História Bônus — A Escolha de Lunoa
Aguentando a dor de cabeça, me levantei.
Alguns meses atrás eu me machuquei num acidente de carruagem e quase morri; foi graças às poções que meu pai correu atrás desesperadamente que consegui continuar viva.
Só que meus ferimentos eram graves e as poções só faziam ganhar tempo: quando não desse mais para comprar poção, minha vida acabaria.
Mas eu estou viva. E fui curada por magia, direitinho, sem uma cicatriz sequer.
Normalmente, chamar um mago curandeiro custa caríssimo.
A companhia em que meu pai trabalha é até razoavelmente grande para o território do visconde Lebrick, mas juntar o dinheiro de um tratamento para ferimentos graves era difícil, e comprar as poções já era o limite dele.
Eu não queria ser um peso para a minha família e algumas vezes falei «não precisa mais comprar poção para mim» — e toda vez meu pai e minha mãe choravam.
Mas não havia o que fazer, e só o tempo ia passando.
Meu pai teve algum problema na companhia; passou dias seguidos sem voltar para casa e, quando voltou, foi trazendo uma moça bonita.
A moça era presidente de uma companhia nova e, pelo que diziam, sabia usar magia de cura.
Meu pai andava ajudando essa nova presidente no trabalho e, como recompensa, pediu que ela me curasse.
A moça, que se chamava Ellie Leis, curou meus ferimentos num piscar de olhos com uma magia poderosa.
Passado algum tempo depois disso… eu ainda não conseguia sair da cama.
Os ferimentos do corpo já estavam completamente curados, mas desde o dia anterior eu vinha sofrendo com uma sequela esquisita.
— Lunoa, como você está?
— Consegue comer?
— …Consigo.
Meu pai apareceu antes de sair para o trabalho, e minha mãe trouxe comida.
Sentei na cama, e eles puxaram a mesa para a minha frente e puseram a comida ali.
E então…
«Couve-bola» Legume de folha. Barato. Gostoso. «Cebola-redonda» Legume redondo. Um pouco barato. Mais ou menos gostoso. «Feijão mimi» Feijão verde. Barato. Não é gostoso. «Prato de madeira» Prato feito de madeira. Preço desconhecido. Bastante usado. «Colher de madeira» Colher feita de madeira. Razoavelmente barata. Tem uma rachadura pequena. «Água» Água do poço dos fundos. Tirada de manhã. Morna. «Caneca de madeira» Caneca feita de madeira. Leve. «Mesa de madeira» Mesa feita de madeira. Grande.
— Ai…
Uma enxurrada de palavras invadiu a minha cabeça e, sem querer, apertei a testa e fechei os olhos.
— Lunoa!
— E-estou bem…
— Não é efeito da magia da senhorita Ellie?
— Deve ser. Hoje eu falo com a Presidente Ellie sobre isso.
Sem conseguir nem me despedir do meu pai indo trabalhar, fechei os olhos e puxei o lençol por cima da cabeça.
Assim, pelo menos, não acontece nada.
Afinal, o que foi que aconteceu comigo?
Um pouco depois do meio-dia, meu pai — que deveria estar trabalhando na companhia — voltou para casa trazendo a senhorita Ellie.
— Como você está se sentindo, Lunoa?
— Sim, me disseram que há uma sequela estranha; pode me explicar direito?
— É que, de vez em quando, a explicação das coisas que entram no meu campo de visão transborda dentro da minha cabeça.
— Hm.
— Com licença. Segure isto na boca, por favor.
O que a senhorita Mireille, que viera com a senhorita Ellie em traje de criada, me estendeu era um medidor de poder mágico.
Eu já tinha visto um quando fiz a medição do poder mágico no templo, no meu aniversário de seis anos.
Segurei na boca o medidor que a senhorita Mireille me deu e, depois de um tempo, ela o retirou.
— Senhorita Ellie.
— Obrigada.
A senhorita Mireille entregou o medidor à senhorita Ellie e, ao ver o número, ela assentiu.
— Ao que parece, o poder mágico que dormia na Lunoa despertou ao receber o meu.
— Poder mágico?!
Meu pai levantou a voz. Minha mãe e eu também nos espantamos.
O meu poder mágico devia ser o de qualquer pessoa comum.
— Raramente acontece de o poder mágico despertar em quem é banhado por um poder mágico forte ou sofre um choque emocional.
E isso que a Lunoa descreve, a explicação das coisas entrando na cabeça dela, provavelmente é a magia inata 【Item Analysis】.
— M-magia inata?!
Magia inata é uma magia especial, diferente da magia de afinidade. Mas os detalhes eu não sei.
— É um talento difícil de se obter. 【Item Analysis】 é uma arma e tanto para uma comerciante. Se a Lunoa quiser, eu ensino a ela como usar a magia.
— Magia?
— Sim, e não só isso. Eu a treino como comerciante também. Se ela quiser, claro. O que você quer fazer?
— Eu…
Eu, comerciante.
Se isso se realizasse, talvez eu pudesse ajudar meus pais, que sofreram tanto por minha causa.
A senhorita Ellie disse que 【Item Analysis】 é útil no trabalho de comerciante. Então…
— E-eu aceito! Senhorita Ellie, me ensine magia, por favor!
Duas semanas depois, eu estava na sala de descanso da companhia da senhorita Ellie.
Aprendi o jeito de controlar o poder mágico e o 【Item Analysis】 parou de disparar sozinho, então a partir de hoje entro como aprendiz de funcionária: vou aprender o trabalho e a magia.
Enquanto eu esperava, nervosa, conferindo várias vezes se a roupa novinha que a senhorita Ellie me deu não estava amassada, bateram à porta e a senhorita Ellie entrou com a senhorita Mireille.
— Desculpe a demora.
— I-imagina!
Levantei depressa e me pus em posição.
A senhorita Ellie me percorreu com o olhar, do alto da cabeça à ponta dos pés, e assentiu.
— Isso, ficou muito bom. A partir de hoje, conto com você, Lunoa.
De agora em diante ela é a minha chefe e a minha mestra. Já não posso chamá-la de senhorita Ellie, não é?
Pensei um pouquinho e mudei o tratamento.
— Sim, Presidente Ellie!