Capítulo 34 – Silêncio é Ouro
Sob um agradável céu de outono, um magnífico chá da tarde estava sendo realizado no pátio.
Mesmo sendo uma aula prática, a Academia Serendia correspondia à sua fama de academia prestigiada. Os arranjos de mesa eram de primeira linha, e cada mesa estava decorada com belas flores, um conjunto comparável a um chá da tarde no palácio real. Se não fossem os alunos de uniforme, ela poderia ter pensado que era um salão do palácio real.
As garotas conversavam alegremente entre si enquanto saboreavam o chá que haviam trazido.
Quando a professora vinha para avaliar, as garotas começavam a discutir sobre chá, utensílios de chá e flores da estação, mas, assim que ela deixava a mesa, o assunto mudava para as últimas modas e fofocas sobre a vida amorosa delas.
Em especial, o assunto que traziam à tona nas discussões era, na maior parte, algo relacionado ao presidente do conselho estudantil, Felix Ark Ridill.
— Tenho certeza de que Sua Alteza vai escolher a noiva durante os estudos.
— Quem será a mais adequada, será?
— Ouvi dizer que ele é bem próximo da Lady Eliane.
— Acho que a Lady Bridget, que também é membro do conselho estudantil, seria um par perfeito para ele.
Os nomes que davam como potenciais noivas do segundo príncipe eram todos de filhas no topo da hierarquia da escola.
E, ainda assim, em algum canto da mente, todas fantasiavam sobre serem escolhidas como noiva do príncipe.
Era algo que toda aluna daquela escola sonhava pelo menos uma vez. Como seria maravilhoso se aquele belo rosto sorrisse para elas, ou se ele estendesse a mão em sua direção!
Enquanto essas garotas fantasiavam sobre isso, também satisfaziam o próprio orgulho citando e desprezando a garota mais indigna para o príncipe delas.
— Certo, por falar em membros do conselho estudantil… vocês souberam daquela garota?
Quando uma das jovens falou em voz baixa por trás do leque, os olhos das outras naturalmente se tornaram severos.
Aquela garota — a garota que fora eleita para o conselho estudantil apesar de ser uma aluna transferida. Monica Norton.
— Ouvi dizer que Sua Alteza andou dando aulas de dança para ela.
— Eu também vi ela! Soube que estava dançando com o senhor Ashley!
— Quem ela pensa que é, pedindo para Sua Alteza e o senhor Ashley a ensinarem a dançar?
— Ela deve ser alguma caipira convencida que forçou Sua Alteza a ajudá-la.
— Aquela garota nem tem uma criada para fazer o chá dela. Será que ela não tem vergonha?
— Só observem. Tenho certeza de que ela vai se envergonhar nessa aula.
Escondendo a malícia sob os belos leques, aquelas jovens damas riam baixinho entre si.
* * *
A mesa onde Monica estava sentada estava tomada por uma atmosfera estranha.
Na verdade, uma garota estava criando aquela atmosfera estranha. A culpada, surpreendentemente, não era Monica. Também não era Lana nem Casey.
Era a Senhorita Claudia, a pessoa de posição mais alta no grupo.
Claudia era uma garota muito bonita.
Tinha cabelos negros e lisos, e belos olhos que pareciam feitos de lápis-lazúli. Seu rosto parecia uma obra-prima que Deus criara com esmero, e sua beleza não era inferior à da secretária do conselho estudantil, a Senhorita Bridget.
Se Bridget, com seus cabelos dourados e olhos cor de âmbar, tinha a beleza de uma magnífica rosa de flores grandes, então Claudia era uma flor de íris de beleza mística.
Uma jovem dama tão deslumbrante tinha, de alguma forma, um ar sombrio ao redor de si, como se seus parentes tivessem morrido.
Por fim, a criada de Claudia distribuiu chá suficiente para todos, e Claudia disse, com um sorriso sinistro no rosto pálido e sem vida.
— …Por favor. Sirvam-se.
Ela sorriu como uma bruxa maligna oferecendo chá envenenado a uma boa pessoa que não sabia de nada.
Mas, no instante seguinte, o rosto de Claudia ficou sem expressão, como se um fio tivesse sido cortado. Apesar da falta de expressão, a melancolia e o cansaço que transmitia eram estranhamente palpáveis.
