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A Livid Lady’s Guide to Getting Even – Volume 1 Capítulo 2

Capítulo 2 — A Companhia Traitre

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Capítulo 2 — A Companhia Traitre

Agarrei a porta daquela casa velha, entupida de cheiro de mofo e poeira, e puxei com toda a força para abri— «CREC!» …………isto é: tentei abrir.

— Está caindo aos pedaços, senhorita.

— Pois é. O que se espera de um imóvel a preço de banana: uma moeda de ouro, terreno e casa inclusos.

Joguei fora, com um gesto displicente, aquilo que um dia fora uma porta.

Depois eu mesma… não, impossível. Vamos contratar um carpinteiro.

Estávamos no extremo da cidade-sede do território do visconde Lebrick: uma ruína que comprei quando me registrei na Guilda Comercial, por indicação de Lucas.

Sol ruim, longe do centro e dos portões, o poço sujo de folhas secas e o quintal com o mato crescendo como se a casa fosse dele.

— Não é, de forma alguma, uma residência à altura da senhorita.

Mireille resmungou, encarando com rancor a rachadura na parede por onde entrava vento encanado.

— Não tem jeito. As moedas de ouro que tomei emprestadas do Senhor Lucas são só cem.

Não podemos desperdiçar, pode?

A licença para operar saiu graças ao empenho do Senhor Lucas, mas, para abrir uma companhia, era preciso um prédio a registrar como sede.

Entreguei um pano a Mireille e peguei a vassoura para mim.

— S-senhorita, se é para limpar, deixe que eu…

— Está tudo bem. No momento faltam braços. E, aliás, pare com esse “senhorita”.

— M-mas…

— Nós fugimos para cá. Até ganharmos força, o certo é evitar chamar atenção.

Vejamos… vou me apresentar como Ellie Leis. Mireille, chame-me de Ellie também.

— S-sim. E-então… Senhorita Ellie.

— Hm. Bem, serve. Vamos, comece a limpeza.

Este lugar é a nossa nova base — a fortaleza do contra-ataque ao reino.

Foi uma declaração de dar orgulho, mas o serviço em si era só faxina.

Espanar a poeira, cortar o mato, tapar as frestas da parede.

Ao cabo de três dias inteiros, conseguimos deixar a ruína limpa o bastante para que se pudesse insistir em chamá-la de casebre.

E pendurei na frente uma tabuleta de fatura simples, com o nome da minha nova companhia: «Companhia Traitre».

Também pretendo trocar isto por uma placa decente em pouco tempo.

Com isso, a aparência de companhia estava composta.

— E então, Senhorita Ellie, na Companhia Traitre vamos começar o negócio pelos cosméticos, como antes?

Na minha companhia anterior eu negociava sobretudo cosméticos.

Aos olhos dos outros eu explicava que era obra do 【Grimoire Wisdom】; na verdade, foi o artefato divino 【Grimoire Lucifer】 — o Grimório da Soberba — que decifrou os documentos antigos guardados no palácio real e deu origem àqueles cosméticos, com uma eficácia uma cabeça acima da dos produtos convencionais.

Todas as receitas, dos artigos que fizeram sucesso no Reino de Haldoria aos que nunca foram lançados, estão registradas no 【Grimoire Lucifer】.

Ainda assim, balancei a cabeça de um lado para o outro.

— É verdade que vender cosméticos tendo por alvo as damas da nobreza dá um lucro grande, mas para isso faltam a nós, agora, tanto instalações quanto pessoal.

— Então…

— Vamos vender isto.

Enquanto Mireille recolhia informações sobre as companhias e os figurões desta cidade, preparei uma mercadoria; tirei-a do bolso e mostrei a ela.

— Isto é… sabonete?

— Exato.

— De fato, comparado ao sabonete que se usa neste país, a qualidade é incomparavelmente melhor, mas…

— Claro que este sabonete é só um trampolim. Quando tivermos garantido certa clientela, aumentamos os produtos de valor unitário alto, começando pelos cosméticos de base.

E vamos ampliando o porte da companhia. Para isso, preciso me encontrar com algumas pessoas.

Da pilha de material que Mireille reunira, peguei um documento com informações sobre certa pessoa e o estendi a ela.

— Comece por entrar em contato com este homem.

— Ai!

Era fim de tarde. Eu tinha saído para um recado e me atrasei um pouco na volta; corria pela cidade tingida de laranja, de volta à mansão, quando trombei de frente com alguém que vinha da esquina.

— D-desculpe!

A mulher em quem esbarrei estendeu a mão para mim, que tinha caído sentada no chão.

Era uma moça bonita, um pouco mais velha do que eu.

Cabelo preto cortado na altura dos ombros; olhos alongados que davam um ar meio assustador, anulado pelo sorriso suave.

— Você se machucou? Desculpe mesmo. Eu procurava a Guilda Comercial e estava olhando para o lado.

— E-eu é que peço desculpas.

Levantei-me e sacudi a poeira da saia.

— É-é, a Guilda Comercial, não é?

Se a senhora for até aquela praça com a torre do relógio que se vê dali, acha na hora.

— Muito obrigada. Cheguei há pouco nesta cidade e estava perdida.

A moça disse aquilo com um sorriso.

— Ah, é mesmo. Aceite isto, como desculpa e agradecimento.

— Hã?

Do cesto que trazia, ela me entregou um embrulho do tamanho da palma da mão.

— O que é isto?

— Sabonete.

— Sabonete?

— Sim. Meu nome é Mireille, da Companhia Traitre.

Este sabonete será um dos produtos que a nossa companhia vai comercializar.

Fizemos com um método especial da minha terra natal, tenho orgulho dele. Experimente, por favor.

Ou seja, ela aproveita para divulgar.

Nesse caso, posso aceitar com gratidão, não posso?

Ilustração

— Muito obrigada.

