Capítulo 37 – Pecador
O local designado por Caroline para o chá da tarde foi montado na mesa de chá do pátio, onde a aula prática de chá da tarde acontecera nos dias anteriores.
O tempo estava agradável, então muitas das damas pareciam estar tendo seus chás da tarde ali, e, além da mesa para a qual Monica fora conduzida, havia várias outras mesas montadas, disponíveis para as pessoas passarem o tempo à vontade.
Com tanta gente observando, era improvável que fossem se juntar contra ela de forma óbvia ou derramar chá em sua cabeça.
Sentindo-se um pouco aliviada com isso, Monica se sentou.
Além de Monica, outras três jovens damas estavam sentadas à mesa. Caroline estava sentada de frente para Monica.
Caroline era uma jovem dama de olhos grandes e brilhantes. Embora tivesse a mesma idade que Monica, era mais madura e tinha um ar glamouroso ao seu redor.
Hã? Por que os olhos dessas pessoas estão…
Sob o pátio iluminado pelo sol da tarde, Monica sentiu uma pequena sensação de desconforto.
Mas, antes que Monica pudesse mencionar seu desconforto, a criada de Caroline serviu o chá.
Sorrindo, Caroline bebericou seu chá.
— Obrigada por dedicar um tempo da sua agenda ocupada para vir aqui hoje, Senhorita Norton.
— O-Obrigada pelo convite.
Monica, que tinha dificuldade em fazer contato visual com qualquer pessoa, manteve a cabeça baixa antes de falar em tom baixo.
Isso fez as jovens damas ao lado rirem baixinho atrás dos leques. A risada delas, como um coro de pequenas risadinhas em sequência, era estranhamente perturbadora. E, ainda assim, quando Caroline abriu a boca, ela parou.
— De onde você é, Senhorita Norton?
— Rennac…
— Nossa, então talvez você seja parente da família do Conde Kerbeck?
Monica se lembrou da história que Louis Miller inventara.
Segundo essa história, ela era a filha adotiva da antiga condessa. Então, seria seguro dizer que era parente da família do Conde Kerbeck.
— S-Sim… o Conde e a família dele têm sido muito gentis comigo…
Monica se admirou por conseguir responder tão bem.
Apesar da timidez e da gagueira, ela fizera um progresso inacreditável comparado à Monica do passado. Afinal, agora ela conseguia manter uma conversa.
Enquanto Monica pensava nisso, a dama bem ao seu lado abriu a boca.
— Diga-me, Senhorita Norton. Sobre o que você costuma conversar com o presidente do conselho estudantil?
— …hã? Bem, é só… sobre…
Na verdade, Monica nunca falava com Felix, exceto quando se tratava de atividades do conselho estudantil.
Às vezes, Felix tentava puxar conversa com Monica, mas ela apenas dizia a si mesma que era uma pedra e ficava sentada em silêncio sempre que ele fazia isso.
— Invejo você por poder servir ao lado de Sua Alteza.
— De fato, afinal, você pode ver o rosto de Sua Alteza todos os dias.
As jovens damas ergueram o olhar para o ar, fascinadas, e soltaram um suspiro de anseio.
Enquanto Monica observava a cena, ficou profundamente impressionada com o poder da proporção áurea em atrair corações.
Qual seria o resultado se colocássemos uma escultura em proporção áurea e outra fora da proporção áurea lado a lado, e coletássemos estatísticas para ver qual delas seria mais desejável?
Pensando vagamente nisso, Monica ergueu a xícara.
Quando isso aconteceu, Caroline e as outras ergueram os leques em uníssono, cobrindo a boca.
Será que isso… é um movimento básico de vilã que Lady Isabelle me contou recentemente?!
O coro de risadinhas vindo de trás dos leques tinha uma precisão que só poderia ser resultado de treino. Não era nem alto demais, nem baixo demais, e a maldade da risada que perturbava seus ouvidos era bastante requintada.
Entendo, então esse é aquele movimento… enquanto admirava algo fora de lugar, Monica bebericou da xícara de chá.
O sabor do chá em sua boca era bastante amargo. Não era adstringente, mas amargo.
Será que esse chá deveria ter esse sabor mesmo.
Era amargo, para dizer o mínimo, mas não intragável.
Monica, que estava acostumada a beber café amargo regularmente, se sentiu um pouco incomodada com o chá, mas o bebeu.
Imediatamente, a cor dos rostos das damas mudou.
Hum? Há algo de errado comigo?
As damas arregalaram os olhos e olharam para Monica como se estivessem vendo algo estranho. Seus rostos pareciam pálidos.
Monica tomou outro gole do chá intensamente amargo para disfarçar a impaciência, imaginando se fizera algo de errado.
A Senhorita Caroline fez um pequeno som “Ah”.
Hã?
Seu coração disparado soava terrivelmente alto. Sua visão embaçou e se distorceu, e as figuras delas ficaram borradas.
— Ela bebeu mesmo?
— Só pode estar de brincadeira. Aquele chá é tão amargo, sabia?
— Ai, meu Deus. Eu esperava que ela engasgasse…
As damas diziam algo rapidamente umas às outras, consternadas. As vozes delas certamente chegavam aos ouvidos de Monica, mas sua mente não conseguia perceber as palavras.
