Capítulo 1 — Comerciante de Licença Especial
No momento eu estava na capital imperial, frente a frente com Lucas Lebrick — o nobre imperial que me acolheu quando fugi do Reino de Haldoria — na residência urbana que ele mantém na cidade. Sobre a mesa à nossa frente havia café, mas já esfriara, e não havia dama de companhia nem criada alguma para trocá-lo.
Pelo teor do assunto, Lucas mandara todos se retirarem: naquela sala estávamos só nós dois.
Falávamos do episódio de alguns meses atrás, quando Friede Haldoria, o príncipe herdeiro idiota do reino e meu ex-prometido, usou a própria posição para atiçar o Reino de Sarjas, Estado vassalo, contra o Império.
Império e reino guerrearam por muito tempo mas, depois que a grande guerra de alguns anos atrás terminou em prejuízo mútuo, firmou-se um tratado de cessar-fogo — de modo que atacar às claras deixou de ser possível. Friede, porém, teve a ideia rasa de compensar com feitos de guerra a própria queda de popularidade: fez o Reino de Sarjas, um dos vassalos de Haldoria, declarar guerra ao Império e, sob o pretexto de socorrer um vassalo, entrou no conflito para colher méritos.
O resultado foi a destruição do Reino de Sarjas. Friede voltou correndo para o reino, e Robert — um dos alvos da minha vingança — perdeu a honra de cavaleiro e foi executado como criminoso hediondo.
— …E é por isso que o reino anda ocupadíssimo: limpar o rastro do caso provocado por Robert Ati, abafar a morte do ex-comandante da ordem de cavaleiros, essas coisas. Além disso, a relação com os outros Estados vassalos azedou por causa do abandono do Reino de Sarjas, e eles correm atrás de ajustar isso também.
— Entendo. É informação bastante profunda. Como se esperaria dos serviços de inteligência do Império.
— …Que boca. O senhor sabe muito bem que a confiabilidade das informações só subiu graças aos segredos que a senhorita nos entregou, não sabe?
— Rá-rá.
Devolvi um sorriso ao Lucas de cara emburrada.
— Francamente… Voltei do Reino de Sarjas para a capital imperial e o Robert tinha sumido.
— Peço desculpas por só ter informado depois.
— Ufa. Comigo, ao menos, eu gostaria que tivesse falado antes. A senhorita pretendia fazer aquilo desde o começo, não pretendia?
— Sim. O artefato divino que usei naquele arremedo de cavaleiro tem uma porção de restrições, e para cumprir as condições eu precisava mantê-lo por perto durante certo tempo.
— Só a senhorita eu não quero ter como inimiga.
— Fique tranquilo. Eu não prometi? Que traria benefícios ao senhor.
Eu cumpro o que prometo, senhor conde Lucas.
O extinto Reino de Sarjas foi anexado ao território do Império de Yutear e virou a região de Sarjas; metade do território passou a domínio direto do Império, e a outra metade foi concedida a Lucas como recompensa pela guerra defensiva. Com isso, Lucas foi elevado de visconde a conde.
Aliás, Glint Sarjas, que era rei do Reino de Sarjas, passou a trabalhar sob Lucas como administrador da região de Sarjas, no território do conde Lebrick. Dito isso, é o que se chama de enfeite. É um método de governo bastante usado no Império: nomear como governante de um território recém-incorporado alguém que já era figura de peso naquela terra, para conter a resistência dos moradores. Naturalmente ele não tem praticamente poder algum; quem de fato administra o território são os funcionários imperiais.
Além disso, a irmã de Glint estuda numa escola da capital imperial na condição de refém sob o nome de intercambista, e vive com a mãe sob vigilância do Império.
Glint vai passar o resto da vida como boneco do Senhor Lucas.
Bem, talvez estar vivo já seja o melhor dos cenários.
— …Enfim, voltando ao assunto: chamei a senhorita hoje para lhe entregar isto.