— Eu é que agradeço.

Então vou indo. Conto com a senhorita para a Companhia Traitre.

Despedi-me da Senhorita Mireille, que ria com um ar travesso, e voltei para a mansão do senhor barão a quem sirvo.

O senhor barão é um nobre de toga que trabalha sob o senhor visconde Lebrick, senhor desta cidade, e é uma pessoa muito bondosa.

A senhora também é acessível: conversa com frequência até com uma criada como eu.

Entre as damas da nobreza desta cidade, ela é uma figura central.

E essa senhora está agora plantada à minha frente, de braços cruzados e cara fechada.

— A-a senhora… o que foi?

— Vou perguntar mais uma vez, Meria. A mulher que lhe deu o sabonete se apresentou como sendo da Companhia Traitre?

— S-sim.

À noite, depois que me lavei com o sabonete que ganhei, a senhora viu minha pele e passou a me interrogar sobre ele.

— É de qualidade claramente superior à do sabonete que circula hoje.

— S-sim. A espuma também é excelente, e o perfume é maravilhoso.

— E essa tal de Mireille, da Companhia Traitre, chegou há pouco à cidade?

— Sim. Ela procurava a Guilda Comercial, então acho que veio de outro país e acabou de abrir a companhia.

— Entendo. Este sabonete é esplêndido.

Preciso, sem falta, entrar em contato com essa Companhia Traitre.

Passado o meio-dia, eu caminhava com Mireille pela praça central do território do visconde.

Há na praça um grande chafariz, ponto de descanso da população.

Num trecho um pouco elevado em relação à praça ergue-se um edifício grande, singelo mas de limpeza impecável.

É o templo da Igreja de Ibris, cuja fé se espalha por todo este continente.

Mireille e eu atravessamos as portas escancaradas do templo e entramos na capela.

Lá dentro, alguns moradores ofereciam preces à imagem sagrada consagrada à frente.

— Boa tarde.

Uma irmã em hábito religioso nos dirigiu a palavra com brandura.

Mireille e eu retribuímos com uma leve reverência.

— Boa tarde. Meu nome é Ellie; esta é Mireille.

Mudei-me há pouco para esta cidade e abri uma companhia, então pensei em pedir aos deuses sucesso e segurança nos negócios.

Poderíamos rezar um pouco?

— Sim, evidentemente.

Pedimos licença à irmã, sentamo-nos num dos bancos compridos da capela e oferecemos nossas preces à imagem sagrada.

Quanto tempo terá passado?

Terminadas as orações, levantamo-nos e nos dirigimos à saída.

Perto dela, a irmã de pouco antes conversava com um homem em vestes eclesiásticas.

Pelo símbolo sagrado pendurado no pescoço dele, imaginei tratar-se do bispo que dirige este templo.

— Ora, já de saída?

Percebendo nossa presença, a irmã e o bispo encerraram a conversa e sorriram.

— Sim. Muito obrigada.

— Voltem sempre que quiserem.

— Que os deuses abençoem o caminho das senhoras daqui em diante.

O bispo também rezou por nós.

Nesse momento, de fora do templo chegaram vozes de crianças fazendo algazarra.

— Ora, são crianças?

— Ah, ao lado do templo funciona um orfanato. De manhã elas fazem pequenos serviços pela cidade, arrancam mato no quartel dos guardas e coisas assim; devem ter acabado de voltar.

— Ah, sim?

— Sim. O senhor do território nos apoia de várias maneiras, mas o orfanato não é o único que existe.

É a nossa própria incapacidade que faz as crianças passarem por dificuldades — é de dar vergonha.

— De modo algum. O sentimento do senhor bispo e dos seus certamente chega às crianças.

— Rá, muito obrigado.

Tirei algumas moedas de uma bolsa de pano e as estendi ao bispo.

— Nesse caso… permite-me fazer uma doação?

— Muitíssimo obrigad… hã?!

O bispo congelou de espanto.

O que eu lhe estendia eram cinco moedas de ouro.

Uma quantia considerável.

Nada que uma pessoa comum doe assim, de supetão.

— N-não posso, de forma alguma, aceitar tanto dinheiro…

— Pode, sim.

Para nós, comerciantes, as pessoas que se tornam nossos clientes não têm substituto.

E as crianças são um patrimônio: os clientes de amanhã.

Apoiar quem cria essas crianças, no orfanato, é o mínimo que se espera de um comerciante.

Diante das minhas palavras, o bispo enxugou o canto dos olhos e me agradeceu.

Acompanhadas pelo olhar do bispo e da irmã, Mireille e eu deixamos o templo.

Caminhando pela cidade com o sol já se inclinando, conversei com Mireille.

— Então os preparativos estão praticamente prontos?

— Sim. Com a criada da casa do barão, ontem, completamos todas as pessoas com quem havia contato previsto.

— Certo. E qual foi a repercussão do sabonete?

— Já recebemos algumas consultas.

O sabonete que a Companhia Traitre comercializa já foi, pelas mãos de Mireille, espalhado com naturalidade calculada diante dos olhos de nobres e figurões — gente de grande influência.

Como resultado, recebíamos vários contatos de mulheres atentas à beleza.

— Conforme o previsto, começamos a vender amanhã.

O preço fica um pouco acima do sabonete que já existe; contenha o número de unidades vendidas e escolha os compradores com cuidado.

— Sim. Mas está certo assim?

Esse sabonete venderia mesmo a um preço bem mais alto, e nós duas ainda conseguiríamos aumentar um pouco a quantidade.

— Está certo. Primeiro, limitando compradores e unidades, quero transformar a Companhia Traitre numa marca e fortalecer a relação com os figurões.

Implantar nas pessoas a associação “sabonete é Companhia Traitre” é a pedra fundamental para conduzir com vantagem tudo o que a companhia fizer daqui em diante.

