que responder.
— Francamente, eu, que disputava com a Elizabeth para tomar dela um homem desses, é que fui uma tola.
Murmurou aquilo sem se dirigir a ninguém e foi embora sem sequer se despedir.
Depois do encontro com Roselia, Friede perdeu a vontade de passear com Sylvia e foi ao gabinete para terminar o trabalho atrasado.
— Tsc!
Bastou desviar o olhar um pouco e os papéis empilhados na mesa aumentaram de novo.
Sentou-se pesadamente e pegou um documento. Era sobre auxílio a um Estado vassalo.
— Ei, o que é este documento?!
— Pois não? Há alguma falha?
— Por que sou eu quem tem de definir o conteúdo do auxílio?! Definam vocês uma coisa dessas!
— P-perdão………… mas isto é matéria a ser definida pela Casa Real…
— Não quero desculpas!
Friede atirou o documento no funcionário.
Nem é preciso dizer que se tratava de trabalho de Friede; só que até então era Elizabeth quem negociava com cada repartição e com os países auxiliados para definir o conteúdo, e a Friede cabia apenas assinar o papel no fim.
— Que gente incompetente! E, aliás, esses parasitas de Estados vassalos não precisam de auxílio nenhum.
Mas, enquanto praguejava, a conversa com Kris pouco antes atravessou-lhe a mente.
— Auxílio… Isso mesmo: o poder de decidir sobre o auxílio aos Estados vassalos é meu.
— Como?
— Não é nada. Vá logo trabalhar!
O murmúrio de Friede foi baixo demais para chegar até o funcionário ao lado.
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■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■a■■■■■■■■o Impé■■■■auxí■■
■■■■■■■para■■■por■■■■se■■■■■■■■ ■■ forne■■■■■.
Se o vosso país ■■, não ■■■■■■ de ■■ recorrer sequer a ■■■■.
Rogo que o vosso país tome uma ■■cisão ■■udente.
Reino de Hal■■■ia, príncipe herdeiro Frie■■ Hald■■■■
Principado de Haldoria, acervo do Departamento de Compilação Histórica
De «O documento chamuscado»