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A Livid Lady’s Guide to Getting Even – Volume 1 Capítulo 4

Capítulo 4 — O Conflito no Leste do Território Lebrick

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Capítulo 4 — O Conflito no Leste do Território Lebrick

Eu ia despachando documentos, um atrás do outro, na minha residência da capital imperial, que serve também de filial da companhia; quando cheguei a um ponto de corte, me espreguicei com força.

— Senhorita Ellie, trouxe café.

— Obrigada, Misha.

Balançando o rabo com ar satisfeito, Misha serviu o café.

— Lunoa e Mireille, façam uma pausa também.

Misha, você também pode descansar.

Chamei as duas, que batalhavam cada uma com sua papelada, e Misha, que já preparava mais café.

— Os negócios na capital imperial vão bem.

— Vão. Como pude divulgar antes nas festas, para quem tem influência, o caminho ficou bem mais fácil.

Até a fraqueza da Companhia Traitre, recém-chegada — a capacidade de produção —, já tem uma perspectiva razoável de solução.

Por deixar escapar aqui e ali que faltava capacidade produtiva, vieram propostas de aporte de capital de vários nobres.

Isso, sinceramente, ajuda muito.

Depois da mudança para a capital imperial vieram compras grandes em sequência e o caixa encolheu bastante; graças a esses aportes, porém, consegui expandir ainda mais os negócios.

Consegui montar, no interior a leste do território do visconde Lebrick, o polo de produção da Companhia Traitre.

Contratei em bloco uma aldeia pequena, que vivia da caça e de um pouco de agricultura, e estou montando lá um polo que cuida sozinho do cultivo e do processamento das plantas que servem de matéria-prima para os cosméticos.

Quando estiver pronto, será possível conter o custo de produção e fabricar cosméticos baratos para a população comum.

— Ufa. Muito bem, Misha, como é a agenda daqui em diante?

— S-sim. Depois disto, reunião com o presidente Bren, da Companhia Bren; em seguida, inspeção na sede comercial; e à noite, jantar com o senhor visconde Nabba.

Misha, que soprava para esfriar um café com muito leite e muito açúcar, apressou-se em pegar a caderneta para responder.

— A Companhia Bren? Já não estão aguentando?

Lunoa perguntou inclinando um pouco a cabeça.

Ela tem a mesma idade de Misha, mas, surpreendentemente, é do time do café puro: bebe com prazer, sem leite nem açúcar.

— Isso. A Companhia Bren fabrica sobretudo batom, e não é lá muito grande. Com a nossa concorrência, o faturamento deles deve ter despencado.

— Então, o de sempre?

— Sim. Se demonstrarem submissão, trazemos para debaixo da nossa asa.

Desde que cheguei à capital imperial houve certa luta nos bastidores.

As companhias que ergueram bandeira branca cedo e pediram para entrar no grupo, e as que se esforçaram para melhorar a qualidade dos próprios produtos e reforçar o atendimento, são as legítimas. Houve também quem tentasse embargar a reforma da sede da Companhia Traitre, quem reclamasse dos produtos e, nos casos graves, quem planejasse me assassinar.

As primeiras à parte, as companhias que atacaram a Companhia Traitre por meios ilegais tiveram de desaparecer; mas os canais de venda e os funcionários decentes foram devidamente recolhidos. Com a Companhia Traitre crescendo ainda mais por causa disso, até as companhias que tentavam resistir pelo esforço se viram obrigadas a entrar no grupo ou a mudar a base da capital imperial para outra região.

A Companhia Bren, hoje, é provavelmente mais uma declaração de rendição.

— Ao jantar com o visconde Nabba vamos só eu e Lunoa. Mireille, prepare o presente de cortesia.

— Sim.

— Às suas ordens.

Ultimamente aumentaram os pedidos de nobres com terras nas províncias para que eu abra filial no território deles.

Muitos prometem tratamento favorável em tributos e terrenos se eu aceitar.

Por ora recuso, para firmar o pé na capital imperial; mas, no futuro, quero filiais nos grandes territórios nobres, então preciso manter a convivência com a nobreza.

— Ahn… posso mesmo ir junto?

— Pode. Quero que a Lunoa atue no futuro como diretora da Companhia Traitre, então vá se acostumando desde já a lidar com nobres.

Empurrei goela abaixo o resto do café.

— Muito bem, vamos terminar o trabalho.

E foi assim que, enquanto ganhávamos força a bom ritmo na capital imperial, a notícia chegou de supetão.

— Senhorita Ellie.

Arnaud irrompeu no gabinete, visivelmente afobado.

Diante daquilo, Mireille e Lunoa arregalaram os olhos, e o pelo de Misha se eriçou num susto.

— Aconteceu alguma coisa?

Arnaud entrar de um jeito desses só pode significar algo muito sério.

— Chegou agora um comunicado urgente.

O Reino de Sarjas declarou guerra ao Império e começou a invadir o território do visconde Lebrick à frente de um exército.

— O Reino de Sarjas?

Fiquei perplexa.

O Reino de Sarjas é um Estado vassalo do Reino de Haldoria; chama-se reino, mas na prática tem uma capital, três cidades e algumas aldeias — comparado a Haldoria ou ao Império de Yutear, é um paisinho do tamanho de um condado.

O relevo é muito acidentado, impróprio para agricultura, e há poucos recursos, como jazidas.

A indústria principal é o turismo, apoiado em lagos bonitos e montanhas bem cuidadas. É um destino em que não só os países vizinhos pequenos, mas também a nobreza e a realeza de Haldoria mantêm casas de veraneio. Por isso obtêm razoável moeda estrangeira, mas quase tudo vai para importar alimentos, e a força militar não é lá grande coisa.

Um país desses atacar um Império de imenso poder militar não passa de suicídio.

Em condições normais, é a espécie de tolice de que se ri pelo nariz, dizendo “que coisa mais idiota”.

Só que, para mim, agora, o lugar e o momento são péssimos.

— Misha, traga o mapa.

— Sim.

Misha tirou o mapa da estante do cômodo e o abriu sobre a mesa.

— Isto é ruim.

O Reino de Sarjas fica a leste, encostado no ermo que há entre Império e reino.

Para atacar o Império a partir dali, só existe o caminho do Vale de Brocken.

Por qualquer outra rota, florestas densas e grandes cadeias de montanhas impedem o avanço de um exército.

E, passando o Vale de Brocken, está justamente a aldeia destinada a ser o polo de produção da Companhia Traitre, em que investi uma soma alta. Existe a possibilidade de o exército do Reino de Sarjas, saindo do vale, não seguir na direção da aldeia; mas, pela geografia — estradas, rios —, se pretendem mover um exército grande, é alta a chance de a aldeia do polo sofrer danos.

— Arnaud, havia uma fortaleza no Vale de Brocken, não havia?

— Sim, a Fortaleza de Brocken.

— Qual é a guarnição fixa?

— Como é segredo militar, é estimativa a partir do volume de suprimentos que entra e de informações das cidades vizinhas: algo entre quinhentos e seiscentos homens.

— Mireille, e o tamanho do exército do Reino de Sarjas?

— Também estimativa: mil e duzentos; no máximo mil e quinhentos.

— Fechando-se na fortaleza e concentrando na defesa, dá para aguentar alguns dias sem problema.

Uma diferença de quase três para um complica até uma batalha defensiva, mas a Fortaleza de Brocken é uma praça-forte erguida de modo a tapar o vale. Não cai assim tão fácil.

— E o Senhor Lucas, senhor do território, como está agindo?

— Deve haver alguma movimentação, mas detalhes ainda não…

Interrompendo a fala de Arnaud, ouviram-se batidinhas leves na janela.

Era um pássaro de asas de um verde vivo batendo o bico no vidro.

Fiz um sinal com os olhos e Misha correu a abrir a janela.

O pássaro entrou voando e pousou no braço de Mireille.

— É uma carta de Stia, do território do visconde Lebrick.

Mireille tirou a carta do estojo preso à pata do pássaro e conferiu o remetente: era Stia, que eu designara como secretária de Grantz, encarregado da Companhia Traitre no território Lebrick.

— É justamente sobre este conflito………… Ao receber a primeira notícia da invasão do Reino de Sarjas, o senhor visconde partiu imediatamente à frente de um exército para interceptá-los. O efetivo é de mil e oitocentos; desses, cento e cinquenta — incluindo cinquenta de cavalaria — seguiram à frente como destacamento avançado.

— Mil e oitocentos… força suficiente para interceptar.

Batalha defensiva, tropa mais treinada que a de um paisinho como o Reino de Sarjas e ainda em maior número: derrota é praticamente impossível.

Enquanto a guarnição da Fortaleza de Brocken e o destacamento avançado ganham tempo, o grosso das tropas chega — e o exército do Reino de Sarjas será repelido sem ter o que fazer.

— O que a senhorita pretende?

— ………………Por ora, vamos observar. Se tudo correr como esperado, o Senhor Lucas expulsa os invasores e acaba; mas, por garantia, recolham informação com frequência.

Arnaud, qualquer anormalidade, por menor que seja, me reporte.

— Compreendido.

Pensando com sensatez, é impossível que a força do exército do Reino de Sarjas rompa a Fortaleza de Brocken e derrube o exército do território Lebrick.

Ainda assim, eu não conseguia me livrar de um mau pressentimento que me arrepiava as costas.

— Sieg, ainda não encontraram a Elizabeth?

— Majestade, perguntar três vezes ao dia não muda a resposta.

— Hmm…

No intervalo curto em que aguardavam a próxima audiência, Brato perguntava a Sieg, o primeiro-ministro, e recebia a resposta acompanhada de um suspiro.

— Vasculhamos as minhas terras ducais e a casa de todos os nobres e comerciantes do país que eram próximos de Elizabeth, e nem sombra nem sinal.

— Hm. Mas foi mesmo boa ideia? Mandar procurar a Elizabeth por crime de traição contra o Estado?

— Não havia alternativa. Sem isso, sobraria a mácula em Sua Alteza Friede.

Fazendo dela uma inimiga pública que ameaçou a Casa Real, apagamos o erro de Sua Alteza Friede ao afastá-la.

— E dá para enganar alguém com tão pouco?

— Não. Mas o que um país precisa é da aparência. Com a aparência em ordem, dá-se um jeito em quase tudo.

Além do mais, o mandado de captura também é conveniente para localizar Elizabeth.

Serve de motivo para revistar à força as casas dos nobres e comerciantes com quem ela tinha intimidade, e facilita reunir relatos de quem a viu. Como há recompensa, e só para captura com vida, um aventureiro de alto nível talvez consiga prendê-la.

— Não tens misericórdia. Não é tua filha?

— Justamente por ser minha filha. Ensinei-lhe a servir ao Estado como nobre e ela larga o próprio dever e foge — é lamentável.

— Mas não há a possibilidade de ter sido raptada por espiões de outro país?

— Não. O 【Boneco de Gelo】 deixado no calabouço tinha resíduo do poder mágico de Elizabeth.

E, junto com Elizabeth, a serva Mireille também sumiu. É certo que Elizabeth desapareceu por vontade própria.

— Hm…

Calado diante da explicação de Sieg, o rei Brato disse ter mais uma preocupação.

— E se conseguirmos trazer a Elizabeth de volta, o que faremos?

Friede já anunciou o noivado com a senhorita Sylvia e Elizabeth responde por traição ao Estado. Já não dá para colocá-la como rainha, dá?

— Não há o que fazer. Damos por executada em público e lhe atribuímos outro nome.

Passando-a por segunda consorte de saúde frágil, ela aparece pouco na sociedade.

Se Elizabeth engravidar, criamos a criança como sendo da senhorita Sylvia e a geração seguinte também fica resolvida.

— E o barão Lockit vai aceitar?

— Se o elevarmos de título por volta do nascimento da criança, ele cala a boca. Aquele ali é um sujeito pequeno, que só quer poder. Não tem fibra para tentar tomar um reino.

— Certo.

Nisso, a porta da sala de audiências se abriu.

Ele pensou tratar-se do próximo audiente, mas nesse caso o costume é pedir permissão antes de abrir.

Achando aquilo um tanto suspeito, olhou para a porta: um mensageiro sem fôlego atravessou correndo o tapete de pelo longo e se ajoelhou diante de Brato e Sieg.

— Com licença! Trago notícia urgente para Vossa Majestade e para Sua Excelência o primeiro-ministro!

— Hm, fala.

— Sim! Chegou há pouco um relatório da fortaleza da fronteira. O Reino de Sarjas atacou o Império.

— C-como assim?!

— Mas por quê?!

— Sim! Conforme o teor da declaração de guerra: «para retomar o território tomado no passado pelo Império».

— Território?

Diante de Brato, que torcia o pescoço, Sieg explicou.

— Cerca de vinte anos atrás, uma parte do território do Reino de Sarjas foi recortada pelo Império.

Mas aquilo, se não me engano, foi o seguinte: o Império protegeu aldeias do interior que eles não conseguiram defender de uma grande proliferação de monstros e, como resultado, parte do território acabou anexada.

— Que história é essa? Tiveram seu próprio povo protegido, gente que eles não conseguiram defender, e vinte anos depois vêm exigir de volta?

— É descaramento de sobra. Mas o rei do Reino de Sarjas é homem de temperamento brando. Por que faria uma coisa dessas?

Brato e Sieg torceram o pescoço com cara de dúvida, mas resposta não apareceu.

A leste do Reino de Haldoria, um pouco antes do ermo que serve de zona-tampão com o Império, homens armados com elmos e armaduras iguais acampavam.

— Alteza, ainda não é hora de começar o treinamento?

Robert Ati, cavaleiro da guarda pessoal, consultou o príncipe herdeiro Friede, a quem servia.

O exército é uma organização distinta da ordem de cavaleiros, mas desta vez quem comanda de fato é Robert, cavaleiro da guarda e homem de confiança de Friede.

Este exercício militar foi concebido por Friede, e foi ele mesmo quem conduziu a tropa até ali.

Só que, três dias depois de chegar, Friede havia apenas ordenado repouso, sem dar início a treinamento algum.

— Ah, todos ainda devem estar cansados da marcha. Treinar em estado de exaustão é perigoso.

— …Compreendido.

Robert achou aquilo um tanto estranho, mas as palavras de Friede não estavam erradas.

Em combate real, vá lá; mas machucar-se num treino e ser dispensado do serviço não daria nem para rir. «Sua Alteza é um homem que zela pelos soldados», concluiu.

— Com licença!

— O que houve?

O soldado que entrou correndo na tenda de Friede relatou com o rosto tenso.

— Comunicado urgente! O Reino de Sarjas atacou o Império!

— Como assim?!

Diante do inesperado, Robert se espantou e se voltou para Friede.

Friede, porém, com toda a calma, levava a mão ao queixo e refletia.

— Alteza Friede?

— Hm. O Reino de Sarjas é Estado vassalo do nosso reino; não podemos ficar sentados diante da crise de um caro aliado. Felizmente estamos perto da fronteira com o Reino de Sarjas: nós, como destacamento avançado do Reino de Haldoria, seguiremos daqui mesmo em socorro do Reino de Sarjas.

— É-é prudente?

— Sim, Robert. Comande as tropas e alcance um belo feito de armas!

— …Às ordens!

Surpreendido pela notícia repentina, Robert viu Friede decidir, sem se afobar, socorrer o país amigo.

Diante da capacidade de decisão e da frieza do príncipe herdeiro a quem havia entregado sua espada, Robert sentiu, além do orgulho, o corpo tremer com a tensão e a exaltação da primeira batalha.

Ilustração

No dia seguinte àquele em que decidi acompanhar de perto o conflito na fronteira, quando terminava o almoço e ia começar o trabalho da tarde.

Arnaud entrou no meu gabinete com o rosto fechado.

— Arnaud, aconteceu algo na fronteira?

— Sim. É uma notícia que chegou há pouco………… A Fortaleza de Brocken caiu.

Diante do relatório de Arnaud, Lunoa e Misha prenderam a respiração; Mireille fechou os olhos e eu soltei o ar bem fundo.

Eu tinha um mau pressentimento. Não havia certeza, mas era estranho o Reino de Sarjas atacar sem nenhuma perspectiva de vitória.

— Já temos detalhes?

— Detalhes ainda não… Só que haveria no exército do Reino de Sarjas um grupo de treinamento excepcionalmente alto.

— Um grupo muito treinado… não são tropas regulares, então?

— Não. Pelo equipamento, dizem não pertencer ao exército do Reino de Sarjas.

— Um grupo de aventureiros… não, um bando mercenário, talvez?

— Provavelmente. Só que, pelo que ouvi do relato, não bate com nenhum dos bandos mercenários famosos que atuam na região.

— Ou vieram de longe, ou é um bando novo com gente de verdade.

Levei a mão ao queixo e pensei. Como agir nesta situação…

— E o exército do Reino de Sarjas que tomou a fortaleza, e o Senhor Lucas?

— O exército do Reino de Sarjas ocupou a fortaleza e parece estar montando uma cabeça de ponte.

A situação do senhor visconde Lebrick é desconhecida, mas, pela velocidade da marcha, ainda não deve ter havido contato. O destacamento que ia à frente parece ter sido derrotado.

Alguns dias para o exército do Reino de Sarjas se organizar; depois, ou declaram anexado o território até a fortaleza e montam uma linha defensiva, ou usam a fortaleza como base e avançam ainda mais fundo.

De um jeito ou de outro, vira obstáculo ao projeto do polo de produção — disso não há dúvida.

— ………………Decidi.

— Senhorita Ellie?

— Vou ao campo de batalha! Mireille, reúna suprimentos: comida, poções, o que for.

— Senhorita Ellie, está falando sério?

— Evidentemente. Contrato aventureiros e mercenários e comando eu mesma.

Contra uma força capaz de derrubar em um único dia a robusta Fortaleza de Brocken, mesmo o exército do território Lebrick, sendo mais numeroso, pode ser derrotado. Se isso acontecer, não há como conter o caos na fronteira. E a minha companhia, que tanto custou a erguer, não sairia ilesa.

Tirei papel da gaveta, escrevi rapidamente e lacrei.

Estendi a Lunoa as duas cartas que escrevi e mais a carta de apresentação que eu pedira a Lucas, por garantia.

— Lunoa, leve estas cartas aos mestres da Guilda dos Aventureiros e da Guilda dos Mercenários.

Mostrando esta apresentação você consegue falar com os mestres.

— S-sim!

— Misha, vá com a Lunoa.

— Às suas ordens!

Despachadas as duas, fui aos meus aposentos trocar a roupa comum por traje de cerimônia.

Pretendo ir à corte.