As preocupações de Monica sobre o que aconteceria se alguém risse dela ao se encontrarem eram infundadas.
Para começar, aquela jovem sombria não tinha nem a energia nem a motivação para sorrir alegremente. Sua atitude era como se até falar já fosse um esforço grande demais.
Embora dissessem que Monica era uma garota sombria, Claudia não tinha comparação com ela.
No caso de Monica, era por causa do medo de estranhos e da incapacidade de falar, mas Claudia exalava deliberadamente uma aura sombria por todo o corpo, o que tornava difícil conversar com ela.
Era por isso que a atmosfera naquela mesa estava pesada e sombria.
Monica, Lana e Casey beberam em silêncio o chá que fora preparado para elas.
O chá tinha um aroma agradável. No entanto, por causa da estranha tensão, ela mal conseguia sentir o sabor.
Ugh… isso me deixa incomodada…
— Esse chá está tão bom! Ei, que folhas de chá você usa?
O silêncio pesado foi alegremente quebrado por Casey, a jovem animada da turma ao lado.
Percebendo a sutileza da situação, Casey sorriu e falou com Claudia, num esforço para manter o clima animado.
— …É o chá mais popular do reino. Acho que você não precisava perguntar.
— ……
As covinhas de Casey se tensionaram enquanto ela sorria.
Dessa vez, Lana disse com uma voz particularmente animada.
— E-Ei, na verdade eu gosto de chá com leite. Você tem leite?
— …eu não sou fã de chá com leite. Você é tão burra a ponto de não conseguir entender isso com a própria língua?
— ……
As covinhas de Lana se tensionaram enquanto ela sorria.
A atmosfera naquele lugar ficava cada vez pior.
Os lábios de Monica tremiam enquanto ela bebericava o chá, do qual mal sentia o sabor.
Então, com um ar constrangido, Casey, que era a segunda na ordem, se desculpou para ir buscar o chá que preparara e distribuí-lo a todas.
Em seguida veio um chá de cor viva, preparado por Lana, a terceira na ordem. Era refrescante, com um doce e fresco toque frutado.
— O chá da Senhorita Colette é delicioso. Dá uma sensação refrescante. Eu gosto.
Monica assentiu, concordando com as palavras de Casey, e Lana colocou a xícara no pires com uma expressão de orgulho no rosto.
— Bem, eu encomendei o melhor chá da estação, claro.
Em seguida, Lana lançou um olhar para Claudia. Provavelmente era uma resposta a Claudia, que preparara um chá simples.
A obstinada Lana não gostava da atitude de Claudia, e vinha provocando-a fazia um tempo.
Tudo que Monica conseguia fazer era observar, perturbada. Casey, a atenciosa, de alguma forma conseguia manter a conversa fluindo, acalmando Lana e mudando de assunto.
Para começar, a pessoa de posição mais alta deveria presidir aquele chá da tarde. Monica não sabia a identidade de Claudia, mas, a julgar pela ordem de servir o chá, ela estava acima de Casey, da família do conde, e de Lana, da família do barão.
Em outras palavras, Claudia deveria ser quem trazia os assuntos e organizava toda a situação.
No entanto, Claudia, que era o centro da questão, permanecia indiferente, e, quando abria a boca ocasionalmente, tudo o que fazia era falar de forma maldosa. Era difícil manter uma conversa com ela.
— …se começasse com o chá de sabor mais forte, entorpeceria a língua.
De repente, Claudia soltou aquilo.
Monica se lembrou do sabor do chá que Claudia preparara, e se surpreendeu.
Um chá de sabor familiar, sem nenhum traço forte… Será que o servira primeiro justamente para não entorpecer a língua?
Lana e Casey perceberam a mesma coisa e olharam para Claudia, atônitas.
Tendo atraído tanta atenção, Claudia bebericou o chá que Lana preparara, com uma expressão de quem não se importava com o que dissera.
— Lascas Douradas de Flourendia… Esse é o chá mais valioso que se pode conseguir nesta estação.
— É-É isso mesmo.
Quando Lana discutiu com ela, Claudia ainda não olhou para Lana, mas baixou os cílios e murmurou.
— Se fosse uma ocasião para receber um convidado distinto, teria sido a melhor escolha… mas obviamente inapropriado para este encontro.
