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A Livid Lady’s Guide to Getting Even – Volume 1 Prólogo

Prólogo

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Prólogo

Capa

Ilustração

Na língua daquele país insular que, ao que dizem, fica bem a leste, o que vou afirmar agora seria descrito como “gabar-se do próprio missô” — ainda assim, posso dizer com tranquilidade que sou uma pessoa de excelência notável.

Além da linhagem de uma casa ducal, praticamente o topo do sistema nobiliárquico de um Estado monárquico, tenho cabelos prateados que parecem brilhar por conta própria, olhos que refletem o azul do mar profundo e uma pele como a luz do sol caindo sobre um campo de neve: um rosto que cem entre cem pessoas reconheceriam como belo.

Dos estudos à etiqueta, das artes marciais à magia — um talento tal que, se alguém dissesse que recebi sozinha todo o afeto dos deuses, só restaria concordar: “não é de se estranhar”.

E essa pessoa que eu sou estava destinada, desde antes de se entender por gente, a ser a prometida do príncipe herdeiro da mesma idade e, no futuro, a mãe da nação.

Não tinha queixa alguma quanto a isso.

Como nobre, eu estava preparada para dedicar a vida à felicidade e à tranquilidade dos súditos — o dever de quem desfruta de tais privilégios.

Até este dia.

— Elizabeth! Teus incontáveis atos vis já não podem ser tolerados!

Era uma noite em que a orquestra da Casa Real executava uma peça graciosa.

No salão de baile, numa ala do palácio, a voz de um homem trêmula de raiva cortou o timbre dos instrumentos e instaurou o silêncio ao redor.

O silêncio se espalhou como as ondas de uma pedra atirada na água e, em poucos segundos, todos os olhares nobres do salão convergiram para aquele homem e para mim… Elizabeth Leiston.

Achei aquela atenção profundamente desagradável, mas não deixei transparecer nem um grão disso; e ao homem que começara a me acusar do nada — meu prometido, Sua Alteza Friede, príncipe herdeiro do Reino de Haldoria —, falei no tom de quem repreende com brandura:

— Senhor Friede, este é um salão em que recebemos muitos convidados de outras nações. Peço que contenha esse tipo de gracejo.

Comemorava-se naquele dia a fundação do reino.

A festa reunia um grande número de nobres de alta patente e de altos funcionários dos países vizinhos.

O anfitrião de uma celebração dessas seria, naturalmente, Sua Majestade — mas o rei estava fora do país, num encontro sobre a catástrofe de monstros ocorrida meses antes.

E, nessas circunstâncias, o príncipe herdeiro, que ocupava o lugar do anfitrião como regente, resolvera acusar publicamente a própria noiva.

Chamar aquilo de escândalo seria generoso demais: era um espetáculo vergonhoso.

Fossem quais fossem as verdadeiras intenções de Sua Alteza, aquilo precisava ser contornado sem estardalhaço.

— Vamos, Senhor Friede, deixe a brincadeira por aqui e me conceda uma dança…

Estendi a mão com um sorriso no rosto, tentando remendar o ambiente congelado — e quem a tomou foi Robert Ati, filho do comandante da ordem de cavaleiros, que aguardava ao lado dele.

— Mas o que…

Antes que eu terminasse, Robert torceu meu braço e me imobilizou contra o chão.

— …!

Eu poderia ter resistido. Mas me debater ali e ampliar o tumulto não me pareceu a melhor jogada.

Indiferente a qualquer consideração minha, Sua Alteza anunciou em voz alta, como um ator em cima do palco:

— Elizabeth, eu soube de cada uma das vilezas que praticaste contra a Sylvie. Até agora fiz vista grossa, porque era ela quem te acobertava. Mas o que houve outro dia é impossível de ignorar.

Diante daquelas palavras, meu olhar se voltou para a moça que estava atrás dele, protegida por um punhado de filhos de nobres.

A senhorita Sylvia Lockit.

Filha da casa do barão Lockit.

Uma filha bastarda do barão, para ser exata, acolhida pela família havia pouco tempo.

