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A Livid Lady’s Guide to Getting Even – Volume 1 Capítulo 1

Capítulo 1 — Fuga

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Capítulo 1 — Fuga

Vingar-me da pátria.

Uma vez tomada a decisão, o certo é passar imediatamente à ação.

Para abandonar o reino, dei a Mireille algumas instruções e lhe pedi que cuidasse dos preparativos.

— Encarregue-se de articular os bastidores desses pontos.

— Às suas ordens. E quanto à companhia, como devemos proceder?

— Deixe-me ver…

Sua Alteza Friede… não, para um sujeito daqueles, Friede basta.

Friede vem trocando os diretores da minha companhia por gente de sua confiança e, no fim das contas, deve pretender tomar o controle efetivo dela. Nesse caso…

— Não faz mal. Instrua-os a aceitar a substituição dos diretores.

Os diretores que me apoiam serão demitidos ou rebaixados, então tire-os do país aos poucos, cada um por uma rota diferente, e reúna todos depois de algum tempo. Dê prioridade aos principais nomes da gestão e aos técnicos competentes.

Quando minha base estiver montada lá fora, eles voltam a trabalhar para mim.

— Às suas ordens. Darei as instruções nesse sentido.

— E vamos deixar algumas pessoas na capital, para coletar informação.

— Sim. Deixaremos aquele homem, com alguns bons no ofício ao lado dele.

Respondi às palavras de Mireille com um aceno de cabeça. Como oficialmente não existe vínculo entre nós, não digo o nome dele — mas ele há de se sair bem.

— A execução fica para cinco dias, pouco antes de a comitiva do rei voltar. Conto com você, Mireille.

— Confie em mim. Que os deuses abençoem o novo caminho da senhorita.

Mireille recebeu as instruções com uma frieza que fazia parecer mentira a explosão de pouco antes, e curvou-se profundamente.

— ………………

— O que foi, Mireille?

— Sim. Se me permite o atrevimento… seria conveniente dar um jeito naquela parede.

— …………Ah.

É verdade.

Ao que parece, eu também estou mais exaltada com a própria decisão do que imaginava.

Sendo que, até tudo estar pronto, o certo seria passar estes dias sem nenhum incidente.

Preciso disfarçar a parede que estilhacei há pouco com um punho carregado de poder mágico — do contrário, é encrenca.

— Não tem jeito. Vamos consertar.

Ativei o poder mágico do meu corpo com toda a força e o concentrei na mão esquerda.

Todo ser vivo deste mundo carrega poder mágico dentro de si, e ao método de controlá-lo pela razão e pela teoria os homens deram o nome de magia.

E o ponto final a que chega quem manipula o poder mágico é a geração de um artefato divino.

Materializar o poder mágico que habita em si e dar forma concreta a um instrumento dotado das mais variadas capacidades.

A forma do artefato divino muda de pessoa para pessoa: gostos, caráter e experiências de quem o gera alteram tanto os poderes que se manifestam quanto o formato. Ainda assim, na esmagadora maioria dos casos ele assume a forma de uma arma ou de uma armadura.

Isso porque quem treina o poder mágico a ponto de chegar à geração de um artefato divino é, quase sempre, gente que vive de lutar: cavaleiros, aventureiros.

Fora esses, restam alguns pesquisadores com um parafuso a menos e uns poucos nobres talentosos que acumularam treino desde a infância.

Ou seja: o artefato divino é, em regra, uma capacidade de combate.

Mas, naturalmente, existem exceções.

Embora o artefato divino seja essencialmente força de combate, raramente aparece alguém em quem se manifesta um poder sem relação alguma com a luta.

Meu artefato divino, 【Grimoire Wisdom】 — o Grimório da Sabedoria —, é uma dessas exceções.

Este artefato em forma de livro tem por poder registrar os volumes que passam por minhas mãos e as informações que vejo e ouço, e, a partir desse registro, decifrar e traduzir…………………… é o que se acredita.

Desde que dominei meu artefato divino, nunca revelei ao rei nem ao meu pai qual é sua verdadeira capacidade.

Registrar e analisar informação não passa de uma fração ínfima do que ele faz.

Sete grimórios, cada um com um efeito poderoso — 【Grimoire Sevens】, os Sete Grimórios — é esse o meu verdadeiro artefato divino.

Esconder o próprio trunfo é o mais básico do mais básico para quem sobrevive na sociedade nobiliárquica.

Do meu próprio pai… não, daqui em diante vou chamá-lo de o duque. Um sujeito daqueles já é um estranho.

Do duque, meu próprio sangue, escondi o verdadeiro artefato divino; e mesmo a Mireille, em quem mais confio, só revelei quatro dos sete poderes.