— Muito bem. Vamos ao lucro, então.

— Senhorita Ellie, o balanço deste mês.

— Obrigada.

Passei rapidamente os olhos pelo documento que Mireille me entregou.

Três meses desde que abri a Companhia Traitre; começando pelo sabonete, acrescentamos loção tônica, emulsão, loção para os cabelos e outros produtos.

O resultado foi um faturamento saudável.

— Os clientes selecionados já reservaram o limite total das cotas de pedido que definimos.

E há também quem ouviu falar e manifestou vontade de comprar.

— Vai bem. Aos clientes novos, investigue a vida deles; se não houver problema, vendemos só um punhado.

Dadas as instruções a Mireille, peguei mais um documento e o assinei.

— E cuide disto aqui também, por favor.

— Às suas ordens.

O papel era a ordem de repasse, a partir do lucro da companhia, de doações a instituições assistenciais — a começar pelo orfanato do templo.

Todo mês doo do lucro da companhia uma quantia nada modesta.

Graças a isso, minha relação com o bispo e a irmã ficou bastante próxima.

— Muito bem, Mireille. Vamos indo?

— Sim, Senhorita Ellie.

Ultimamente jantamos fora com frequência.

Em parte porque a fabricação de sabonete nos toma tempo e não sobra folga para cozinhar; mas também porque uma casa de comida onde se junta gente de toda espécie é lugar em que, vez ou outra, se ouvem histórias interessantes.

E, criada como nobre, o ambiente de uma taverna de bairro popular era novidade para mim — e eu tinha gostado bastante dele.

— Ora, sejam bem-vindas! Ellie, Mireille!

— Boa noite.

— Boa noite. Obrigada por nos receber.

Cumprimentamos a dona da Taverna Salamandra, nosso ponto de sempre nos últimos tempos, e nos acomodamos na mesa que já ia virando cativa.

— O prato do dia para duas, e dois vinhos com água, por favor.

— Vocês duas são sempre tão certinhas. Ó, seus cavalos, aprendam um pouco.

De vez em quando não custa dizer “por favor” e “obrigado”, custa?

— Ah, que maldade, dona! A gente aqui é um bando de cavalheiros exemplares.

— Se vocês são cavalheiros, eu sou uma dama!

— Rá-rá-rá!

A dona foi trazendo os pedidos enquanto provocava um grupo de homens de meia-idade, fregueses habituais com jeito de aventureiros.

Casa animada, como sempre.

O prato do dia era linguiça com purê de batata, pão, legumes cozidos e sopa.

Com todo esse volume, e mesmo somando o vinho com água, davam duas moedas de cobre e três de ferro.

Baratíssimo.

— E as companhias concorrentes?

Enquanto mordia a linguiça suculenta, que estalava na casca, retomei com Mireille o assunto da companhia.

— Por ora, nenhuma movimentação.

— Certo. Mas continue de olho.

Para nós, hoje, aquele sabonete é linha de vida.

Nesse ponto baixei um pouco a voz.

— Um vazamento da fórmula do sabonete, que virou o cartão de visitas da companhia, seria fatal.

— Estou ciente. A fórmula está guardada com todo o rigor no cofre da companhia; pode ficar tranquila.

— Ótimo. A Companhia Traitre já tem certo nome; não seria hora de lucrar de verdade?

— Concordo. E ainda há o contrato com o Senhor Lucas; não devemos demorar muito…

Depois disso, Mireille e eu falamos de muitas coisas: da companhia, da cidade, das roupas da moda, de histórias.

Passamos um tempo agradável — coisa impensável para a Elizabeth de quando ainda era possuída pelos deveres de nobre.

— Merda!

Uma taça de vinho ainda cheia se espatifou contra a parede.

Tanto o vinho quanto a taça eram peças finas, das que exigem moedas de prata para se comprar.

O homem que as arremessara e ainda assim não continha a raiva era Gazal Jackman, presidente da Companhia Gazal — casa que vinha despontando na venda de cosméticos com base no território do visconde Lebrick.

Gazal desabou desordenadamente sobre a mesa os braços arredondados de gordura.

Havia uns três meses que a venda de cosméticos de luxo começara a cair aos poucos; em especial o sabonete de luxo, cujo número de unidades vendidas despencara a menos de um décimo do anterior.

Evidentemente, a Companhia Gazal, com negócios espalhados, não desabaria assim tão rápido; ainda assim o faturamento caía a olhos vistos e, acima de tudo, o fato de uma companhia recém-chegada ter arrancado dele a própria clientela deixava Gazal ainda mais exaltado.

Por cima disso, o fato de a Companhia Traitre escolher os clientes atiçava sua ira.

Constava que a Companhia Traitre recusava vendas alegando limite de produção.

Mas que a Companhia Traitre escolhia os clientes deliberadamente era coisa que Gazal, também comerciante, imaginava sem esforço.

Boa parte dos que a Companhia Traitre deixava de fora eram justamente clientes complicados, de temperamento difícil.

Tanto que, mesmo sem ter relação alguma com a Companhia Traitre, era à Companhia Gazal que vinham ordenar que lhes conseguisse o sabonete Traitre, ou reclamar do sabonete que até ontem usavam com prazer — fazendo o que bem entendiam.

Ele bem que gostaria de mandá-los reclamar com a Companhia Traitre; só que a clientela dela inclui muita gente de peso, a começar pela esposa do barão, que tem enorme influência na alta sociedade deste território de visconde.

Como são poucos clientes, a relação é profunda — e isso deixa a Companhia Traitre difícil de atingir diretamente.

— Merda! Merda! Aquelas pirralhas!

Gazal descarregava a irritação na mesa quando soaram batidas na porta.

— O que é?!

— C-com licença.

Ao ver o rosto do homem que entrou, Gazal estalou a língua com irritação redobrada.

