Capítulo 13 – A Bruxa Silenciosa Torna-se Cativa
No sótão não havia cortinas, então, quando o sol da manhã surgia, ele brilhava diretamente no quarto.
Quando Monica acordou, tirou a cafeteira de sua bagagem antes de arrumar a aparência.
Quando Monica deixou sua cabana, as únicas coisas que levara na bagagem foram uma cafeteira, um moedor, grãos de café e seu gato preto, Nero. Tendo vivido a vida sem interagir com as pessoas, ela quase não tinha nada de importante.
Ela ativou seu feitiço sem cântico e encheu a cafeteira com água potável.
A água produzida por feitiços não pode ser usada para beber, porque contém uma pequena quantidade de mana. Como o corpo humano não consegue armazenar muita mana, consumir uma grande quantidade de água com mana leva a um envenenamento por mana. Por isso, Monica normalmente buscava água de um poço.
No entanto, uma pequena quantidade não seria um problema. Como uma dos Sete Sábios, Monica tinha uma tolerância à mana mais alta do que a maioria das pessoas. Então não sofreria facilmente de envenenamento por mana.
Monica despejou aquela água na cafeteira, moeu os grãos de café no moedor, e os colocou na cafeteira.
Ela também tirou um pequeno tripé de ferro, colocou a cafeteira sobre ele, e então acendeu um fogo com um feitiço sem cântico.
Para manter um certo nível de intensidade do fogo e as coordenadas posicionais, eram necessárias algumas técnicas precisas e manipulações.
Nero, que estava largado preguiçosamente na cama em forma de gato preto, olhou para Monica com exasperação.
— Você não acha que está desperdiçando muita habilidade, usando isso só para um café?
— A-Afinal… eu não posso simplesmente usar a cozinha sem permissão.
Depois de se justificar em voz baixa, Monica serviu uma xícara de café da cafeteira.
O café quente e amargo escorrendo pela língua a despertou com a mente clara.
De repente, as palavras de seu falecido pai vieram à sua mente.
— Comece cortando as coisas inúteis. Então, o número restante será bem simples.
O que ele quis dizer com coisas inúteis, será?
Por exemplo, para Monica, o café de manhã não era uma coisa inútil, era uma coisa importante. Mas, para alguém que não gosta de café, pode parecer inútil.
Se fosse uma equação matemática, eu saberia a resposta na hora.
Decidir o que era considerado “coisa inútil” na mente das pessoas era muito difícil.
Monica soprou para dentro da xícara e olhou de relance para o laço e as castanhas ainda sobre a mesa.
Até agora, Monica nunca havia se importado com o próprio cabelo. Então, se fosse a Monica de antes, ela teria conseguido dizer que laços eram uma coisa inútil.
Era o mesmo com as castanhas. Ela não tinha muito interesse em comer, então, se não tivesse nenhuma castanha, simplesmente pularia o almoço por completo.
Monica pegou algumas castanhas de sua mesa e as mastigou. Normalmente não sentia o sabor delas, mas agora sentiu vontade de comê-las com delicadeza, então as saboreou por completo antes de engolir.
— Ei, que tipo de coisas você considera não inúteis, Nero?
— Oh? Que foi? Que história é essa de perguntas filosóficas do nada? Nossa, será que sou inteligente e legal o suficiente para saber a palavra “filosófica”? Me elogie!
— É, ótimo, ótimo.
Quando Monica o elogiou de forma tosca, Nero disse “Entendi!” e apontou para ela com a pata direita.
— Para mim, seus elogios não são coisas inúteis. Então me elogie mais! Me elogie! Se quiser, escreva uma balada, escreva um romance, pinte um retrato para toda a posteridade!
A última parte foi bem absurda, mas o fato de que o elogio de Monica não era uma coisa inútil para Nero a deixou um pouco mais feliz.
— Fico feliz… em saber disso…
— Além disso, é melhor aproveitar as coisas inúteis… “A vida é cheia de desperdício. Então por que não aproveitá-lo?” Dustin Günther escreveu sobre isso em um de seus romances.
Para Monica, que lutava para sobreviver, aproveitar coisas inúteis era um baita desafio.
Mesmo assim…
— Eu… vou tentar…
Com isso, Monica pegou o laço em sua mesa.
— Sabe, Monica, quanto mais difícil o desafio, mais divertido ele se torna.
As palavras de seu falecido pai voltaram suavemente à mente de Monica.
* * *
Lana Colette estava sentada em seu lugar, apoiando a cabeça na mão e folheando um livrinho fino. Seu penteado e seus enfeites de cabelo eram diferentes dos de ontem.
Monica conferiu a aparência de Lana e se aproximou dela, repreendendo suas próprias pernas trêmulas.
— Er…
— O quê?
Mantendo o rosto voltado para o livrinho, ela moveu os olhos para olhar Monica. Então, seus olhos se arregalaram.
— Que diabos é esse penteado?!