Com um sorriso amarelo, Lucas trouxe de volta a conversa que se desviara e me estendeu um documento com o brasão do Império e uma carta com o brasão da Guilda Comercial.
— O que é isto?
— Algo como a sua recompensa pelo episódio.
Ao deixar a residência do conde Lebrick na capital imperial, eu voltava de carruagem para casa com Mireille.
— E então, sobre o que conversou com o Senhor Lucas?
— Em resumo: uma carta de recomendação e uma convocação.
— Recomendação e… convocação?
— Sim, para o próximo Conselho da Guilda Comercial Imperial. É a reunião em que os sete comerciantes e artesãos que dominam a economia do Império se juntam de poucos em poucos anos para discutir os rumos econômicos. Fui chamada ao conselho que vai se abrir agora.
— E… por quê?
— A causa é esta carta de recomendação. No conflito com o Reino de Sarjas eu liderei um exército voluntário, lembra?
Entrei naquele conflito por conveniência minha, mas, tendo organizado um exército voluntário com autorização do Império, o Império não pode deixar de recompensar quem obteve resultado. Só que conceder título de nobreza ou condecoração a alguém recém-exilada do reino seria constrangedor diante dos outros nobres.
Então, depois de muita ginástica, decidiram que a recompensa seria uma recomendação imperial para comerciante de licença especial.
— Comerciante de licença especial?!
Mireille soltou um som de espanto.
O comerciante de licença especial recebe uma porção de privilégios — compra de terras, financiamento estatal, flexibilização dos limites sobre artigos de posse restrita — e não há vinte deles em todo o Império. Tornar-se um não apenas dispara o lucro: se bem conduzido, triplicar ou quadruplicar não é sonho. Ganha-se um poder de voz que deixa um nobre pequeno no chinelo.
Mas o título não se obtém só com a autorização do Império. O que o Império pode fazer é apenas recomendar.
Para virar comerciante de licença especial é preciso passar por exame no Conselho da Guilda Comercial Imperial e obter o apoio da maioria dos conselheiros.
— O problema é este outro aqui.
Mostrei a Mireille, num gesto rápido, a segunda carta que veio junto com a convocação da Guilda Comercial Imperial.
O conteúdo era sucinto: dizia apenas que, no próximo Conselho da Guilda Comercial Imperial, eu demonstrasse minha capacidade. Não dizia concretamente o que fazer, mas certamente é para provar que, tornando-me comerciante de licença especial, posso contribuir com a economia imperial.
— É um prazo bem curto. Não falta muito para o próximo conselho.
— Pois é. Tenho algumas sementes de negócio guardadas; vamos escolher depressa.
— Vai iniciar um empreendimento novo?
— Vou. Fazerem questão de dizer isso significa que querem ver algo acima do que já existe.
— Entendo. Então vamos preparar às pressas.
De volta à casa, eu despachava papelada no gabinete quando rolou pela porta o som de batidas.
— Pode entrar.
— Com licen… ça.
Autorizei a entrada enquanto corria os olhos por um relatório, e Lunoa apareceu carregando com dificuldade algumas caixas grandes. Misha, que separava documentos para cada setor, correu apressada a socorrê-la e, ao receber parte das caixas, Lunoa soltou um suspiro de alívio.
— Presidente Ellie. Chegou uma remessa dos funcionários que mandamos à região de Sarjas.
— Ótimo momento.
Levantei-me da cadeira, abri as caixas que Lunoa trouxera e fui dispondo o conteúdo sobre a mesa. Eu havia encarregado os funcionários enviados à região de Sarjas de procurar materiais com potencial comercial.
Eram flores, madeiras, frutas, presas e couros de monstro — os materiais mais variados.
— Ora, esta flor eu já vi em algum lugar.
— Ahn, esta flor é… ah, chama-se talkus, colhida só numa área restrita do norte da região de Sarjas. Lá é cultivada e negociada sobretudo como flor ornamental.
Lunoa respondeu conferindo a lista de materiais enviada.