— O que foi, Grantz, veio pedir dinheiro de novo? Não faz um trabalho decente e ainda tem coragem de aparecer.

Grantz trabalhava na contabilidade da Companhia Gazal, mas era um sujeito desagradável: nos últimos tempos vivia dizendo que precisava de dinheiro por um motivo ou outro, pedia adiantamento de salário, faltava ao serviço de repente.

— É que… bem…

— O que é?! Se tem assunto, fale claro!

— S-sim… é que… há algo que gostaria de levar aos ouvidos do senhor presidente Gazal…

Grantz se aproximou de Gazal com um sorriso bajulador e mole colado no rosto.

Ainda mais irritado com aquela postura, Gazal ouviu o que ele tinha a dizer.

— É-é que ouvi por acaso… aquela fórmula do sabonete da Companhia Traitre estaria guardada no cofre do casebre onde a companhia funciona…

— O quê?

Gazal reagiu com um estremecimento às palavras de Grantz.

— E onde você ouviu essa história?

— Sim, ontem, numa taverna do bairro popular, as mulheres da Companhia Traitre estavam conversando.

Eu por acaso estava sentado na mesa atrás delas; elas baixaram a voz, mas ouvi com clareza.

Gazal ponderou as palavras de Grantz.

Ou seja: obtida a fórmula, é possível fabricar produto equivalente ao sabonete da Companhia Traitre.

Ou melhor: a Companhia Traitre já começa a ser reconhecida como uma marca.

Nesse caso, vender dizendo que é sabonete da Companhia Traitre dá mais lucro.

Bastaria dizer que foi obtido em segredo, por vias tortas, e não seria impossível inflar o preço até algumas vezes o que eles cobram.

Gazal tirou da gaveta da mesa, sem cerimônia, um saquinho com moedas de prata e o atirou a Grantz.

— Você esquece este assunto. Entendido?

— S-sim.

Grantz apanhou do chão o saquinho, curvou-se várias vezes e saiu da sala.

Depois que Grantz se foi, Gazal pegou o sino para chamar os subordinados a quem confiava os serviços ilegais — gente afeita a roubo e a arrombamento de cofres.

Cinco meses já se tinham passado desde nossa fuga para o Império, e a Companhia Traitre ganhava nome de forma consistente.

Acordei num dos cômodos do casebre, cuidei rapidamente da aparência, fiz uma refeição simples com Mireille — que já estava de pé e tinha preparado o café — e comecei a arrumar as coisas para fabricar os cosméticos.

Nisso, um passarinho entrou voando pela janela.

— Senhorita Ellie, o relatório periódico dele.

— Certo. Alguma novidade?

— Sim. Ao que parece, aquela vagabu… perdão. Ao que parece, aquela senhorita filha do barão Lockit foi reconhecida oficialmente como noiva do príncipe herdeiro.

Além disso, a Senhorita Ellie está sendo procurada, acusada de conspirar traição contra o Estado.

E a casa ducal Leiston parece ter obtido absolvição justamente por tomar a dianteira na acusação contra a Senhorita Ellie.

Mireille leu a carta em voz alta, trêmula de raiva.

— Entendo. Reconhecendo oficialmente o disparate do Friede, salvaram o prestígio da Casa Real.

Não parece raciocínio daquele bronco de músculos, então provavelmente foi conselho do duque.

— Como assim?! Está me dizendo que ele transformou a própria filha, a Senhorita Ellie, em traidora?!

— Aquele homem faz isso, sim. O que importa a ele é o país e a Casa Real.

Como não me encontram, ele faz pelo menos isso para proteger a honra do príncipe herdeiro.

Enquanto afagava o ombro de Mireille, que chorava de tanta raiva, queimei a carta na chama de uma vela e joguei a fuligem no cinzeiro.

Naturalmente, aquele relatório também me dá raiva.

Mas eu já jurei me vingar deles e já entrei em ação para isso.

Quando a hora chegar, a minha raiva vai passar por cima de todos eles.

— Vamos, Mireille. Ao trabalho.

— …………Sim, Senhorita Ellie.

Naquele dia, como sempre, ficamos as duas no casebre fabricando cosméticos sem parar.

Em circunstâncias normais, entregaríamos por volta do meio-dia as encomendas aos clientes e seguiríamos produzindo até o fim da tarde.

Só que naquele dia alguém bateu à porta do casebre.

Já que ela está meio podre, eu preferiria que não batessem tão forte.

— Pois não?

Quando Mireille abriu, vários homens de armadura agarraram a porta, escancararam-na e invadiram a casa a passos duros.

— M-mas o que é isso?! Quem são vocês?!

Mireille protestou, mas os homens não responderam nada.

Postaram-se de modo a nos cercar e levaram a mão à espada na cintura.

— Não façam movimentos estranhos.

A voz veio de trás deles.

De trás dos homens com a mão na espada surgiu uma mulher de óculos, com o uniforme da Guilda Comercial.

— E a senhora é?

Diante da minha pergunta, a mulher de óculos sacou com voz lúcida a carteira de guilda que identificava sua função.

— Meu nome é Arte Hilgadie. Sou investigadora do departamento jurídico da Guilda Comercial.

O departamento jurídico da Guilda Comercial é o órgão de investigação que reprime crimes cometidos por companhias filiadas.

— Há denúncia de que a Companhia Traitre vende sabonete tóxico.

— Sabonete tóxico?

— Sim. Há relatos de pessoas que usaram o sabonete da Companhia Traitre e apresentaram sintomas como forte inflamação da pele e queimaduras químicas.

Arte tirou do peito um documento com a assinatura do mestre da Guilda Comercial.

— Este é um mandado de busca e apreensão emitido pela Guilda Comercial.

A partir deste momento, dou início à busca compulsória na sede da Companhia Traitre.