Um ano mais nova que eu e que Sua Alteza. Mantinha com os rapazes uma proximidade que fazia as damas da nobreza torcerem o nariz, mas seu jeito de falar sem papas na língua devia soar como novidade, porque um bom número deles vivia enfeitiçado por ela.

Sua Alteza e Robert eram dois desses.

Por mim, Sua Alteza podia tomar quem quisesse como segunda consorte, ou manter quem bem entendesse como amante.

Gerar muitos filhos também faz parte do ofício da realeza.

Mas há uma ordem para as coisas, evidentemente.

Uma disputa de sucessão na geração seguinte é motivo de cisão para um reino; e quem se envolve com um rei precisa ter caráter e educação à altura.

Ilustração

Eu já dissera isso a ela algumas vezes no passado, e havia lhe explicado que se aproximar de tantos rapazes era algo que exigia comedimento — mas, pelo visto, a mensagem não chegou.

— …E o que teria acontecido outro dia? Não me recordo de nada que justifique um tratamento como este.

Perguntei ainda imobilizada, tomando o cuidado de não inflamar a situação.

Sua Alteza, porém, ouviu aquilo e explodiu.

— Faltam-te mentiras melhores, para vires com um disparate desses! Consta que, movida por um ciúme sórdido, empurraste a Sylvie escada abaixo para feri-la!

— …Acalme-se, Senhor Friede. Eu jamais faria uma coisa…

— Cala-te! Ouvi tudo da própria Sylvie. Ela é bondosa; te acobertou esse tempo todo. Mas chegou ao meu limite! Guardas, levem esta mulher para a masmorra!

Os guardas se aproximaram ao ouvir a ordem, mas havia hesitação em seus rostos.

— O que foi? Levem-na de uma vez!

— S-sim… mas, senhor…

Olhavam alternadamente para mim e para Sua Alteza, constrangidos.

Nada mais natural.

De um lado, um príncipe herdeiro que mal cumpria suas obrigações e passava os dias em diversões; do outro, eu, que auxiliava Sua Majestade e meu pai enquanto remendava os problemas que ele criava.

Era óbvio que minha relação com aqueles guardas fosse mais próxima do que a dele.

Ainda assim, agitar mais aquele salão não me parecia vantajoso.

— Não faz mal.

— Perdão?

— Vocês são guardas; não podem desobedecer a uma ordem de Sua Alteza. Vamos, então.

— S-sim. Com licença, senhorita.

O guarda recebeu minha mão das mãos de Robert e começou a caminhar rumo à masmorra.

Às minhas costas, do salão da festa, vinha a voz de Sua Alteza proclamando em alto e bom som que rompia o noivado comigo e se comprometia agora com a senhorita Sylvia.

Francamente. Criar um problema desse tamanho e não fazer a menor ideia de como limpar a bagunça depois.

— A-a senhorita, num lugar como este… Perdoe-nos, de verdade, Senhorita Elizabeth.

— É uma ordem do Senhor Friede; não há por que se atormentar com isso.

E, além do mais, já enviaram aviso a Sua Majestade e ao meu pai, não é?

Quando eles voltarem, tudo se resolve de um jeito ou de outro.

Dispensei os guardas, que não paravam de se desculpar, e me sentei numa cadeira daquele quarto úmido e com cheiro de mofo.

— Ah… Justo agora, quando todos os pesos-pesados capazes de contestar o Senhor Friede estão fora do país… Ou será que foi justamente por isso que ele agiu?

Verdadeiro ou não, no mundo da nobreza basta o boato existir para que a marca fique.

Se a intenção era me eliminar, este era mesmo um bom momento.

Enfim. Ao ouvirem essa história, Sua Majestade e meu pai certamente voltarão de imediato.

No meu pescoço haviam prendido um grilhão selador de magia.

Um dispositivo especial que anulava magia, usado num reino antigo já extinto para conter criminosos, reproduzido a partir da decifração de documentos antigos. Foi colocado por ordem do príncipe herdeiro, para conter alguém de poder mágico elevado como eu.