— Talkus. Artefato divino: 【Grimoire Lucifer】.
O poder mágico se condensou na minha mão esquerda e formou o artefato divino em forma de grimório.
— 【Search】.
O 【Grimoire Lucifer】 é o grimório que registra informação. Registra os livros que passam por minhas mãos e o que vejo e ouço, e a partir disso permite decifrar e traduzir. Um de seus poderes, 【Search】, busca dentro do registro as informações relativas a uma palavra determinada. E o resultado…
— Achei. As características de uma flor chamada elmia, que aparece num registro antigo do povo élfico, coincidem com as da flor talkus.
— O que isso quer dizer?
— A flor talkus era chamada de elmia entre certo clã élfico e, ao que parece, os elfos processavam essa flor para fazer perfume.
— Perfume?
— Sim. Este documento é um relato de viagem da era do antigo reino, guardado no acervo do Reino de Haldoria; segundo ele, no que hoje é a região de Sarjas vivia na época um clã élfico chamado Artemi. Consta que os perfumes que esses elfos faziam eram de enorme variedade e altíssima qualidade.
— Dá para fazer perfumes variados com uma flor só?
— Como este documento é um relato de viagem, ele não traz o método de fabricação. Natural: ninguém revelaria o segredo do clã a um viajante que apareceu por acaso.
Fiz então uma 【Search】 pela flor elmia, e apareceram uma tese de um botânico do continente setentrional e as anotações de um alquimista da era do antigo reino.
— Ao que parece, as propriedades da flor elmia mudam muito conforme o método de processamento e o material usado como catalisador.
— Propriedades?
— Sim. Pelo que se depreende dos documentos, o perfume dos antigos elfos parece ser uma espécie de item mágico.
— É impressionante conseguir descobrir até isso.
— O 【Grimoire Lucifer】 guarda registrados os livros que passaram pelas minhas mãos e tudo o que vi e ouvi. Eu tinha acesso até ao acervo proibido do reino, então registrei todos os documentos antigos e livros de segredos que estavam lá.
— É como carregar o acervo de um país inteiro no bolso.
— Exatamente.
Achando a comparação de Misha bastante certeira, anotei as informações obtidas dos documentos antigos e entreguei o papel a Lunoa.
— Entregue isto aos alquimistas da equipe de desenvolvimento e mande estudarem se conseguem reproduzir o perfume élfico. Aos funcionários enviados a Sarjas, instrua que garantam flores talkus para pesquisa e que financiem os cultivadores para fechar contrato de exclusividade. Quando os resultados dos testes saírem, montem a estrutura para aumentar a produção. O orçamento eu garanto depois.
— Entendido. É com este perfume que vamos responder à tarefa do conselho?
— É. Lunoa, Misha: vocês sabem qual é hoje o grande problema social do Império?
— Ahn… se não me engano, a Senhora Mireille disse uma vez que no lado oeste do Império há muitas enchentes.
— Isso. Mas há um problema que atinge o Império inteiro.
Diante da minha fala, Lunoa, que pensava mexendo sem perceber na trança, respondeu:
— O aumento do desemprego por causa da descoberta de novos materiais?
— Correto. No Império, ultimamente, a descoberta de materiais substitutos baratos derrubou o valor dos materiais antigos e, com a falência das companhias que trabalhavam exclusivamente com eles, o desemprego virou problema social. Ao acolher muitas raças, o Império reuniu conhecimentos e técnicas de várias regiões e povos, e sua capacidade técnica e sua indústria se desenvolveram de forma acelerada — mas há gente que não consegue acompanhar esse desenvolvimento e fica pelo caminho. Você sabia bem disso, Lunoa.
— Sim. Li outro dia no jornal publicado pela Guilda Comercial.
Lunoa riu, meio encabulada.
