Capítulo 12 – Prática da Gratidão
— E aí, Monica. Bom trabalho. Conseguiu entrar em contato com o príncipe?
O sol já havia se posto quando Monica voltou ao seu sótão no dormitório, e Nero, o gato preto, veio pulando pela janela do sótão.
Monica, que estava deitada de bruços na cama desde que voltara ao sótão, se levantou preguiçosamente e balançou a cabeça, sem esperança.
No momento, Monica era incapaz de interagir com os colegas de turma em um nível minimamente humano, quanto mais entrar em contato com o príncipe. Diante dessa situação, ela se perguntava como conseguiria se aproximar dele.
Enquanto Monica choramingava em lágrimas, Nero balançou o rabo de um lado para o outro e disse com orgulho.
— Eu reuni algumas informações! Agora, me elogie!
— …Certo. Obrigada, Nero.
— Escute e se surpreenda: o segundo príncipe é o presidente do conselho estudantil. Isso significa que, se você se tornar membro do conselho estudantil, vai conseguir entrar em contato com ele naturalmente.
De fato, o argumento de Nero era certeiro.
O segundo príncipe e Monica estavam em séries diferentes, então era muito difícil se aproximar dele normalmente. No entanto, se ambos fossem membros do mesmo conselho estudantil, ela poderia se aproximar dele com naturalidade. Mas…
— Isso é impossíveeeel.
Para se tornar membro do conselho estudantil, era preciso ter notas excelentes. Além disso, também era preciso ter conexões com os membros do conselho.
— Mas, olha só, Monica. Você é uma dos Sete Sábios. E gênia, ainda por cima. Então, se você tirar notas bem altas na próxima prova, acho que consegue virar membro do conselho estudantil.
Monica balançou a cabeça em silêncio e pousou seu livro didático sobre a mesa.
Os livros didáticos eram, em sua esmagadora maioria, sobre história e línguas estrangeiras. Quando se trata do conhecimento exigido de um filho de família nobre, isso era apenas natural.
A formação de Monica era em tudo relacionado à magia. Ela sabia muito sobre a história da magia, magia fundamental, fórmulas mágicas e as leis relacionadas à magia, mas, fora isso, suas notas gerais estavam abaixo da média, exceto em aritmética.
— Ei, você estudou em uma escola chamada Minerva, não foi? Não estudou nenhum idioma lá?
— Na Minerva, eu escolhi Escrita Mágica Antiga e Línguas Espirituais como matérias de estudo.
Se os nobres deste país escrevessem cartas em Escrita Mágica Antiga e trocassem palavras com espíritos, o conhecimento de Monica teria sido muito útil. Mas, é claro, nenhuma dessas era uma habilidade exigida dos filhos da nobreza.
— O que eu faço, o que eu faço, o que eu faço.
Monica se sentou na cama, abraçando Nero contra o peito, choramingando.
Agora, Monica nem estava mais em posição de proteger o segundo príncipe. Tudo o que podia fazer era tentar não ser expulsa desta escola.
Não, antes até disso…
— Hoje, eu recebi gentileza de duas pessoas.
Monica olhou de relance para o laço em sua mesa e para as castanhas embrulhadas.
Apesar da atitude arrogante de Lana, ela foi a primeira pessoa da turma que falou com Monica.
E o jovem que ela conheceu no jardim antigo priorizou recolher as castanhas de Monica antes dos próprios documentos.
— Na verdade, eu queria ter dito “obrigada” para eles, mas…
Ela conseguiu apontar os erros nos documentos, mas, como não conseguiu agradecer direito, sentiu que havia sido tão ingrata.
Monica baixou o olhar, e Nero ergueu os olhos para ela.
— Você conseguiu me dizer “obrigada” numa boa. Acabou de dizer agora mesmo. Eu mesmo ouvi.
— Isso foi porque… você… não é humano…
Nero franziu a testa como um humano, mas então, de repente, teve uma ideia, balançou o rabo e desceu do colo de Monica.
— Muito bem, então, vou te ajudar a treinar para superar a timidez.
— Nero? Está falando daquilo…?
— Sim. Isso mesmo.
Nero pulou na cadeira e deu um chicotear com o rabo. Instantaneamente, sua figura se contorceu, e o gato preto se transformou em uma massa de sombras negras. Aos poucos, a sombra se expandiu e se tornou uma silhueta humana.
Em menos de dois piscar de olhos, a sombra ganhou cor. Como se a tinta tivesse sido lavada, um tom de pele suave podia ser visto sob a sombra.
— Olha só, que tal?
A pessoa sentada na cadeira não era um gato preto, mas um jovem de vinte e poucos anos, de cabelos negros e olhos dourados. Ele vestia um traje um tanto antiquado.
É claro que ele não era humano. Era Nero, que havia se transformado em forma humana.