É mais fácil me mover com autorização do Império, com a aparência de um exército voluntário, do que marchar para a guerra à frente de tropas que juntei em caráter particular.

— Senhorita Ellie, tem mesmo certeza?

— Já está decidido.

— Mas, se formos ao campo de batalha, o reino vai descobrir onde a Senhorita Ellie está.

— Vai. A verdade é que eu pretendia aparecer só depois de aumentar um pouco mais a influência e organizar as forças.

Mas não tem jeito.

O povo daquela aldeia já é parte da minha companhia; abandonar os nossos vira obstáculo para tudo o que a companhia fizer daqui em diante.

E, além disso, acho que há algo de errado neste conflito. O rei do Reino de Sarjas não era homem de cometer um despropósito destes.

— Então a Senhorita Ellie acha que há algo por trás deste conflito?

— Acho. E é também para confirmar isso que preciso ir ao campo de batalha.

— Tsc!

Sergio correu os olhos pelo relatório com o apanhado das informações dos subordinados e estalou a língua.

Era o relatório sobre o conflito eclodido dias antes na fronteira.

Quem atacou foi um paisinho que não deveria ter efetivo nenhum, e ainda assim a Fortaleza de Brocken caiu num único dia.

— Isso está com um cheiro dos diabos…

Sem perceber, esfregou a grande cicatriz na bochecha. É um cacoete que vem dos tempos em que ainda era aventureiro na ativa.

Enquanto encarava o relatório de cara amarrada, ouviu-se uma batida na porta.

— Entre.

— Com licença, mestre da guilda. Chegou uma visita.

Quem entrou foi Sarasa, da recepção.

Uma jovem do povo-raposa, popular entre os aventureiros solteiros.

— Visita? Não havia nada marcado…

— Sim, dizem ser enviadas da presidente da Companhia Traitre. Trouxeram esta carta de apresentação.

Sergio recebeu a carta das mãos de Sarasa e examinou o lacre.

— Tsc, carta de apresentação de nobre.

O brasão gravado no lacre tinha uma asa desenhada. Neste Império, só a nobreza pode pôr asas em brasão.

— Ei, de que casa nobre é este brasão?

Sergio empurrou a carta para Iris, submestre da Guilda dos Aventureiros, que trabalhava na mesa ao lado como quem não tem nada com isso.

— Abra e leia o conteúdo. E aprenda alguma coisa sobre assuntos de nobreza, aliás.

Reclamando, Iris olhou para o brasão da apresentação.

Ex-aventureira, ela é, ao contrário do falar rude, boa em coleta de informação e em papelada — por isso lhe jogam esse tipo de coisa no colo.

— Isto é… o brasão da casa do visconde Lebrick.

— Visconde Lebrick é aquele que está brigando com o paisinho, né?

— Reino de Sarjas.

Bem, é isso mesmo. A Companhia Traitre, antes de se mudar para a capital imperial, tinha sede no território do visconde Lebrick; deve ser por esse vínculo. Provavelmente é sobre o conflito.

— Ué, você entende de companhias também?

— Eu também sou mulher. Tenho ao menos algum interesse em cosméticos.

— Gá-rá-rá, boa piada… uf!

No lugar do mestre da guilda, que segurava a barriga aguentando a dor, Iris falou a Sarasa:

— Vamos ouvir os detalhes. Mande as enviadas entrarem.

— Sim, senhorita Iris!

Sarasa fez uma reverência a Iris e saiu.

— …………Sarasa, o mestre da guilda sou eu, hein?

Não havia voz alguma para responder àquele murmúrio lastimável.

Depois de dispensar as meninas que se diziam enviadas da Companhia Traitre, Sergio e Iris ficaram frente a frente, com a mesa entre eles.

— Iris, o que você acha?

Sergio perguntou com poucas palavras.

— São condições irrepreensíveis.

E, dito isso, Iris baixou os olhos para a carta que as meninas trouxeram.

Nela estavam a encomenda e as condições propostas pela presidente da Companhia Traitre.

— O serviço é entrar sob o comando da presidente da Companhia Traitre e repelir o exército do Reino de Sarjas.

Em resumo, é uma encomenda para participar do conflito.

A recompensa é o dobro do preço de mercado; ela especifica aventureiros de alto nível, mas por esse valor não vai faltar quem levante a mão.

— Isso eu entendo.

O que eu quero dizer é: por que raios uma simples comerciante iria querer fazer uma coisa dessas?

É verdade que, com um feito relevante, ela talvez ganhe até um título honorário; mas a Companhia Traitre não é uma companhia em plena ascensão? A presidente ir pessoalmente ao campo de batalha é perigoso demais. Sem correr esse risco ela já ganha o bastante. Patriotismo?

— Não; se não me engano, a presidente da Companhia Traitre é estrangeira. Mas ela ergueu a Companhia Traitre no território do visconde Lebrick e, a leste, onde está a zona do conflito, parece ter investido bastante para construir algum tipo de instalação da companhia.

— Então, na real, ela quer proteger a tal instalação.

— Provavelmente. Mas não vejo problema.

Se o resultado disso é ela gastar uma fortuna para expulsar o exército do Reino de Sarjas, não é ótimo para nós?

— É, faz sentido. Especificar aventureiros de alto nível quer dizer que ela vai com poucos e bons.

— Sim. Se do outro lado há alguém forte a ponto de derrubar a Fortaleza de Brocken em um dia, juntar número não adianta muito.

— Verdade. Muito bem, vamos chamar as equipes de alto nível que estão hoje na capital imperial.

Marti, aprendiz do grupo rank A «Sharp Edge», terminou o recado que a líder Elsa lhe pedira e voltou à casa que o grupo alugava.

— Cheguei.

Quando Marti abriu a porta e entrou, Elsa e Sarasa, recepcionista da Guilda dos Aventureiros, iam justamente em direção à entrada.

— Voltou, Marti?

— Sim, senhorita Elsa. Boa tarde, senhorita Sarasa.

— Boa tarde, Marti.

Sarasa afagou a cabeça de Marti.

— Ah, senhorita Sarasa, eu já tenho dezesseis. Pare de me tratar como criança.

— Ora, ora, desculpe.

Sarasa, que a conhecia desde os dez anos, quando Marti se registrou na guilda, mimava como uma irmã caçula essa menina do povo-raposa, da mesma raça que ela.

— Ai…

Mesmo pedindo desculpas, Sarasa não dava sinal de tirar a mão que ia e vinha entre as orelhas de raposa espetadas de Marti.

Marti, por sua vez, não estava incomodada de verdade, então não afastou a mão.

Por fim, satisfeita, Sarasa soltou a cabeça de Marti e se voltou para Elsa.

— Pois bem, senhorita Elsa, peço que avaliem.

— Sim, respondo depois de conversar com o grupo.

— Certo. O prazo é curto, então peço a resposta ainda hoje.

— Entendido.

Depois dessa troca, Sarasa voltou para a guilda.

— Senhorita Elsa, o que a senhorita Sarasa queria?

— Uma encomenda nominal.

— Encomenda nominal? Mas quem decide as encomendas não é sempre a senhorita Elsa?

Por que desta vez a senhorita vai consultar todo mundo?

— Porque a encomenda desta vez é participar do conflito no leste.

Não é abate de monstros nem caça a salteadores: é guerra entre países.

— Guerra… é?

Marti é tratada como aprendiz dentro de «Sharp Edge», um grupo rank A, mas seu rank de aventureira é C — já considerada de alto nível — e a chamam de jovem promessa.

Naturalmente, matar gente em caça a salteadores não foi coisa de uma ou duas vezes.

Mas ela nunca havia participado de conflito, guerra civil, nada do que se chama propriamente guerra entre seres humanos.

— Não fique tensa. Por ora, vamos conversar com todo mundo.

Elsa sorriu com doçura e levou Marti à sala onde as companheiras aguardavam.

Como conclusão, Marti e as demais decidiram participar do conflito.

A recompensa era boa, a alimentação durante o serviço ficava por conta da contratante e ainda haveria bônus por mérito.

E o que pesou de forma decisiva foi que uma delas, Lisa, a maga curandeira, era natural de uma aldeia perto da zona do conflito.

Se as chamas da guerra se espalhassem daquele jeito, a terra natal de Lisa poderia sofrer.

Ao ouvir isso, as companheiras aceitaram participar sem pestanejar.

Dois dias depois de decidirem, Marti e as demais se reuniram, para partir da capital imperial, numa campina de boa visão logo além do portão sul.

Os integrantes de «Sharp Edge» são cinco, todas mulheres: a líder e espadachim Elsa, a escudeira Salina, a guerreira leve e arqueira Cecily, a maga curandeira Lisa e a batedora Marti.

Nos ranks de aventureira, Elsa e Salina são rank A, Cecily e Lisa rank B, e até a aprendiz Marti é rank C — todas de alto nível — e Elsa em especial é uma «portadora de alcunha».

Entre os aventureiros que aceitaram a encomenda conjunta desta vez, são o grupo de primeira linha.

Por isso o grupo de Marti ficou incumbido de acompanhar de perto a mulher que se diz presidente da Companhia Traitre, a contratante.

— E aí!

— Ah, senhor Bren.

Enquanto a líder Elsa estava na reunião de coordenação, Marti e as outras terminavam de conferir armas e bagagem quando um aventureiro as chamou.

Era Bren, aventureiro rank A, um dos integrantes do grupo rank A «Punho de Ferro Escaldante».

Quando Marti ainda trabalhava sozinha, Bren e os dele a ajudaram algumas vezes, e foi Bren quem a apresentou a «Sharp Edge».

— Vocês também pegaram a encomenda.

— Pegamos; a recompensa era boa e, acima de tudo, a terra natal da nossa Lisa é perto da zona do conflito.

— É mesmo? Então é preocupante.

Bren trocou algumas informações com Cecily.

— Mas será que vai dar certo mesmo?

Ao lado dos dois, Marti disse aquilo enquanto observava a presidente que se apresentara como Ellie dando instruções aos representantes dos aventureiros e mercenários reunidos, e a mulher de cabelos pretos que dizia ser sua serva.

— A serva de cabelo preto parece que luta bem, mas a presidente é, por qualquer ângulo, uma mocinha de boa família, não é?

Diante daquilo, Cecily deu tapinhas na cabeça de Marti com uma mão bonita demais para uma aventureira.

— Marti, você é batedora; precisa afiar mais essa capacidade de observação.

— Hã?

— Rá-rá-rá. Ellie, era esse o nome? Aquela moça. Olhe direito: ela disfarça bem, mas não tem uma brecha no jeito de mover o corpo, viu? Aquilo ali é gente de muita habilidade.

— O quê?!

Depois do que Bren disse, Marti observou com atenção e, de fato, sob o comportamento natural não havia brecha alguma.

— E acho que em magia ela também é bastante boa.

Lisa entrou na conversa.

Olhando em volta, até a calada Salina assentia repetidamente.

— Mas, quando cumprimentei a presidente agora há pouco, não senti poder mágico nenhum nela.

À pergunta de Marti, Cecily respondeu:

— Justamente porque você não sentiu nada. Mesmo quem não usa magia, como eu e a Elsa, tem poder mágico; e, mesmo sem transformá-lo em magia, sem perceber a gente reforça capacidade física e sentidos, ou põe poder mágico em armas e golpes para reforçá-los, e usa 【Habilidades】 que produzem efeitos especiais.

Ou seja: quem fica forte, naturalmente ganha mais poder mágico.

Pelo jeito de mover o corpo, dá para ver que a senhorita Ellie treinou muito. E, ainda assim, não se sente poder mágico algum vindo dela.

— Ah!

Lisa retomou a explicação de Cecily.

— Entendeu? Ela está contendo o poder mágico de propósito. Controlar o tempo todo o poder mágico que transborda sem a gente perceber é dificílimo.

É um domínio de poder mágico ao nível de um mago da corte.

Talvez até esteja no nível de quem usa artefato divino.

— Com certeza é mais forte que eu. Entre nós, só a Elsa daria conta.

Ouvindo a avaliação de Cecily e das demais, Marti olhou de novo para a contratante e murmurou:

— …………Ainda bem que ela não é inimiga.

Diante do grupo armado reunido na campina, fora do portão da capital imperial, eu estava de pé.

— Vieram mais do que eu esperava.

— Sim. Somando aventureiros e mercenários, setenta e quatro pessoas.

— Coisa boa. Reúna os representantes.

Pedi que os líderes dos grupos de aventureiros e dos bandos mercenários se juntassem.

Elsa, aventureira rank A, líder de «Sharp Edge».

Thomas, aventureiro rank A, líder de «Punho de Ferro Escaldante».

Rick, aventureiro rank B, líder de «Escamas do Dragão-Presa».

Julius, capitão do «Bando Mercenário Dragon Runner».

Gandol, capitão do «Bando Mercenário Gandol».

Esses cinco são o núcleo do grupo.

— Senhores, agradeço por terem aceitado a minha encomenda.

Reapresentando-me: sou Ellie Leis, presidente da Companhia Traitre.

Já os cumprimentei individualmente, mas convém me apresentar mais uma vez neste momento.

— Vou reconfirmar o teor da encomenda.

Sob o meu comando, retomar a Fortaleza de Brocken, a leste do território do visconde Lebrick, e repelir o exército do Reino de Sarjas, que avança sobre território imperial. Correto?

Confirmei o aceno dos cinco e prossegui.

— Como expliquei previamente, desta vez seguimos ao território do visconde Lebrick na condição de exército voluntário do Império.

Mostrei a autorização de marcha e a nomeação como comandante do exército voluntário, obtidas na corte.

— Alimento, água e demais suprimentos estão providenciados por nós.

Por ora, distribuo a cada um comida e água para dois dias.

Está previsto que carroças venham atrás, trazendo mais suprimentos. Alguma pergunta?

— Posso?

À minha pergunta, Elsa, líder de «Sharp Edge», ergueu a mão de leve.

Elsa é alta para uma mulher e bonita, com o cabelo vermelho que cresceu até a altura da cintura preso num rabo só.

Entre os aventureiros que reuni, é a única que tem uma alcunha, coisa dos que têm força de verdade — e provavelmente a mais habilidosa de todos.

Como o grupo dela é inteiramente feminino, ficou combinado que acompanhará a mim e a Mireille.

— Elsa, não é? O que houve?

— Reduzir a comida e a água que se carrega, para ganhar velocidade, eu entendo.

Mas dois dias não é pouco demais?

— Não há problema. Os dois dias que entrego a vocês e os suprimentos das carroças de retaguarda são apenas reserva.

— Reserva?

— Sim. Quase todos os suprimentos vão comigo.

— Como assim?

Reuni poder mágico.

— Artefato divino: 【Grimoire Mammon】.

Os cinco se espantaram diante do grimório materializado na minha mão esquerda.

— Isso é… um artefato divino?

— Essa foi surpresa. Eu já achava que você tinha muita habilidade, mas artefato divino é demais.

— O meu artefato divino é capaz de guardar suprimentos num subespaço. Neste momento há dentro dele suprimento suficiente para cem pessoas viverem alguns meses.

O que entrego a vocês e o que vem atrás é seguro, caso eu me separe do grupo.

— Poder guardar tanta carga é uma capacidade absurda.

— Expliquei por ser uma emergência, mas peço que mantenham o meu artefato divino em sigilo, na medida do possível.

Já não deve ser possível esconder o verdadeiro artefato divino, 【Grimoire Sevens】. Com uma investigação simples, percebe-se que meu artefato divino tem mais de um poder.

Ainda assim, por garantia, peço silêncio.

— Mais alguma coisa?

Respondi ainda a algumas perguntas e partimos rumo ao leste do território do visconde Lebrick.

Somos um grupo armado de mais de cinquenta pessoas: naturalmente fomos parados nos postos de fronteira entre territórios, mas, apresentando a autorização de marcha e os documentos que me identificavam como comandante do exército voluntário, passamos sem problemas.

Alguns dias depois, já dentro do território do visconde Lebrick, escolhemos um terreno de boa visão e montamos acampamento.

É logo depois da aldeia que Lisa, de «Sharp Edge», diz ser sua terra natal.

Estamos prestes a entrar na zona de influência do inimigo.

Cruzamos algumas vezes com aldeões que avançavam pela estrada tentando se refugiar, e colhemos deles informações sobre a situação.

Daqui em diante, um encontro com o inimigo pode acontecer a qualquer momento.

Reuni os membros do núcleo na tenda grande montada como quartel-general.

— Adotamos este ponto como quartel-general e iniciamos as operações.

Primeiro, exploração dos arredores; e também contato com o exército do visconde Lebrick, que deve estar desdobrado ao sul, do outro lado da floresta.

— Entendido. Mandamos batedores do nosso grupo.

— Do nosso também.

— O contato com o senhor visconde deixem conosco; os dragões-corredores correm dentro da floresta na velocidade de um cavalo.

Assenti e fui dando instruções concretas.

Mandei os batedores em pequenos grupos sondarem as florestas e aldeias próximas, e despachei os cavaleiros mais rápidos do «Bando Mercenário Dragon Runner» com uma carta para Lucas.

— 【Muro de Pedra】.

Pela minha magia, ergueu-se do chão um muro de pedra.

A altura é baixa, pouco mais de um metro — deixei na altura do peito para preservar o campo de visão.

Além disso, os aventureiros e mercenários com afinidade terra abriam um fosso.

Com isso, dá para conter em alguma medida uma carga de cavalaria inimiga ou um ataque de monstros.

— Senhorita Ellie, os batedores que saíram para explorar os arredores voltaram.

— Vamos ouvir o relatório.

Mudamos para a tenda do comando.

Voltaram os que investigavam a floresta ao sul e a zona montanhosa ao norte.

— Podem relatar, por favor.

— Sim. Na zona montanhosa ao norte não havia nada de anormal. Só senti que há monstros um pouco em excesso.

— Deve ser porque há um exército se aproximando pelo leste. Monstros com alguma esperteza, como goblins, fugindo do leste, não seria estranho.

— É verdade. Na floresta ao sul também se sentia a presença densa de monstros. E, de longe, avistamos batedores que devem ser do exército do Reino de Sarjas.

— Já entraram até a floresta.

— Mas não parecia avanço em forma. É mais um reconhecimento superficial da orla da floresta.

Enquanto eu recebia os dois relatórios, voltaram à tenda os aventureiros que tinham ido reconhecer o lado leste, onde fica a aldeia.

— É-é grave! A aldeia do leste está ocupada por um grupo armado!

A batedora do povo-raposa, integrante do grupo de Elsa, relatou afobada.

— Ocupada?

Estranho.

Segundo as informações, a aldeia a leste seria uma aldeia agrícola não muito grande.

Que sentido teria ocupá-la?