— Q-Quê?!
— Se só uma pessoa traz um chá extremamente valioso… as outras participantes podem se sentir insultadas.
Tremendo e estremecendo, o rosto corado de Lana empalideceu.
Então, Casey chamou por Lana, em pânico.
— N-Não se preocupe, eu nunca pensei assim! Não é, Monica?
— Sim, ela tem razão… eu também nunca pensei assim!
Enquanto Monica lutava para forçar a voz para fora, Claudia lentamente virou a cabeça para olhar para ela.
Seus olhos azuis de boneca projetavam o reflexo de Monica sem piscar.
— …Se a filha do conde diz isso, não tenho escolha a não ser concordar.
— Fueh?!
Da forma como fora dito, parecia que Monica assentira só porque Casey a incentivara.
Monica, quase chorando, balançou a cabeça.
— N-Não… e-eu só…
Enquanto Monica soluçava, Lana bateu na mesa com a palma da mão.
— Chega! Você pode parar com essa atitude, por favor?! Tudo que você faz quando abre a boca é sarcasmo! A pessoa mais inadequada nesta mesa é você!
Mesmo com Lana gritando com ela corajosamente, Claudia não moveu uma sobrancelha sequer. Pelo contrário, desviou o olhar, como se Lana não merecesse nem ser olhada.
— …Você acha que é digna o suficiente para fazer os outros falarem com você.
— Hã?!
Enquanto Lana erguia as sobrancelhas e encarava Claudia, esta fez uma pausa por alguns segundos, e então abriu a boca languidamente.
— …Já ouviram falar da [Bruxa Silenciosa]?
É claro que ela sabia, aquela pessoa mesma já estava bem na sua frente.
O coração de Monica quase parou. Talvez até tenha parado por um segundo.
— Ela é uma maga genial que se tornou uma dos Sete Sábios com a tenra idade de quinze anos. Dominou a arte da magia sem cântico, e, além disso, desenvolveu mais de duas dezenas de novas fórmulas mágicas durante seu tempo na Minerva… no entanto, é famosa por nunca ter comparecido a uma assembleia.
Isso porque ela tinha medo de lugares cheios e precisava correr pela própria vida.
— …além disso, a [Bruxa Silenciosa] nunca disse uma única palavra durante a cerimônia em que foi empossada como uma dos Sete Sábios.
Isso também se devia à sua timidez e aos problemas de ansiedade social.
Como Monica era tão inútil, seu colega Louis Miller, o [Mago da Barreira], assumira todas as saudações.
Enquanto Monica suava frio, lembrando-se do passado, Claudia continuou falando sem hesitar.
— …Já leram o artigo sobre a [Bruxa Silenciosa]? Se lerem, vão entender sua personalidade… Ela é uma pessoa muito inteligente e sábia. Tenho certeza de que ela conhece o valor do silêncio.
Eu não sou nem um pouco inteligente ou sábia, sou só uma pessoa tímida e sombria… Desculpa, desculpa, desculpa…!
Sentada ao lado de Monica, que empalidecera e tremia descontroladamente, Lana encarou Claudia sem esconder seu descontentamento.
— Ah, então você está dizendo que pessoas inteligentes não falam com pessoas burras?
Hiiiek, não… você está enganada… não foi isso que eu quis dizer…!
O comentário de Lana era dirigido a Claudia, não à [Bruxa Silenciosa], mas Monica se encolheu de medo.
Claudia apenas lançou um olhar para Monica, como se nem tivesse ouvido o que Lana dissera.
— Isso me lembra, o nome da [Bruxa Silenciosa] é Monica Everett… igual ao seu, Monica Norton.
Monica se encolheu.
O som do coração dela batia forte. Um suor desagradável continuava a escorrer.
Com os olhos fixos em Monica, Claudia falou.
— Você está calada há um tempo porque não quer falar com uma idiota, não é?
— E-E-E-Eu vou… m-me retirar… para preparar o cchhá…
Monica se levantou, saiu do lugar para fugir dali.
E os olhos azuis de Claudia continuaram a fitar suas pequenas costas.
Ninguém percebeu que, desde o início daquele chá da tarde, Claudia, que sempre parecera abatida, só olhara para uma única pessoa.