— Que canseira.

Batendo de leve naquela coleira com a ponta dos dedos, soltei um suspiro fundo.

— O quê!

Um aposento mobiliado com peças suntuosas, numa ala da residência que o país-sede da conferência havia cedido ao reino.

— Isso é verdade?!

Diante do mensageiro que se curvava até o chão, rangendo os dentes com o rosto tomado de fúria, estava o rei do Reino de Haldoria, Brato Haldoria — um homem de compleição avantajada para a idade, ornamentada por uma quantidade impressionante de cicatrizes antigas.

Brato fora, em outros tempos, um guerreiro temido nos campos de batalha pela alcunha de “Deus do Trovão”.

Sob a ira de um homem desses, o mensageiro batia os dentes.

O homem de meia-idade sentado ao lado do rei interveio, sem conseguir assistir àquilo calado.

— Acalme-se, Majestade.

— Hm. Tens razão. De nada adianta descontar em ti; perdoa-me.

Fizeste um bom trabalho chegando até aqui. Podes te retirar e descansar.

— Sim, senhor!

Quando o mensageiro deixou a sala, o rei levou de novo a mão à cabeça.

— Aquele imbecil não para de arrumar problema, um atrás do outro…

— Sua Alteza Friede é mesmo um caso.

O homem de meia-idade — Sieg Leiston, duque e primeiro-ministro do Reino de Haldoria — fez uma careta de quem mastigou algo amargo.

Chegara-lhes a notícia de que, na ausência dos dois, ocupados com a conferência internacional, o príncipe herdeiro havia encarcerado a própria noiva e anunciado por conta própria noivado com a filha de uma casa de barões.

Pelo combinado, ou o rei ou o primeiro-ministro permaneceria no país; mas as circunstâncias se acumularam e acabaram por deixar o príncipe herdeiro como regente.

— Deixei nas mãos dele achando que, com a Elizabeth por perto, estaria tudo bem… Mas chegar a esse ponto…

— Ora, encarcerada ou não, estamos falando da Elizabeth.

— Hm, é verdade. Tua filha dá um jeito sozinha em qualquer coisa.

— Sim. Aquela ali é excepcional.

— Pois é. Deixando por conta da Elizabeth, não há com o que se preocupar.

E os dois, sem dedicar um só pensamento à situação dela, seguiram inclinando taças de vinho enquanto reclamavam das tolices de Friede.

Ninguém ali notou que uma criada, postada bem ao lado da porta daquele aposento, desapareceu discretamente.

Ia se completando um mês desde que me trancafiaram na masmorra.

Sobre a mesa tosca do calabouço, empilhavam-se documentos fiscais, papéis relativos à administração do reino e livros de consulta que eu mandara os funcionários trazerem.

Daquele dia até agora, Sua Alteza não apareceu aqui uma única vez.

— Mas que coisa… Documentos importantes do reino sendo despachados num lugar como este, e ele não se preocupa nem um pouco?

Balançava no ar o papel que tinha em mãos, pasma com a irresponsabilidade de Sua Alteza.

— Sua Alteza nunca foi o que se poderia chamar de competente, mas a este ponto…

O murmúrio que não se dirigia a ninguém virou um som sem sentido, ecoando baixinho pelo calabouço.

— Ora?

Algumas horas depois, inclinei a cabeça de repente, olhei ao redor e me levantei com um livro carmesim na mão.

— Um instante, por favor.

— Sim? Em que posso servi-la?

O guarda de vigia se curvou com reverência.

Para ele, manter-me presa também não devia ser algo desejado.

Mas, como não existe quem possa emitir ordem superior à do príncipe herdeiro, ao súdito só resta obedecer.

— Sim, chegue um pouquinho mais perto, faça o favor.

— C-como?

Conforme pedi, o guarda veio até bem em frente à cela.

Sem a menor desconfiança, é claro.

E é por isso que ele não teve como reagir.