— Como o perfume dos antigos elfos parece render muitas variações conforme os materiais empregados, vamos adotar em quantidade os materiais que estão sobrando no Império, reativar as indústrias em declínio e conduzir a conversa de modo a gerar emprego. Ainda que não resolva, poder dizer que atenuou esse problema já é um feito grande.
— Então damos prioridade à pesquisa do perfume?
— Sim, não há tempo até o conselho. Vamos alocar mais gente e mais orçamento.
E foi assim que ficou decidido que a Companhia Traitre reproduziria o perfume dos antigos elfos para o conselho.
◇
Naquele dia, fui à Guilda Comercial com o documento que recebi de Lucas em mãos.
— Há quanto tempo, Presidente Ellie.
Quem disse isso abrindo um sorriso suave e estendendo a mão foi Cedric Ruins. O mercador de escravos apelidado de «o Educador», um dos conselheiros do Conselho da Guilda Comercial Imperial. Depois de esperar um pouco numa sala para onde um funcionário da guilda me conduziu, deu a hora — e quem veio me buscar foi Cedric.
— Há quanto tempo, presidente Cedric. Eu jamais sonharia que o próprio presidente Cedric viria me buscar.
— Rá-rá-rá! É que eu já conhecia a Presidente Ellie. Consegui arrematar o direito de escoltá-la.
— Rá-rá. Então conto com o senhor.
Na superfície, os dois celebrando com toda a serenidade o reencontro. Mas o objetivo dele deve ser me observar de perto.
Não estou aqui por mérito comercial. Virei candidata a comerciante de licença especial na base da força bruta, como recompensa por participar de um conflito — natural que estejam em alerta.
— Ouvi falar da atuação da Presidente Ellie. Que liderou um exército voluntário e empunhou a espada pessoalmente.
— Tudo pela tranquilidade do Império e, claro, pelos meus negócios.
— Rá-rá, se não me engano o polo de produção da companhia da Presidente Ellie ficava perto de lá.
— Sim, felizmente os danos foram leves.
— Ora, ora.
— Mas o episódio me marcou. Não basta contratar aldeões: é preciso alocar gente com formação sólida na segurança e na administração. Se assim fosse, o dano poderia ter sido evitado.
— Entendo. Não apenas celebrar a sorte, mas extrair dela uma lição — a Presidente Ellie é uma pessoa aplicada.
— De modo algum. Para uma novata como eu, quase tudo ainda está fora de alcance. Tenho muito a aprender com os pioneiros, a começar pelo presidente Cedric.
Caminhando pelo corredor da Guilda Comercial, trocava palavras com Cedric. Desviando das sondagens dele, sinalizando do meu lado que não há hostilidade e que trago proveito. Essa esgrima não durou muito: chegamos ao fundo da Guilda Comercial, diante de uma porta com ornamentos de valor artístico.
— Ora, os bons momentos passam como flecha, não é? Pois bem, faça o favor.
Cedric abriu a porta e me conduziu para dentro. Na sala havia uma mesa redonda e, sentadas a ela, seis pessoas. Somando Cedric, esses sete são os monstros que reinam sobre a economia do Império. A pressão que emanava deles era como estar diante de nobres velhos e astutos.
— É um prazer conhecê-los. Sou Ellie Leis, presidente da Companhia Traitre.
Ao baixar a cabeça, um dos sentados à mesa me dirigiu a palavra.
— Hm, sente-se.
— Com licença.
Sentei-me na cadeira vaga mais próxima da entrada, e Cedric sentou-se à minha direita. Sendo mesa redonda, não existe cabeceira. Ainda assim, do homem sentado bem em frente à porta, no ponto mais ao fundo, emanava claramente a presença de quem ocupa o topo.
Pupilas verticais, escamas visíveis aqui e ali e, nas costas, asas dobradas: pela aparência, a raça é dragonuto. Sendo assim, aquele homem de meia-idade deve ser o Grão-Mestre da Guilda Comercial Imperial, «o Conde Vidente», conde Albert Guido. No Império de Yutear, fundado pela reunião de muitas raças, há também muitos demi-humanos entre os nobres. O território do conde Guido tem um grande porto, e ele gera lucros absurdos com mercado futuro e comércio com outros países.
