Capítulo 16 – O Substituto da Pata do Gato
Há três príncipes no Reino de Ridill, mas, quanto a quem será o próximo rei, o atual monarca ainda não se pronunciou.
Atualmente, havia um forte movimento entre os nobres do país para fazer do segundo príncipe, Felix, o próximo rei.
Afinal, Felix tinha o apoio da família do Duque Crockford, e seu poder crescia a cada dia. Se o poder da facção do segundo príncipe continuasse a crescer, Felix certamente se tornaria rei.
Por isso, muitas jovens damas de famílias nobres tinham os olhos postos em se tornar a noiva de Felix.
Comparado ao rude primeiro príncipe e ao discreto terceiro príncipe, o segundo príncipe, Felix, possuía uma beleza extraordinária. Muitas garotas se apaixonavam por ele à primeira vista.
Por esse motivo, era comum haver garotas rondando a sala do conselho estudantil, na esperança de dar uma espiada em Felix. Agora não era diferente. Um pequeno grupo de garotas estava reunido, esperando timidamente pela chegada de Felix.
Enquanto as garotas se aglomeravam, uma delas se aproximou por trás.
Era uma aluna chamada Bridget Graham, filha do Marquês Sheilberry.
Considerada uma das três mulheres mais belas da Academia Serendia, ela virou seu belo rosto para as garotas, com frieza, e disse:
— Vocês estão bloqueando minha passagem. Poderiam abrir caminho?
Diante desse comentário, as garotas baixaram a cabeça, envergonhadas, e se afastaram.
Bridget tinha notas excelentes e sempre esteve entre as três melhores durante os três anos na academia. E era particularmente talentosa no campo de línguas estrangeiras, onde ficava lado a lado com o Príncipe Felix, que tinha a maior pontuação geral.
Com sua aparência perfeita, sua linhagem familiar e sendo amiga de infância do Príncipe Felix, as pessoas ao seu redor naturalmente a viam como uma potencial noiva para o Príncipe Felix.
Acima de tudo, Bridget era uma membro do conselho estudantil nomeada diretamente por Felix. Ela era a única garota no atual conselho estudantil que ele havia nomeado. Essa era Bridget. Uma pessoa em quem Felix confiava profundamente.
— Ah?
Ao girar a maçaneta da sala do conselho estudantil, Bridget franziu a testa. A porta estava destrancada. Ela entrou na sala, imaginando se seria a primeira a chegar naquele dia.
Não havia sinal de ninguém na sala do conselho estudantil, mas… ela conseguia ouvir um leve ruído vindo da sala de arquivos ao lado. Bridget olhou para dentro dos arquivos para ver se havia alguém trabalhando ali… e ficou muda diante da cena que viu.
Um dos armários da sala de arquivos estava vazio, e havia documentos empilhados no chão.
E, em uma mesa de trabalho no fundo da sala, uma garota de cabelos castanho-claros que ela não reconhecia lia um documento em silêncio.
— Quem é você? Com a permissão de quem entrou nesta sala?
Mesmo depois de Bridget chamar por ela, suas costas pequeninas nem se moveram.
— Responda imediatamente.
Mesmo depois de falar em um tom firme, a garota ainda não respondeu.
Bem quando Bridget estava prestes a elevar ainda mais a voz, dois rapazes apareceram atrás dela. Ambos eram do conselho estudantil.
— Ah, então a Srta. Bridget é a primeira a chegar hoje… Mas que diabos é isso?!
— Como assim todos os documentos estão… Er, quem é aquela pessoa ali?
O rapaz alto de cabelos castanho-avermelhados era Elliot, o secretário, e o garoto pequeno de cabelos castanho-claros era Neil, o assistente de assuntos gerais.
Elliot olhou para Bridget e sorriu, incomodado.
— Uh, quem é a garota ali? Ela é uma amiga sua, Srta. Bridget?
Em vez de responder, Bridget encarou Elliot com olhos dourados que brilhavam como os de um gato selvagem.
Elliot encolheu-se, “Que medo”, e corrigiu suas palavras imediatamente.
— Bem, acho que ela não é sua amiga. Quer dizer, a Srta. Bridget não tem amigos…
— Pelas roupas dela, é uma veterana do segundo ano, como eu… Mas eu nunca a vi antes.
Neil, que estivera se escondendo atrás de Elliot para ver o que estava acontecendo, deu um passo mais perto da mesa e chamou pelas costas da garota.
— Er, com licença. Poderia me dizer seu nome?
Como esperado, não houve resposta, e a garota continuava, em silêncio, a folhear as páginas do documento, escrevendo ocasionalmente números em um pequeno pedaço de papel e o encaixando no documento. Seus olhos estavam sempre nos documentos, nunca se voltando para eles.
Enquanto Elliot e Neil estavam sem saber o que fazer, Bridget ergueu o leque em sua mão e… o abateu sobre a bochecha da garota.
Paf! Os movimentos da garota pararam por um instante, enquanto um som seco ecoava.