Hm. Pensando bem, talvez eu nunca tenha confiado em ninguém, sem sequer me dar conta disso.

— Artefato divino: 【Grimoire Beelzebub】.

O poder mágico reunido na minha mão esquerda se converteu num grimório carmesim.

Um dos 【Sete Grimórios】: o Grimório da Gula. O poder deste volume é o registro de magias.

Registrando a magia de outra pessoa, torna-se possível empregar magias para as quais não se tem aptidão.

É por causa desse artefato que eu, de afinidade água, consigo usar 【Hipnose】, uma magia de afinidade trevas.

Folheei 【Grimoire Beelzebub】 até a página que me interessava.

— 【Muro de Pedra】.

Usando o poder do grimório, disparei uma magia de afinidade terra e fui recompondo a parede de pedra destruída do calabouço.

— Pronto. Deve servir.

Encoberto o rastro do estrago, esperei Mireille sair do calabouço e desfiz a 【Hipnose】 do guarda de vigia.

— …?

Sob o olhar de esguelha do guarda, que inclinava a cabeça de boca aberta diante das próprias lembranças confusas, eu ia arquitetando o plano para esmagar este reino.

— Ufa. Enfim de volta.

— Pois é. Bem, quanto à administração, com a Elizabeth por lá não deve haver maiores problemas…

— Gá-há-há! Não é que as coisas andam mais lisas do que quando sou eu a governar? Aposto que os funcionários estão radiantes.

Brato, homem de têmpera guerreira, riu com estardalhaço da própria piada às próprias custas.

— E então, onde se meteu o Friede? Aposto que levou mais um sermão da Elizabeth e está de mau humor por aí.

Diante da pergunta de Brato, um dos funcionários encarregados do reino durante a ausência dos dois relatou enxugando o suor que lhe brotava sem parar.

— É-é que… Sua Alteza Friede saiu com a senhorita filha do barão Lockit para… bem… uma i-inspeção no domínio direto da Coroa.

“Inspeção no domínio direto” era a maneira que aquele funcionário encontrou de embrulhar a coisa em papel de seda.

Na prática, era só um passeio.

— O quê?! Havíamos avisado que voltaríamos hoje ao castelo! O que a Elizabeth está fazendo?! Cuidar da agenda do Friede é obrigação dela!

— É-é que a Senhorita Elizabeth está no calabouço, por ordem do Senhor Friede…

— Como assim?! Ela ainda não saiu do calabouço?!

Diante disso, até Sieg, o primeiro-ministro, deixou escapar um som de espanto.

Não era indignação por a filha estar encarcerada num calabouço havia mais de um mês: era espanto por Elizabeth, tendo tido mais de um mês, não ter escapado de lá.

— Leve-nos até a Elizabeth!

Brato arrastou Sieg consigo e desceu às pressas para o calabouço.

Lá embaixo, um único guarda, o rosto tomado de perplexidade, recebeu Brato encolhendo-se todo.

Brato entendia perfeitamente que aquele guarda não tinha culpa nenhuma; por mais mal-humorado que estivesse, não o repreendeu.

— Muito bem. Onde está a Elizabeth?

— S-sim, ela está naquela cela, mas………

— O que houve?

Sieg indagou diante da hesitação do guarda.

Sieg é o primeiro-ministro e, além disso, pai de Elizabeth. O guarda relatou a situação com um ar de sincera contrição.

— É-é que………… a Senhorita Elizabeth está sentada naquela cadeira há dois dias, sem se mover.

Não passa os olhos nos documentos que trazemos a pedido dela, nem sequer toca nas refeições.

— O quê?!

Quando Brato e Sieg chegaram à frente da cela de Elizabeth, lá estava ela sentada numa cadeira, de costas para eles.

Brato e Sieg a chamaram, mas Elizabeth não devolveu reação alguma.

Diziam que ela não comia havia dois dias; no entanto, dali, a cor da pele parecia a de alguém em plena saúde.

— Elizabeth, responde de uma vez! Ei, abram a cela!

— P-perdão, senhor. A chave da cela da Senhorita Elizabeth foi levada pelo Senhor Friede…………

— Tsc!

Brato estalou a língua, irritado, e ergueu a mão direita.

Um poder mágico capaz de fazer o ar vibrar girou em turbilhão e, ao se condensar na mão de Brato, tornou-se um espadão grosso e crepitante de eletricidade.

— Artefato divino: 【Grazamiech】.

Com um “hmpf”, Brato desferiu um golpe: ressoou um estrondo de raio e as barras de ferro, grossas como o braço de uma mulher, foram fatiadas com a facilidade de uma faca quente na manteiga.