A presidente Ellie Leis e a funcionária Mireille Katarina ficam sob custódia da Guilda Comercial.

Como será feita a tomada de depoimentos na Guilda Comercial, peço que nos acompanhem.

Arte falou em tom que não admitia réplica.

— Senhorita Ellie…

— …Compreendido. Nós, da Companhia Traitre, não temos absolutamente nada a esconder. Cooperaremos com a investigação.

— Agradeço a cooperação. Há uma carruagem preparada lá fora.

Instadas por Arte e pelos soldados, subimos na carruagem e partimos rumo à Guilda Comercial.

— Entendo. De fato, não se identifica risco algum na fórmula do sabonete de vocês.

Transferidas para uma sala da Guilda Comercial, prestávamos depoimento a Arte.

No curso disso, explicamos a fórmula do sabonete em detalhe a um alquimista filiado à Guilda Comercial, o que permitiu reconhecer que não havia problema nela.

Além disso, os que alegavam ter sido lesados eram pessoas a quem nossa companhia jamais vendera sabonete; entre os nossos clientes não havia um único relato de dano; e, cruzando a quantidade de sabonete que vendemos, o estoque de matéria-prima que restava na companhia e os registros de compra junto aos fornecedores, a Guilda Comercial concluiu ser baixa a possibilidade de envolvimento nosso no caso.

— E este aqui é o sabonete em questão?

Então me mostraram o tal sabonete “da Companhia Traitre” que estava com as vítimas.

— Isto… é um trabalho bastante incompleto.

— Incompleto… como assim?

— Sim… isto é… espere, será que…?!

— Ocorreu-lhe alguma coisa?

— Sim. Isto talvez tenha sido feito por alguém que espiou a fórmula do sabonete guardada no cofre da companhia.

Arte inclinou a cabeça.

— O que quer dizer?

— A fórmula deste sabonete é a linha de vida da nossa Companhia Traitre; por isso a receita está dividida em duas partes: uma fica no cofre da companhia, a outra ando comigo, colada ao corpo.

Este sabonete foi feito apenas com a parte que está no cofre. Normalmente ele precisaria ser neutralizado pela receita que fica comigo; do contrário, é imprestável.

Arte respondeu à minha explicação com um aceno de cabeça.

— Ou seja, alguém roubou a receita do cofre da Companhia Traitre, fabricou sabonete e o vendeu usurpando o nome da Companhia Traitre.

Arte assentiu e deu ordens ao subordinado que aguardava na sala.

— Rastreie junto às vítimas por onde o sabonete chegou às mãos delas. É provável que o autor esteja vendendo o sabonete apresentando-se como intermediário da Companhia Traitre ou como via alternativa. Investigue também o fluxo das matérias-primas.

— Sim, senhora!

Despachado o subordinado, Arte se curvou profundamente diante de nós.

— Ainda não é definitivo, mas a Companhia Traitre não tem relação com o caso. Ao contrário: pode-se dizer que é vítima dele.

Peço desculpas pelo transtorno.

— De modo algum. Considerando a situação, não havia outro caminho.

O culpado é quem fabricou uma porcaria dessas.

— Fico grata em ouvi-lo… Se o autor for encontrado, prometo que também as informaremos.

Depois disso, levadas de carruagem à sede da Companhia Traitre por providência de Arte, arrumamos rapidamente a oficina e decidimos encerrar o expediente cedo para ir jantar.

— Como é que isso foi acontecer?!

Gazal estava no gabinete da companhia com a cabeça entre as mãos.

— Merda! Que droga! Que droga! Se rastrearem a partir dos clientes a quem vendi o sabonete, chegam à minha companhia num instante.

O que está acontecendo?! Será que aqueles idiotas foram enganados com uma receita falsa?!

Merda! Merda! Merda!

Enquanto Gazal xingava, descontando nos que haviam roubado a receita, o corredor ficou barulhento.

— E-esperem, por favor! O senhor presidente está ausente no momento…

— Já confirmamos que o presidente Gazal está aqui.

Estamos com um mandado.

Se continuar a obstruir a investigação, o senhor também pode responder criminalmente.

— ………………

Pouco depois daquela voz, a porta da sala se abriu e homens armados entraram como uma avalanche.

— Gazal Jackman, presidente da Companhia Gazal. Queremos ouvi-lo a respeito do caso do sabonete tóxico e da invasão e furto na Companhia Traitre. Acompanhe-nos à Guilda Comercial.

Ao receber a notícia de que o autor do sabonete falsificado tinha sido preso, fomos à Guilda Comercial.

O culpado era a Companhia Gazal, que já operava nesta cidade antes de nós.

Segundo a investigação da Guilda Comercial, apurou-se que um homem chamado Gazal, presidente da companhia, ordenara a subordinados que roubassem a receita.

Da parte da Guilda Comercial, a pena seria a expulsão da guilda e a venda de Gazal como escravo criminoso.

Ocorre que, desta vez, minha companhia sofreu enorme prejuízo.

Sobretudo é grave o crime de manchar o nome da Companhia Traitre, que começava a firmar uma imagem de marca.

Foi para exigir indenização por esse dano que fomos hoje à Guilda Comercial.

Conduzidas por um funcionário da Guilda Comercial, entramos numa sala onde estava Gazal — um homem inchado como um sapo —, sentado numa cadeira com as mãos amarradas.

Quando entramos, Gazal nos encarou com ódio.

Sentei-me e devolvi o olhar.

— Reclamo do senhor uma indenização por ter manchado o nome da nossa companhia.

Ao ouvir isso, Gazal riu pelo nariz, com escárnio.

— Reconheço o meu crime, é verdade.

Mas não tenho a menor intenção de pagar dinheiro a uma pirralha como você. Como pirralha talvez não saiba, deixe-me ensinar: a Guilda Comercial tem poder coercitivo sobre crimes de companhias, mas não tem competência civil.