O penteado de Monica não era como o que Lana havia feito para ela ontem, nem eram suas tranças de sempre.
Era um penteado vanguardista, com o cabelo saltando de forma antinatural no topo da cabeça, junto de duas tranças presas à força.
— Er, eu queria fazer como você fez ontem para mim.
— Até suas tranças de antes eram melhores do que este penteado!
— …hã?
Depois de ser repreendida por Lana, Monica tirou do bolso um laço com um alfinete e o ofereceu a Lana.
— Er… muito… obrigada… pelo que você fez ontem.
Lembrando-se do seu treino com Nero no dia anterior, Monica agradeceu com voz fraca.
Sua fala soava como se ela estivesse prestes a morrer, mas ela conseguiu terminá-la.
No entanto, ao ver o laço que Monica lhe oferecia, Lana bufou e virou o rosto.
— Não quero isso. Essas coisas não estão mais na moda.
A atitude brusca de Lana impediu qualquer continuação da conversa.
Se fosse a Monica de sempre, ela teria simplesmente recuado ali.
Mas Monica permaneceu ali, lutando para forçar a voz para fora.
— V-Você pode me ensinar… c-como fazer igual ontsem?
Ela mordeu a língua.
Monica, que estava com o rosto baixo, completamente vermelha até as orelhas, não percebeu isso.
A boca de Lana se contraía, como se estivesse se segurando para não rir.
— N-Não tem jeito! Vem, senta aqui!
Lana disse com arrogância e apontou com o queixo.
Monica fez o que lhe foi dito, trouxe sua própria cadeira e se sentou nela, e Lana rapidamente desfez o cabelo de Monica.
— Nossa, como você conseguiu um corte tão estranho, eu me pergunto! É simplesmente inacreditável! Ei, você tem um pente?
— N-Não.
Quando Monica disse isso com voz fraca, Lana puxou o cabelo dela.
— Você nem tem isso e ainda diz que quer aprender comigo?
— D-Desculpa…
Lana soltou um suspiro exasperado antes de tirar seu próprio pente. O fino pente prateado, com seu delicado entalhe transparente, estava, ao olhar mais de perto, adornado com pequenas joias.
— Até pouco tempo atrás, pentes dourados com joias grandes eram populares, mas a última tendência é definitivamente este aqui. Joias menores, espalhadas discretamente, são uma fofura. Os artesãos da região de Ammer são especialmente habilidosos com esse tipo de coisa, então, se você quiser comprar um produto de primeira linha, devia comprar um feito em Ammer…
Por algum motivo, Lana se calou ali e começou a escovar o cabelo de Monica em silêncio.
Enquanto Monica se perguntava por que ela havia ficado quieta de repente, Lana murmurou em voz baixa, que só Monica conseguia ouvir.
— Minha história não é chata?
Diante daquele murmúrio um tanto emburrado, Monica arregalou os olhos e olhou para Lana atrás de si.
Os lábios de Lana se curvaram em um “へ”, e ela parecia um tanto magoada.
— Afinal, eu não passo de uma nova-rica que comprou um título com dinheiro. Você deve achar minha história vulgar e não digna de ser ouvida, não é?
— Er, hum…
Monica mexeu as mãos sem motivo, lutando para falar.
— E-Eu também… sempre me dizem que sou chata… p-porque eu só falo sobre números o tempo todo…
Quando o assunto eram números e fórmulas, ela conseguia falar o quanto quisesse, mas tendia a esquecer de observar a reação do outro e continuava falando.
Por causa disso, Louis Miller já lhe dera um tapa mais de uma vez. Aquele mago bonitão dava um tapa impiedoso na bochecha dela e dizia, sorrindo, “Minha colega, você voltou a ser humana?”
Estremecendo ao se lembrar daquele momento, Lana soltou um pequeno suspiro.
— O que é isso? Que estranho.
— É-É mesmo?
— Claro que é. Agora, vire o rosto para cá.
Lana dividiu o cabelo de Monica em duas partes e o trançou rapidamente. Nesse ponto, o segredo para deixar fofo era fazer a trança um pouco frouxa. Depois, cruzar a trança levemente afrouxada para a esquerda e para a direita, esconder as pontas do cabelo, e prendê-la no lugar.
— Pronto. Isso é fácil, sabia?
— Nossa… você fez isso tão rápido… será que tem a ver com a posição dos grampos? …não, talvez a forma como você posiciona as tranças e distribui a quantidade de cabelo também tenha um papel importante…
— Você tem que aprender essas coisas com as mãos, não com números. Agora, tente fazer sozinha.
Os olhos de Monica se arregalaram diante das palavras de Lana, e ela exclamou com voz histérica.
— Ahn?! Ficou tão bonito assim… e v-você quer que eu desfaça…?
As palavras “ficou tão bonito assim” melhoraram o humor de Lana e curvaram sua boca em um sorriso, mas, com um ar de irmã mais velha, ela tossiu e olhou para Monica.