Devolvido o artefato divino ao estado de poder mágico, Brato e Sieg se aproximaram de Elizabeth, que nem sequer se mexera com todo aquele alvoroço.

— Elizabeth.

Sieg pousou a mão no ombro da filha.

— Hm? Frio?

Nesse instante, tendo por centro a palma de Sieg, rachaduras correram pelo corpo de Elizabeth.

E então, deixando atrás de si um leve tilintar de vidro, Elizabeth se despedaçou em mil pedaços.

— M-mas o quê?!

— Isto é um 【Boneco de Gelo】?!

Sieg recolheu os cacos de gelo que tinham sido Elizabeth e os examinou.

— Restou poder mágico da Elizabeth. Ela deixou de se alimentar há dois dias; foi de lá para cá que a substituição pelo 【Boneco de Gelo】 aconteceu…………

— Então onde está a Elizabeth de verdade?

— …………

— …………

Nem Sieg nem o guarda tinham como responder àquela pergunta.

O rosto rude de Brato ficou lívido.

Era de se esperar.

Se ela, envolvida até o pescoço com o núcleo deste país — da administração ao militar —, havia desaparecido, o caos no governo era inevitável.

Além disso, o artefato divino de Elizabeth, 【Grimoire Wisdom】, tinha registrado tudo: mapas, população e outros segredos militares, os livros de artes secretas que dormem no acervo proibido do castelo, os documentos antigos com as técnicas da civilização antiga.

— P-procurem! Procurem a Elizabeth imediatamente!

No dia da fuga, eu me arrumava no calabouço a que já havia me acostumado bastante.

O guarda já estava sob 【Hipnose】.

— 【Boneco de Gelo】.

Com a magia, criei sobre a cadeira uma boneca de gelo à minha imagem.

Coloquei nela uma quantidade razoável de poder mágico; se ninguém tocá-la, deve durar uns dez dias.

Até o rei e o duque voltarem ao castelo, dentro de dois dias, não há como descobrirem.

— Ah, quase esqueci isto.

Retirei do pescoço o grilhão selador de magia que me haviam prendido e o coloquei no 【Boneco de Gelo】.

Friede o pôs em mim pretendendo selar minha magia mas, infelizmente para ele, não funciona comigo.

Afinal, quem fabricou este grilhão selador de magia fui eu.

É um artefato mágico antigo, restaurado a partir da análise dos documentos antigos guardados no acervo proibido, nos subterrâneos deste castelo.

Naturalmente, como previ a possibilidade de que um dia me algemassem com ele, ainda na fase de projeto arranjei as coisas para que suas funções parassem ao reagir ao meu poder mágico.

— Muito bem, vamos. Mireille.

— Sim.

Saí do calabouço na companhia de Mireille.

Pelo que arranquei do guarda sob 【Hipnose】, a chave da minha cela tinha sido levada por Friede; mas, com magia à disposição, fazer uma cópia de gelo é o mais simples do mundo.

Tranquei a cela de novo e deixei o calabouço para trás.

A 【Hipnose】 do guarda se desfaz em pouco tempo.

Do calabouço, Mireille e eu subimos a escada para a superfície e chegamos diante da porta que dá para o corredor.

Faz um mês que não venho até aqui.

Senti a raiva contra Friede se remexer no meu peito, arrepiante.

Desde aquele episódio, tenho a impressão de reconhecer melhor as próprias emoções.

Segundo Mireille, é como se eu tivesse ficado mais expressiva.

— Mireille.

— Sim. 【Miragem】.

Mireille tem aptidão para magia de afinidade luz.

【Miragem】 é uma magia de afinidade luz que manipula a luz para falsear a aparência ou apagá-la por completo.

— Vamos.

Invisíveis, atravessamos o castelo real com toda a calma e escapamos sem dificuldade para fora de seus muros.

Lucas Lebrick terminou de redigir o relatório que enviaria à pátria, largou a pena, apertou o canto dos olhos e os fechou com força.

Foi assim, disfarçando o cansaço, que molhou a garganta com um chá.

— Ah. Enfim posso voltar ao Império.

Neste momento eu estava, na condição de chefe de uma casa de viscondes, destacado como embaixador no Reino de Haldoria, país vizinho.

Minha pátria, o Império de Yutear, é um país jovem — pouco mais de cem anos desde a fundação —, mas também uma potência que expandiu suas forças num piscar de olhos, colocando os países ao redor sob sua asa na condição de vassalos.

Neste continente, país com força suficiente para enfrentá-lo de frente talvez só exista um: o Reino de Haldoria.