Estendi a mão direita por entre as grades e, no instante em que meus dedos estalaram, a luz da vontade se apagou nos olhos do guarda, e seu rosto assumiu a expressão vaga de quem sonha acordado.

Magia de afinidade trevas: 【Hipnose】.

Só que 【Hipnose】 é uma magia fraca, à qual qualquer pessoa com poder mágico mediano resiste sem esforço.

Por que, então, o guarda sucumbiu com tanta facilidade?

Simplesmente porque estava desprevenido demais.

Uma dama que não esboçava resistência alguma e que, pelo contrário, se mostrava atenta à posição em que os guardas tinham sido colocados.

E que, ainda por cima, usava um grilhão selador de magia.

Mas o decisivo era outro: todo mundo sabe que “o poder mágico de Elizabeth Leiston é da afinidade água”.

Aquele guarda mesmo já havia acompanhado treinamentos entre os cavaleiros e visto Elizabeth manipular água e gelo à vontade.

É de conhecimento comum que um mago só usa a magia da afinidade para a qual tem aptidão, além da magia básica.

Passou longe da cabeça dele, portanto, a possibilidade de eu lhe lançar magia de trevas.

— Sente-se ali. E esqueça tudo o que viu aqui agora.

— …Sim… como desejar.

O guarda caminhou cambaleante, sentou-se e ficou olhando o vazio.

— Pronto, pode aparecer.

Assim que falei, o espaço em frente à cela se distorceu de modo antinatural, e surgiu uma mulher da minha idade, vestida como criada.

— Desculpe o trabalho que lhe dei, senhorita.

— Não foi trabalho nenhum, Mireille.

O livro carmesim que eu segurava se dissolveu no ar, e agradeci a Mireille pelo serviço.

Mireille é minha dama de companhia e minha confidente.

Eu a incumbira de seguir o mensageiro, para verificar como Sua Majestade e meu pai reagiriam a tudo isso.

— E então, no que deu?

— É que…

Enquanto ouvia o relato de Mireille, a raiva quase me deu vertigem.

Sabiam que o príncipe herdeiro havia causado um problema daquela magnitude e pretendiam, ainda assim, empurrar a coisa inteira para cima de mim.

Pensando bem, isso vinha acontecendo com frequência.

Toda vez que Sua Alteza aprontava, Sua Majestade Brato resolvia o assunto com um suspiro e uma frase: “Elizabeth, cuida disso”.

Com meu pai não era diferente.

A cada complicação, aumentava a minha carga de trabalho e, alegando que era “pelo bem do reino”, entregava com naturalidade os méritos públicos a Sua Alteza.

Como quem tenta amenizar minha irritação, Mireille prosseguiu:

— Além disso, quando voltei, fiz uma sondagem entre o povo. Há boatos circulando que ferem a honra da senhorita.

— Boatos?

— Sim. Coisas sem pé nem cabeça, do tipo “enlouqueceu de ciúme e tentou assassinar a filha do barão” ou “passou por cima do príncipe herdeiro para se meter na política e tomar o reino”.

— …E a origem?

— Mandei investigar. As trilhas levam a alguns comerciantes e nobres.

Todos eles ligados àquele lixo… perdão, a Sua Alteza, o príncipe herdeiro.

— …Entendo. E os boatos se espalharam quanto?

— Infelizmente, apagá-los por completo já não é possível. Claro que, entre os comerciantes e nobres do círculo da senhorita, é o tipo de história que se recebe com uma risada de deboche — mas, entre o povo, não são poucos os que acreditam.

— Certo.

— E há também a questão da companhia da senhorita…

Eu também administro uma companhia comercial, na condição de presidente.

Quando apresentei a Sua Majestade algumas políticas de amparo aos pobres e esbarrei na questão do orçamento, decidi fundar uma companhia para ter fundos que eu mesma pudesse movimentar — foi pouco depois de completar doze anos.

Hoje ela alcançou um porte que a coloca entre as maiores da economia do reino e, por meio da geração de empregos e de obras assistenciais, ajuda a estreitar a distância entre ricos e pobres.