— Pois bem, presidente Leis. Suponho que já saiba do assunto: houve uma recomendação imperial para comerciante de licença especial. Neste conselho decidiremos se ela procede.
— Conto com os senhores.
— Então, primeiro, sobre a recomendação: a presidente Leis, no recente conflito com o Reino de Sarjas, organizou com recursos próprios um exército voluntário, participou da guerra e, pelo mérito dos resultados obtidos, recebeu a recomendação de Sua Majestade Godwin Yutear, imperador de Yutear.
Guido leu em voz alta o documento em mãos e, depois de expor como cheguei à recomendação, explicou o desempenho da minha companhia usando os dados de gestão da Companhia Traitre que eu enviara previamente.
E então chegamos ao meu novo negócio.
Tirei o perfume desenvolvido e distribuí amostras aos conselheiros.
— Isto é perfume?
— Sim. É a reprodução de um perfume que se fabricava numa aldeia de certo clã élfico. O perfume se perdeu quando esse clã foi destruído numa guerra, e nós o reproduzimos a partir dos poucos registros restantes. Os detalhes estão no documento.
Entreguei os documentos a um funcionário da guilda presente na sala, para que os distribuísse.
— Ora.
Guido leu e assentiu, aparentemente interessado.
— Este perfume tem propriedades variadas: além, evidentemente, de muitos tipos de fragrância, conforme o processamento confirmaram-se efeitos como repelir monstros e proteger a pele do sol. Além disso, quanto ao benefício que sua produção traria ao Império, prevê-se que parte das indústrias imperiais hoje em declínio possa se reerguer com este negócio, e há ainda o lucro dos outros setores envolvidos na produção, no processamento e na distribuição dos materiais. O documento seguinte traz a estimativa do número de desempregados após o início do empreendimento e seus fundamentos.
— De fato, assim seria proveito suficiente para o Império. Mas, se é como está aqui, dependendo do material não daria para produzir a um custo bastante baixo?
— É possível.
— Para uma companhia isolada, buscar lucro monopolizando o mercado é natural; mas, para receber a licença especial, não seria preciso alguma consideração quanto a isso?
— Naturalmente já considerei. Vejam isto.
Distribuí um novo documento. É um termo de compromisso limitando o preço dos produtos vendidos pela Companhia Traitre — não só do perfume que desenvolvi.
— Deste modo, imponho um piso de preço aos produtos que vendo pela Companhia Traitre.
— Hm. Mantendo certo patamar de preço, como artigo de luxo, não haveria concorrência com o que já existe.
— Sim. Este perfume novo, em especial, tem preço bastante alto. Em condições normais eu engoliria as outras companhias; mas, pensando no proveito do Império como um todo, vencer demais também não é bom.
Diante das minhas palavras, Guido assentiu como quem se convence e dirigiu-se aos demais conselheiros.
— A capacidade da Companhia Traitre, a julgar por este perfume, é suficiente. Passemos à votação. Ruins.
— Sim. Eu apoio a certificação da Presidente Ellie como comerciante de licença especial. A companhia dela já traz enormes benefícios ao Império. Creio que, como comerciante de licença especial, trará benefícios ainda maiores.

Cedric respondeu com o sorriso de sempre. Ele fala em benefício ao Império, mas isso é fachada. No fundo, o benefício é dele.
— Pois bem, Callard. Ouçamos sua opinião.
Albert assentiu à opinião de Cedric e voltou o olhar para a mulher sentada à minha esquerda. Uma demônia sedutora, de vestido fino de dormir.
Os chifres que lhe brotavam das têmporas se estendiam como uma tiara.
«Borboleta de Prata», Hilde Callard. A mulher de fibra que subiu de simples prostituta a soberana do distrito de diversões.