Elliot e Neil engoliram em seco e olharam para Bridget como se estivessem vendo algo aterrorizante.
No meio de tudo isso, Bridget abriu o leque que havia usado para o golpe e disse à garota com voz gélida.
— Você acordou?
— ……
A garota fez uma pausa por alguns segundos, mas logo voltou a virar as páginas como se nada tivesse acontecido.
* * *
— Ai.
Ainda imersa no mundo dos números, Monica de repente sentiu uma dor forte na bochecha.
— Coisas dolorosas são assustadoras. E coisas assustadoras são sempre deprimentes.
Quanto mais dolorosa ou assustadora era a situação, mais os pensamentos de Monica afundavam no mundo dos números.
Porque, enquanto pensasse em números, ela não se sentiria deprimida.
No belo mundo dos números, nada podia machucar Monica. Ele jamais diria coisas horríveis ou faria coisas dolorosas a ela.
Assim, Monica, que sentiu uma dor na bochecha, mergulhou de novo no mundo dos números, como que para se distrair da realidade.
* * *
Isso é ruuuuim, a Monica está completamente fora de si!
Nero, o gato preto que estivera explorando o prédio da escola, observava aquela cena de fora da janela da sala do conselho estudantil.
Ele viu tudo, incluindo a parte em que Monica levou um tapa na bochecha com o leque.
Não pode! Dar tapa é contraproducente! Se você assustar a Monica, ela vai se perder cada vez mais no mundo dos números!
Nero aprendera como trazer Monica de volta à razão nesse estado.
— E isso era usando uma pata.
Se você desse uma pata na bochecha dela, ela voltaria a si. Por esse motivo, ele queria se aproximar de Monica de algum jeito, mas, como a janela estava trancada, não conseguia entrar.
Nero arranhou a janela e miou.
O garoto mais miúdo foi o primeiro a notar Nero e exclamou “Ah, tem um gato”, e os outros dois se viraram para olhar a janela.
Ótimo, agora chegou minha chance!
Nero se sentou um pouco no parapeito da janela e assumiu a pose mais fofa que conseguiu, antes de guinchar “Miau”.
Que tal isso? É meu golpe especial! Pose sexy e dinamite com toda a força! Agora todas as garotinhas vão se apaixonar por mim!
Assim que ele fazia essa pose, a maioria dos humanos derretia por Nero e o deixava entrar.
E, além disso, eu deixaria você me pentear e me alimentar! — ou foi o que ele pensou, triunfante como uma criança mimada, mas a moça com o leque disse secamente.
— Não gosto de criaturas que só sabem implorar.
Miau… miau… miau o quê?!
Nero ficou furioso. Isso pode ser permitido? Não, isso não deveria ser permitido de jeito nenhum. Porque eu sou muito fofo!
Quem disse que eu era só uma criatura que só sabe implorar, sua garotinha humana! Deixa eu te mostrar o quanto eu levo isso a sério!
Mesmo com Nero fazendo alvoroço enquanto batia as patas no chão, Monica ainda não havia notado Nero.
Só, abre, a janela! Deixa eu dar uma patada na bochechaaaa dela!
Enquanto Nero arranhava a janela com força, mais duas pessoas entraram na sala de referência.
Era o alvo da proteção de Monica, o segundo príncipe, que também era o presidente do conselho estudantil. Seguindo-o, vinha um jovem de cabelos prateados, aparentemente seu assessor.
— Ah? O que está acontecendo?
* * *
A primeira coisa que Felix fez ao entrar na sala de arquivos foi verificar as chaves.
Não se moveram da posição inicial…
Com uma postura natural, ele conferiu os outros armários, mas eles não pareciam ter sido remexidos. A única coisa que fora esvaziada por completo era o armário de registros contábeis.
Felix pegou um dos documentos alinhados a seus pés e folheou o conteúdo.
Eram os registros contábeis de vinte e quatro anos atrás, e havia um pedaço de papel com os números corretos encaixado onde as correções haviam sido feitas. O mesmo valia para os outros documentos.
Cyril, que estivera conferindo os documentos ao lado de Felix, arregalou os olhos, incrédulo.
— Isso é… impossível! Ela não só revisou os registros de cinco anos, como fez isso com todos os registros! Por que ela sequer tirou todos esses registros antigos?! Ei, garotinha! Explique a situação!
Apesar dos gritos de Cyril, Monica não respondia. Suas bochechas pálidas se contraíam de raiva. Nesse ritmo, ele até poderia bater em Monica.
Foi então que Felix notou algo. A bochecha direita de Monica estava inchada.
— O que aconteceu com a bochecha dela?
— Tive que ensinar um pouco de disciplina a essa mal-educada.
Bridget respondeu com uma expressão emburrada e cobriu a boca com o leque aberto.
Aparentemente, a atitude de Monica a havia irritado.
Felix acariciou a bochecha de Monica com a ponta dos dedos enluvados. Como esperado, Monica nem sequer piscou.