Isso é domínio da Igreja de Ibris. Se quer me obrigar a pagar, é melhor trazer um inquisidor da Igreja de Ibris.

Ignorando Gazal, que ria um “gá-rá-rá”, Mireille e eu, sentadas, soltamos um suspiro.

— Nesse caso, será o que faremos. Pode entrar, por favor.

Ao meu chamado, o senhor bispo entrou na sala em trajes de cerimônia.

— M-mas… b-bispo Luis… se-senhor… i-impossível, por que uma pirralha dessas…

— Modere as palavras, criminoso. A Senhora Ellie é uma devota verdadeiramente piedosa; manchar-lhe a honra injustamente é uma iniquidade que os deuses jamais perdoariam.

Que diabo de pirralha é essa?!

É um bispo!

O bispo Luis, único nesta cidade com a qualificação de inquisidor, é um homem ocupadíssimo.

Não existe a menor chance de ele se dar ao trabalho de vir a um caso ínfimo como este!

Desde que me meti com a Companhia Traitre é só coisa impossível.

Levado à Guilda Comercial, minha companhia foi vasculhada por busca compulsória e apareceram, uma atrás da outra, provas que eu deveria ter destruído — a ordem de roubo à Companhia Traitre — e provas de sonegação que deveriam estar escondidas.

Pensei em ao menos revidar um pouco e enrolar no pagamento da indenização, e eis que aparece um inquisidor que devia estar assoberbado.

Se um inquisidor der uma ordem em nome dos deuses, torna-se possível até o confisco compulsório de bens.

Merda! Merda! Só porque me meti com a Companhia Traitre…

Senti que meu destino tinha se esgotado e baixei a cabeça.

Por ordem do bispo Luis, a título de indenização pelo prejuízo sofrido, passaram a ser meus o controle acionário da Companhia Gazal, o patrimônio pessoal de Gazal e parte do valor de sua venda como escravo criminoso.

A Companhia Gazal, por conta do escândalo, faliu.

Funcionários, instalações, materiais — tudo foi absorvido inteiro pela minha Companhia Traitre.

As vítimas do sabonete falsificado se recuperaram com tratamento por magia de cura; enviei-lhes sabonete verdadeiro da Companhia Traitre a título de melhoras, prometi negócios futuros e assim depuseram as armas.

Dias depois, concluídos todos esses trâmites, Arte nos deteve quando saíamos da Guilda Comercial.

— Peço desculpas mais uma vez pelo transtorno desta vez.

— De modo algum, a culpa não é da Guilda Comercial. E, graças à senhorita Arte e à sua equipe, o caso se resolveu rápido e o prejuízo ficou no mínimo; eu é que agradeço.

Arte sorriu de leve e estendeu a mão.

— Muito obrigada, Presidente Ellie.

— Eu é que agradeço, Senhorita Arte.

Apertei a mão de Arte. Nisso ela baixou um pouco a voz e disse:

— Na verdade, isto apareceu enquanto interrogávamos Gazal: consta que houve um homem que instigou Gazal a roubar a fórmula do sabonete da Companhia Traitre.

Chama-se Grantz Carlton. Como a responsabilidade maior é do presidente Gazal, e como não há prova clara de que Grantz tenha instigado o furto, a Guilda Comercial não pôde puni-lo.

— Entendo. Agradeço a informação. Esse tal de Grantz, agora que a Companhia Traitre absorveu a Companhia Gazal, é funcionário da minha companhia.

Com toda a confusão deste momento, uma punição estrondosa também pesaria sobre a minha companhia; gostaria que o destino desse Grantz ficasse inteiramente a meu cargo.

Arte respondeu com um aceno.

— Compreendido. Então tenham cuidado.

Despedidas de Arte, Mireille e eu seguimos para a sede da antiga Companhia Gazal.

A placa da Companhia Gazal já tinha sido retirada; agora havia ali uma placa nova em folha, com os dizeres «Companhia Traitre».

— Estamos de volta.

— Bem-vinda, Presidente Ellie. Senhorita Mireille.

Quando entramos, os funcionários que trabalhavam de um lado para o outro baixaram a cabeça em uníssono.

São os que a investigação da Guilda Comercial isentou de envolvimento nos crimes e que, por isso, foram contratados pela Companhia Traitre.

Respondi com um leve aceno de mão, entrei na sala da presidência e me sentei numa cadeira de qualidade.

O mobiliário vulgar que havia neste cômodo já foi descartado, e Mireille o rearranjou com bom gosto.

— Mireille.

— Sim, vou chamar Grantz.

Lendo minha intenção, Mireille fez uma reverência e saiu.

Algum tempo depois, enquanto eu despachava serviços urgentes bebendo o chá que Mireille preparara ao voltar, soaram batidas discretas na porta da presidência.

— C-com licença.

E Grantz, com um ar meio inquieto, apareceu diante de nós.

— A-a senhora me chamou, Presidente Ellie?

Talvez pela tensão, Grantz deixava o olhar vagar e engolia em seco.

Compreensível.

O destino dele está hoje nas minhas mãos.

Se for demitido da companhia, amanhã está desempregado e, dadas as circunstâncias da demissão, tampouco consegue recolocação.

Mesmo sem virar criminoso, futuro decente ele não tem.

— Grantz.

Tirei da gaveta da mesa um saquinho que tinha deixado preparado e o pousei diante dele.

— Bom trabalho. Sua recompensa, como combinado.

Dentro do saquinho havia moedas de ouro.

Grantz o recebeu, afrouxando um pouco a tensão.

— Conforme o acertado previamente, vou lhe dar posição de destaque como diretor da Companhia Traitre.

Por algum tempo você trabalha como funcionário comum, mas, quando a poeira baixar, eu o promovo.

