Capítulo 39 – A Risada Aguda de uma Vilã de Verdade
Caroline Simons, filha do Conde Norn, estava sentada em uma cadeira no salão, brincando com irritação com a borla do leque.
As duas amigas sentadas ao lado dela a olhavam com ressentimento, o que também era irritante.
Vocês não estavam totalmente animadas com isso também?!
Ela só estava lembrando Monica Norton, que andava se achando ultimamente, do lugar dela na academia.
Sua aparência era maltrapilha demais, e seu comportamento era tão impróprio para ser considerado o de uma garota. Por algum motivo, a garota que não era digna daquela academia fora eleita para o conselho estudantil.
Para completar, ela recebera aulas de dança de Felix e Cyril.
Aqueles dois eram as estrelas da academia. Quando os vira em uma festa no início do verão, Caroline tentara se aproximar deles de alguma forma, mas sua tentativa fora um fracasso.
Como as pessoas sempre se aglomeravam ao redor de Felix e Cyril, Caroline só conseguia observar de longe, incapaz de falar com eles, quanto mais pedir para dançarem.
E, ainda assim… como aquela garota conseguiu dançar com eles?!
O leque em sua mão rangeu e estalou.
Tudo era culpa de Monica Norton. Tudo o que ela fizera fora servir um chá um pouco amargo.
E, ainda assim, fizera um escândalo enorme com isso e envergonhara Caroline. Que garota detestável!
Tudo era culpa dela! Tudo!
Uma pequena rachadura apareceu em seu leque. Era seu leque favorito, mas agora estava quebrado. Ela teria que implorar ao pai por um novo.
Vai ficar tudo bem. Ela acreditava que o pai a ajudaria. Ele adorava Caroline e doara muito dinheiro à escola. De jeito nenhum ela seria expulsa.
— Com licença.
Houve uma batida na porta, e dois alunos entraram na sala.
Cabelos loiros cor de mel balançando suavemente, olhos azuis misteriosos com um toque esverdeado, a atmosfera sempre calma do segundo príncipe, Felix Ark Ridill.
E cabelos loiro-platinados misturados com um leve tom de mel, e olhos azul-escuros que lembravam a neve de inverno, o renomado príncipe do gelo, e também o filho mais velho do Marquês Highon, Cyril Ashley.
Eram o presidente e o vice-presidente do conselho estudantil daquela academia, representando o ápice entre os alunos.
Felix se sentou em frente a Caroline e cruzou as pernas. Cyril ficou de pé atrás dele, encarando Caroline e as outras com olhos frios.
Cyril mantinha um rosto rígido, mas Felix sorria tão suavemente quanto sempre.
Eu sabia! Sua Alteza entenderia minha atitude! A culpa não é minha!
Enquanto Caroline batia no próprio peito, aliviada, Felix falou com voz gentil.
— Caroline Simons, filha do Conde Norn. Vamos ouvir sua versão da história sobre a tentativa de envenenamento da Senhorita Monica Norton?
Envenenamento. Diante dessa palavra, os rostos de Caroline e das amigas mudaram rapidamente.
Mesmo sendo nobre, assassinato é um crime grave. Mesmo que seja apenas uma tentativa, seria punida com o crime equivalente.
— Foi um mal-entendido, Vossa Alteza! Foi só uma brincadeira! E, ainda assim, Monica Norton tomou a liberdade de fazer um escândalo enorme com isso. Aquela garota… deve ter tentado me envergonhar!
— Por brincadeira, você quer dizer colocar veneno na xícara de uma colega de turma?
A voz calma de Felix permaneceu inalterada.
E, ainda assim, as palavras que a atingiram eram completamente frias e impiedosas.
Caroline implorou com os olhos marejados.
— Aquilo não é venenoso! É só um colírio! Ouvi dizer que é muito amargo e pode ser usado como remédio calmante… Foi por isso que achei que seria bom trazer aquele jeito assustador dela de volta ao normal…
A última parte era só uma bobagem aleatória.
Diziam que o colírio comprado do mercador era muito amargo e não deveria ser consumido. Na hora, ela só rira da ideia de consumir colírio. Mas agora, arranjaria qualquer desculpa, contanto que pudesse se safar.
Enquanto ela desfiava suas desculpas, Cyril tirou do bolso um pequeno frasco envolto em um lenço.
Era o colírio de Caroline, confiscado quando ela fora levada até aquele salão.
— Minha irmã mais nova, Claudia, me contou que o colírio que você carregava é regulamentado por lei. É preciso ser médico ou farmacêutico licenciado para ter permissão de possuir esse item.
As pupilas azul-escuras de Cyril brilharam enquanto ele encarava Caroline com frieza.
— Possuir uma droga tão perigosa ilegalmente, e depois dá-la a outra pessoa… se isso não é tentativa de assassinato, então o que é?
A irmã mais nova de Cyril, Claudia Ashley, era uma verdadeira descendente da “Família Intelectual”.