— Há pouco, eu pedi a ela que revisasse cinco anos de registros contábeis.
Depois de explicar isso aos membros do conselho estudantil, Felix calculou os números na página onde o papel de correção estava encaixado.
Era como Monica apontara, havia alguns erros.
Mas não acredito que ela se deu ao trabalho de revisar todos os registros passados.
Até mesmo Felix ficou surpreso com isso… Fazia muito tempo que ele não se surpreendia tanto com algo.
Sentindo-se um pouco impressionado, Felix deu um leve tapinha no ombro de Monica.
— Bom trabalho, Senhorita Norton. Acho que está na hora de você fazer uma pausa.
Mas Monica não respondeu.
— Senhorita Norton.
Quando Felix sacudiu o ombro de Monica com um pouco mais de força, ela ergueu o braço direito e… afastou o braço de Felix, irritada.
Os membros do conselho estudantil começaram a ficar agitados. Cyril, em particular, ficou furioso e começou a espalhar sua mana de gelo.
— Você! Como ousa desrespeitar Sua Alteza?! Você merece morrer!
Cyril começou a entoar um cântico com raiva, mas Felix ergueu uma das mãos para detê-lo.
Então ele olhou para Monica como quem olha para uma criatura estranha.
Monica agora usava toda a sua consciência para fazer cálculos. A garota que tinha tanto medo de olhar para o rosto de Felix agora nem sequer olhava para ele.
Era o mesmo de quando ela elogiara a sequência numérica mais do que a aparência de Felix.
Aquilo, estranhamente, fez cócegas no coração de Felix.
— Eu preferiria que você olhasse de volta para mim, e não para a minha sequência numérica.
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Felix, que pousou os dedos sobre a bochecha dela, e então—
— depositou um único beijo ali, na bochecha vermelha e inchada.
Enquanto os membros do conselho estudantil ficavam em estado de choque, os movimentos de Monica pararam, mas ela manteve os olhos nos documentos.
— Espera um pouco, Nero… já estou quase terminando…
— Nero?
Quando Felix inclinou a cabeça e perguntou, os ombros finos de Monica se sacudiram, e a pena caiu de sua mão.
Aos poucos, o corpo inteiro dela começou a tremer, e sua cabeça se virou, lenta, lentamente, em direção a Felix.
— V-V-V-V-Vossa…
— Hm. Você fez um ótimo trabalho.
Em resposta à voz estranha de Monica, Felix lhe deu um sorriso, o que a fez cair da cadeira e ir parar no chão.
— P-Por favor, me pe-perdoe pe-pela minha falta de respei—
Aparentemente, ela mordeu a língua no final.
Monica tapou a boca e começou a guinchar.
Felix acariciou gentilmente a cabeça de Monica, sentindo como se estivesse observando um brinquedo que se movia de forma encantadora.
— Por favor, erga a cabeça. Você trabalhou tanto para cumprir meu pedido, então não há nada pelo que ser culpada.
— Ss-Shim…
Monica assentiu, fungando, mas Cyril interveio com uma das mãos erguidas: “Com todo o respeito.”
— Vossa Alteza, essa garotinha passou dos limites. Vossa Alteza só ordenou que ela conferisse os registros contábeis dos últimos cinco anos… mas ela foi longe demais e revisou documentos além dos que o senhor ordenou, então acho que ela deveria ser punida.
Diante da declaração de Cyril, Monica empalideceu de novo e começou a tremer, lastimável.
Felix não perguntou a Cyril, mas sim a Monica.
— O que você pensou ao ver esses registros contábeis?
— Er… isso é…
— Não vou ficar bravo com você. Apenas seja honesta e me diga o que pensa.
Quando Felix a incentivou com voz calma, Monica mexeu os dedos, nervosa, e disse.
— Eu fiquei surpresa com o quanto a gestão era desleixada, mesmo com uma quantia de dinheiro circulando tão incrivelmente grande!
— Você!
Cyril ficou furioso e gritou com ela, enquanto Monica se encolhia, dizendo: “O senhor disse que não ficaria bravo…”
Felix olhou ao redor, para os membros do conselho estudantil, com um leve sorriso.
— Esta é a realidade dos nossos conselhos estudantis anteriores. Todos os membros do conselho estavam em uma posição sem dificuldades financeiras, e é por isso que a gestão foi tão malfeita. Até eu fui incapaz de perceber de imediato as irregularidades de Aaron O’Brien… Então, com esse lembrete, eu declaro o seguinte.
Felix segurou a mão de Monica, que se encolhera em um amontoado soluçante, e anunciou em voz elevada.
— Por meio desta, nomeio a Senhorita Monica Norton, veterana do segundo ano, como Tesoureira do Conselho Estudantil.
No instante seguinte, os olhos de Monica reviraram, brancos, e ela desabou no chão.
Quanto ao gato preto, ele miava ruidosamente do lado de fora da janela.