À Guilda Comercial direi que o senhor está profundamente arrependido e que o caso fica sem consequências.

— M-muito obrigado.

Só então Grantz relaxou de vez e soltou o ar.

Ele foi o primeiro contato que mandei Mireille fazer quando chegamos a esta cidade.

O primeiro deles — e foi Grantz que escolhi para o papel mais importante de todo este plano.

Grantz fechou um acordo comigo.

Para armar uma cilada em Gazal.

Instigá-lo a roubar uma fórmula incompleta de sabonete e, depois que Gazal foi levado, plantar em lugares fáceis de encontrar as provas da ordem de furto que eu tinha guardado e as provas de sonegação que estavam escondidas — pedi a ele que atravessasse uma ponte perigosa.

Gazal já fazia negócios sujos de longa data.

Mas o que Grantz fez também é um cinza a um fio do preto.

Se eu o traísse aqui, ele perderia tudo.

Foi engolindo todo esse risco que ele aceitou o acordo.

Sendo assim, também eu preciso corresponder.

— E-e então, Presidente Ellie…

— Eu sei. É a outra promessa, não é?

— S-sim, de verdade…

— Naturalmente, cumpro o que prometi. Podemos ir agora mesmo?

— Podemos! Por favor!

— Mireille, mande trazer a carruagem.

— Às suas ordens.

Levando Mireille e Grantz, toquei a carruagem e a fiz parar diante de uma casa.

Não era uma casa lá muito boa.

Bem, ainda assim incomparavelmente melhor que a antiga sede da Companhia Traitre, hoje usada como depósito.

Grantz destrancou a casa e abriu a porta.

— Cheguei.

— Você! Passou dias sem aparecer!

— D-desculpe.

— Eu sei que a companhia está num caos, mas… mas justo agora, com a Lunoa sofrendo desse jeito!

A mulher que estava em casa agarrou Grantz com os olhos cheios de lágrimas.

Era a esposa dele — o nome, se não me engano, era Lurie.

Ultimamente eu vinha usando Grantz para garantir a queda de Gazal.

— Senhora, peço desculpas.

O senhor Grantz vem trabalhando pela companhia sem dormir direito.

Ao me ouvir intervir, Lurie percebeu minha presença e me lançou um olhar desconfiado.

— …Ahn, e a senhora é?

— Perdoe-me por não ter me apresentado antes. Sou Ellie Leis, presidente da Companhia Traitre.

— O quê?!

— Também sei do estado da sua filha.

Mas o senhor Grantz vinha trabalhando pela companhia e, por consequência, pela própria família. Peço-lhe que compreenda.

— S-sim…

Lurie parecia ainda não totalmente convencida, mas de todo modo nos deixou entrar.

A filha de Grantz, ao que parece, sofreu um acidente grave havia alguns meses.

O tratamento por magia custa uma fortuna.

Não é, de forma alguma, quantia que Grantz pudesse reunir.

Ainda assim, para ao menos aliviar um pouco a dor da filha, Grantz juntava dinheiro como podia e comprava poções de cura para ela.

— E então, a que devemos a visita de hoje?

— Sim. Eu sei usar magia de cura.

Vim porque gostaria de tratar a sua filha.

— É-é verdade?!

Lurie arregalou os olhos de espanto, mas sua expressão logo se fez apreensiva.

— Só que nós não temos condições de pagar magia de cura…

— Não se preocupe. O senhor Grantz trabalhou com afinco pela minha companhia em meio a toda a confusão.

O tratamento é meu agradecimento por isso. Não vou cobrar nada.

Tirei um livro da bolsa que trazia a tiracolo.

— O que é isso?

— É um item mágico capaz de acumular poder mágico.

Usando o poder mágico armazenado nele, mesmo com 【Cura】 consigo tratar ferimentos bastante graves.

Mentira, evidentemente.

Aquilo era o artefato divino 【Grimoire Beelzebub】, que eu havia ativado de antemão.

Eu, que não tenho aptidão de afinidade luz, não consigo usar magia de cura poderosa; e Mireille, que tem essa aptidão, é boa em ilusões, não em cura.

Mas no 【Grimoire Beelzebub】 está registrada a poderosa magia de cura que colhi do sumo sacerdote do reino.

Usando-a, também eu consigo lançar magia de cura poderosa.

Guiada em seguida por Grantz, examinei o estado de Lunoa, a filha dele, deitada na cama no fundo do quarto.

Cortes profundos atravessavam os dois olhos; ela devia estar cega.

Braços e pernas cheios de ferimentos, e ainda com febre.

A consciência estava turva; no momento, era só à base de poções que ela se sustentava.

Apontei a mão para Lunoa e ativei o 【Grimoire Beelzebub】.

— 【Cura】.

Uma luz envolveu Lunoa; alguns segundos depois, quando se apagou, ali estava uma menina de respiração serena e sem ferimento algum.

— A magia de cura consome muito da vitalidade do paciente. Ela vai demorar a acordar, mas não se preocupem.

Quando acordar, deem-lhe comida nutritiva.

— M-muito obrigada.

— Muito obrigado, Presidente Ellie.

Os dois pareciam impressionados com o efeito da minha magia de cura.

Compreensível.

Ilustração

O que usei não foi 【Cura】, e sim 【Cura Superior】.

E não uma qualquer: a 【Cura Superior】 do arcebispo do templo da capital do reino, magia de outro patamar em relação à de um usuário comum.

Disse a Grantz e à esposa que reforcei a magia com poder mágico acumulado ao longo do tempo, e pedi, por garantia, que não comentassem.

Com isso, também o rescaldo do caso Gazal estava encerrado.

Foi assim que passei a ter uma companhia de porte razoável, canais de venda já estabelecidos, clientela e subordinados de lealdade elevada.

Como a base ficou bem assentada, está na hora de expandir os negócios de uma vez.