E mesmo com esse reino a grande guerra de cinco anos atrás terminou empatada em prejuízo mútuo; hoje mantemos intercâmbio como nações amigas (ao menos na aparência).

Sou um homem que herdou, aos dezesseis anos, uma casa de barão de toga — sem território algum —, porque meu pai, o antigo chefe da casa, morreu de repente num acidente.

E, pouco depois de fazer vinte, fui subitamente convocado pelo imperador que, sob o pretexto forçado de “recompensa pelo trabalho diário”, me elevou a visconde e me concedeu, perto da fronteira com o reino, um território excepcionalmente grande para o posto.

Contado assim, quase soa como a ascensão de um jovem nobre; mas eu compreendia perfeitamente que a verdade era outra: um sujeito jovem e sem padrinhos de peso havia sido simplesmente instalado ali como muro de contenção contra um reino com que a tensão nunca cessa.

O serviço desta vez era comparecer, como embaixador do Império, à festa do aniversário da fundação do Reino de Haldoria.

Depois de atravessar o ermo da zona-tampão com o traseiro castigado pelos solavancos da carruagem, cheguei à capital do reino, e lá estava eu, num canto da festa, trocando amenidades cordiais com nobres do reino que eu não suportava.

O que voava de um lado para o outro era a linguagem cortesã — culta, erudita, ornamentada com beleza artística —, mas o conteúdo não passava de um duelo de ofensas e alfinetadas digno de briga de criança.

Houve tempo em que alimentei o ideal de me tornar um nobre orgulhoso como meu pai.

Só que, agora que sou chefe de uma casa nobre, o que faço é bajular gente e brigar por palavras.

Quando eu deixava escapar discretamente um suspiro por aquele trabalho enfadonho, um alvoroço irrompeu no centro do salão.

Nada menos que o príncipe herdeiro do reino acusando a própria noiva, filha de uma casa ducal, e anunciando que se casaria com uma filha de barão saída sabe-se lá de onde.

(Ei, ei, esse príncipe é idiota? Fazer um papelão desses num lugar público como este.)

Só pelo que meus olhos alcançavam já dava para ver muito bem os convidados que não eram nobres do reino lançando ao príncipe olhares de escárnio e desprezo.

A noiva, filha do duque, tentou cobrir o príncipe, mas ele não deu ouvidos: mandou os guardas levarem a própria prometida e, ali mesmo, declarou noivado com a filha do barão.

Diante daquela postura empertigada, sem o menor sinal de constrangimento, os nobres do reino se dividiram: uns com cara de quem mastigou algo amargo, outros com a cabeça entre as mãos, outros ainda com um sorriso maldoso nos lábios.

Os convidados dos outros países ou estavam pasmos com o escândalo do príncipe, ou seguravam o riso.

Nem eu imaginava que uma coisa dessas fosse acontecer.

Afinal, aquela jovem dama não é o talento de que todos falam?

Por trás de cada avanço do reino nos últimos anos sempre esteve a figura dela.

Na guerra passada, com apenas dez anos, foi o comando dela que causou sabe-se lá quanto estrago ao nosso Império.

Descartar um trunfo desses por vontade própria… como cidadão do Império, é de não parar de rir.

Encerrada a festa daquele jeito, voltei à embaixada cedida ao Império dentro do reino e me pus a redigir às pressas o relatório sobre o tumulto.

Passado pouco mais de um mês, o trabalho no reino enfim chegava ao fim e eu já me preparava para pegar a estrada de volta no dia seguinte.

— S-Senhor Lucas.

— Hm? O que houve a esta hora?

Um dos criados que eu trouxera como acompanhante entrou apressado no meu gabinete.

— É-é que… há uma visita…

— Uma visita? Não havia nenhum compromisso marcado. Quem é?

— É-é que…

Ao ouvir do criado o nome de quem me visitava, levantei-me de um salto e corri para a sala de audiências.

Diante da porta, recompus a respiração e a abri.

— Perdoe a demora, Vossa Majestade Brato.

Assim que entrei, o rei do Reino de Haldoria, Sua Majestade Brato, que aguardava sentado numa cadeira, voltou o olhar para mim.

Sua Majestade Brato me esperava sem escolta alguma, apenas com uma dama de companhia postada às suas costas.

Mas era estranho.

Sua Majestade Brato deveria estar fora do país, participando de uma reunião de emergência sobre a catástrofe de monstros ocorrida nas redondezas.

De fato o retorno estava previsto para breve, mas eu não havia recebido nenhum aviso de que ele já tivesse voltado.

— Mas o quê?!

Enquanto eu me sentava, revirando a cabeça em busca da intenção de Sua Majestade Brato, eis que ele se levantou e curvou a cabeça diante de mim.