Era disso que Mireille falava.

— Alegando que a senhorita é uma criminosa que tramou traição contra o Estado, Sua Alteza ordenou uma devassa na companhia e vem pressionando para instalar na diretoria comerciantes e nobres de sua confiança.

— Que absurdo! Ainda que eu fosse julgada como criminosa, o máximo que caberia à companhia seria me expulsar.

Existe alguma base legal para o Estado se intrometer na gestão e nas nomeações?

— Não, base legal não existe.

Mas Sua Alteza parece disposto a forçar a situação ostentando poder.

Os diretores estão resistindo, porém o quadro não é dos melhores.

Meus molares rangeram.

Uma sombra passou pelo rosto de Mireille e, com a voz contendo a raiva, ela me perguntou com certa hesitação:

— …Perdoe o atrevimento… mas por que a senhorita se dedica tanto a este reino?

— …Por quê? Porque eu sou nobre…

— Mesmo depois de um tratamento como este?

Mireille cerrou os dentes de indignação e me falou como quem arranca as palavras de dentro do peito:

— Senhorita… eu… minha família decaiu, e o que me restava era a escravidão ou a mendicância. Foi a senhorita que me recolheu e que, para minha honra, me chama de confidente. Eu a venero.

— …Mireille?

— Eu…!

— …!

Assustada com o grito repentino, lancei às pressas 【Silêncio】 sobre todo o calabouço.

— Eu não perdoo esses nobres que desprezam a senhorita e a usam como ferramenta conveniente quando lhes dá na telha!

Nem esse povo que traiu, por causa de um boato ordinário, a senhorita que sempre se desdobrou por ele!

Nem esse rei que se apoiou na senhorita à exaustão e agora não se preocupa nem um pouco com esta situação! Nem o duque!

…E, acima de tudo, eu não perdoo aquele príncipe herdeiro!

O lamento de Mireille fez tremer o ar gelado da masmorra.

Fiquei atônita diante da explosão emocional de uma serva que sempre me acompanhara em silêncio, como uma sombra; mas, à medida que os resquícios daquela raiva iam se diluindo no eco do calabouço, as palavras dela foram penetrando e sendo absorvidas pelo meu peito, e me fizeram perceber a existência de algo que eu mantinha lacrado dentro de mim — algo que fervia como magma, e de que nem eu mesma tinha consciência.

— …É… verdade.

O sentimento que subiu, em ressonância com a raiva de Mireille, se espalhou pelo meu corpo inteiro num tremor que adormecia as mãos e os pés e num calor que ardia no alto da cabeça.

Percebi que a raiva de instantes antes não passara de uma marola.

— …Por quê… Por que foi que eu…!

Desde que vim ao mundo até agora, dediquei minha vida ao reino, como nobre, e a Sua Alteza Friede, como futura rainha.

Por carregar o país nas costas, não me foi permitido sequer ter amigos íntimos; desde que me entendo por gente, me enfiaram goela abaixo estudo, arte marcial, magia e etiqueta.

Tudo isso… tudo isso… em nome de quê?

Fui rebaixada pelo prometido a quem eu estava disposta a dedicar a vida, descartada pelo reino a que servi e traída pelo povo que protegi.

Meu punho se abateu sobre a parede de pedra do calabouço e, com um estrondo, abriu uma longa fenda.

— Afinal, para que foi que eu…

— Senhorita, seu poder mágico!

Pelas palavras de Mireille percebi que meu poder mágico vazava, quase descontrolado, e repeti respirações fundas até acalmar o que transbordava.

— Ufa… …Obrigada, Mireille. Eu acordei.

— Senhorita…

— Vamos deixar o reino.

— …Deixar o reino… e fazer o quê?

Ergui os cantos da boca num sorriso que vinha do fundo do peito.

E, refinando em silêncio a raiva de que acabara de tomar consciência, anunciei a Mireille.

Como quem declara ao mundo.

Como quem jura a si mesma.

Teci as palavras:

— Vingança.


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