Os danos que uma aldeia agrícola sofre numa guerra são, em primeiro lugar, a requisição forçada de alimentos e afins; não é preciso chegar a ocupá-la.

— Conte com detalhes.

— É que eu observei a aldeia do alto de uma colina e havia homens armados por toda parte, e quase não se viam aldeões.

O outro batedor, homem, de «Punho de Ferro Escaldante», que fora reconhecer junto com ela, assentiu confirmando.

— Vi homens arrastando de volta para dentro uma mulher que tentava fugir de casa. E, embora pareça terem lavado com água, havia em vários pontos da aldeia umas manchas vermelho-escuras. Acho que é sangue.

— Quer dizer que a aldeia foi atacada? Os aldeões que resistiram foram mortos e as mulheres estão em cativeiro?

— Provavelmente.

Um burburinho se ergueu ao meu redor.

Atentar contra a vida de civis, praticar violência ou saque, é violação do direito internacional da guerra.

Fazer isso é a pior das péssimas jogadas: além de virar alvo da hostilidade até dos países vizinhos que observavam sem se envolver, transforma todos os moradores locais em inimigos dispostos a resistir de qualquer maneira.

Mesmo em caso de requisição forçada de alimentos, é acordo tácito entregar ao menos alguma quantia.

E, ainda por cima, ouvi que o objetivo do Reino de Sarjas desta vez é retomar território. Oprimir os moradores que se pretende reaver é coisa de idiota.

— Excesso de alguma unidade isolada?

— É o mais provável.

— E qual o tamanho da força inimiga que ocupa a aldeia?

— Uns dez homens.

Levei a mão ao queixo e pensei.

Salvar os aldeões cativos ou abandoná-los à própria sorte…

— Vamos salvar a aldeia. Se capturarmos e interrogarmos soldados inimigos, talvez consigamos informação um pouco melhor.

— Boa! Vamos quebrar tudo!

Thomas, líder de «Punho de Ferro Escaldante», estalou os punhos, mas eu bati no ombro dele para acalmá-lo.

— Você fica de guarda. A montagem do acampamento ainda não terminou; não dá para descuidar da defesa daqui.

— Então quem vai?

Olhei em volta e decidi.

— Vamos eu e o grupo da Elsa.

Mireille comanda a montagem do acampamento e Thomas comanda a defesa.

— Ei, ei, então por que não somos nós no ataque e o pessoal da Elsa na defesa?

— Há mulheres em cativeiro, não há? Então é melhor um grupo de mulheres do que uns brutamontes indo salvá-las.

— Hm… é verdade.

— Vocês vão quebrar tudo mais adiante; desta vez, protejam este lugar.

— …Está bem, desta vez eu cedo.

— Obrigada. Sendo assim, Elsa, partimos para a aldeia em dez minutos.

— Entendido. Vou preparar tudo imediatamente.

Observando a pequena aldeia do alto de uma colina, viam-se aqui e ali homens armados que claramente não eram aldeões, esparramados como se o lugar fosse deles.

— Aqueles são os soldados do Reino de Sarjas.

— Acho que não são tropa regular.

Marti, a batedora do povo-raposa, respondeu com um aceno.

— E qual é a casa em que levaram as mulheres?

— É a vizinha daquela casa maior.

Marti apontou a casa ao lado da que fica bem em frente à entrada da aldeia.

Aquela casa grande deve ser a do chefe da aldeia.

Nesse tipo de aldeia agrícola, a casa do chefe costuma servir também de hospedaria e de salão de reuniões; por isso é construída com o dobro do tamanho das outras.

— Marti, os soldados inimigos que você confirmou eram dez, certo?

— Sim. Fiquei observando uns trinta minutos e os homens armados que saíram foram dez.

Apertei os olhos e observei os homens.

— O equipamento é até razoável, mas o jeito de se mover é de amador.

Devem ser camponeses que atenderam ao recrutamento e receberam um treino qualquer, imagino.

— É isso mesmo; o modo como se movem não é o de quem treinou para lutar.

Mas o físico não é ruim. Devem ter trabalho braçal no dia a dia.

Elsa confirmou minha previsão.

— Se são militares, isso é o tamanho de uma esquadra: doze no máximo.

— Hm. O comandante deve ser, esse sim, tropa regular.

— Bem, não imagino que seja competente um comandante que lidera bandidos desses.

— Não há de ser.

Elsa e eu nos entreolhamos e demos uma risadinha.

Ela tem um temperamento franco e é agradável de conversar.

Pensando bem, todo mundo à minha volta tem um temperamento excessivo.

— E então, como fazemos? Nós daríamos conta mesmo lutando de frente, mas…

Elsa falou pesando a diferença de forças.

De fato, esse é o método mais simples.

Mas não podemos fazer assim.

E Elsa também sabe disso.

— Frontal está descartado. Tomarem aldeões como reféns seria um problema, e o número exato do inimigo é desconhecido.

— Verdade. Então frontal está mesmo fora.

— Sim. Ao entrar na aldeia, dividimos em dois e vamos abatendo um a um.

— Entendido. Dividindo em dois, os pares são eu e Marti, a Senhora Ellie e Cecily.

Lisa fica de reserva e Salina protege Lisa.

Elsa distribuiu os papéis rapidamente.

Lisa, sendo maga curandeira, precisará tratar os aldeões depois do ataque; e Salina, escudeira, carrega escudo grande e armadura de metal, o que não serve para movimento furtivo. É melhor que fiquem aqui esperando.

Elsa e as outras conferiram as armas depressa.

Também conferi a espada à cintura, a adaga presa do lado oposto num coldre de couro e as facas de arremesso guardadas no peito, e desci a colina correndo com Elsa e as demais.

Escondidas num matagal alto perto da aldeia, prendíamos a respiração à espera de uma oportunidade.

Nisso, um homem armado se sentou numa pedra perto do mato e começou a fumar.

Tabaco, artigo de luxo, não circula muito em aldeias do interior; mas quem está no exército pode recebê-lo como ração. Confirmado: esses aí são recrutas do exército.

Sinalizei com gestos a Elsa e às outras — «eu vou» —, e no instante em que a sombra de uma nuvem cobriu o terreno saltei do mato, tapei a boca do homem e o arrastei para dentro do matagal onde elas esperavam.

— Hmm!

O homem tentou resistir, mas logo Elsa e Cecily lhe prenderam os dois braços, e eu encostei a adaga na sua garganta.

— Vou tirar a mão da sua boca. Se fizer barulho ou tentar resistir, morre na hora. Se entendeu, pisque devagar uma vez.

Ameacei deixando transparecer um pouco de sede de sangue; o homem, com os olhos marejados, piscou devagar.

Muito bem. Tomara que saia daqui alguma informação sobre o inimigo.

Encostei a lâmina no pescoço dele com força apenas suficiente para cortar a pele.

— Iih!

Aflorou um filete de sangue e ele soltou um grito curto.

— Quem são vocês? Não são tropa regular. Recrutas do Reino de Sarjas?

— N-nós somos… d-do Reino de Haldoria.

— Reino de Haldoria?

Quer dizer que o Brato mandou reforços ao Reino de Sarjas, seu Estado vassalo?

Mas aquele bronco de músculos mandaria tropas para uma guerra sem causa nenhuma?

Ele é burro, mas não é tolo.

Não teria como não perceber que o argumento do Reino de Sarjas não passa de arruaça de bandido de esquina.

— O-o príncipe apareceu na aldeia… disse que a gente ganhava dinheiro se se alistasse…

— O príncipe?

— É-é. Quando a guerra começou, o príncipe estava por acaso perto da fronteira, num exercício militar, e juntou uns caras como a gente e veio de reforço.

— …………Ora, ora.

Aquele Friede num exercício militar?

Ele nunca tinha feito coisa assim.

Digno filho do bronco: tem talento, mas, por detestar esforço, a técnica não passa da de um cavaleiro de baixa patente.

Usando o artefato divino aguenta um pouco mais, mas ainda assim não chega ao primeiro time.

E esse Friede participando de exercício militar?

E, pela situação, comandando tropas…

E ainda por cima estando por acaso perto da fronteira com o Reino de Sarjas.

Existe coincidência assim?

— Entendo… Eu achava que havia algo errado neste conflito, e o idiota estava metido nisso.

O Reino de Sarjas é um país de turismo, pobre em recursos.

Tem baixa autossuficiência alimentar e, sobretudo quanto ao sal, depende do apoio do Reino de Haldoria.

E esse apoio é trabalho do príncipe herdeiro, Friede.

Até agora eu preparava os documentos e Friede apenas assinava; mas, agora que deixei o país, quem decide o conteúdo do apoio é ele.

Bastou ameaçar apertar o sal para que o Reino de Sarjas não tivesse escolha senão obedecer a Friede.

E, mesmo que tentassem apelar ao bronco, o canal com os Estados vassalos é atribuição do príncipe herdeiro: tudo seria abafado.

O motivo é simples.

Com o rompimento do noivado comigo e com o sumiço de quem cobria o serviço dele, o apoio do povo e dos vassalos caiu; então ele resolveu, do jeito mais preguiçoso, conquistar um feito de armas.

Podia muito bem ter ficado caçando monstros, quietinho.

Contendo a irritação, prossegui o interrogatório.

— E então, o que vocês fizeram com os moradores desta aldeia?

— I-isso…

Em silêncio, apertei a adaga no pescoço do homem que hesitava.

— E-espera! Eu falo! Eu falo!

— Responda logo.

— O-os homens da aldeia… é que… e-eles resistiram…

— Vocês os mataram.

— ………………

— E as mulheres e crianças?

— …………A-as mulheres e crianças a gente trancou nas casas… e… ãh, aí a gente cuidou delas…

— Certo, já chega.

Ao homem que enrolava as palavras, ensinei o que foi que eles fizeram.

— O que vocês fizeram é violação do direito internacional da guerra, crime grave. Em geral, num conflito desse tipo, os exércitos se enfrentam, chega-se a certo ponto e se negocia a paz, encerrando a coisa. Só que, com o que vocês fizeram aos aldeões, deixou de haver ponto de acordo.

O Império não salva a própria honra sem uma retaliação que, no mínimo, seja proporcional ao dano sofrido.

Por causa da conduta egoísta de vocês, muita gente vai morrer.

Podem ser completos desconhecidos, ou podem ser as pessoas de quem você gosta.

— I-isso é… mas nós só cumprimos ordens… e atacar a aldeia foi o príncipe que…

— O quê?!

Diante daquilo, não só eu, mas também Elsa e as outras, que ouviam em silêncio, soltaram exclamações de espanto.

Elas são aventureiras de alto nível. Como há chance de participarem de guerras, o exame para subir a rank D ou acima exige conhecimento de direito internacional.

A proteção dos civis no direito internacional da guerra é conhecimento básico para quem, em alguma medida, vive das armas.

— O que é que o príncipe de Haldoria tem na cabeça?!

— Ele quer destruir o Reino de Sarjas?!

Não sendo excesso de uma unidade isolada, mas ataque a civis por ordem de um membro da realeza de um país, o problema cresce ainda mais.

Se descuidarem, não seria estranho que isso puxasse o gatilho de uma guerra total, com dezenas de milhares de mortos.

Elsa e Cecily deixaram claras a raiva e a surpresa diante da ordem monstruosa de Friede, e Marti se abalou com o tamanho da coisa.

Vendo a reação delas, o homem enfim pareceu tomar consciência da gravidade do que tinham feito e começou a tremer, o rosto lívido.

— Se quiser reduzir um pouco que seja o estrago, conte tudo o que sabe.

Depois disso arranquei dele informações sobre o equipamento e a posição dos homens na aldeia, sobre o comandante e o resto.

— É tudo o que eu queria saber.

Dito isso, baixei a adaga do pescoço dele.

— ……………………E-ei…

— O quê?

— Não dá para vocês me levarem junto?

— Hã?

— Eu quero reparar o que fiz! Quero lutar com vocês e reparar o mal que causei aos aldeões!

— Você………… o que está dizendo?

— Hã?

Girei a adaga rapidamente e do pescoço do homem — que dissera algo só concebível se a cabeça dele fosse um jardim florido — jorrou um esguicho de sangue.

Sem atingir vaso importante, para que não morresse na hora; mas fundo o bastante para que não se curasse sozinho.

— Se quer reparar alguma coisa, morra o mais devagar e sofrendo o máximo que conseguir.

Deixando para trás o homem que só se contorcia e se debatia, eu e Elsa e as demais seguimos para o resgate dos aldeões.

Cecily e eu, e Elsa e Marti, nos separamos entre o lado leste e o lado oeste da aldeia e entramos saltando a cerca rústica de madeira que serve para afastar animais selvagens.

À primeira vista a aldeia estava silenciosa, mas, apurando bem o ouvido, ouviam-se gemidos abafados e gritos curtos.

Combinei por gestos com Cecily, abri devagar a porta de uma casa próxima e escorreguei para dentro como uma sombra.

O interior estava entupido de fumaça de tabaco, e quatro homens cercavam uma mesa com cartas na mão.

Atrás deles estavam duas pessoas — uma mulher e uma menina, com cara de mãe e filha —, cada uma segurando uma garrafa de bebida.

Quem primeiro percebeu nossa entrada silenciosa foram justamente elas.

Os olhos da mãe se arregalaram e a menina abriu a boca para soltar um grito de espanto.

Antes que a voz saísse, porém, a faca arremessada por Cecily cravou-se na garganta do homem que estava sentado de frente para nós, diante das duas.

— Agh?!

Os outros três se assustaram com a faca no pescoço do companheiro, mas eu os liquidei antes que gritassem.

Ao passar, decepei a cabeça do homem que estava de costas para nós; eu tapei a boca e cortei a garganta do da direita, e Cecily fez o mesmo com o da esquerda.

Sem matá-los na hora, evidentemente.

Impedido de gritar com a boca tapada, o homem se debateu por um tempo e parou de se mexer.

Olhando, Cecily também dosara o corte do mesmo modo.

Vendo o resultado, o mais afortunado foi o homem que teve a cabeça decepada.

Ele perdeu a consciência sem entender o que tinha acontecido, depois de ver no próprio campo de visão o corpo sem cabeça.

— Gu, gubéa!

Olhei e o homem com a faca fincada na garganta se levantava cambaleando.

Duro na queda, esse.

Dei um passo à frente para acabar com ele, mas antes disso uma garrafa se espatifou na nuca dele.

— Agh!

Sobre o homem caído, a mãe com a garrafa quebrada e a filha empunhando a faca arrancada da garganta dele foram desferindo golpe após golpe, chorando.

Cecily e eu as deixamos fazer o que queriam por um tempo e, quando as reações do homem — entre gritos e gemidos — se apagaram, pousamos a mão nos ombros delas e as detivemos.

— Ele já está morto.

— Ai… ai…

— Foi ele! Foi ele que matou o meu pai!

Acalmamos as duas, que choravam de raiva e ódio, dissemos que se escondessem por um tempo no depósito sob o assoalho, e Cecily e eu fomos para a casa seguinte.

Nessa casa, um homem nu estava sobre uma menina, movendo os quadris.

O corpo nu da menina tinha hematomas por toda parte; a bochecha estava inchada, roxa.

— Anda, pirralha! Grita mais!

Berrando, o homem cerrou o punho e ergueu o braço.

E baixou esse punho sobre o rosto da menina, que já não reagia, inerte.

Só que o braço não chegou a atingir a bochecha dela.

O braço do homem tinha desaparecido do cotovelo para baixo.

— Hã?

Cecily chutou para longe da menina o homem que soltava aquele som idiota.

— Aah!

— Toma, o senhor deixou cair uma coisa.

Ao homem que gemia de dor, joguei o braço que eu decepara do cotovelo para baixo.

— Hã? Ahn?

Com cara de bobo, ele estendeu a mão por reflexo para pegar o braço.

Segurou o próprio braço direito com a mão esquerda que ainda tinha; mas, pelo impacto, o braço esquerdo que o segurara caiu no chão junto com o braço direito, também cortado do cotovelo para baixo.

— Hã?

— Ora, ora, que falta de jeito. Tem que pegar direito.

Minha Flügel é uma arma mágica especializada em fio.

É uma lâmina notável, com um causo que conta de um monstro cortado por ela que passou dias sem perceber, até a cabeça cair.

— A-ah…

Um instante depois o sangue jorrou dos braços do homem.

Ele viu a torrente de sangue saindo do próprio corpo e tentou gritar, mas antes disso a adaga de Cecily entrou na sua garganta.

Ignorando o homem que estremecia em espasmos, expelindo espuma de sangue, e seguia devagar rumo à morte, verificamos o estado da menina.

Há muitos ferimentos, mas nada que ameace a vida de imediato.

Eu poderia curá-la, mas agora prefiro priorizar a tomada da aldeia.

Este caso é para Lisa, a maga curandeira.

— Falta só render o comandante, que está na casa do chefe da aldeia; então, Cecily, vá chamar a Lisa e as outras.

Mandei Cecily buscar Lisa e Salina, encontrei Elsa e Marti, que tinham limpado outra área, e seguimos juntas para a casa do chefe da aldeia, a fim de capturar o comandante.

Pelas informações, na casa do chefe havia cinco pessoas: o comandante e dois recrutas, a anciã que chefia a aldeia e a filha dela.

— Com isso são todos os soldados que há nesta aldeia.

— Sim. Interroguei os soldados do nosso lado antes de matá-los, então não há erro.

Mandei que os resgatados ficassem escondidos todos juntos.

— Certo. E quantos sobreviveram?

— Dezoito mulheres, nove homens e dezesseis crianças.

— É bastante gente. Do nosso lado foram três.

— Devia ser o local em que trancavam os aldeões. Havia alguns homens, mas só idosos e feridos.

Quase todos parecem ter morrido lutando contra os soldados.

Depois de trocar rapidamente as informações com Elsa, encostei-me à porta da casa do chefe e sondei as presenças lá dentro.

— Não há ninguém perto da porta.

Abri uma fresta com cuidado: no salão dos fundos, usado para reuniões, homens de armadura cercavam uma mesa.

Num canto, uma anciã sentada numa cadeira, e uma mulher fervendo água no fogão.

— Elsa e eu prendemos os soldados. Marti, proteja a chefe da aldeia e a filha.

— Certo.

— Entendido. É para capturar vivos?

— Sim, há várias coisas que quero perguntar. Aquele soldado era um zé-ninguém. Mesmo sendo pequeno, um comandante deve ser tropa regular e saber mais coisas. Mas, se não der, pode matar.

— Hm.

Confirmando o aceno de Elsa e de Marti, escancarei a porta e entrei na casa do chefe.