Ela já sabia que Nero conseguia se transformar em um ser humano, e já o vira fazer isso antes, mas… seu corpo se encolheu por conta própria ao perceber que havia um homem adulto na sua frente.
— N-Não…
Seus olhos, que normalmente olhavam para baixo, vazios, se arregalaram ao limite, e seu corpo tremia.
Ela recuou na cama e segurou a cabeça com as mãos, como se estivesse se protegendo.
— Não… Eu não quero isso… Eu imploro, Nero… Por favor, volte a ser um gato…
Ela parecia prestes a desabar em lágrimas, enquanto Nero inflava as bochechas de frustração. Ao fazer isso, ele parecia terrivelmente jovem para um homem adulto.
— Não quero. Quer dizer, você consegue falar com o Lulupapai direitinho, mesmo gaguejando um pouquinho!
Aparentemente, Nero não tinha nenhum interesse em lembrar o nome de Louis Miller.
Por ora, Monica insistiu, corrigindo o erro dele com o nome de Louis.
— Louis vai me dar um tapa na bochecha se eu não responder direito. No pior dos casos, ele me dá tapas de ida e volta!
— Uau… sério mesmo? Ele é péssimo. Bom, mas eu não vou te dar tapa nenhum! Que tal isso? Eu não sou bem legal?
Normalmente, deveria ser assim, mas Louis é que era radical demais.
Ainda assim, Nero bufou com orgulho e encurralou Monica.
— Agora expresse sua gratidão, me adore, e me agradeça.
Enquanto Nero se aproximava cada vez mais, Monica se inclinava para trás, abrindo e fechando a boca repetidamente.
— O-Obri… O-Obri… ga…!
Depois de mal conseguir soletrar uma palavra, a boca de Monica começou a resmungar palavras sem sentido, seguidas por uma sequência de respirações ofegantes. Vista de fora, ela parecia uma pessoa doente.
Nero fez bico com os lábios, como uma criança frustrada.
— Ah, é mesmo? Então você não queria me agradecer por eu ter me infiltrado na escola e ajudado na investigação? Ai, estou super chocado. Estou magoado!
— Não, você entendeu errado, me desculpa…
— Eu prefiro ouvir um obrigada do que um desculpa. Vamos lá, elogie seu familiar, mestra.
Nero então passou a balançar os pés displicentemente na cadeira, de um jeito mal-educado.
Monica fechou os olhos com força, cerrou os punhos no colo, e forçou a voz para fora.
— O-Obrigada por tudo, Nero!
— Ah, que bom, continue, continue. Certo, agora diga: “Senhor Nero, você é o melhor!”
— Senhor Nero, você é o melhor!
— Agora, “Senhor Nero, você é maravilhoso~!”
— Senhor Nero, você é maravilhoso!
Ao ver os olhos de Monica ficarem rodopiantes enquanto ela recitava, Nero esfregou as bochechas.
— Estou começando a me sentir tipo um vilão lavando o cérebro dos mocinhos.
— Você é tão malvado, Nero…
— Miau! Eu só estava fazendo isso pro seu próprio bem… hm?
Virando seus olhos dourados para a janela, Nero a abriu e se debruçou para fora.
Monica puxou às pressas a barra da roupa de Nero.
— N-Nero! I-Isso é perigoso. Você vai cair…
— Ei, Monica, olha. Tem um cara na janela do dormitório masculino. Ele parece suspeito.
— Ahn?
Monica se debruçou na janela ao lado de Nero e voltou sua atenção para o dormitório masculino ao lado.
As janelas do sótão eram altas o suficiente para lhes dar uma boa visão, mas contar apenas com a luz da lua ainda era pouco confiável.
Monica ativou sua magia de visão noturna e visão à distância sem cântico. Essa magia não fortalecia sua visão em si, mas criava em sua mente uma imagem de uma cena a certa distância.
Tem alguém no pátio do dormitório masculino.
Na mente de Monica, surgiu uma imagem do dormitório masculino. Concentrando ainda mais sua atenção, ela conseguiu ver uma pessoa saindo pela janela do térreo do dormitório masculino.
Ele vestia uma capa com capuz sobre a cabeça, então seu rosto não era visível. No entanto, por baixo do capuz, era possível ver seus cabelos negros balançando ao vento.
Ele era alto e esguio, e usava uma sobrecasaca fina por baixo da capa.
Ele saiu pela janela do térreo para o jardim e desapareceu entre as árvores.
— Ele saiu do meu campo de visão. Você não consegue fazer alguma coisa com a sua magia?
— Minha visão à distância não é clarividência. Assim que se escondem atrás de um obstáculo, eu não consigo mais rastreá-los, mas…
Monica colocou o dedo no queixo e semicerrou os olhos.
Naquele momento, na mente de Monica, cálculos iam e vinham em um ritmo vertiginoso.
Nesses cálculos, Monica descobriu um fato.
— Eu já conheci essa pessoa antes…