Também conhecida como “biblioteca ambulante”, ela tinha uma vasta quantidade de conhecimento que superava o de adultos. Se ela afirmava algo assim, suas palavras deviam ser verdadeiras.
Caroline empalideceu, mas ainda tentava desesperadamente encontrar uma saída.
— Eu não sabia que esse colírio era uma coisa tão terrível assim. Me disseram que era só um colírio… Ah, Vossa Alteza, por favor acredite em mim!
Enquanto ela implorava com lágrimas escorrendo pelo rosto, Felix sorriu suavemente.
— Certo, sem conhecimento prévio, você pingou aquele colírio na xícara da Senhorita Monica Norton, por travessura.
— É-É isso mesmo.
— E você fez isso para humilhar a Senhorita Norton.
Em resposta às palavras ditas com calma, Caroline mordeu o lábio com força e caiu em silêncio.
Felix colocou a mão sobre a boca e riu baixinho.
— Acho que podemos acrescentar difamação à lista.
— !!!
Ela tinha certeza de que suas desculpas eram bem convincentes. Mas por que Felix não dizia nada para ajudar Caroline? Por que Felix não a defendia?
Naquele momento, Caroline ainda achava mesmo que conseguiria se safar se fingisse ignorância.
Então, veio uma batida na porta. Depois que Felix deu permissão, uma aluna entrou no salão e fez uma reverência graciosa.
Era uma caloura de cabelos alaranjados, penteados em cachos. Era uma garota bonita, com um rosto levemente severo e um ar digno.
— Meu nome é Isabelle Norton, filha do Conde Kerbeck. Sou muito grata por me permitirem estar presente aqui.
Dizia-se que Monica Norton estava sob os cuidados da família do Conde Kerbeck. Então seria natural que Isabelle, filha do Conde Kerbeck, estivesse presente ali para ouvir a situação.
Vai ficar tudo bem… a filha do Conde Kerbeck detesta e maltrata Monica Norton. Se algo acontecesse com Monica Norton, a vergonha da família do Conde Kerbeck, ela provavelmente não me condenaria com tanta força.
Enquanto Isabelle se sentava na cadeira que Cyril indicara, ela baixou os olhos com uma expressão de profundo pesar no rosto.
— Ouvi dizer que nosso problemático membro da família causou problemas para vocês. Por favor, aceitem minhas mais profundas desculpas em nome da família do Conde Kerbeck.
Nem Felix nem Cyril disseram uma palavra. Mas Caroline comemorava secretamente em seu coração.
Viu só, eu sabia! A filha do Conde Kerbeck não tem nenhum escrúpulo em cortar relações com Monica Norton!
Se Isabelle odiava Monica, com certeza estaria do lado dela… Caroline riu secretamente.
Isabelle então lançou um olhar para Caroline e disse.
— Sei que não é muito como desculpas, mas, na verdade, pedi para minhas criadas prepararem um pouco de chá. Tenho certeza de que todos estão com sede de tanto falar. Espero que gostem.
Isabelle chamou em direção à porta, e sua criada entrou silenciosamente na sala, colocando uma bandeja na mesa.
Enquanto Caroline se perguntava por que não haviam servido antes, Isabelle sorriu e tirou um pequeno frasco do bolso.
Ao ver o pequeno frasco, Caroline e suas comparsas gritaram por dentro e se encolheram.
O frasco era tão parecido com o frasco de colírio que Caroline possuía.
— Certo, já que estão aqui, espero que possam experimentar este remédio, Lady Caroline. Comprei recentemente de um mercador… ouvi dizer que esse remédio de beleza tem um efeito ótimo.
Com isso, Isabelle pingou o líquido do pequeno frasco nas três xícaras.
A criada de Isabelle então distribuiu as xícaras a todos. Isabelle, Felix e Cyril receberam xícaras sem nenhum remédio.
Enquanto Caroline e suas amigas, as jovens damas, receberam xícaras pingadas com o remédio.
Enquanto Caroline fitava a xícara com o rosto tenso, Isabelle cobriu a boca com o leque e riu baixinho.
Apesar de sua boca estar escondida, seu sorriso era malévolo, mostrando claramente que zombava dela.
— …Por favor, sirva-se.
Caroline fitou a xícara. Como aquele colírio não tinha cheiro, ela não conseguia sentir nada além do aroma de chá.
Será que aquele pequeno frasco é igual ao meu colírio? Por que a filha do Conde Kerbeck teria isso em sua posse?
O fato de a filha do Conde Kerbeck por acaso possuir o mesmo colírio que Caroline parecia bastante estranho. Mas ela acreditava que devia ser só uma coincidência.
Suas companheiras, sentadas ao lado dela, olharam para Caroline de forma inquisitiva. Nenhuma delas sequer tentou tocar na xícara.
Parem com isso! Se vocês agirem assim, é como admitir que o colírio que eu tinha era veneno!