Diante de mim, Lucas contorcia o rosto com a expressão de quem aguenta uma dor de cabeça.

— Não deveria ter passado mais que meio ano e pouco…

Entre mim e Lucas havia uma mesa baixa.

Só que, no momento, sobre essa mesa se empilhavam moedas de ouro reluzentes, tantas que transbordavam.

— Sim. Mas, como vê, já consegui levantar as moedas de ouro combinadas.

— O que é preciso fazer para, em uns meros seis meses, transformar cem moedas de ouro nessa fortuna toda…

— Rá-rá-rá. Eu não avisei? Que traria imensos benefícios ao senhor.

Lucas soltou um suspiro e assumiu uma expressão um tanto séria.

— Senhorita Elizabeth… não, daqui em diante devo chamá-la de Presidente Ellie.

De agora em diante pode circular livremente por onde quiser dentro do Império, a capital imperial inclusive.

Devia ser esse o jeito natural dele. Lucas falou num tom um pouco mais solto, como quem se dá por vencido.

— Ora, o senhor permite?

— Permito. Fiquei sabendo do mandado de captura no reino.

A esta altura não vou achar que sua fuga era uma manobra do reino.

— Fico feliz com sua compreensão.

E, diante de um Lucas de cara cansada, curvei-me com elegância.

Despedida de Lucas, voltei à companhia e fui assinando alguns balanços na sala da presidência.

— Senhorita Ellie, o chá está pronto.

— Obrigada, Mireille.

Recebi a xícara e, enquanto bebia, entreguei a Mireille o documento que acabara de assinar.

— A doação ao templo?

— Sim. Esta aqui é melhor que eu ou você entreguemos pessoalmente.

A doação ao templo tinha por objetivo, sim, arrancar de lá um inquisidor assoberbado; mas a Igreja de Ibris é professada em quase todo o continente ocidental e o continente central, e em parte do continente setentrional. Ter do meu lado uma Igreja de Ibris tão influente é conveniente daqui em diante.

Homens de fé também são homens: para viver, precisam de dinheiro. Mais ainda se criam crianças.

Não que ajam por dinheiro — mas, enquanto eu não estiver em falta, a Igreja de Ibris há de me proteger.

Assinei o documento seguinte, coloquei-o na caixa dos despachados, e soaram batidas na porta.

— Pode entrar.

— Com licença.

Quem entrou foi uma menina de uns dez anos.

— Presidente Ellie, trouxe o material sobre a capital imperial.

— Bom trabalho, Lunoa.

Ela é Lunoa, a filha de Grantz.

Ao acordar, talvez por efeito de ter sido banhada pelo meu poder mágico, Lunoa passou a usar uma magia especial, diferente da magia de afinidade e da magia cotidiana: a chamada magia inata.

É coisa rara, mas há casos confirmados de aptidões adormecidas que despertam ao se receber uma torrente de poder mágico ou um choque emocional.

O que despertou em Lunoa foi uma magia inata chamada 【Item Analysis】.

Magia extremamente útil para uma comerciante.

Por isso decidi manter Lunoa por perto, como aprendiz da Companhia Traitre, e ensinar-lhe magia eu mesma.

Recebi o material, entreguei a ela os papéis destinados a Grantz e a despachei.

— A capital imperial… é?

— Sim. Já que consegui a autorização de deslocamento do Senhor Lucas, vamos tirar proveito dela.

Concentrei poder mágico na mão esquerda.

— Artefato divino: 【Grimoire Belphegor】.

O poder mágico foi ganhando forma até virar um grimório azul.

Folheei o 【Grimoire Belphegor】 — o Grimório da Preguiça — até a página desejada, levantei-me com uma moeda de prata na mão e fui até o centro da sala; Mireille recuou em silêncio para junto da parede.

— Aos grandes espíritos eu pergunto: que ser é a asa que cruza o firmamento distante? Ó emissário do deus dos ventos e das viagens.

Eu, conforme o pacto, ofereço uma moeda de prata em oferenda. 【Invocação: Saint Bird】.

A moeda de prata que eu tinha na mão virou pó de luz e sumiu no vazio, como se derretesse.

Em seu lugar desenhou-se um círculo mágico reluzente, do qual surgiram quinze pássaros brancos e belos, de cauda longa.

O 【Grimoire Belphegor】 é o grimório dos pactos.

É o grimório que permite firmar pacto com seres dos mundos vizinhos ao nosso — o mundo dos espíritos, o mundo demoníaco — e tomar-lhes emprestada a força mediante pagamento.

Amarrei nas patas dos Saint Birds as cartas que havia preparado.

— Muito bem, pessoal. Conto com vocês.

Os Saint Birds alçaram voo em bloco pela janela que Mireille abriu.

Para avançar sobre a capital imperial é preciso muita gente competente.

E é para isso que vou reunir os antigos membros da companhia, hoje espalhados.

Depois que os Saint Birds sumiram de vista, voltei o rosto para Mireille.

— Assim que os preparativos ficarem prontos, marchamos sobre a capital imperial.

◇◆☆◆◇

«Ah, senhora bruxa. Benfeitora que me salvou a vida, e minha mestra.

Leve-me consigo, eu lhe suplico, na sua jornada.»

«Não sei se há glória no fim desta jornada. Talvez o fim de todo esse sofrimento seja apenas um cadáver largado à toa.

Lunoa, ainda assim você pretende caminhar comigo?»

«Evidentemente. Se houver trevas à espera no caminho que a senhora trilha, sou eu quem as expulsará.»

«Está bem. Vamos juntas.

Rumo à nossa jornada. À jornada que acenderá uma luz neste mundo.»

De autoria de Birk Scheer

Peça «A história de Lunoa Carlton, a mercadora do ermo»

Abertura do primeiro ato, «O encontro de Lunoa com a Bruxa de Prata»


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