— Eu também a apoio como comerciante de licença especial. A qualidade dos cosméticos da Companhia Traitre supera de longe a do que havia antes. As meninas da minha casa também são usuárias fiéis. É bom que ela continue a ampliar a escala.
Hilde, como Cedric, me apoiou.
— Peço a palavra.
Nisso ergueu-se uma voz de mau humor. Olhei: um homem da raça humana, de braços cruzados, me encarava.
Vestia um terno da mais alta qualidade, mas tinha um ar meio brutal. «O Chefão», Darc Hawkins.
Na aparência é um financista que lida com nobres e grandes companhias; nos bastidores, dizem, controla casas de jogo e o mercado negro de artigos roubados e proibidos — um figurão do submundo. Pela lei é um criminoso, mas é porque ele mantém a vigilância que no Império há muito menos droga e tráfico de pessoas do que em outros países. Como tem excelente senso de equilíbrio nisso, sua existência é tolerada como mal necessário.
— Eu sou contra. Essa mulher é de origem nobre do reino, não é? Não dá para confiar.
Ninguém se espantou com aquilo. Minha origem é mesmo de conhecimento geral.
— Eu também sou contra.
Quem aderiu a Darc foi um homem da raça élfica de sorriso brando: «Olho de Longo Alcance», Rotton Flywalk.
É o homem no topo do ramo hoteleiro, com pousadas da rede não só no Império como em outros países; somando as casas afiliadas, passam de mil.
Sua rede de informações é ampla: dizem que toda espécie de notícia, de dentro e de fora, converge para ele.
— Considerando a situação atual do Reino de Haldoria, não creio que ela seja espiã; mas trazê-la para dentro me parece prematuro.
— Hm, entendi as opiniões de Hawkins e de Flywalk. E Kusunoki?
Albert passou a palavra a uma menina de cabelos pretos que, entediada, comia um bolinho assado. «Negrume», Yuka Kusunoki.
A maior boticária do Império, vinda do país insular do oriente. É miúda e à primeira vista parece do povo pequenino, mas é da raça humana. Naquele país insular todos são miúdos e, como no continente meridional, muitos têm cabelos e olhos negros. Yuka também é conhecida como aventureira, e consta que costuma deixar a loja com os discípulos para sair em expedições.
— Eu passo. Aceitei ser conselheira com a condição de não me envolver nesse tipo de decisão.
Quando Yuka falou, o anão sentado ao lado dela também assentiu.
— Eu também me retiro. Pelo mesmo motivo da menina de preto. Resolvam logo essas chatices entre vocês.
Ele é «Mão Divina», Gaien Drafan. O maior ferreiro do Império; uma espada forjada por ele vale o preço de uma casa. O temperamento é o que a aparência sugere — artesão puro, avesso a miudezas.
— Presidente Leis, o que a senhorita pensa disto tudo?
Albert me passou a palavra também.
— Aos olhos dos senhores, imagino que eu ainda seja bastante novata. Mas tenho a convicção de que minha companhia pode levar felicidade a muita gente do Império. E é natural que se preocupem com a minha origem; só que essa é uma preocupação desnecessária. Eu já dei aquele país por encerrado. De agora em diante pretendo viver como uma comerciante qualquer no Império, que tem futuro.
— ………………Entendo.
Albert estreitou os olhos como quem afere a verdade das minhas palavras e, depois de uma pausa, falou:
— Eu apoio a certificação da presidente Leis como comerciante de licença especial. Julgo que seus méritos até aqui e sua contribuição ao Império bastam para obter essa qualificação. E, quanto à preocupação com a origem, considerando como o reino a trata hoje, vejo pouca motivação para trair o Império em favor dele.
Albert assentiu devagar, correu os olhos pelos conselheiros presentes e declarou:
— Três a favor, dois contra, duas abstenções. Portanto, o Conselho da Guilda Comercial Imperial reconhece Ellie Leis, presidente da Companhia Traitre, como comerciante de licença especial. De acordo, Hawkins, Flywalk?