Todos os olhares se voltaram para nós, mas não me importei e parti para cima dos soldados.

Felizmente a filha da chefe estava diante do fogão, longe dos homens.

Marti correu até a anciã e se postou entre ela e os homens, adaga em riste.

Elsa e eu usamos 【Passo Instantâneo】 e cobrimos a distância num passo, tirando os sentidos dos soldados quase ao mesmo tempo.

— M-mas o qu…

O comandante levou a mão à espada na cintura, mas eu desembainhei a Flügel, decepei a espada junto com o punho dele e o chutei com força.

— Guá!

Arremessado contra a parede, o comandante desmaiou.

— Acorde.

Joguei nele água gelada criada por magia.

Amarramos os soldados capturados e os largamos ao lado; o punho do comandante Lisa tratou apenas o suficiente para estancar o sangue.

— Iih!

— Fique quieto. Já eliminei todos os soldados fora os três que estão aqui. Resistir é inútil.

— M-me salve.

— Isso depende da sua postura. Se quer aumentar um pouco a chance de sobreviver, cante como se sua vida dependesse disso.

— E-eu falo, falo tudo, só p-poupe a minha vida!

— Comecemos pelo número e pelos comandantes do exército do Reino de Haldoria que apoia o Reino de Sarjas.

— S-se eu falar, vocês me salvam mesmo?

No instante em que ele disse isso, girei a adaga e a cravei na coxa dele.

— Guh!

— Se falar o que não interessa, os ferimentos aumentam. Você fala só o que eu perguntar.

Mas, bem, se disser algo útil, eu o perdoo.

Girei o cabo da adaga cravada na coxa dele.

— E-eu entendi! Entendi! O tamanho do exército é…………

Depois disso arranquei do comandante toda a informação que ele tinha.

O resultado apenas confirmava o que o soldado dissera, mas ficar sabendo em alguma medida a movimentação atual dos exércitos do Reino de Sarjas e do Reino de Haldoria já é um ganho.

— Ha… ha… ha…

Com mais alguns ferimentos acrescentados, o comandante ofegava aguentando a dor.

— Senhora Ellie, está pronto.

— Certo.

Como o que eu pedira a Elsa estava pronto, levantei-me agarrando o comandante pela gola e o fui arrastando.

Cecily e Salina, que vieram com Elsa, arrastaram cada uma um soldado.

— M-mas o quê?! Eu contei tudo! V-você prometeu me perdoar!

— Iih?!

— S-solta! Me solta!

O comandante e os soldados começaram a se agitar.

— Sim, cumpro o prometido. Eu perdoo vocês. Mas…………

Abri a porta do depósito na saída da aldeia, onde eu os interrogava, saí e joguei o comandante no chão; Cecily e Salina fizeram o mesmo.

— Agh?!

— Guá!

— Ai…

— Como prometido, eu perdoo vocês. Mas será que todos aqui perdoam?

Cercando o comandante e os soldados amarrados e imobilizados no chão, os aldeões sobreviventes estavam reunidos.

Nas mãos: enxadas, arados, facas de cozinha, foices, pedras.

Enquanto eu interrogava, Elsa e as outras reuniram os voluntários.

O que vai acontecer agora é um linchamento.

Do ponto de vista da lei, não é conduta louvável; mas eu, que pretendo me vingar da minha própria pátria, não tenho direito nenhum de impedir os aldeões.

Elsa e as outras também não disseram não.

— E-espera… me sal… a-aah!

Com os gritos dos soldados e a gritaria dos aldeões às costas, Elsa, eu e as demais discutimos o passo seguinte.

Descartados os corpos dos soldados mortos pelos aldeões, deixamos a aldeia por conta do chefe e voltamos ao acampamento.

Reuni os principais na tenda do quartel-general e dei rapidamente as instruções seguintes.

— Por ora, mando três pessoas para a guarda da aldeia.

Não precisam pensar em defesa; se forem atacados, protejam a vida dos aldeões e façam combate de retardamento. Se lançarem uma magia ao céu, vamos socorrer imediatamente.

— Entendido. Mandamos gente do nosso bando mercenário.

— Por favor. Os demais descansam por turnos; assim que estabelecermos contato com o visconde Lebrick, passamos à ação seguinte.

Definidos os turnos de vigia e o patrulhamento dos arredores, o dia se encerrou.

E no segundo dia, quando já havíamos aniquilado três destacamentos de reconhecimento do exército do Reino de Sarjas enquanto vigiávamos os arredores.

Voltaram os batedores do «Bando Mercenário Dragon Runner» que eu enviara na direção onde deveria estar o exército do território Lebrick.

Traziam consigo um homem de armadura leve com o brasão da casa do visconde Lebrick.

— Senhorita Ellie, voltamos.

— Conseguimos contato com o exército do território do visconde Lebrick. Este é o senhor Igle, do exército do território.

Os dois do «Bando Mercenário Dragon Runner» apresentaram o homem com o brasão da casa Lebrick.

— Meu nome é Igle.

Senhora Ellie, em nome de Lucas Lebrick, senhor do território, agradeço pelos reforços que a senhora traz à frente de um exército voluntário.

E, dito isso, Igle curvou-se num gesto refinado.

Não há nada de marcial naqueles modos.

Provavelmente é homem de gabinete.

Talvez oficial administrativo do exército do território Lebrick.

Conduzi Igle à tenda e imediatamente trocamos informações.

O exército do território Lebrick, comandado por Lucas, montara, como eu previa, um acampamento simples na campina ao sul e vinha avançando aos poucos para leste, eliminando os soldados inimigos entocados nas aldeias vizinhas.

Lucas também percebera que, por trás deste conflito, quem puxa os cordéis é o idiota do Friede.

— Enviamos, por via diplomática, quem apresente protesto ao Reino de Haldoria; mas o próprio visconde Lucas, principal diplomata para assuntos de Haldoria, não pode sair da fronteira e, além do depoimento de um soldado raso, não temos prova material — documento em que o príncipe herdeiro Friede tenha ordenado ao Reino de Sarjas invadir o Império.

Há também o problema do tempo e, como já há danos entre os súditos do território, a solução pela via diplomática nos parece difícil.

— Também acho. E, além do mais, o Reino de Haldoria provavelmente vai negar envolvimento.

Se admitisse, não escaparia de sanções econômicas dos países que não são seus vassalos. Friede é um incompetente que não pensa, mas na cúpula do país há gente bastante capaz.

Sem uma prova decisiva, e a ponto de não deixar saída, eles escapam.

É uma forma bastante dura de falar do príncipe herdeiro de uma grande potência; mas Igle, ao que consta, soube de quem eu sou por Lucas.

Bem, eu recebi hospitalidade da casa do visconde Lebrick com toda a naturalidade, é natural que haja quem saiba.

Evidentemente, a informação só chegou a quem Lucas considera de confiança.

Como Igle soube que sou eu quem lidera este exército voluntário, Lucas o mandou para compartilhar informações.

— Então, quais são os próximos passos do Senhor Lucas?

— Sim. Avançaremos para leste libertando as aldeias sob controle efetivo do exército do Reino de Sarjas, e retomaremos a Fortaleza de Brocken.

— Entendo. E quanto a nós?

— Que o exército voluntário acompanhe o passo do exército do território e avance também para leste, libertando aldeias.

— Compreendido. Mas nossa formação é de poucos e bons, focada em velocidade de deslocamento; libertar as aldeias não é problema, mas destacar gente para defendê-las e proteger os aldeões depois disso é difícil.

— Nesse caso, mandamos nós o pessoal de defesa.

— Fico grata.

Fechado o entendimento, Igle voltou ao acampamento simples do exército do território Lebrick.

Ele trouxera duas escoltas do exército do território, mas, por garantia, mandei também quatro do «Bando Mercenário Dragon Runner» acompanhá-lo.

— Senhor Igle, mande minhas lembranças ao Senhor Lucas.

— Certamente. Então, Senhora Ellie, nos vemos a leste. Encontramo-nos na campina em frente à Fortaleza de Brocken.

Despachado Igle, pedi a Mireille que reunisse todos para marcharmos ao leste.

Depois de nos separarmos de Igle, iniciamos a marcha para leste.

Havia algumas aldeias pelo caminho; as ocupadas pelo exército do Reino de Sarjas ou pelo do Reino de Haldoria nós libertávamos aniquilando os soldados.

Aldeias em que os moradores tivessem sido massacrados como na primeira eram poucas, mas ainda assim houve algum dano.

Como não tínhamos braços para os cuidados posteriores, isso ficou com os soldados que Lucas enviava.

Avançávamos para leste pela estrada que corre ao longo da floresta e, quando o sol passou do meio do céu e fizemos uma pausa, Mireille trouxe um relatório.

— Senhorita Ellie, é dos batedores que seguiram na direção do avanço.

«Grupo armado avistado na campina; pelo brasão, presume-se ser o exército do território do visconde Lebrick.»

— Certo, vamos nos juntar a eles. Peça ao «Bando Mercenário Dragon Runner» que envie um mensageiro.

— Às suas ordens.

Aproximar-se sem cerimônia poderia deixar o exército do território em alerta.

Por isso mandei dois batedores do «Bando Mercenário Dragon Runner», conhecidos deles, marcarem o encontro erguendo bandeira branca e o estandarte da Companhia Traitre.

Algumas horas depois, eu estava com Lucas na tenda grande usada como quartel-general, no centro do acampamento simples do exército do território Lebrick.

— Há quanto tempo, Senhor Lucas.

— Sim. Desta vez o exército voluntário que a Presidente Ellie trouxe tem ajudado bastante.

— Fico feliz em ser útil.

— E a aldeia em que a Presidente Ellie investiu? Sofreu danos?

A aldeia que eu vinha desenvolvendo a peso de ouro como polo de produção da Companhia Traitre também fica por perto.

Dias atrás nós a retomamos, expulsando o exército do Reino de Sarjas.

— Em termos humanos, o dano foi alguns aldeões feridos ao resistir. Mas boa parte dos suprimentos que já tínhamos levado para lá parece ter sido requisitada.

— Entendo. Devemos nos alegrar por não ter havido mortos.

— Devemos. Quanto aos suprimentos levados… vou cobrar o preço deles.

Sorri deixando transparecer a raiva, e Lucas respondeu com um sorriso amarelo.

Depois disso alinhamos nossas ações seguintes e, como resultado, ficou definido que agiríamos juntos até retomar a Fortaleza de Brocken.

O comando do exército voluntário continua comigo, com o Senhor Lucas acima de mim — mas me garantiram certa margem de decisão própria.

E, marchando dois dias para leste junto com o exército do território Lebrick.

Quando os batedores avistaram à frente a Fortaleza de Brocken, montamos de novo um acampamento simples e reunimos os principais para o conselho de guerra.

Pelo exército do território Lebrick, Lucas e Igle, o comandante-geral e alguns oficiais; pelo exército voluntário, eu e Mireille, além de Elsa e Julius, capitão do «Bando Mercenário Dragon Runner».

— Então, ao anoitecer, tomamos tudo de uma vez com poucos e bons. Correto?

— Sim, não há outro jeito.

— Mesmo sendo pelas costas, é assalto a uma fortaleza.

Cercando com uma multidão nós venceríamos, mas levaria tempo e haveria baixas consideráveis.

A Fortaleza de Brocken é praça-forte.

Ainda que o assalto venha pela retaguarda e não pela frente, o lado que defende — com muralhas, balistas fixas e catapultas — tem vantagem esmagadora.

E, ainda por cima, do outro lado há uma força, provavelmente um bando mercenário, capaz de derrubar a Fortaleza de Brocken em um dia.

Jogar soldados comuns de frente só resultaria em aumentar inutilmente o número de mortos.

Por isso ficou decidido que só os fortes capazes de usar artefato divino, poucos e bons, atacariam as forças inimigas na Fortaleza de Brocken.

Concretamente: eu, Lucas, Elsa e Dreg, comandante-geral do exército do território Lebrick — quatro pessoas invadindo —, enquanto o exército do território e o exército voluntário que trouxe cercam por fora.

Ouvir que quatro pessoas invadirão o campo inimigo soa como imprudência temerária; mas neste caso não se aplica.

É esse o grau em que a capacidade de combate de quem usa artefato divino se destaca.

— Do lado inimigo não há ninguém que use artefato divino?

— Até agora não foi confirmado.

Opa, aqui é hora de entregar a informação.

— O Reino de Haldoria, país suserano do Reino de Sarjas, veio em reforço.

Parece que Sua Alteza Friede, o príncipe herdeiro, trouxe tropas por conta própria; e Sua Alteza Friede e Robert Ati, cavaleiro da guarda pessoal, sabem usar artefato divino.

— Hm. O príncipe herdeiro Friede. Foi só o que nos faltava.

— Mas, sendo o príncipe herdeiro e o guarda dele, não vão insistir em ficar lutando.

Se a situação pender para o nosso lado, colocam a sobrevivência em primeiro lugar e recuam.

A previsão de Dreg deve estar certa.

Ilustração

Não imagino aquele Friede arriscando a vida por um Estado vassalo que ele despreza.

Assim que atacarmos ele foge… não, talvez já tenha fugido. Aliás, a chance disso é bem alta.

— Acho correta a previsão do comandante-geral Dreg. Não sendo crise do próprio país, não creio que um príncipe herdeiro corra riscos.

— De fato. Se não houver usuário de artefato divino no exército do Reino de Sarjas, não há problema.

— Pela informação que obtive, o único filiado ao Reino de Sarjas que usa artefato divino é o comandante da guarda real; e esse senhor não se afasta do rei, então não está na Fortaleza de Brocken.

— Se há possibilidade, é no tal bando mercenário.

— Sim. Por isso peço que o Senhor Lucas, comandante supremo, e o comandante-geral Dreg, comandante efetivo das tropas, ataquem pelo lado sul da fortaleza.

— O quê?!

— Senhorita Ellie, como assim?

Conforme informação obtida dos prisioneiros capturados pelo caminho, dentro da Fortaleza de Brocken os regulares ficam ao sul e os aventureiros e mercenários contratados, ao norte.

A chance de estarem lá os mercenários de mão-cheia é maior no norte.

— Eu sou boa em ataque mágico de área ampla, e Elsa é uma aventureira de mão-cheia; se for preciso, conseguimos ao menos escapar.

— Hmm…

Como Dreg sabe quem sou, evitou responder de imediato e passou a decisão a Lucas.

— …………Está bem. Mas não exagerem.

Se a resistência do exército do Reino de Sarjas for forte, não há problema em transformar isso numa guerra longa.

Priorize a própria vida.

— Sim, evidentemente.

A execução fica para daqui a meio dia: pelas informações dos prisioneiros, o exército do Reino de Sarjas troca a guarda e os postos por volta do anoitecer.

O dia claro fica com os soldados jovens, e a noite, quando a visibilidade piora, com os veteranos.

Por isso o plano é atacar pouco antes da troca, quando os soldados jovens e inexperientes estão mais exaustos.

Foi assim que se decidiu a operação de retomada da Fortaleza de Brocken.

Terminado o conselho de guerra conjunto com o exército do território Lebrick e dispersado o grupo, Elsa, líder do grupo de aventureiros «Sharp Edge», voltou à tenda destinada a elas.

— Ah, senhorita Elsa.

— Ó, voltou?

— Cheguei.

Ali ela contou às companheiras o plano decidido no conselho.

— Um assalto com só quatro pessoas.

— N-não é perigoso?

Cecily pensou um pouco e Marti se preocupou com Elsa.

Elsa bateu no ombro de Marti para tranquilizá-la.

— Fique tranquila. Os outros três — o visconde Lebrick, o comandante-geral Dreg e a Senhora Ellie — todos usam artefato divino. E, além disso, a força inimiga não é tão alta assim.

— É verdade. E, no pior dos casos, se ficarmos em desvantagem, com o artefato divino da Elsa recuar não é difícil, não é?

— Não. E ainda me disseram que, se a força inimiga for maior que o previsto, podemos recuar.

— Ah, é?… Então tudo bem…

Marti também assentiu, convencida.

O artefato divino de Elsa tem um poder adequado a escapar de apuros e virar situações no limite.

A tranquilidade das companheiras vem da confiança nessa força.

— Mas é surpreendente a presidente entrar no assalto também.

— Pois é. De fato ela parece ter nível de mestre tanto na espada quanto na magia, mas o artefato divino dela é aquele livro que guarda suprimentos, não é?

Não me parece nada um artefato divino próprio para combate.

— O senhor visconde Lebrick e o pessoal da cúpula do exército do território também pareciam ter uma certa deferência com a presidente. Será que tem algo por trás?

Marti e Lisa ficaram intrigadas ao saber que Ellie participaria do assalto.

De fato, Elsa também acha que há algo naquela presidente chamada Ellie.

Ela sabia estranhamente demais sobre o príncipe herdeiro e o cavaleiro da guarda do Reino de Haldoria, e sobre o usuário de artefato divino do Reino de Sarjas.

Falando de uma comerciante bem informada, quase se poderia explicar; mas, ao falar do príncipe herdeiro e do cavaleiro da guarda, escapava dela, ainda que pouco, uma sede de sangue.

Talvez haja alguma relação pessoal.

Elsa se interessava, sim, mas não disse nada.

Porque…………

— Vocês duas, parem por aí.

Salina, normalmente calada, repreendeu Marti e Lisa, que discutiam a origem de Ellie.

— Não fiquem bisbilhotando.

— …………É verdade.

— Desculpe, foi sem pensar.

Marti e Lisa se penitenciaram pela leviandade.

— Salina tem razão. Saber o que não é da nossa conta é acabar envolvida. Quem quiser durar muito como aventureira precisa aprender a ser obtusa.

— «Curiosidade é um dos nomes da morte», não é? Vou tomar cuidado.

— É palavra de ouro. Fica a lição.

Marti e Lisa recitaram o ditado que circula entre os aventureiros.

Neste mundo há muita coisa que é melhor não saber.

Eu conferia meu equipamento na minha tenda.

Um manto com resistência a lâminas e a poder mágico, uma manopla no braço esquerdo, a Flügel à cintura, duas adagas do lado oposto e várias facas escondidas no forro do manto.

Desta vez não é ação furtiva: o plano é atacar de forma vistosa e aniquilar, então o equipamento privilegia poder de fogo e defesa, não leveza nem discrição.

— Estou indo.

— Rezo pela sua fortuna nas armas.

— Para você também, Mireille.

Enquanto eu ataco, o exército voluntário cercará a Fortaleza de Brocken junto com o exército do território Lebrick.

Nesse período, o comando fica com Mireille.

Ergui a mão de leve para Mireille e saí da tenda.