Ainda que eu seja embaixador de um Império de força equivalente… não: justamente por ser embaixador de um Império de força equivalente, ele jamais poderia mostrar fraqueza.

— Antes de mais nada, peço desculpas por solicitar uma audiência a esta hora e desta maneira.

Do rosto rude e marcial de Sua Majestade Brato brotou uma voz graciosa, como o tilintar de um guizo rolando.

— Como?

— Mireille.

Quando Sua Majestade Brato chamou pelo nome a dama de companhia às suas costas, com aquela voz de estranheza quase sinistra, ela fez uma reverência profunda e bateu palmas de leve, uma só vez.

Ou usou uma magia, ou desfez uma.

Bater palmas não devia ser necessário; ela o fez de propósito, para me deixar ciente da magia.

Ou seja, indicava nas entrelinhas que aquela magia não era usada com intenção de me causar dano.

— …?!

Feita essa leitura, ao devolver a Sua Majestade Brato o olhar que dirigia à dama de companhia, tive de engolir mais uma vez um som de espanto.

A figura de Sua Majestade Brato, que deveria estar ali, havia desaparecido, e em seu lugar estava uma jovem bela e graciosa.

— E-Elizabeth… Senhorita Elizabeth…

Aquela jovem era Elizabeth Leiston.

A jovem dama que devia estar por trás da prosperidade do reino.

E que, neste momento, deveria estar encarcerada: a ex-noiva do príncipe herdeiro.

Curvei-me profundamente diante do visconde Lucas Lebrick, embaixador do Império de Yutear, que estava à minha frente de boca escancarada, e pedi desculpas pela descortesia.

Eu havia falseado a aparência, falseado a condição e vindo procurar sem hora marcada um dignitário do país vizinho.

Descortesia tamanha que, dependendo do caso, se ele me atacasse no instante em que revelei minha identidade, eu não teria do que reclamar.

Por isso, tratei de garantir a condução da conversa antes que a cabeça dele voltasse a funcionar normalmente.

— Há quanto tempo, Senhor Lucas. Sou Elizabeth, da casa ducal Leiston.

— Ah… é… é, há quanto tempo, Senhorita Elizabeth.

— Peço mais uma vez perdão pela grosseria de solicitar audiência sob outra aparência. Rogo-lhe que me desculpe.

Deixei registrado o pedido de desculpas com firmeza, uma segunda vez.

Na sociedade nobiliárquica, reconhecer uma falta é o mesmo que expor uma fraqueza.

Se aquilo fosse um cenário diplomático, não dá para saber que concessões o Império me arrancaria.

Por isso eu peço perdão enquanto ele está confuso.

Assim, tratando-se de um jovem nobre criado como um cavalheiro, as palavras que se dirigem a uma jovem dama cabisbaixa e contrita são sempre as mesmas.

— A-ah, bem… posso, ainda que em parte, imaginar a complexidade da situação da Senhorita Elizabeth. Não se preocupe com isso.

— Agradeço a generosidade das palavras do Senhor Lucas.

Com isso, ele acaba de me perdoar sem extrair concessão alguma.

Se fosse um nobre astuto e experiente, deixaria a resposta no vago, poria o meu pedido de desculpas de lado e começaria a sondar a partir do assunto que me trouxe.

Nesse quesito, Lucas ainda é jovem — e brando.

Uma vez concedido o perdão, trazer “esse episódio” à baila daqui em diante seria, aos olhos da nobreza, uma “falta de compostura”.

Se basta baixar a cabeça para transformar um saldo negativo em zero, o preço é baratíssimo.

Daqui em diante, não preciso mais do orgulho de quem carrega um país nas costas.

— Pois bem, Senhorita Elizabeth. A que devo a visita a uma hora tão avançada?

Aliás: a senhorita não deveria estar encarcerada?

Lucas ia recobrando um pouco a calma.

Mas ainda não havia percebido que descartara à toa uma carta que tinha contra mim.

Escondendo o que se passava por dentro, falei com um leve sorriso nos lábios:

Ilustração

— Sim. A verdade é que gostaria que o senhor me concedesse asilo no Império.

Lucas parou de se mexer no ato.

Nada mais natural.

Uma jovem dama de casa ducal — não é o caso de um soldado raso ou de um nobre menor.

E, ainda por cima, alguém profundamente envolvida com o núcleo do governo.

Isso não é público, evidentemente, mas o Império certamente já apurou algo desse teor.

— …………I-isso… a senhorita está falando… a sério?

— Certamente a sério.

— D-de fato, a conduta de Sua Alteza o príncipe herdeiro naquela festa foi… com todo o respeito, um tanto além do tolerável. Mas Sua Majestade o rei e o senhor primeiro-ministro, seu pai, estão de volta a qualquer momento.