— Evidentemente. Acho um pouco cedo, mas reconheço a capacidade dela.
— Eu também acato a decisão do conselho. Mas não muda a minha opinião de que depositar confiança plena é perigoso.
— Hm, a opinião de Hawkins também procede. A auditoria sobre a Companhia Traitre será mais rigorosa que a auditoria normal de um comerciante de licença especial.
Albert assentiu para Darc. Bem, é um meio-termo razoável. Minha origem é uma casa ducal de um país hostil ao Império. Eu não esperava autorização incondicional, e uma auditoria mais dura está dentro do tolerável.
…Ou melhor: tenho a impressão de que este desfecho já estava combinado de antemão. Aparentam decidir por votação, mas isso já devia ter sido discutido antes. Uma encenação para me comunicar que, mesmo reconhecida como comerciante de licença especial, nem todos confiam plenamente em mim… não: um aviso.
— À presidente Leis será emitido oportunamente, pela Guilda Comercial Imperial, o certificado formal de comerciante de licença especial. É tudo.
— Sim, muito obrigada. Prometo continuar me esforçando para contribuir com o desenvolvimento da economia imperial.
— Contamos com isso. A pauta relativa à presidente Leis se encerra aqui. Bom trabalho. Pode se retirar.
— Com licença.
Fiz uma reverência, saí da sala, voltei à carruagem onde Mireille esperava e soltei o ar bem fundo. Fazia tempo que eu não participava de uma reunião tensa como aquela; acabei ficando um pouco em guarda.
— Bom trabalho, Senhorita Ellie. E então? Como são os conselheiros do Conselho da Guilda Comercial Imperial?
— Como se esperaria de quem reina sobre o mundo financeiro do Império. Todos eles, sem exceção, têm um ar de quem não se dobra com facilidade.
— Entendo. E o resultado?
— A autorização saiu sem problemas. Só que a auditoria vai ficar mais dura.
— Certo. Bem, considerando a nossa origem, é natural.
— Pois é.
Meus objetivos pessoais à parte, a companhia opera de forma honesta; não há barriga a esconder de quem for vasculhar. Mireille fez sinal ao cocheiro contratado pela companhia e a carruagem partiu. Hoje, depois disto, está prevista a sessão de treino de Lunoa e Misha.
— Rá! Iá!
— Olhe, o segundo golpe está largo de novo. Ataque compacto.
Eu ia corrigindo os movimentos enquanto aparava com uma espada de madeira o bordão comprido que Lunoa brandia. Estamos no campo de treino construído no jardim da casa da capital imperial. No canto do meu campo de visão, Misha treina combate simulado com Mireille. E diante de mim está Lunoa, com um bordão mais alto que ela própria.
Diferentemente de Misha, que já tinha noções de esgrima com adaga, Lunoa não tinha experiência marcial alguma e foi preciso começar pela escolha da arma. Como o plano é ter a magia como tática principal, deixei que ela mesma escolhesse, entre bordão curto, cajado e bordão comprido, o que melhor se ajustasse à mão.
— Rááá!
Lunoa projetou o bordão num golpe afiado, mas eu desviei o corpo de leve. Depois enlacei o bordão com a espada de madeira, arranquei-o dela e, no movimento de volta, bati de leve na cabeça de Lunoa, que congelou de susto.
— Aai?!
— Se perder a arma, saia de perto imediatamente.
Encerrei o treino do dia para uma Lunoa que segurava a cabeça com os olhos marejados e uma Misha que rodopiava tonta depois de ser arremessada por Mireille.
— Ai… isto é mesmo necessário para virar comerciante?
Disse Lunoa enquanto curava os próprios ferimentos e os de Misha com 【Heal Wind】, a magia de cura de afinidade vento que acabara de aprender.