O sol já começava a se inclinar; em menos de uma hora chegaria a hora marcada para o assalto.

Encontrei Elsa e nos deslocamos para o lado norte da Fortaleza de Brocken.

Escondidas atrás de uma pedra ali perto, esperamos a hora.

— Está quase na hora.

— Sim. Eu fico na área daquela torre de vigia, e a Ellie na área do alojamento, certo?

Elsa olhava a Fortaleza de Brocken e fazia a conferência final.

— Isso. Depois de entrar, causamos estrago o mais vistoso possível e trituramos ao máximo a força inimiga.

— Hm. Prisioneiros não são necessários, certo?

— Não. Se aparecer algum figurão, se der para capturar vivo, tudo bem; mas só se der.

E, se possível, não matem não combatentes.

— Eu sei. É possível que haja aldeões raptados fazendo serviço pesado.

Entre os aldeões atacados pelo exército do Reino de Sarjas houve gente levada à força.

Essas pessoas podem estar presas como serviçais ou faz-tudo.

Na prática são tratadas como escravas, mas há um salário, e no papel é contratação em zona de guerra.

Uma brecha no direito internacional da guerra.

— É a hora.

— Vamos.

Elsa e eu partimos correndo, cada uma para o seu ponto.

Separada de Elsa, corri para a muralha da Fortaleza de Brocken.

Um exército seria outra coisa; mas, no crepúsculo, detectar uma única pessoa é difícil.

Peguei várias facas do peito, carreguei-as de poder mágico e as arremessei contra a muralha: enterraram-se até o meio da lâmina.

Usando os cabos como apoio, subi a muralha aos saltos e irrompi diante de dois soldados que faziam a vigia sobre o parapeito.

— Hã?!

Deviam estar de conversa fiada.

Ao me ver saltar de fora da muralha, arregalaram os olhos.

Não deixaria escapar uma brecha dessas: um único golpe de espada. Decepei a parte superior do corpo dos dois vigias.

Agachada, confirmei pelo som dos corpos desabando que nenhum outro soldado apareceria, e espiei com cuidado o pátio em que aventureiros e mercenários se alojavam.

No pátio interno havia muitas tendas armadas, e os armados descansavam depois da refeição.

Uma magia de área ampla e alto poder causaria num só golpe estrago suficiente para destruir metade daquilo; mas quem é sensível a poder mágico poderia perceber durante o encantamento.

E há aldeões capturados.

Aqui é melhor uma magia de baixo poder, mas de área ampla e ativação rápida.

— 【Chuva de Gelo】.

Um círculo mágico enorme apareceu no alto e pequenos grãos de gelo criados por magia despencaram sobre uma área ampla.

Não tem poder para matar num golpe, mas os mercenários e aventureiros, atingidos de repente por blocos de gelo, entraram em pânico.

Os blocos vão do tamanho de um seixo ao tamanho de uma cabeça humana.

Se acertam braço ou perna, no mínimo trincam o osso; e quem tem azar no ponto atingido perde a consciência.

Desci no pátio em plena confusão e comecei a matar, a começar por um grupo próximo, com jeito de equipe de aventureiros.

Nos criados e serviçais de trabalho pesado não toquei, porque podiam ser aldeões; nos armados, cortei um por um, sem exceção.

Quando a chuva de gelo cessou, o sino de alarme enfim começou a soar, e os mercenários e aventureiros que recobravam alguma calma perceberam que não haviam apenas levado uma magia: havia um invasor.

— Ataque! Tem inimigo aqui!

— É uma mulher! Pegaram o Fred!

— Desgraç… desgra… agh?!

— Andy!

Corri entre as fileiras inimigas em pânico, ceifando vidas a cada golpe de espada.

Eles são apenas mercenários e aventureiros.

Não são salteadores nem soldados de um Estado.

Mas, se aceitaram uma encomenda e se puseram num campo de batalha, devem ter a consciência do que isso significa.

Eu tenho.

Tenho a determinação de eliminar quem quer que atrapalhe o meu caminho.

— Ali! É aquela mulher!

— Fechem formação! Escudos à frente!

Há alguns com movimentos decentes.

Os que estavam ali se juntaram num bloco, os corpulentos com escudo firmaram a vanguarda e atrás vieram os de lança e os de arco.

Formação básica, feita direito.

— Devem ser mercenários. Mas não parecem os tais.

Treinamento razoável, mas com isto não se derruba a Fortaleza de Brocken com facilidade.

— Rajada gélida, hálito reluzente, nevasca congelante que engole a vida; envolto em gelo e neve, meu nome é Fenrir, o lobo do gelo. 【Sopro de Prata】.

A nevasca da morte congelou de uma vez o bloco todo.

É uma magia superior, com encantamento completo. Quem recebe uma magia de poder incomparável ao das magias sem encantamento tem num instante até o sangue do corpo congelado.

Se houvesse um mago entre eles, talvez conseguissem resistir em parte; infelizmente para eles, não era o caso.

— Aquela mulher também usa magia!

— A chuva de gelo de agora há pouco foi obra dela!

— Iih! É uma b-bruxa………… agh!

Bruxa… bem, não deixa de ser verdade.

— 【Terra Congelante】.

Cobri todo o chão em volta com gelo prateado.

— M-meus pés!

— Não dá pra mexer!

Com os movimentos travados, fui abatendo os soldados inimigos à medida que apareciam.

— Parece que do outro lado a coisa está bem vistosa.

Elsa espiou de relance a direção de onde vinham gritos e ruído de destruição.

A distância deveria ser razoável, e ainda assim o ar gelado chegava até ali — devia ser magia.

— Olhar para o lado é confiança demais!

Um aventureiro corpulento baixou um espadão grosso sobre a cabeça de Elsa.

Elsa, porém, encostou de leve a própria espada no espadão e desviou um pouco a trajetória do golpe.

— Pois é.

E, na sequência, decepou a cabeça do aventureiro, desequilibrado pelo peso da própria arma.

Deste lado o número era menor, e mesmo Elsa, com poucos recursos de ataque em área, dava conta com folga.

— Hm?!

Sentiu às costas o assobio das penas de uma flecha e, girando, cortou-a no ar.

— Rá!

Nesse instante uma lança se projetou contra Elsa; ela desviou por um fio e recuou.

Então um grupo com armaduras de couro iguais se abriu em semicírculo, cercando-a.

— Rá!

Ela atacou um deles, na ponta; mas o homem de escudo ao lado desviou sua espada.

Na brecha, o homem que ela visara avançou com a espada e, das costas, dispararam-lhe uma flecha.

— Tsc!

Elsa se atirou para trás e tomou distância do grupo.

Um nível de treinamento completamente distinto do bando desorganizado de antes; Elsa concluiu na hora que aquele era o bando mercenário de que até nos exércitos se falava.

— Vocês são bons. São o tal bando mercenário de que se fala?

— Não sei de que se fala, mas ser elogiado por alguém do seu nível não é ruim.

Do meio do grupo saiu um homem para responder à pergunta sondadora de Elsa.

Cabelo louro sujo, cortado curto, e uma grande cicatriz atravessando o rosto de um lado ao outro.

Ele usava a mesma armadura de couro dos demais, mas de qualidade um pouco melhor.

Deve ser o líder.

Como Elsa previu, o homem começou a dar ordens aos companheiros.

— Ela é muito boa! Não persigam! Cerquem e desgastem aos poucos! Cubram uns aos outros!

Ouvindo a ordem, os mercenários que cercavam Elsa aumentaram a atenção e ergueram as armas sem baixar a guarda.

— Droga!

Os mercenários eram mais hábeis do que ela supunha.

A técnica individual não se compara à de Elsa, mas, cobrindo-se mutuamente, bloqueavam seus ataques e a impediam de emendar investidas.

Mesmo quando Elsa abria uma brecha de propósito para atrair o ataque, o líder soltava uma ordem no ato e eles não avançavam.

Os golpes dos mercenários mal lhe causavam arranhões; mas dez, vinte deles acumulados vão pesando no corpo e roubando a concentração.

— Ha… ha…

— Não se afobem até o fim! Mantenham distância e ataquem com segurança!

O homem que dava ordens também empunhava a espada e partia para cima de Elsa.

Como líder, é uma cabeça melhor que os outros mercenários.

Enquanto ela lidava com o líder, uma flecha lhe abriu mais um arranhão.

— …………Assim a coisa fica feia.

— Não é? Quer se render?

— Boa piada.

— Então o que você vai fazer?

— O seguinte… artefato divino: 【Fenice Spada】.

Elsa atirou a espada que tinha na mão contra o líder dos mercenários e gerou o artefato divino na mão.

Condensado e materializado a partir do poder mágico, aquele artefato divino era uma espada longa gravada com asas de chamas rubras.

— Merda, artefato divino! Recuar!

O líder gritou com aspereza, mas Elsa avançou mais rápido.

Um mercenário de escudo veio à frente e firmou a base, mas Elsa varreu-o com a espada sem cerimônia.

— Guá!

— Iiih!

O homem do escudo e mais alguns mercenários foram arremessados.

Um golpe que não parecia vir da mesma pessoa cuja espada, instantes antes, eles aparavam sem dificuldade.

— Droga! É do tipo que aumenta capacidade física!

Em regra, quem gera um artefato divino tem o poder mágico do corpo ativado e a capacidade física elevada.

Só que a taxa de aumento do artefato divino de Elsa, a 【Fenice Spada】, ia muito além disso.

Em condições normais, a 【Fenice Spada】 não passa de uma espada que eleva um pouco a capacidade física.

Por isso Elsa, no combate cotidiano, nem se dava ao trabalho de usar o artefato divino.

Mas a 【Fenice Spada】 tem alguns poderes especiais.

Um deles é simples e poderoso: quanto mais Elsa se fere e se aproxima do desespero, mais a capacidade física sobe e mais a lâmina fica afiada e resistente.

Foi graças a esse poder que Elsa, tendo atravessado e sobrevivido a inúmeras linhas de morte, se tornou uma aventureira de classe A conhecida como «Elsa, a Fênix».

Ilustração

— Iih, m-me salv… agh?!

Ignorei o pedido de clemência do homem que largou a espada e ergueu as duas mãos, abati-o, soltei um «ufa» e olhei ao redor.

À minha volta havia um mar de sangue e gelo; naquele mundo prateado com adornos vermelhos, aqui e ali, aventureiros e mercenários congelados jaziam entronizados.

— Parece que este lado era o lote errado.

Não havia os tais mercenários de mão-cheia.

Ou será que os matei sem perceber?

Nisso, senti a algum distância o poder mágico de Elsa inchar e logo se condensar.

— Aquilo foi…

Essa movimentação peculiar de poder mágico é a de quem gera um artefato divino.

— Elsa usou o artefato divino?

O artefato divino de Elsa, ao que parece, só manifesta o poder verdadeiro quando ela está encurralada.

Foi ela mesma que me contou, agora há pouco, já que eu revelara o meu.

— Ou seja, o lote bom estava do lado dela.

Aquele bando mercenário me incomoda.

É melhor liquidá-los aqui, com segurança.

Decidido isso, saí correndo na direção de Elsa.

Correndo rumo ao ponto em que Elsa estava, vi de canto de olho uma grande coluna de fogo.

Deve ser magia de Lucas.

Como o pai, o antigo barão Lebrick, morreu de repente, Lucas herdou a casa muito jovem; mas já ouvi dizer que, antes disso, ele pertencia à ordem dos cavaleiros mágicos do Império.

É um homem de força, com afinidade de fogo.

E Dreg, guerreiro veterano, está com ele; não há motivo de preocupação.

— O-o que é você?! Pare aí… guá?!

Cortei ao passar o soldado que tentou me deter, contornei a fortaleza e cheguei a uma área aberta.

Ali Elsa estava cercada por uns trinta mercenários.

O combate estava equilibrado — ou melhor, Elsa levava uma pequena vantagem.

— Artefato divino: 【Grimoire Beelzebub】.

Quando gerei o 【Grimoire Beelzebub】, talvez sentindo o poder mágico, um mercenário mais próximo me notou e gritou «Reforços!».

— 【Lâmina de Vento】. 【Espinho de Rocha】. 【Bala de Fogo】.

Usando o poder do 【Grimoire Beelzebub】, disparei três magias ao mesmo tempo.

Concentrados em Elsa, os mercenários reagiram às minhas magias um instante tarde demais.

A lâmina de vento foi aparada por um escudo, mas uma chama do tamanho de uma cabeça humana arremessou alguns mercenários a mais de três metros, e um espinho de rocha brotado do chão trespassou um mercenário junto com a armadura de couro.

— Magias de várias afinidades ao mesmo tempo?!

— O que está acontecendo?!

— É poder de artefato divino?

— Merda! Os reforços também usam artefato divino!

O abalo se espalhou entre os mercenários.

Vamos aniquilá-los nesta brecha.

— 【Lança de Fogo】.

— Não se desesperem!

Lancei contra os mercenários desnorteados uma lança feita de chamas ardentes, mas um mercenário com uma grande cicatriz no rosto saltou à frente e rebateu a 【Lança de Fogo】 com a espada.

— Calma! Padrão D! Vamos recuar! Esquadra Gato comigo, na retaguarda!

Ao grito do que parecia ser o líder, os mercenários recobraram a calma no ato e mudaram de formação com uma fluidez de organismo único.

Treinamento muito acima do do exército do Reino de Sarjas.

— Elsa!

— Eu sei!

Deixei o líder por conta de Elsa, saltei para trás e comecei a carregar o 【Grimoire Beelzebub】 para lançar magia.

Só que o líder dos mercenários, coberto pelos companheiros que ficaram na retaguarda com ele, passou por Elsa e veio para cima de mim.

— Hm…

— Rá!

Desviei da espada que ele projetou e girei a Flügel para lhe abrir o tronco.

Mas o líder não tentou receber com a armadura nem bloquear com escudo: tentou rebater com a espada.

— O quê?!

Parei a Flügel a seco, girei meio corpo apoiada no pé direito.

E recebi a espada dele com a manopla do braço esquerdo.

— Essa reação… então essa espada é mesmo a arma mágica cantada nas epopeias, a Flügel?!

Ouvi o boato de que estava guardada na câmara do tesouro de algum reino… mas ir topar com ela num lugar destes!

Dizendo aquilo, ele não parava de golpear, e eu seguia recebendo tudo com a manopla esquerda.

De fato é a resposta correta contra a Flügel. Pode-se dizer que é a resposta ótima.

Forjada afiando ao limite a presa de um dragão celeste, a lâmina translúcida da Flügel tem um fio capaz de partir até mithril sem resistência; em contrapartida, sua durabilidade é praticamente nula.

Longe de suportar um impacto, ela se despedaça só de ser brandida numa trajetória forçada.

Guardada na bainha, feita do mesmo material de dragão celeste, a lâmina quebrada se regenera — mas isso leva um tempo considerável.

Ou seja: esta espada não só não bloqueia o ataque do inimigo, como não consegue nem aparar.

O líder dos mercenários parecia conhecer a lenda, porque insistia obstinadamente em mirar a lâmina.

Olhando para Elsa, ela já abatera alguns dos mercenários da retaguarda, mas estava presa por aqueles ataques que não recuavam nem diante da própria morte.

— Uma aventureira do seu nível de quem nunca se ouviu nem falar? Como se explica isso?

— Não sou aventureira, sou comerciante.

Respondi com toda a educação ao líder, que perguntava sem parar de desferir uma tempestade de golpes, enquanto procurava brecha para usar magia.

Antes disso, porém, ouviu-se o som de um apito.

— Até que enfim…

O líder murmurou, tirou uma pequena esfera, jogou-a fora e saltou para trás.

No mesmo instante a esfera soltou um clarão ofuscante que anulou minha visão.

Um item mágico descartável de cegueira!

Recuei no reflexo e me preparei para o ataque, mas o líder não emendou.

Com o resíduo do clarão ainda piscando na visão, vi o líder e os mercenários sobreviventes da retaguarda fugindo a toda.

Elsa parece ter levado o mesmo artefato.

Ao longe, os mercenários reunidos esperavam o líder e os que ficaram na retaguarda, junto com um jovem de armadura de qualidade bem superior à deles e o que parecia ser sua escolta.

— Aquele ali!

Eu conhecia aquele jovem.

É Glint Sarjas, príncipe do Reino de Sarjas.

— Elsa!

— Sim!

Elsa e eu saímos correndo na direção dos mercenários.

Depois de pagar com vidas para ganhar tempo, não fugiram: esperaram o líder.

E ainda com o príncipe, que deve ser o comandante supremo, junto.

Ou seja: têm com certeza um meio de fugir dali de uma vez.

O líder tirou do peito um pergaminho com um círculo mágico complexo desenhado e o abriu.

Um pergaminho mágico, com uma magia selada.

— 【Transferência】.

Ao grito dele, os mercenários e o príncipe sumiram num instante, e no lugar ficou apenas o silêncio de mais de vinte pessoas desaparecidas.

A cabeça do comandante inimigo escapou, mas a eliminação do exército do Reino de Sarjas avançou bem e, em pouco tempo, a retomada da Fortaleza de Brocken foi um sucesso.

Reuni-me com Lucas e os demais principais numa das salas de operações da Fortaleza de Brocken, usada para conselhos de guerra, e discutimos os próximos passos.

— Por ora conseguimos repelir o exército do Reino de Sarjas, mas o problema é daqui em diante.

Disse Lucas, soltando um suspiro fundo.

Entre os nobres do Reino de Haldoria não faltam idiotas que enxergam o povo como mera mão de obra substituível; a percepção que a nobreza imperial tem do povo, porém, é bem outra.

Todo súdito do Império é patrimônio de Sua Majestade o imperador. É o que está escrito, com essas palavras, na lei imperial.

Por isso, ainda que sejam aldeões do interior, se são lesados injustamente por outro país, entende-se que puseram a mão no patrimônio de Sua Majestade.

Se o Senhor Lucas deixar as coisas assim, no jeitinho, os outros nobres do Império dirão que ele é um covarde que deixou danificarem o patrimônio de Sua Majestade sem retaliar; e, no pior dos casos, haverá quem fale em traição ao Estado.

Ou seja: este conflito ainda não acabou.

Há dois caminhos: um, exigir desculpas e indenização pela via diplomática.

O outro, invadir na direção contrária e ir cobrar o preço diretamente.

Pensando em desgaste, o primeiro — negociação diplomática —, mas o Império não tem relações com o Reino de Sarjas.

E, ainda por cima, queremos cobrar a responsabilidade internacional de Friede, que agiu nos bastidores, e por extensão do Reino de Haldoria; só que, gastando tempo com diplomacia, é bem provável que as provas decisivas sejam destruídas.