De jeito nenhum era o mesmo colírio. Devia ser um blefe.
Caroline fitou a xícara de chá, se preparando, e tomou um gole.
— …pfft! Ughééé!
O forte sabor amargo fez Caroline cuspir o chá. Salivando enquanto tentava não deixar nem uma gota na boca, ela cuspiu o chá e encarou Isabelle com olhos cheios de intenção assassina.
— Era veneno! Essa mulher tentou me envenenar!
— Nossa…
Isabelle ria baixinho enquanto abria a tampa do pequeno frasco e pingava na própria xícara. Em seguida, bebeu o conteúdo da xícara.
— Eu já disse antes, não disse? É um bom remédio para a beleza. Bem, talvez você tenha se surpreendido por achar um pouco amargo?
— V-Você…
— Fufu, havia necessidade de cuspir de forma tão vergonhosa? Quer dizer, aquela garota bebeu todo o chá amargo que você serviu a ela, não bebeu?
Aquela garota — nem é preciso dizer que ela se referia a Monica Norton.
Isabelle soltou um suspiro lânguido e murmurou.
— De fato, aquela mulher cresceu em um ambiente ruim e é a vergonha da minha família, mas eu aprecio a forma como ela se comportou como convidada, tentando beber todo o chá, por pior que estivesse… mas será que isso a torna inferior a ela? E, de todos os lugares, isso acontecendo na presença de Sua Alteza, que vulgaridade.
Isabelle então inclinou o leque para mostrar a boca e riu com escárnio.
Caroline, que tentara humilhar Monica na frente da multidão, agora, de todas as pessoas, estava sendo humilhada ao cuspir chá na frente de Felix.
O que é isso? O que é isso? O que é isso?
Felix não disse nada. Apenas observava a troca entre Isabelle e Caroline com uma expressão um tanto divertida no rosto.
Isabelle bebericava o chá calmamente e disse “Ah, é verdade”, em um tom como se estivesse batendo papo.
— Quanto a esse assunto, vou avisar meu pai o quanto antes. Quer dizer, uma pessoa com o sobrenome Norton quase foi envenenada até a morte. É só natural, não é?
— !!!
Só agora Caroline percebia a magnitude do que fizera.
Mesmo que Isabelle desgostasse de Monica, isso não mudava o fato de que Monica era quem carregava o nome Norton.
…Caroline arranjara briga com a família do Conde Kerbeck.
— Acredito que a família do Conde Kerbeck tem um relacionamento próximo com sua terra natal, a família do Conde Norn. É uma pena que tenha chegado a esse ponto.
O domínio do Conde Kerbeck era o mais vasto da parte leste do Reino de Ridill. Sua escala não era algo que pudesse ser zombado como nobres rurais insignificantes.
Acima de tudo, as áreas montanhosas do leste eram lar de muitos dragões, então quem tinha territórios no leste sempre sofria com ataques de dragões. Embora os Cavaleiros do Dragão viessem ao resgate se um pedido de ajuda fosse enviado à capital real, levaria muito tempo para chegar à parte leste do reino vindo da capital, então todos os nobres com territórios na região leste normalmente tinham seus próprios soldados.
E o maior de todos era o Conde de Kerbeck.
Por esse motivo, quando um dragão atacava uma família nobre no leste e os Cavaleiros do Dragão não conseguiam chegar a tempo, recorriam frequentemente ao vizinho Conde de Kerbeck… e a própria família de Caroline, a família do Conde Norn, não era exceção.
A família do Conde Norn fora salva pelos soldados da família do Conde Kerbeck muitas vezes, sempre que seu território fora ameaçado por dragões.
No entanto, o que aconteceria se a filha dele retribuísse o favor com má intenção?
E se o Conde Kerbeck não ajudasse mais o condado de Norn?
O fraco poderio militar do Conde Norn não conseguiria suportar os ataques de dragões, e, na pior das hipóteses, poderiam ser destruídos.
— E-Espera… V-Você entendeu errado… eu não quis dizer… que fosse assim…
Enquanto Caroline dava desculpas de forma desesperada, Isabelle lhe lançou um olhar frio.
Isabelle era um ano mais nova que Caroline. No entanto, sua intimidação era tão avassaladora que nem Caroline conseguia se comparar.
Isabelle apenas estreitou os olhos levemente, despedaçando o orgulho de Caroline enquanto zombava dela.
— Por causa da sua falta de consideração, a ruína chega para sua terra natal… esse tipo de coisa costuma acontecer na alta sociedade, não é mesmo?
Isabelle jogou para trás os cachos alaranjados enquanto sorria com arrogância, erguendo o queixo.
— Agora, quando você voltar ao dormitório, certifique-se de contar às suas queridas amigas… o que acontece quando fazem inimizade com a minha família, a do Conde Kerbeck!
Como se estivesse atuando em uma peça, Isabelle riu “O-ho-ho-ho-ho!” em um tom agudo e animado.