Feito isso, não deixaria de haver problema algum?

— Sim. É certo que, com o retorno de Sua Majestade e dos demais, o noivado de Sua Alteza com a tal senhorita seria anulado no ato e o meu noivado, restabelecido. Só que é justamente essa irresponsabilidade que eu não posso perdoar.

Chegou ao meu limite.

Decidi deixar o país — e me vingar dele.

— Vingar-se?!

— Sim. O Senhor Lucas há de saber dos boatos a meu respeito que circulam agora pela cidade baixa?

— Isso… bem, sim.

— Depois de me fazerem até isso, esperar que eu passe tudo em branco e continue trabalhando… não lhe parece uma pretensão um tanto conveniente?

— …………………

— É por isso que vou me vingar.

Concretamente………… vou destruir este país.

— O quê?!

Lucas soltou mais um som de espanto — nem sei qual o número do dia.

— Mas uma coisa dessas atinge também o povo, evidentemente.

A senhorita se dedicou ao povo até hoje.

Tem mesmo certeza?

— Tenho. O rancor que dirijo diretamente é contra Sua Alteza, contra Sua Majestade, depois contra o primeiro-ministro e os ministros, e talvez contra o Robert. É certo que o povo também será muito afetado. É possível que resultem danos irreparáveis.

— …………………

— Mas………… há algum problema nisso?

— …?!

— É verdade que trabalhei pelo povo, como dever de quem nasceu nobre.

Só que fui traída. Todo o esforço e todo o tempo que dediquei a este país e a este povo foram jogados fora como lixo.

E eu, que deixarei de ser nobre, não tenho nenhum dever incondicional de proteger o povo.

Naturalmente, não pretendo feri-lo de forma deliberada — mas também não pretendo protegê-lo.

— Ah… entendo.

Repeti a pergunta a Lucas, que recuara um pouco:

— Pois bem: o senhor me concederá asilo?

— Isso…

Lucas levou a mão ao queixo e mergulhou em pensamento.

— Não estou pedindo para ser recebida como figura de peso no Império.

Basta que o senhor me esconda em suas terras, no território do visconde Lebrick.

— …………Por que o Império? Império e reino hoje são cordiais na superfície, mas por baixo d’água são inimigos hipotéticos que vivem se medindo.

Já que é para ir embora, não seria mais fácil se mover em outro país, ou mesmo num do outro continente, do outro lado do mar?

— É certo que me mover livremente no Império será difícil.

Mas o meu objetivo não é fugir: é me vingar do reino.

Cortei a frase ali e, depois de uma pausa, prossegui:

— O Reino de Haldoria é uma potência. O rei só tem músculo, mas, em matéria de guerra, é um gênio.

O grau de treinamento da tropa é alto e, a começar pelo primeiro-ministro, a cúpula é toda de gente competente.

Por mais que eu seja quem sou, enfrentá-los de frente não me deixaria nem mexer as mãos e os pés.

— ………………Ou seja, a Senhorita Elizabeth quer a força militar do Império?

Os olhos de Lucas se estreitaram e o poder mágico que envolvia seu corpo se transformou em algo espinhoso e afiado.

— …?!

Contive com uma das mãos Mireille, que ia entrar em posição de combate, e sorri para Lucas.

— É verdade que penso em me servir do Império.

Mas não no sentido de usá-lo como ferramenta descartável.

Eu destruo o reino. Todo o lucro obtido nesse processo — os «espólios» — será entregue ao Império. Um toma lá, dá cá, digamos assim: para mim, a vingança; para o Império, a glória.

Uma relação de proveito mútuo — é isso o que desejo.

— …………É uma proposta bastante agradável aos ouvidos.

— Sim, mas é a verdade.

Para alcançar o meu objetivo, o Império, com força nacional capaz de rivalizar com o reino, é a melhor opção.

— …Entendo.

— Além do mais, eu trarei imensos benefícios ao senhor.

Abri para Lucas um sorriso radiante.

Lucas recolheu o poder mágico e soltou o ar dos pulmões.

— Está bem, compreendi.

Vou ajudar a Senhorita Elizabeth a obter asilo.

Contudo, não posso levá-la de uma vez à capital imperial.

Por ora, virá às minhas terras.

Além disso, por algum tempo imporei limites ao seu raio de ação, e também colocarei vigilância sobre a senhorita.

Assim lhe convém?

— Sim, evidentemente.

Alguém que era figura central do reino circular à vontade pelo Império seria pedir demais.

O primeiro passo deve ser conquistar a confiança de Lucas e acumular força.