Daquele idiota feito de músculo da cabeça aos pés não seria estranho ouvir algo como “vamos agir com retidão”; mas o duque Leiston, primeiro-ministro, com certeza vai tentar apagar as provas.

E o bronco, em política, segue os conselhos do duque.

Sendo assim, só há uma escolha a fazer aqui.

Lucas devia ter chegado à mesma resposta, porque falou com o rosto decidido:

— A partir de agora… invadiremos o Reino de Sarjas.

Numa sala do castelo real do Reino de Sarjas, esparramado num sofá, Friede, o príncipe herdeiro do Reino de Haldoria, inclinava a taça de vinho de mau humor; à sua frente, sentado, Glint, o príncipe do Reino de Sarjas, com a expressão consumida pela aflição. Enquadrando os dois no campo de visão, Robert Ati, cavaleiro da guarda de Friede, estava de pé junto à parede, sufocando sentimentos confusos.

— Francamente! Nem uma fortaleza vocês conseguem tomar de um nobre caipira?

É por isso que esses paisinhos incompetentes me dão nos nervos.

— ………………

Coberto de impropérios por Friede, Glint não devolvia nada.

Fazer isso significaria ter o apoio de Haldoria, país suserano, cortado — e um dano enorme para o povo.

Por isso Glint engolia com esforço as queixas que lhe subiam à garganta.

Vendo aquela cena, Robert pensava.

Será que o que ele faz é mesmo certo?

À decisão de Friede de autorizar o saque contra os aldeões do Império, Robert havia sugerido inúmeras vezes que reconsiderasse.

Uma coisa dessas, disse ele, atrai censura internacional inevitável.

Friede, porém, não deu ouvidos à advertência de Robert e emitiu a ordem.

Deve haver razões como manter a moral da tropa e economizar em recompensas, mas a razão principal, no entender de Robert, é implicância com o Império.

De fato o direito internacional da guerra proíbe isso; mas é difícil imaginar que, por causa disso, o Império venha atacar. É até compreensível a previsão de Friede: fazer guerra a custo altíssimo por causa de meros aldeões do interior seria coisa ineficiente.

Robert estava apaixonado por Sylvia Lockit, que se tornara noiva do príncipe herdeiro.

Mas quem conquistou o coração dela foi o príncipe herdeiro ali à sua frente — alguém com quem, na condição social de Robert, ele nem podia rivalizar. Sendo assim, Robert resolveu entregar sua espada a Friede, que era também seu amigo, e a Sylvia, a mulher que amava.

Só que, se aquela escolha foi certa, ele agora punha em dúvida.

O amigo capaz e cordial passou a acumular irritação dia após dia e a descontar nos servidores, e as palavras de Robert já não o alcançavam.

Pensando bem, a situação começou a mudar quando afastaram Elizabeth, a ex-noiva de Friede.

«Seu grandessíssimo idiota!»

Alguns dias depois do retorno de Brato, quando o tumulto no castelo dava sinais de acalmar, junto com um berro que fez o cômodo tremer, Robert foi derrubado por um soco de um braço forjado no treino.

Robert derrubou a mesa e rolou pelo chão; levantou-se logo e ergueu a voz contra quem o havia socado.

«O que é isso, meu pai?!»

Ernest, comandante da guarda real, que estivera fora do país como escolta de Brato e depois trabalhara sem descanso para limpar a bagunça, chamara o filho assim que chegou em casa e o repreendia.

«“O que é isso”?! Seu sem-vergonha!»

«O quê?! Retire o que disse! Nem meu pai pode me insultar dessa…»

«Comparado ao insulto que tu cometeste contra a filha do duque Leiston, isto é brincadeira de criança!»

Diante do berro do pai, as costas de Robert estremeceram por um instante.

Ao se dar conta disso, Robert respondeu tentando disfarçar que tremera de medo diante da raiva do pai como uma criança pequena.

«Elizabeth vinha maltratando a senhorita Sylvia! Eu, como cavaleiro da guarda de Sua Alteza, para protegê-la…»

«Cala a boca! Cavaleiro? Não te iludas!

Submeter uma dama pela força em público e humilhá-la é o que tu chamas de conduta de cavaleiro? E esse maltrato, tu não presenciaste com os teus próprios olhos, presenciaste? Decidir tudo com base na versão de um lado só é ser justo, por acaso?

E, ainda por cima, “Elizabeth”?

Desde quando tu tens condição de chamar a filha do duque Leiston pelo nome sem tratamento?!

Quem não sabe o lugar nem a posição não se diga cavaleiro! Achas mesmo que alguém do teu nível conseguiria imobilizar a filha do duque Leiston?

Provavelmente ela não resistiu para não aumentar o vexame de Sua Alteza Friede. Nem disso te deste conta, e ainda te achaste o máximo — que coisa vergonhosa.

Afastar a filha do duque Leiston por um método destes é mesmo o certo?

Foi mesmo pelo bem de Sua Alteza, pelo bem do reino? Podes dizer de peito aberto que não foi rancor pessoal teu?»

«Ugh…»

Robert também sabia disso. Não: sabia e fingia não perceber.

Elizabeth sempre esteve acima de Robert, desde os tempos de estudante.

Por mais que ele treinasse a espada, não a alcançava.

Ele sabe. A educação de rainha que Elizabeth recebia acrescenta, ao estudo, à magia, à etiqueta e à cultura, uma formação de excelência em artes marciais. Da rainha, que fica ao lado do rei como última linha de defesa da vida dele, exige-se também capacidade de combate.

Dizem que tanto a rainha, morta de doença, quanto a segunda consorte, hoje em missão no continente meridional, são mais fortes que um cavaleiro comum.

Mas Robert, sendo homem e filho do comandante da guarda real, queria vencer Elizabeth.

«Não digo que não houvesse inveja de Elizabeth em mim. Mas eu fiz o que é certo, como cavaleiro.

O desejo de Sua Alteza Friede…»

Sem ouvir Robert até o fim, Ernest desferiu de novo o punho.

«Insensato. Sua Majestade disse que não haverá punição pelo erro de Sua Alteza Friede nem pelo teu. Para proteger o reino, vão jogar todos os crimes sobre a filha do duque Leiston. Por isso tu continuas cavaleiro da guarda de Sua Alteza. Eu, por mim, te tiraria a patente de cavaleiro agora mesmo e te faria recomeçar como soldado raso; mas punir-te seria admitir que Sua Alteza errou, dizem.

Eu fui contra, mas, decidido por Sua Majestade e por Sua Excelência o primeiro-ministro, não há como contrariar.

Olha mais uma vez para o cavaleiro que dizes ser e corrige-te.»

Foi há mais de um ano que o pai disse isso e saiu do quarto.

Na época ele se ressentiu do pai e da mãe por defenderem Elizabeth, que ferira a menina por quem ele se apaixonara; agora, pensando bem, o pai tinha razão: não existia prova alguma de que Elizabeth tivesse visado Sylvia.

A única razão para condenar Elizabeth como culpada eram as palavras de Friede e de Sylvia.

— Ei, Robert! Está me ouvindo?!

— S-sim!

A voz irritada de Friede cortou o pensamento de Robert, que não achava resposta para o que era certo nem para o que deveria ter feito.

— Como o exército incompetente desses aí, que voltou correndo com o rabo entre as pernas, foi destroçado, não consegui feito de armas que preste. Então trate você mesmo de comandar as tropas e aniquilar esses bárbaros do exército imperial que devem estar vindo!

— ………………Às ordens.

Engolindo uma porção de palavras, a Robert só restou responder aquilo.

Avançando sobre o Reino de Sarjas, seguimos numa sequência de vitórias, sem que as pequenas fortalezas e as guarnições urbanas nos oferecessem resistência, até chegar à cidade que fica pouco antes da capital.

A esta altura, até os administradores encarregados das cidades julgavam inútil resistir e, sem oposição digna do nome, erguiam bandeira branca e nos recebiam.

Pesou muito o fato de Lucas não ter tolerado abuso algum nas cidades e aldeias tomadas até aqui, e de ter garantido a posição de quem demonstrasse submissão depois da anexação ao Império.

E ali estávamos nós, frente a frente numa sala da residência do administrador, definida como quartel-general provisório.

— Falta só tomar a capital.

— Sim. Chegamos até aqui sem baixas relevantes.

Se a guarnição da capital do Reino de Sarjas for o que dizem as informações, nem chega a ser batalha.

Até este ponto do território do Reino de Sarjas, quase não sofremos danos.

Por mais que seja um paisinho de força reduzida, há evidentemente uma razão para essa sequência de vitórias fáceis.

— Bem, quanto a isso, o mérito é seu. Sou-lhe grata, Senhor Robert.

Dirigi-me a Robert, sentado ao meu lado.

Chegamos até aqui sem grandes perdas por uma única razão: Robert nos forneceu informações sobre o aparato militar do Reino de Sarjas.

Ele, por ordem de Friede, marchava à frente de tropas rumo à fronteira para nos interceptar.

E, quando os exércitos se defrontaram no campo de batalha, ele me viu no meio das tropas e propôs uma conversa.

Conversamos e ele escolheu deixar Friede e vir conosco.

Sorri com doçura para Robert, que ainda deixava transparecer hesitação.

— ………………Eu…

— Compreendo o que sente. É, no fim, trair um senhor a quem entregou a espada………… Mas está claro que quem está errado é Sua Alteza Friede.

Corrigir o erro do senhor mesmo que às vezes seja preciso carregar a infâmia — não é isso um vassalo leal? E um amigo?

— Senhorita Elizabeth………… Sim… é verdade!

O Sua Alteza Friede de hoje está mesmo estranho. Preciso fazê-lo abrir os olhos!

Para isso, não me importa carregar a fama de traidor.

— Quanto à segurança e à posição do Senhor Robert, farei o que estiver ao meu alcance.

Depende da negociação com o Reino de Haldoria, mas talvez haja a possibilidade de retornar ao reino.

— Agradeço profundamente a consideração, Lorde Lucas.

Com a expressão um pouco menos ensombrecida, Robert agradeceu a Lucas.

— Senhorita Elizabeth.

Foi quando a reunião terminou e eu ia voltar ao quarto que me destinaram.

Robert me deteve.

— Ora, Senhor Robert. Aconteceu algo?

Robert se aproximou de mim e curvou-se profundamente.

— Eu lhe peço perdão!

— Senhor Robert?

— Um ano atrás eu fiz à senhorita algo imperdoável.

Engoli a versão de Sua Alteza Friede e da senhorita Sylvia e a condenei sem verificar nada com meus próprios olhos.

E, por consequência, a senhorita foi expulsa do país…………

Pousei a mão no ombro de Robert e interrompi suas palavras.

— É assunto encerrado. E, aliás, eu ando gostando da minha vida atual, como comerciante.

— Mas…

— Tudo isso é responsabilidade minha, que não soube construir uma relação amistosa com Sua Alteza Friede. Não há por que se preocupar.

Tomei o braço de Robert e segurei seu punho com as duas mãos.

— O Senhor Robert está justamente abrindo mão da própria posição para fazer justiça, não está?

A sua decisão… a sua espada vai proteger a vida de muita gente. Por isso… tenha confiança.

— Senhorita Elizabeth…………

— E, aliás, hoje eu sou Ellie. Ellie Leis.

Disse aquilo com um ar travesso, na despedida, a um Robert de faces levemente coradas, e voltei ao meu quarto.

A capital do Reino de Sarjas, que se espalha em torno do castelo real, estava num silêncio que fazia parecer mentira a agitação de sempre.

Todo o povo da capital se trancara em casa, com as venezianas fechadas, prendendo a respiração.

A razão eram as forças imperiais desdobradas do lado de fora da muralha da capital.

Já era do conhecimento de todos na capital que, no conflito com o Império, os soldados do Reino de Haldoria vindos em reforço massacraram súditos imperiais, e que por isso o Império marchara sobre o Reino de Sarjas em represália.

Aliás, essa versão foi Ellie quem mandou espalhar por meio de terceiros.

Também se espalhou que o exército imperial é disciplinado e que, sem resistência, jamais toca em civis.

Por isso o povo da capital tentava se encolher e aguentar a passagem da tempestade.

E no castelo real do Reino de Sarjas, na sala do trono, pessoas de rosto grave se reuniam num clima pesado.

— Chegamos ao fim… não é?

— Resistir seria inútil.

— E Sua Alteza Friede?

— Aquele príncipe covarde fugiu de volta para o Reino de Haldoria há alguns dias.

— Ei, modere as palavras! Isso é descortesia com Sua Alteza Friede!

— E daí?! O Reino de Haldoria nos abandonou!

Vocês viram o documento que o príncipe Friede deixou.

«Este conflito foi provocado pelo Reino de Sarjas, portanto resolvam-no vocês mesmos; não envolvam o Reino de Haldoria.

Se nos causarem transtorno, não descartamos o uso da força.» Isso! A esta altura, que lealdade se deve àquele país?

Os altos vassalos do Reino de Sarjas procuravam, com um certo desalento, alguma forma de conter a situação.

— Silêncio.

— ………………

Quem conteve os vassalos, prestes a começar uma discussão, foi o homem sentado no trono.

Com aparência de completa exaustão, ainda assim declarou com voz revestida de autoridade.

Era Zantra Sarjas, rei do Reino de Sarjas.

— Não há senão render-se ao Império. Contamos ao Império todo o desenrolar desta guerra e pedimos perdão.

Segundo os relatos, o exército imperial não maltrata a população. Só nos resta negociar de modo a proteger ao menos a vida do povo.

— Mas, Majestade! Ainda que a obra seja de soldados de Haldoria, o Império teve aldeões massacrados.

Ainda que demonstremos submissão, não creio que o exército imperial vá recuar em silêncio.

— Quanto a isso, tenho uma ideia.

Preparem o que for preciso para transferir o governo ao Império.

— Mas…

— É ordem do rei.

— …………Às ordens.

Despachados os vassalos para o serviço, na sala do trono Zantra dirigiu-se ao filho, que ficara com os homens de confiança.

— Glint, como estão Melty e Linessa?

— Minha mãe e minha irmã já deixaram a capital e estão em local seguro.

Ao saber que Glint pusera a mãe e a irmã em lugar ao menos um pouco mais seguro, Zantra deixou aflorar um leve alívio no rosto cansado.

— Assim está bem.

— Sim.

— Fui um rei tolo.

— …Não diga isso…

— Deixa.

Cortando as palavras do comandante da guarda real, que tentava negar, Zantra riu de si mesmo.

— Eu sei disso. Depois de trazer ao país uma confusão deste tamanho, não conseguiria dizer que fui um rei sábio nem que me rasgassem a boca.

— Majestade…

— Pois bem, Glint. Tu sabes o que fazer, não sabes?

— ………………Sim, Majestade… meu pai.

— Hm. Perdoa este pai, que te impõe um fardo destes.

Na sala do trono o ar ficou pesado.

Em meio a isso, com uma expressão serena, quase liberta, Zantra tirou do peito uma adaga.

— É o último serviço que este tolo pode prestar.

Murmurou aquilo, sem se dirigir a ninguém, e cravou a adaga no próprio peito.

Contendo com a mão o comandante da guarda real, que deu um passo à frente, Glint aproximou-se do pai, ainda com um fio de vida, desembainhou a espada da cintura e, chorando, decepou-lhe a cabeça.

— Alteza Glint… não: Majestade Glint. Suas ordens.

— …………Ergam bandeira branca no castelo. A partir de agora, negociação de paz com o Império.

Diante das palavras de Glint, a começar pelo comandante da guarda real, todos os homens de confiança presentes se ajoelharam em uníssono e responderam:

— Às ordens.

Desdobrados diante do portão principal da capital do Reino de Sarjas estavam o exército do território Lebrick, nosso exército voluntário e o exército dissidente do Reino de Haldoria comandado por Robert.

Foi quando fazíamos conselho de guerra na tenda grande montada ao centro.

Um mensageiro entrou na tenda com uma notícia.

— Reporto! Ergueram bandeira branca no castelo do Reino de Sarjas!

E o príncipe Glint, do Reino de Sarjas, veio como emissário para negociação de paz!

— Entendido, conduza-o com toda a cortesia.

— Sim!

O mensageiro recebeu a instrução de Lucas e voltou para trazer Glint.

— Foi mais rápido do que eu imaginava.

— Foi. Resta ver como será a negociação………… Presidente Ellie, pode participar dela?

— Posso; como comandante do exército voluntário, participo também.

— Hm. E o Senhor Robert?

— Também gostaria de participar.

— Entendido.

Pouco depois, o príncipe Glint, do Reino de Sarjas, que eu vira na Fortaleza de Brocken, apresentou-se acompanhado de uma única escolta.

O homem da escolta é o comandante da guarda real, o único usuário de artefato divino do Reino de Sarjas.

Eu me lembrava dele de uma festa no Reino de Haldoria.

O príncipe Glint viu Robert entre nós e abriu um sorriso amargo; Robert desviou o olhar, constrangido.

E então olhou por um instante para mim, ao lado dele, e arregalou os olhos.

— Senhora Elizabeth…

— Há quanto tempo, Alteza Glint.

— …Entendo, era a senhora a comerciante extremamente habilidosa de quem eles falavam.

Os “eles” a que o príncipe Glint se refere devem ser aqueles mercenários.

Na Fortaleza de Brocken eu vi o príncipe Glint, mas ele não parece ter me notado.

O príncipe Glint se recompôs e se voltou para o Senhor Lucas.

— Nós, do Reino de Sarjas, nos rendemos incondicionalmente ao Império de Yutear.

— …………O Império de Yutear tem disposição para aceitar a rendição do vosso país.

Contudo, do conflito com o vosso país resultaram danos nada pequenos aos súditos do nosso Império.

O que pensam a respeito disso?

— …………

O príncipe Glint fez um sinal com os olhos ao comandante da guarda real, e este pousou sobre a mesa a caixa que trazia.

A escolta de Lucas ficou em alerta, mas ele os conteve com uma das mãos.

— O que é isso?

— É o pedido de desculpas do Reino de Sarjas aos súditos imperiais lesados neste conflito.

O príncipe Glint abriu a caixa.

Dentro havia a cabeça decepada de um homem de meia-idade.

— …………Presidente Ellie.

— Sim. É Zantra, rei do Reino de Sarjas, sem sombra de dúvida.

Assenti à pergunta do Senhor Lucas.

— Zantra, nono rei do Reino de Sarjas, tirou a própria vida assumindo a responsabilidade por esta guerra.

Neste momento eu fui coroado décimo rei.

Se a cabeça do meu pai não bastar, ofereço também a minha.

Em troca, peço a misericórdia do Império ao menos quanto ao povo.