— Se você não fizer sozinha, nunca vai aprender. E, se você errar, eu conserto para você, então vá em frente e tente.
— Uh… é como desmontar uma equação matemática bonita e completa e transformá-la em uma equação porcaria.
— Que tipo de descrição é essa?
Bem quando Lana riu, meio exasperada e meio satisfeita, a sala de aula de repente começou a zunir.
Ainda era cedo demais para o professor chegar. Quando Monica olhou para o centro do alvoroço, viu um aluno.
Ele era um aluno esguio, de longos cabelos loiro-platinados presos em um único coque. A cada passo que dava, a multidão, majoritariamente de alunas, ficava cada vez mais animada.
Atrás de Monica, Lana soltou:
— Ele é Cyril Ashley, o vice-presidente do conselho estudantil. Por que ele veio até a nossa sala?
Se ele era o vice-presidente do conselho estudantil, devia ser o assessor mais próximo do segundo príncipe. No entanto, pelo que Monica sabia, não deveria haver nenhum membro do conselho estudantil nesta sala.
Uma atmosfera tensa pairava no ar ao redor de Cyril. Não era uma atmosfera vaga, mas um leve vazamento de mana. E, talvez, fosse mana de gelo.
Será que ele era alguém que nascera com uma grande quantidade de mana? Ele vazava a mana de propósito? Ou será que simplesmente não tinha controle sobre ela?
Enquanto pensava nisso, Cyril parou junto ao pódio e anunciou com voz calma, mas clara.
— Há alguma aluna nesta turma chamada Monica Norton?
Todos os olhos dos colegas de turma se voltaram para Monica de uma só vez.
Monica, quase por reflexo, se enfiou embaixo da mesa. Se fosse possível, teria se escondido debaixo da saia de Lana. Achou que seria uma péssima ideia, então se recompôs, mas, antes que pudesse procurar outro esconderijo, Lana puxou apressadamente o braço de Monica.
— Ei, sua boba, o que você está fazendo?! O vice-presidente quer falar com você!
— Eu… eu não estou aqui! Isso mesmo, matando aula! Hoje, vou matar aula!
Cyril se aproximou rapidamente de Monica e olhou de cima para ela, que se agarrava à perna da mesa, com os olhos marejados e falando bobagens. Ele é assustador! Ele é assustador, mas, se fosse Louis Miller, ele teria chutado a mesa e enfiado o punho na cabeça de Monica. Com certeza faria isso. Comparado a isso, talvez ele fosse um pouco melhor.
— Você é Monica Norton?
— …shim.
Quando Monica respondeu soluçando, Cyril franziu a testa, incomodado.
— Não entendo. Por que Sua Alteza haveria de querer… esta garotinha?
Murmurando amargamente, Cyril tossiu de leve antes de encarar Monica.
— Venha comigo.
— Er, nossa aula… está prestes a começar…
— Está desafiando a mim?
Monica, que era vulnerável a atitudes autoritárias, estremeceu antes de obedecer às palavras de Cyril… Ela se arrastou para fora de debaixo da mesa, arrastando-a junto com um chacoalhar.
Depois de alguns passos, Cyril berrou para ela.
— Por que você ainda está me seguindo escondida debaixo da mesa?!
— M-Mas você está me assustando…
— Largue essa mesa agora…
— D-Desculpa. Desculpa. Desculpa.
Monica se desculpou e devolveu a mesa ao lugar original, então se enrolou nas cortinas.
Cyril e os colegas de turma observaram a cena, atônitos, mas, por fim, Cyril arrancou a cortina e puxou Monica para fora.
— Você! Por que está se escondendo atrás das cortinas?
— Eu… eu só estava pensando se conseguiria me esconder de você assim…
— Não brinque comigo!
Cyril entoou um feitiço em rápida sucessão. Só de ouvir o cântico, Monica entendeu o significado da fórmula mágica.
Esse feitiço…
Com sua magia sem cântico, Monica conseguiria ativar imediatamente uma técnica de contra-ataque. Se quisesse, poderia atacar antes que o feitiço de Cyril pudesse ser ativado.
Mas, se fizesse isso, a verdadeira identidade de Monica seria exposta.
Cyril estalou os dedos. Então, uma corrente de gelo se estendeu da ponta de seu dedo indicador e se enrolou no pulso de Monica antes de se transformar em uma algema.
Era um feitiço de gelo destinado a prendê-la. Se Monica resistisse, o mecanismo contido na algema a congelaria imediatamente.
Cyril, que havia contido Monica com uma algema de gelo, tinha um sorriso perigoso no rosto. Seus olhos azul-escuros brilhavam de raiva.
— Parece que fui incumbido de capturar uma fera rara… Para uma fera rara, é só natural usar uma corrente, não é?
Por que nem Louis Miller nem Cyril Ashley conseguiam tratar Monica como um ser humano?
Assim, Monica foi levada por Cyril Ashley, que a tratava como uma atração de circo.