— Conto com o senhor, Senhor Lucas.

Uma carruagem apareceu no portão norte da capital do reino.

Não era suntuosa, mas, olhando com atenção, via-se que empregava materiais caros; um veículo de primeira, puxado por cavalos igualmente de primeira linha.

— Alto!

Os soldados que guardavam o portão norte detiveram a carruagem.

O procedimento normal seria uma inspeção simples; mas, quando o cocheiro tirou um documento e o entregou aos soldados, eles se aprumaram às pressas.

— O senhor visconde Lucas, embaixador do Império de Yutear?! Perdoe-nos!

Depois de trocar mais algumas palavras com o cocheiro, os soldados abriram o portão no ato e despacharam a carruagem.

Eu observava a capital do reino diminuir pela fresta da cortina da janela; então me aproximei de Mireille, sentada em silêncio, e me voltei para Lucas, à minha frente.

— Como se esperaria de um embaixador do Império. Sozinha eu jamais conseguiria sair da capital com tanta facilidade.

— Que gracejo. A Senhorita Elizabeth escapou brilhantemente da capital, não foi?… servindo-se de nós.

Lucas disse aquilo com um sorriso amarelo.

Sim, é ironia.

— De todo modo, o número de escoltas não é um tanto reduzido?

Uma mudança de assunto escancarada — mas Lucas entra no jogo.

— Não tem jeito.

Minha casa até é grande para os padrões de uma casa de viscondes, mas não dispõe de tanta força assim.

Se quero número, falta qualidade; se quero qualidade, falta número.

É de dar dor de cabeça.

— Ou seja, eles são veteranos de talento reunidos ao custo de sacrificar o número?

A escolta do Senhor Lucas eram apenas cinco homens.

Todos a cavalo, correndo ao lado da carruagem.

Claramente pouco para o representante de uma nação.

— Exatamente.

Em termos de força, cinco fortes inspiram mais confiança do que vinte fracos………… e o custo de manutenção também sai mais barato.

— Ah… Mas o senhor veio por ordem do Estado, como emissário do Império. Não lhe cedem ao menos uma escolta do exército imperial ou da ordem de cavaleiros?

— É que não cedem mesmo.

Lucas soltou um suspiro fundo e levou a mão à cabeça, como quem aguenta uma enxaqueca.

— Eu era originalmente um nobre de toga, sem território; foi só recentemente que me elevaram de título e me concederam terras, do nada.

Ouvindo até aí, a conta é simples.

— Ou seja: o Senhor Lucas, jovem e fácil de conduzir, foi posicionado como escudo contra o reino e, de quebra, jogaram em seu colo o trabalho incômodo de lidar com ele?

— Ha-ha-ha! A senhorita fala sem rodeios.

Bem, é exatamente isso.

Lucas não repreendeu meu jeito de falar sem papas na língua; abriu um sorriso amarelo.

— De fato é um papel incômodo e perigoso, mas também é uma posição que, se bem conduzida, rende avaliação lá em cima.

Na minha geração é difícil, mas na geração dos meus filhos o título de conde não é nenhum sonho impossível.

Lucas deu de ombros e sorriu de leve.

Levamos então alguns dias para atravessar o ermo da zona-tampão e chegamos à cidade-sede do território do visconde Lebrick, no extremo sul do Império.

Os monstros que apareceram pelo caminho foram prontamente abatidos pelos cinco escoltas.

Como Lucas dissera, eles parecem mesmo ser bastante capazes.

Transposto o portão da cidade-sede, a carruagem seguiu em linha reta pela avenida principal, rumo à residência do visconde, no centro urbano.

Nos olhares que o povo dirigia à carruagem que avançava pela avenida guiada pelos cavaleiros, sentiam-se respeito e gratidão.

— O senhor é bastante popular.

— É que tenho certa confiança de que governo bem.

Lucas sorriu com um quê de orgulho.

Para a Elizabeth de agora, é uma cena luminosa demais.

— E é uma cidade cheia de vida.

Vendo aquelas pessoas transbordando vitalidade, Mireille também deixou escapar um som de admiração.

— E há muita gente de outras raças.

Cerca de metade da população da cidade é humana; a outra metade são demi-humanos: elfos, anões, homens-fera, pequeninos.

Na capital do reino, quase todos os habitantes são da espécie humana, e os de outras raças eram só aventureiros e mercenários sem direito de residência.

— É que o Império de Yutear é um Estado multiétnico.

No processo de trazer muitos países e povos para debaixo de sua asa, criou-se a base para respeitar a cultura das outras raças.

E, além disso, meu território de visconde é uma região fronteiriça do Império.

Há uma masmorra pequena aqui perto, e também muitos aventureiros.