O príncipe Glint… não: Sua Majestade Glint disse aquilo e se curvou profundamente diante de Lucas.

— Hm. Quanto ao povo, está entendido. Também o Império não deseja o massacre de inocentes.

Quanto ao destino de Vossa Majestade Glint, é matéria além da minha alçada; ficará a cargo do governo imperial.

Depois que chegar pessoal do Império, peço que venha conosco ao Império.

— Compreendido. Agradeço a consideração, Lorde Lucas.

As condições de detalhe ainda serão ajustadas com tempo, mas por ora o conflito estava encerrado.

O Reino de Sarjas encerra hoje sua história e será anexado pelo Império.

— Ah, e mais uma coisa: este conflito foi manobra de Sua Alteza Friede, do Reino de Haldoria, não foi? Se houver provas disso, gostaria de recolhê-las.

À pergunta de Lucas, Glint assentiu.

— Sim. Friede mandou destruí-las, mas eu as recolhi e guardei no castelo. Entrego tudo ao Império.

Diante daquilo, Lucas relaxou um pouco os ombros.

Se este caso for divulgado em grande escala, a posição internacional do Reino de Haldoria fica bastante deteriorada.

Para mim, pessoalmente, este conflito deu prejuízo; mas, pensando que dá para incomodar o reino, não é um resultado ruim.

Quando íamos sair da tenda para acompanhar Glint, que voltava ao castelo, um soldado entrou correndo, visivelmente afobado.

Diante de todos em alerta, o soldado se ajoelhou e relatou.

— R-reporto! Confirmada explosão no castelo real do Reino de Sarjas! Sai fumaça negra do castelo!

— Como assim?!

Saímos às pressas da tenda: do centro da capital, bem à nossa frente, subiam várias colunas de fumaça negra do castelo real.

— M-mas o que está acontecendo?!

— Majestade! Agora é apagar o fogo, depressa!

— A-ah, sim, mande os que sabem usar magia de água na capital…

Quando Glint ia dar instruções aos subordinados que esperavam do lado de fora, ressoaram mais várias explosões.

Olhando, não era só o castelo: novas colunas de fumaça subiam também da área urbana.

— M-mas o que está acontecendo?!

— Argh! Enfim, apaguem o fogo depressa! O castelo pode esperar! Prioridade à evacuação do povo!

— Às ordens!

A Glint, que apressava os subordinados, Lucas também se dirigiu:

— Nós ajudamos no resgate do povo e no combate ao fogo.

— …Agradeço o trabalho.

Evidentemente, um exército estrangeiro entrando em massa na capital tem grande chance de causar pânico entre os moradores.

Por isso decidiu-se enviar poucas pessoas, sobretudo magos com afinidade de água.

Os demais preparariam ali mesmo o acolhimento de feridos.

Como também uso magia de água, saí correndo para a capital, para combater o incêndio.

Do lado oposto àquele em que o exército do território Lebrick se desdobrava diante do Reino de Sarjas, num bosque escuro de onde se via a traseira do castelo, reuniam-se homens de capas negras.

No centro do grupo, o homem da grande cicatriz no rosto — o líder daquele bando mercenário — murmurou sem se dirigir a ninguém:

— Deve ser agora.

E, como se ele tivesse calculado, o estrondo ressoou e o fogo subiu do castelo real do Reino de Sarjas.

— Com isso as provas da besteira que o príncipe idiota de Haldoria fez viram cinzas. Provavelmente.

— Mas tudo bem assim? Sem garantir a destruição? Pode ser que sobre alguma coisa sem queimar.

— Tudo bem. Lá de cima só mandaram destruir se possível. Não é coisa para se fazer forçando a barra.

— Entendido.

O líder olhou a fumaça negra que subia, apagou o cigarro que fumava e se levantou.

— Muito bem, pessoal, acabou a brincadeira de mercenário! A partir de agora, retorno ao país. Tenente Connor.

— Sim, senhor!

— Divida em destacamentos e inicie o deslocamento. Máxima atenção quanto a perseguição.

— Sim, senhor! A partir de agora nos dispersamos e retornamos ao país!

— Isso. Voltem com cuidado.

— Sim, senhor! O senhor também se cuide, coronel Graham.

— Certo. Vejo vocês em casa.

Os homens se dividiram em grupos de poucas pessoas e deixaram o lugar rapidamente.

Meio mês depois do tumulto das explosões misteriosas, ocupávamos a capital do Reino de Sarjas.

A investigação concluiu que aquelas explosões foram sabotagem de alguém e, como além disso o tal bando mercenário sumiu sem deixar um único homem, nossa leitura é que eles estão envolvidos.

Ao público, anunciamos ser alta a probabilidade de que tenha sido o Reino de Haldoria, para destruir as provas da violação do direito internacional.

A verdade não está estabelecida, mas o documento de Friede que Glint guardava foi queimado com precisão cirúrgica e, com o que sobrou, a prova fica um tanto fraca — então que sirva ao menos de incômodo.

Não sei quem são aqueles mercenários, mas é razoável supor que agiam em favor do Reino de Haldoria.

Só que no Reino de Haldoria não havia uma unidade como aquela.

Para ter sido criada depois que deixei o reino, o nível de treinamento é alto demais.

Por isso suponho que sejam agentes de uma terceira força, distinta tanto do Reino de Sarjas quanto do Reino de Haldoria.

O governo atual está nas mãos de Glint e de Lucas; eu não meto a mão em nada.

E, dias atrás, chegaram do governo imperial os administradores e demais funcionários; assim que a passagem de governo estiver feita, Glint seguirá com Lucas para a capital imperial.

E, como o pessoal do Império chegou, nosso exército voluntário já não é necessário.

Por isso vamos retornar à capital imperial um pouco antes.

No dia da partida, diante do exército voluntário e do exército dissidente de Robert reunidos fora da capital do Reino de Sarjas, reuni os principais.

— Estão todos aqui. Então, daqui em diante, o exército voluntário e o Senhor Robert e seus homens seguem por rotas diferentes até a capital imperial.

— Como?

Robert protestou, intrigado.

— Senhorita Ellie, por que ação separada?

— Senhor Robert… daqui para a frente, a rota normal de volta à capital imperial passa pelas aldeias que sofreram danos neste conflito.

Ainda que tenham desertado, o senhor e seus homens são exército do Reino de Haldoria. Acha que conseguiriam permanecer lá em segurança?

— I-isso…

— Por isso, o senhor e seus homens vão evitar essas aldeias e seguir para a capital imperial. O caminho é um pouco mais difícil, mas todos vocês são soldados regulares; não haverá problema.

Eu os acompanho, fique tranquilo.

— …………Compreendo. Desculpe o trabalho.

— Sendo assim, Mireille, o exército voluntário fica com você.

— Sim, deixe comigo. A senhorita também se cuide.

Foi assim que, separadas do exército voluntário, seguimos rumo ao Império atravessando o que era quase um desfiladeiro.

Já eram dias por caminhos sem caminho, e o desgaste da tropa vinha ficando considerável.

— Senhorita Ellie. Perdão, mas seria possível fazermos um descanso? Os homens estão no limite.

— De fato. Passando este desfiladeiro a capital imperial fica logo ali, então façamos aqui uma parada longa.

Fomos a um espaço mais amplo ali perto e mandei a tropa descansar.

Sugeri o lugar dizendo que, cercado por penhascos altos, bastaria vigiar o lado por onde entramos, o que reduziria a carga.

— Ufa. Falta pouco para a capital imperial, então?

— Daqui, chegamos amanhã mesmo.

— Ah, sim?………………Senhorita Ellie. De novo, meu pedido de desculpas e meu agradecimento.

A senhorita me perdoou e me acolheu, depois do que eu lhe fiz; esta dívida eu certamente pagarei.

Prometo pela honra de cavaleiro.

Diante de Robert, que dizia aquilo em posição de saudação de cavaleiro, com uma expressão quase serena, inclinei um pouco a cabeça e fiz cara de quem não entende.

— Ora? Do que o senhor está falando? Eu não disse uma única vez que o «perdoo».

— Como?

— Não sei o que o senhor entendeu errado, mas eu o odeio a ponto de querer matá-lo.

— M-mas… a senhorita disse… que era assunto encerrado…

— Sim, é assunto encerrado. Justamente por isso, a esta altura, não há mais o que fazer: eu jamais o perdoarei.

— S-Senhorita Ellie…

— Hm. O terreno é conveniente; comecemos por aqui.

— …Começar… o quê?

— …………O Senhor Robert conhece o meu artefato divino?

— …………【Grimoire Wisdom】… não é?

— Não. Isso é mentira. Meu verdadeiro artefato divino é 【Grimoire Sevens】.

É o poder de criar sete espécies de grimório.

Este é um deles: artefato divino 【Grimoire Beelzebub】.

Usando o 【Grimoire Beelzebub】, tapei com um muro de pedra a entrada do desfiladeiro e tranquei o exército dissidente lá dentro.

— M-mas o que…?!

— Artefato divino: 【Grimoire Belphegor】.

Com outro grimório na mão, cravei o punho na boca do estômago de Robert e, agarrando pela gola aquele Robert cambaleante, subi o penhasco correndo com a capacidade física reforçada por poder mágico.

— Guh!

Larguei displicentemente um Robert em sofrimento e olhei de cima o exército dissidente, confuso diante do muro que surgira de repente.

— Cof, cof… o-o que a senhorita pretende?!

Ignorando Robert, tirei do peito uma grande pedra mágica e a atirei sobre o exército dissidente.

Pedra mágica é o poder mágico cristalizado que se forma dentro do corpo dos monstros; é um consumível usado como fonte de energia de artefatos mágicos e como catalisador de magias.

— Ó vós, súditos das trevas que vagais pelo mundo dos mortos; demônio sem olhos e sem forma; ó ancestral do limo que enche a terra.

Eu, conforme o pacto, ofereço uma pedra mágica em sacrifício. 【Invocação: Ooze Origin】.

A pedra mágica que atirei se estilhaçou, uma luz negra correu pelo ar e formou um círculo mágico.

Do círculo brotou uma gosma que despencou sobre a cabeça dos soldados, que olhavam para cima, espantados.

— Aaaargh!

— Aaah!

— Dói! Aai!

— Estou derretendo! Aaghh…

A gosma que caiu sobre os soldados se contorcia como se tivesse vontade própria, estendia tentáculos viscosos até os soldados próximos, agarrava-os e começava a devorá-los, derretendo-os devagar.

— O-o que… é aquilo…

Robert murmurou, contemplando estarrecido a cena dos soldados sendo derretidos, um após o outro, aos gritos.

— Aquilo é o Ooze Origin. A espécie ancestral dos limos, que habita o mundo demoníaco.

— ……………Senhorita Ellie… p-por que fazer isso…

— É óbvio. Isto é vingança.

— Então! Então bastaria me matar! Por que também os soldados, que não têm culpa?!

— Não há razão nenhuma.

— O quê?!

— Eu os matei simplesmente por estarem com o senhor. Eles morrem porque estavam com o senhor.

Se não fosse pelo senhor, eles não seriam derretidos em sofrimento; poderiam voltar para as famílias que amam.

Mas, porque o senhor estava aqui, morrem aqui, hoje.

— …………Eu… eu…

— Isso mesmo. Este é o seu crime. Eles são vítimas lamentáveis, arrastadas para a brincadeira de cavaleiro egoísta e narcisista do senhor.

— ………………Brincadeira… de cavaleiro?

Robert desabou de joelhos, os olhos fixos na cena lá embaixo.

— Sim. O que o senhor faz é apenas brincar de cavaleiro. Não há nem um farelo de honra nisso.

Alguém que não conseguiu conter o descontrole do próprio senhor e, no fim de tudo, ainda o traiu — o senhor achava mesmo que era gente que pode se dizer cavaleiro? Que código de cavalaria conveniente o seu.

— N-não é…

— É, sim. O senhor traiu. O senhor não protege os seus. O senhor não tem honra.

O senhor………… é só um lixo.

— Não é… não… não éee!

Gritando, ergueu a mão para o céu.

— Artefato divino: 【Crest of Knights】.

O poder mágico que jorrou do corpo dele se condensou, virou espada e se acomodou em sua mão.

— Aaaargh!

Desviei do artefato divino brandido sem forma nem técnica, chutei para cima a mão que segurava o punho, e o artefato divino de Robert escapou-lhe dos dedos, voou pelo ar e cravou-se no chão.

— Que espetáculo lamentável.

— …………

— Fraco demais.

Olhando de cima o Robert que caía de joelhos sem sequer apanhar a arma, desembainhei a Flügel e desferi um único golpe.

Parti em dois o artefato divino de Robert.

— 【Crest of Knights】… é nome grande demais para um arremedo de cavaleiro como o senhor.

— A… a… aaaah!

Diante de um Robert que chorava de pavor por ter visto o artefato divino ser destruído sem esforço, peguei um novo grimório.

— Pois bem, o acabamento. Artefato divino: 【Grimoire Asmodeus】.

Ilustração

Quando cheguei à capital imperial, Mireille e o exército voluntário já haviam chegado.

— Bem-vinda, Senhorita Ellie.

— Cheguei, Misha. E a Mireille?

— A Senhora Mireille está no gabinete, revisando os relatórios do período da sua ausência.

— Certo, obrigada.

Acenei de leve para Misha com a mão esquerda e fui ao gabinete onde Mireille estaria.

— Mireille.

— Senhorita Ellie! Voltou!

— Voltei. Por aqui, algum problema?

— Nenhum, correu tudo sem novidade… Senhorita Ellie! Esse braço!

Eu tinha escondido, por garantia, mas Mireille percebeu de primeira, como era de esperar.

Ela tomou meu braço direito e arregaçou a manga.

— M-mas o que é isto?!

Do pulso ao cotovelo, meu braço direito estava tomado por um hematoma escuro.

— Está tudo bem, não é ferimento nem doença.

— Então, o que é?

— É o preço de usar o artefato divino 【Grimoire Asmodeus】.

— 【Grimoire Asmodeus】… é um dos três que eu não conheço.

— Sim………… Bem, acho que posso contar a você, Mireille.

Como já não é preciso esconder, expliquei a Mireille os três grimórios restantes.

— Entendo… então foi isso…

— Sim. Cheguei a achar um desperdício usá-lo naquele arremedo de cavaleiro, mas… pensei que serviria de sinal de fumaça.

— Sinal de fumaça?

— Sim. Dentro de pouco tempo o reino vai perceber que estou no Império.

Quando isso acontecer, o choque será para valer.

No começo, em silêncio, nos bastidores; depois, cada vez mais às claras e em grande estilo.

Àquele arremedo de cavaleiro eu dei o papel de tocar o sino que anuncia o começo.

— …………Compreendido.

Por ora, vou providenciar ataduras para esconder o braço.

— Boa ideia; e dói bastante, então não posso forçar.

No ermo que existe entre o Reino de Haldoria e o Império de Yutear, zona-tampão dos dois países, uma carroça de mascates corria rente à fronteira do reino.

Esses mascates, que haviam adquirido alguns materiais de monstro colhidos no ermo, planejavam voltar à capital do reino e repassar a mercadoria a uma companhia de sua confiança.

— Hm?!

O mascate que ia na boleia com as rédeas na mão parou os cavalos às pressas.

Ao passarem por um trecho rochoso, um vulto saltou de trás das pedras.

— Ei, o que houve?!

O sócio pôs a cabeça para fora do toldo da carroça, querendo saber o que era.

Os dois homens eram ex-aventureiros e confiavam nos próprios braços.

Por isso não contratavam escolta.

Se fosse gente do tipo salteador, teriam de lutar por conta própria.

— N-nada, é que ele saltou de repente para a estrada…

Ao que o homem da boleia disse, olhando à frente, viram um jovem de armadura em farrapos caído de bruços na estrada.

— Salteador… não parece.

O jovem estava sujo de sangue e lama, mas era limpo demais para um salteador, e o equipamento, embora danificado, era de qualidade.

— Caiu de exaustão?

— Sei lá… Ei, moço! Está bem?

Os homens correram até ele e viram que o jovem estava desmaiado, mas ainda respirava.

— O que a gente faz?

— “O que a gente faz”… Hm? Isso aqui não é o brasão da ordem de cavaleiros da capital?

— É mesmo! Então esse cara é um cavaleiro da capital?

Falando nisso, não é que o Reino de Sarjas, Estado vassalo, brigou com o Império e foi esmagado?

— Ou seja, é um sobrevivente derrotado…

— Não tem jeito, vamos levar para a capital.

— É. Cavaleiro tão novo deve ser filhinho de gente boa.

Salvar um cavaleiro do reino deve render pelo menos uma gratificação.

E foi assim que os dois mascates resolveram levar à capital o cavaleiro caído.

— Ai… o-onde estou?

Acordando com o corpo todo doendo, Robert ergueu as pálpebras pesadas e olhou em volta.

O que viu foi uma espada pendurada na parede e o rosto preocupado de uma mulher.

— Senhor Robert! O senhor acordou!

Quem se debruçava sobre o rosto de Robert com ar preocupado era um rosto conhecido.

Uma das criadas da casa condal Ati, família de Robert, e para ele quase uma irmã mais velha.

— Ai…

— Vou chamar o médico agora mesmo; fique assim, por favor.

Dito isso, a criada saiu apressada do quarto.

— Sim, não há problema algum. Os ferimentos já fecharam quase todos, com magia de cura e poções; descanse alguns dias e recupere as forças.

— …Sim, entendi.

Sentado na cama, Robert respondeu ao médico de idade e fechou de novo a roupa aberta.

Quando o médico saiu do quarto, duas mulheres entraram.

— Irmão!

Uma delas, uma menina, atirou-se nos braços de Robert.

— Roa.

É Roarise, irmã de Robert.

A menina, que completara nove anos dias antes, não cabia em si de alegria por rever o irmão depois de meses.

— Roa, o Robert ainda está cansado; nada de agitação.

— Minha mãe.

A outra era a mãe de Robert.

— Robert, o que aconteceu, afinal? Dizem que você estava caído sozinho no ermo.

— No ermo?

Robert tentou puxar pela memória, mas era como se houvesse uma névoa dentro da cabeça: não vinha nada.

Ainda assim, não conseguia se livrar da sensação de estar esquecendo algo.

— Eu… o que foi que…

— Vou entrar.

O que interrompeu o pensamento de Robert foi uma voz grave de homem e o som da porta se abrindo.

Quem entrou foi um homem de compleição robusta, forjada no treino.

— Então acordou, Robert.

Era Ernest, seu pai, comandante da guarda real do Reino de Haldoria.

Ernest é um veterano que, desde jovem, percorreu campos de batalha ao lado de Brato, o rei.