As vozes delas escorregavam por seus ouvidos como sons sem sentido.
O que… está acontecendo?
Seu mundo se distorceu de forma pastosa. Distorcendo, ampliando, borrando, derretendo, por fim tingido pela cor do chá… Não, aquele vermelho não era a cor do chá.
Aquele vermelho… era de fogo.
E, atrás do fogo tremeluzente, havia a silhueta de uma pessoa.
— …pai…?
A figura do pai, amarrado a uma árvore, se desvanecia nas chamas. Um cheiro desagradável invadiu seu nariz. Era o cheiro de carne humana queimando.
— Ah… Ah…
As pessoas ao redor do pai ergueram a voz.
— Herege! Seu maldito herege! Seu maldito pecador blasfemo!
— …não… meu pai não fez nada de errado…
Alguém jogou algo no fogo em chamas. Era uma enorme quantidade de registros que seu pai escrevera com todas as forças antes de morrer…
— Não… não… não queimem isso… por favor, não queimem isso…
Os números queimavam, os belos números e registros acumulados ao longo dos anos foram queimados, virando cinzas em um instante.
Eu preciso memorizar isso, tudo isso. Eu preciso memorizar todos os números que meu pai me deixou.
Monica fitou intensamente os registros de números sendo lançados ao fogo, sem tirar os olhos das chamas ardentes.
Com a visão pouco confiável de Monica, ela só conseguia ver fragmentos de números em meio à vasta quantidade de dados. Ainda assim, Monica gravou a fogo em sua mente os números que via.
Eu tenho que me lembrar disso. Eu tenho que me lembrar dos registros que meu pai deixou, nem que seja só um pouquinho.
Os números que gravara nos olhos eram todos deixados pelo pai. Ela jamais os esqueceria. Eram a prova da vida de seu pai.
— …18473726, 385, 20985,726, 29405,84739, 235. 2108877, 25…
— Tudo que você faz é falar de números. Que nojo! Pare de falar bobagem!
— Desculpa, tio. Desculpa. Desculpa.
— Por causa da pesquisa estúpida do meu irmão, agora eu tenho que sofrer as consequências! Como posso fazer negócios tendo um criminoso na família? Para de encher o saco!
— Não… meu pai não fez nada de errado… meu pai é…
— Só pode estar brincando! Tenta falar essa merda lá fora! Eu vou te bater com uma barra de ferro!
— Desculpa, tio, por favor não me bata, por favor não me bata. Desculpa. Desculpa. Desculpa. Eu não vou mais dizer coisas desnecessárias em público, vou ficar de boca fechada, então não me bata, não me bata. Desculpa, desculpa. Desculpa…
* * *
O pátio estava em polvorosa.
Monica Norton de repente caiu da cadeira, desmaiando em agonia.
Seu rosto estava pálido, e ela respirava de forma anormal, engasgando e murmurando palavras incompreensíveis entre uma respiração e outra.
Caroline e as outras que estavam sentadas com ela olhavam para Monica como se estivessem vendo algo estranho.
No meio de tudo isso, uma jovem dama se aproximou rapidamente da mesa delas.
Era uma mulher alta e bela, de cabelos negros e lisos, Claudia.
Claudia, sem dizer nada, se ajoelhou diante de Monica e verificou seu estado.
— …O que você deu a ela?
Diante das palavras de Claudia, Caroline balançou a cabeça e exclamou em voz estridente.
— Eu não sei! Não tenho ideia! Eu não sei de nada!
— ……
Levantando-se em silêncio, Claudia fechou a distância entre ela e Caroline — como uma cobra se aproximando furtivamente — e então enfiou as mãos em seus bolsos.
Sua mão procurava por algo.
— …um colírio?
— Não! Devolve isso! Não toque nas minhas coisas sem permissão! …Hiiiek!
Enquanto Caroline gritava, Claudia silenciosamente a segurou pela boca. Em seguida, colocou a outra mão perto dos olhos dela.
Claudia então ergueu à força as pálpebras maquiadas de Caroline e examinou seus olhos de perto.
— Suas pupilas estão se dilatando… acho que é beladona, ou um veneno parecido.
— Isso é só um colírio que faz os olhos parecerem maiores!
— É veneno.
Depois de descartar secamente a justificativa de Caroline com uma única frase, Claudia fixou os olhos diretamente nas pupilas dilatadas dela, e declarou.
— Você… envenenou aquela garota.
— Não… eu só… queria fazer ela engasgar depois de beber um chá amargo… quer dizer, como eu poderia saber que ela beberia algo tão amargo?! Essa garota é louca mesmo!!
Claudia não olhou mais para Caroline, mas se ajoelhou ao lado de Monica. Em seguida, ergueu o tronco de Monica e enfiou os dedos em sua boca.
— …ah… ugh…
— Vomite.
Mesmo com Claudia estimulando o fundo de sua garganta, Monica não conseguia vomitar direito, apenas convulsionava.
Claudia estalou a língua e deu instruções para os que observavam à distância.
— Alguém, me tragam água salina diluída e um pouco de leite. E contatem a enfermaria e… os membros do conselho estudantil.