Faz sentido.

O reino também é, em tese, um Estado multiétnico que reconhece os direitos dos demi-humanos; mas, como no começo era um Estado de supremacia humana, no fundo do coração das pessoas ainda resta bastante preconceito contra eles.

Um Império jovem que abriga a cultura de muitas raças e um reino cuja cultura se cristalizou ao longo de uma história longa.

Vistas as coisas por esse ângulo, acho que o Império tem mais margem de crescimento do que o reino.

Enquanto conversávamos assim, chegamos à residência do visconde e fomos conduzidos aos aposentos.

— Use este quarto hoje.

— Muito obrigada, Senhor Lucas.

No dia seguinte a uma noite de descanso numa cama decente, coisa que eu não tinha havia tempos, Lucas e eu estávamos sentados frente a frente, com uma mesa entre nós.

— Pois bem, Senhorita Elizabeth. O que pretende fazer daqui em diante?

— Deixe-me ver. Primeiro vou firmar minha base.

Para isso, tenho alguns pedidos a lhe fazer.

— Sou todo ouvidos.

Lucas pediu ao mordomo que renovasse o chá, e eu levei à boca um dos biscoitos servidos para acompanhar.

— Primeiro, gostaria de obter autorização para comerciar nesta cidade.

Tanto para firmar uma base no Império quanto para acumular força, é preciso ganhar dinheiro.

— Ah, sei que a Senhorita Elizabeth administrava uma companhia comercial no reino. Ter uma companhia influente dentro do território também é desejável do ponto de vista econômico, então não vejo problema em autorizar.

— Muito obrigada.

Baixei a cabeça diante de Lucas.

— O segundo pedido é dinheiro. Para qualquer coisa que se faça, é preciso capital de partida.

Gostaria que me emprestasse cem moedas de ouro.

— Hm. Moedas de ouro…

Lucas levou a mão ao queixo e deixou o olhar vagar.

Parece ser o cacoete dele quando pensa.

Cem moedas de ouro não são, de forma alguma, uma quantia modesta.

É dinheiro com que uma família plebeia de quatro pessoas viveria por vários anos.

Mas, a julgar pela arrecadação que se deduz do porte desta cidade e pelo mobiliário da casa do visconde, deve ser um valor que ele pode desembolsar sem apuros.

A questão é outra: Lucas deve estar pensando se vale a pena confiar tanto dinheiro a uma pirralha como eu.

— Aqui está.

Estendi-lhe um documento.

— Isto é um contrato mágico… e de qualidade bastante alta.

O contrato mágico é um contrato que se vale da magia de vínculo.

Grava na alma aquilo que está escrito no papel e obriga ao cumprimento.

A força dessa coação depende da qualidade do contrato: num de qualidade baixa, o máximo que acontece ao violá-lo é uma vaga sensação de desconforto. Mas o que eu preparei desta vez é um contrato mágico da mais alta qualidade.

Um contrato desse nível é capaz de cobrar a própria vida como punição pela violação.

— Estas condições… a senhorita está em seu juízo perfeito?

— Evidentemente.

O contrato mágico que entreguei a Lucas dizia o seguinte: eu devolveria, dentro de um ano, mais que o dobro do dinheiro tomado emprestado dele.

Caso não conseguisse devolver, eu mesma seria vendida como escrava, e o valor da venda — ou então a propriedade sobre mim, na condição de escrava — passaria a Lucas.

Lucas me encarou com olhos de quem observa uma louca.

Ou melhor: aos olhos dele eu devo mesmo parecer perfeitamente louca.

— Não há problema algum. Daqui a um ano, empilharei sobre esta mesa mais moedas de ouro do que ela é capaz de comportar.

◇◆☆◆◇

«Naquele dia, diante dela, que dava o próprio destino como penhor e ainda assim ria com uma confiança inabalável, senti medo.»

«Como uma criança pequena que perdeu os pais de vista.»

«Como um menino que encontrou uma escuridão profunda e densa.»

«Como um aventureiro que espia a toca de um dragão.»

«Como se aquela moça recém-chegada à maioridade fosse uma criatura de espécie inteiramente distinta da minha.»

«Eu senti medo.»

«Mas eu havia percebido que, dentro daquele medo, dormia uma ponta ínfima de exaltação.»

«De que eu, que não passava de um joguete nas mãos dos nobres astutos do centro, poderia agarrar uma glória semelhante à das estrelas em pleno brilho.»

«Não havia razão para isso.»

«Simplesmente havia nela algo capaz de provocar essa sensação.»

Trecho extraído das memórias de Lucas Lebrick Haldoria, «Grão-Duque do Principado de Haldoria»


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