— Meu pai.

— Seu grandessíssimo idiota!

Ernest chegou diante de Robert, cerrou o punho marcado por batalhas e o acertou na bochecha do filho a uma velocidade a que ele nem conseguiu reagir.

Ouvindo o grito da irmã, Robert foi arremessado da cama contra a parede.

— Movimentar tropas por conta própria, sem autorização de Sua Majestade, e ainda praticar saque e violência contra gente inocente — isso é inadmissível!

E, por cima disso, perder os soldados e sobreviver sozinho, só o comandante, com o rabo entre as pernas! Tenha vergonha!

— E-eu… eu…

— Cala a boca! Vergonha da nossa casa condal!

Tu já não tens direito algum de te dizer cavaleiro; a partir de hoje estás excluído da ordem de cavaleiros e incorporado ao exército como soldado de baixa patente!

Endireita esse caráter começando de soldado raso!

Transmitido apenas isso, Ernest girou nos calcanhares e foi saindo do quarto.

Com a mão na maçaneta, sem se virar, disse:

— Robert, como cavaleiro, eu tenho vergonha de ti.

Mas, como pai, digo só isto: ……………………ainda bem que voltaste vivo.

E, dito isso, Ernest se foi sem olhar de novo para Robert.

Nos dias seguintes, Robert passou em repouso na cama.

Quando enfim o médico o autorizou a se movimentar, ele fazia alguns alongamentos leves dentro do quarto.

Aqueles dias todos ele tentou recuperar a memória turva, mas não conseguia de jeito nenhum.

Por que estava caído no ermo, o que fora feito dos soldados: havia algo que ele precisava lembrar, e não lembrava.

Robert pegou a espada pendurada na parede.

Talvez por não empunhar uma espada havia tempo, ela lhe pareceu pesadíssima.

— Irmão!

Nisso, uma voz o chamou de trás.

— O que foi, Roa?

Robert se virou devagar.

Roarise corria feliz na direção de Robert.

Robert ia receber nos braços a irmãzinha querida e…………………… atravessou o peito dela com a espada que desembainhou.

— Aagh!

— Hã?

Sem entender o que tinha acontecido, no rosto pasmo de Robert espirrou, quente, o sangue da irmã.

— Hã?

— I-irmã… ão…

— Hã? R-Roa? Hã?

— P-por… quê…?

Robert olhou para a irmã.

Do corpinho da menina, que formava uma poça de sangue no chão, brotava uma espada bruta — e o punho dela estava, sem dúvida, seguro pelo braço de Robert.

— A-a-aaaah!

Aquele foi o início da carnificina.

— Senhor Robert, aconteceu alg… aaaaah!

A criada que pôs a cabeça na porta viu Robert com a irmã trespassada e gritou.

— N-não! Eu…

Contrariando a voz de um Robert desnorteado, seu corpo deslizou pelo chão até a criada e desferiu um golpe.

A cabeça da criada, que Robert considerava uma irmã mais velha, voou pelo ar espalhando sangue vermelho-vivo.

— Aaaah!

Tendo matado a irmã e a criada, Robert saiu correndo do quarto.

Já não conseguia governar o próprio corpo.

Cortando um após o outro os criados com quem cruzava, Robert corria.

— Por quê… como… não… não sou eu…

Enquanto matava com as próprias mãos os criados que conhecia desde a infância, murmurando sem parar, uma nova pessoa apareceu diante de Robert.

— O que é essa barulheira?

— Mãããe!

— Hã?! Robertoo…!

A lâmina entrando pelo ombro direito da mãe e saindo pelo flanco esquerdo se gravou na retina de Robert como uma cena em câmera lenta.

— Ah… aaah! O que é isso! O que é isso?! O que está acontecendo?!

Ainda assim as pernas de Robert não paravam.

Saindo pelo portão da casa, começou a caminhar arrastando a espada ensanguentada.

A casa condal Ati é uma casa nobre de alta posição, que gera cavaleiros da guarda real por gerações.

Por causa dessa condição, sua residência não fica no bairro nobre, e sim no limite da capital, perto das instalações de treinamento da ordem de cavaleiros, na periferia.

Ou seja: bastam alguns passos para se chegar ao mercado, apinhado de gente.

— Uá-rá-rá-rá! Este reino agora é meu!

— Aaai, Senhor Friede!

— Bruxa Elizabeth! Não vou deixar você fazer o que quiser! Prove a espada do príncipe Friede!

Um menino com um trapo nas costas à guisa de manto, empunhando um graveto, protegia uma menina atrás de si e encarava outro menino, no papel de Elizabeth.

— O que é isso?

— Ah, a senhora esteve na casa dos pais até há pouco e não sabe.

Anda virando moda entre as crianças.

Ao que dizem, houve uma bruxa que tentou tomar o reino, e Sua Alteza Friede e a Senhorita Sylvia se uniram e a expulsaram.

— É mesmo? A Senhorita Elizabeth é aquela filha da casa ducal, não é?

Se não me engano, não era a nobre que fazia um monte de coisas por nós, o povo?

— Pois é, mas nos bastidores ela andava fazendo coisas terríveis. Abafava tudo usando a posição de futura rainha, mas a Senhorita Sylvia percebeu e a denunciou.

— Não diga!

— E aí ela passou a atentar contra a vida da Senhorita Sylvia.

— Que horror.

— Mas Sua Alteza Friede protegeu a Senhorita Sylvia e os dois venceram a bruxa.

— Que lindo.

As duas donas de casa fofocavam sem parar, olhando as crianças no auge da brincadeira de espada.

Era uma cena como qualquer outra; dali a pouco levariam os filhos para casa e prepariam o jantar antes que os maridos voltassem do trabalho.

Só que aquele cotidiano se tingiu de vermelho num instante.

Elas tiraram os olhos das três crianças que brincavam pelo tempo de um piscar.

Nesse intervalo mínimo, as crianças foram cortadas do tronco para cima.

— Hã?

As duas donas de casa arregalaram os olhos.

Quando perceberam, à frente delas um homem sinistro, que chorava e ria ao mesmo tempo, erguia uma espada.

— Ah…

O homem baixou a espada e a mulher tombou sem oferecer resistência alguma, num jato de sangue.

— Iih! N-não…

A outra caiu sentada de tanto pavor e recuou se arrastando.

— …………Não é… ih, ih… não sou eu… ah, isso… eu não faria… uma coisa… dessas… ah… a-ha-ha-ha-ha!

Rindo como um louco, o homem cravou a espada na barriga da mulher que se arrastava.

— Nãããão!

— A-ha-ha-ha-ha!

No mercado, em plena tarde, no meio de uma multidão de gente, Robert irrompeu chorando e rindo como um demente e começou a matar quem estivesse ao alcance; quando a ordem de cavaleiros chegou e o dominou, o mercado tinha virado um mar de sangue digno de um campo de batalha.

— A confusão foi grande.

Numa das salas de reuniões do castelo real do Reino de Haldoria escapou um suspiro carregado de cansaço.

— O autor era o filho de Lorde Ernest?

— Dizem que a esposa e a filha dele também foram vítimas.

— Dá pena, mas, com uma tragédia deste tamanho…

Falavam baixo, mas as palavras ressoavam bem naquela sala silenciosa.

E Ernest, de pé sozinho num canto, cerrava os punhos com tanta força que sangravam, o rosto lívido, a cabeça baixa.

— Silêncio!

Bastou Sieg, o primeiro-ministro, dizer isso para a sala emudecer no ato.

E então Brato, sentado no assento mais alto, abriu a boca com dificuldade.

— Sieg, qual o dano final?

— Sim. Mortos: a família de Lorde Ernest e alguns criados; oitenta e cinco pessoas do povo; vinte e um soldados e dois cavaleiros.

Além disso, um grande número de feridos, graves e leves.

— A formação de excelência como cavaleiro acabou se voltando contra nós?

— Sim. O filho de Lorde Ernest se destacava nas artes marciais. Se não fosse Elizabeth, seria celebrado como o espadachim genial de uma geração.

— Hm… E a causa foi apurada?

— Não… Segundo o interrogatório, ele murmura «não sou eu», «eu não faria uma coisa dessas».

Tentam ouvi-lo e é tudo incoerente… Segundo o médico, já havia lacunas de memória antes do episódio; a hipótese é distúrbio mental por retorno do campo de batalha.

— Certo… Para alguém tão jovem, o campo de batalha foi duro demais.

Brato fechou os olhos, soltou um longo suspiro e voltou um olhar afiado a Ernest.

— Ernest. És meu amigo desde jovem, com quem dividi campos de batalha. Tens em teu crédito inúmeros feitos de guerra.

Se pudesse, eu te concederia clemência…

— É difícil. Também houve muitas vítimas entre o povo. Se não julgarmos isso como crime, pode se converter em desconfiança contra a Casa Real.

— …É isso. Perdoa-me, Ernest.

— De modo algum. A consideração de Vossa Majestade é honra que excede a minha pessoa. O que houve foi obra do meu filho indigno.

A responsabilidade é dele e minha. Peço que a punição seja rigorosa.

— …………Hm. Então dou a sentença. Robert Ati, por homicídio de classe A, é condenado à morte!

E, como o homicídio de classe A implica, pela lei do reino, responsabilização por conexão, considerando a longa lealdade e os feitos de guerra de Lorde Ernest, ordeno sua exoneração do cargo de comandante da guarda real, o rebaixamento a barão e a transferência para uma fortaleza de fronteira.

— Majestade!

Ernest tentou contestar a decisão, mas o rei Brato balançou a cabeça em silêncio.

— Sei bem que te sentes responsável. Mas, com o país em desordem, quero evitar perder um vassalo leal como tu.

— Mas…!

Ernest tentou dar um passo à frente, mas vacilou e caiu de joelhos.

— Ernest, tu mal dormiste, não é? Retira-te e descansa.

— …………Majestade.

— Alguém! Levem Ernest à enfermaria.

Depois que Ernest se retirou, amparado pelas damas de companhia, Brato deu instruções a Sieg.

— Sieg, ponha alguém junto do Ernest. Do jeito que está, ele é capaz de tirar a própria vida.

— Às ordens.

A primeira vez que ele viu Sylvia foi no segundo ano no instituto, no fim da tarde do dia em que, na aula de esgrima, houve um duelo e ele perdeu para Elizabeth. Ele, filho do comandante da ordem de cavaleiros, perder na espada. E para uma mulher.

Como candidato a assessor de Friede, Robert tinha com Elizabeth algo parecido com convivência, e sabia que ela lutava. Ainda assim, acreditava ser o mais forte.

Mas não venceu.

Chocado, Robert treinou a espada no pátio dos fundos do instituto até se esgotar e cair na grama.

«Ei, o que você está fazendo aí?»

Quem se debruçou perguntando aquilo foi Sylvia.

Sylvia elogiou a técnica de Robert.

Robert se sentiu cada vez mais atraído por Sylvia, que lhe dirigia um olhar de admiração sincera; mas, antes que declarasse o que sentia, Sylvia e Friede se tornaram um casal, e ele já não pôde dizer nada.

Por isso Robert jurou entregar sua espada de cavaleiro a Friede e a Sylvia.

Foi uma juventude que parecia uma página de romance de cavalaria e amor impossível.

— Ei, levanta! Anda logo, sai daí.

Foi arrancado sem cerimônia do sono em que se banhava em lembranças do passado.

Numa sala das instalações do exército construídas ao lado do castelo real, Robert, com as mãos algemadas e uma coleira seladora de poder mágico no pescoço, foi levado pela corrente das algemas por um guarda de armadura completa.

Quando, no corredor rumo à saída, apareceram diante de Robert o príncipe herdeiro Friede e sua noiva Sylvia, o guarda que puxava a corrente parou e prestou continência.

— ………………Alteza.

Robert, com olheiras fundas e olhar vazio, reconheceu Friede e reagiu de leve.

— Fez das boas, Robert. Graças ao que você aprontou, a crítica está chegando até mim, que o valorizava.

— …Eu… eu…

— Cale a boca! Seu lixo! Eu é que errei ao promover a cavaleiro um criminoso hediondo como você.

— …Cavaleiro… não, eu… como cavaleiro… a honra do cavaleiro…

— Hmpf, está pirado. Levem-no!

— Sim, senhor!

Quando puxaram de novo a corrente e Robert voltou a andar, a figura de Sylvia, escondida atrás de Friede, entrou em seu campo de visão.

— …Sylvia… é isso, Sylvia! Eu, por você! Pela sua felicidade eu virei cavalei…

— E-ei! Fique quieto!

O guarda imobilizou à força Robert, que tentava se aproximar de Sylvia.

— Sylvia!

— …Não seja ridículo.

— Sylvia?

— Não me chame com essa intimidade! Seu assassino!

— …?!

Fuzilado pelo olhar de Sylvia, Robert parou.

— Sylvia… não é… não é isso… eu…

— Já chega!

Friede golpeou com a espada ainda embainhada o Robert que, imobilizado pelo guarda, tentava continuar falando.

— Chega, vamos, Sylvie. Levem-no logo! Eu que pensei ouvir ao menos um pedido de desculpas no fim, e é só delírio… Você me decepcionou. Adeus, Robert.

Deixando aquelas palavras, Friede e Sylvia foram embora.

E Robert foi conduzido pelo guarda pelas ruas da capital.

— Assassino!

— Morra!

— Devolva o meu filho!

— Eu te mato! Eu te mato!

Dos moradores da capital reunidos ao longo do caminho vinham xingamentos e pedradas.

Era por isso que o guarda usava armadura completa.

Havia cordas nas laterais para impedir que se aproximassem de Robert, mas em vários pontos havia cestos de pedras à disposição, para que o povo pudesse ao menos desafogar um pouco a raiva.

O guarda que puxava a corrente não parou nem uma vez; ainda que Robert, atingido pelas pedras, tentasse cair, ele o levantava à força e às vezes o arrastava.

E chegaram ao cadafalso montado na praça central da capital.

Diante de Robert, posto lá em cima, havia gente suficiente para encher a praça, todos cuspindo impropérios contra ele.

Bateu-se um gongo enorme, como um trovão, e no instante em que os xingamentos cessaram o carrasco, de rosto escondido pelo elmo, ergueu a voz:

— Executa-se a pena de morte do grande criminoso Robert Ati!

Ao sinal do carrasco, os guardas que trouxeram Robert imobilizaram seu corpo.

O carrasco ergueu a lança, marcou uma pausa e, num só movimento, atravessou-lhe as costas.

— Guáh!

Robert viu a ponta da lança saindo do próprio peito e, além dela, o rosto do povo cheio de rancor.

Enfim posso acabar.

Ele matou com as próprias mãos a irmãzinha querida, a mãe amada, os criados que eram como família, o povo que devia proteger.

A sensação de cortar cada um deles não lhe saía da cabeça.

Ele sonhara ser um cavaleiro de honra… mas enfim isto acaba… e nesse instante, como uma névoa que se dissipa, ele se lembrou.

Daquele dia, a cena infernal em que seus soldados eram derretidos em sofrimento.

Da voz que o denunciava como indigno de ser cavaleiro.

Da cena em que o artefato divino, prova de sua honra, foi partido sem esforço.

Da figura da mulher bela que o olhava de cima, satisfeita, enquanto ele chorava de desespero.

— A… a…

É isso. Preciso avisar.

Ele é um fracasso como cavaleiro, mas precisa ao menos avisar do perigo que se aproxima deste reino.

Movendo desesperadamente o corpo que ia perdendo calor, Robert tentou dizer ao carrasco mais próximo.

Que Elizabeth pretende se vingar deste reino.

Mas as palavras que Robert conseguiu articular com a última gota de força foram engolidas pelos xingamentos do povo, e não chegaram a ninguém.

«Você, que só brinca de cavaleiro, não pode fazer nada.»

«Você não tem honra alguma.»

«Morrer sem sentido é o que combina com você.»

Em meio à dor lancinante e à consciência que se apagava, pareceu-lhe ouvir a voz dela.

Eu revisava documentos na casa da capital imperial quando senti a dor da maldição na mão direita ir se dissipando.

— Ora?

— Senhorita Ellie?

Desfiz a atadura da mão direita: ali estava um braço sem uma única marca.

— O seu braço!

— Parece que o arremedo de cavaleiro morreu.

Demorou mais do que eu imaginava.

E que espécie de confusão terá havido no reino?

O efeito do 【Grimoire Asmodeus】 é o registro da alteração.

É o grimório que falsifica a memória de quem cumpre certas condições e impõe sugestões hipnóticas poderosas.

Só que não se pode abusar dele.

O efeito só funciona sobre uma pessoa por vez e, uma vez usado, só se desfaz com a morte do alvo ou com contato direto meu com ele. E, além disso, o meu próprio corpo recebe uma maldição proporcional à intensidade do efeito.

Sinceramente, é um poder difícil de usar.

— Fico aliviada por ver o braço da Senhorita Ellie de volta ao normal.

— Desculpe a preocupação. Pois bem, vamos aguardar com prazer o relatório e ver que resultado deu.

Peguei a xícara com a mão direita já livre e bebi todo o café, apreciando o aroma tostado.

◇◆☆◆◇

— Ãhn, ou seja, este acontecimento é o começo do fim do Reino de Haldoria, certo?

Nessa ocasião, Ernest Ati, ex-comandante da guarda real e pai do executado Robert Ati, no mesmo dia desmaiou os soldados que o vigiavam e tirou a própria vida.

Ou seja, pela conduta insensata de Robert a casa Ati se extinguiu.

E, quanto ao motivo de Robert neste episódio, há três hipóteses principais, certo?

Alguém sabe dizer?

— Eu!

— Liam.

— Sim. A hipótese do distúrbio mental pela guerra, a hipótese da paixão pela princesa consorte Sylvia e a hipótese do rancor pessoal contra o príncipe herdeiro Friede.

— Correto. Na minha opinião, a hipótese do distúrbio mental é a mais forte.

Afinal, restaram registros dos médicos da época.

Há ainda a hipótese da maldição de Elizabeth Leiston — ex-noiva de Friede, «o Príncipe Tolo», cujo paradeiro se perde depois do rompimento do noivado —, mas essa é, convenhamos, coisa de crendice.

Diante do velho professor que fazia graça, os alunos deixaram escapar risadinhas.

Nisso soou o sino.

— Ora, então ficamos por aqui hoje.

Na próxima aula falaremos de «a Bruxa de Prata», Ellie Leis, que a partir deste conflito começa a se destacar no Império.

Leiam o livro-texto e venham preparados.

Instituto Nacional Adel — 3º ano — 2ª aula — História do Continente — professor responsável: Fraid Lotte


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