Foi a primeira magia que ensinei a Lunoa, que tem aptidão de afinidade vento. As magias ditas de cura são mais poderosas e mais equilibradas na afinidade luz, e por isso muito valorizadas; mas existem magias de cura próprias de cada afinidade — a de água é excelente em desintoxicação, a de fogo em reforço da imunidade. Entre elas, a magia de cura de afinidade vento se destaca na cura em área, que trata vários alvos ao mesmo tempo, e na cura à distância — sendo a segunda mais valorizada, atrás só da de luz.
Respondi enquanto avaliava a execução da magia de Lunoa.
— Evidentemente. Para chegar ao primeiro time é indispensável certo grau de força.
— É mesmo?!
— É. Em qualquer área, quem sobe faz inimigos. O mundo de hoje não é gentil a ponto de deixar passar o prego que se destaca. Quero que Lunoa e Misha consigam ao menos se defender de salteadores e agressores. Por mais escolta que se leve, quem protege a própria vida no fim é você mesma.
— S-sim!
— Entendido, Senhorita Ellie!
◇
— Misha. Como está a agenda?
— Sim. Daqui a duas horas, inspeção do novo esmalte de unhas na oficina; depois, negociação na residência urbana do senhor conde Hermit.
Ao conferir a agenda da tarde, Misha abriu a caderneta de que não se separa e respondeu. Era trabalho que antes ficava com Mireille, mas ultimamente ela vem passando as tarefas aos poucos para Misha.
Com o tempo livre, Mireille cuidava com Arnaud da administração da casa e da consolidação do trabalho administrativo da companhia.
— Certo. A carruagem fica com você. Verifique qual carruagem o conde Hermit usa e providencie uma um grau abaixo.
— Às suas ordens.
Acompanhei com os olhos Misha saindo para providenciar a carruagem e falei com Lunoa, que já estava tensa por causa da negociação com um nobre. Eu já a levara a negociações e jantares com nobres, mas nessas ocasiões ela só ficava calada atrás de mim ou aguardava em outra sala; desta vez vai se sentar à mesa, ao meu lado. Naturalmente não será ela a negociar, mas ainda assim a tensão não se compara.
— Lunoa, relaxe um pouco.
— M-mas é uma negociação com um nobre!
Afaguei a cabeça de uma Lunoa apreensiva e a fiz beber um chá adocicado. É o chá que Mireille diz aliviar a tensão.
— Fique tranquila. Este tipo de coisa é questão de repetição. Você tem talento de comerciante, então vá se acostumando desde já a lidar com nobres.
Não há mentira nessas palavras.
No começo eu queria mantê-la por perto por ser portadora de uma magia inata rara; mas, ensinando-lhe comércio, ela absorve tudo com fluidez, e para magia também tem boa memória. É ruim no corpo a corpo, mas não deixa de se esforçar para superar isso.
É um pouco tímida, mas competente de sobra. Digo isso a ela com cuidado e mando que tenha confiança. Lunoa é do tipo que desmorona sob expectativa, então o modo de dizer exige atenção.
Consegui, a muito custo, acalmar Lunoa, e nos preparamos para a inspeção na oficina.
Na oficina, conferi a cor e a textura do novo esmalte. Mireille e Lunoa também experimentaram; mas, quando tentei passar nas unhas de Misha, ela eriçou o pelo e dobrou as orelhas.
— O que houve?
— D-desculpe. É que… o cheiro é um pouco forte demais…
Para mim é apenas um perfume leve, mas, para o nariz apurado de Misha, o cheiro do esmalte incomoda de qualquer jeito.
— Se for cheiro de perfume que outra pessoa está usando, não tem problema; mas usar em mim mesma, o tempo todo, aí é um pouco…
— Para os homens-fera o cheiro é forte demais.
— P-peço desculpas.
Fechei a tampa do vidrinho de esmalte e dei uns tapinhas leves na cabeça de Misha.
— Não precisa se desculpar. Você percebeu muito bem.
— Hã?
— Descobrimos que este produto não serve para os homens-fera, então o mérito é seu. Daqui em diante continue dizendo a sua impressão dos produtos com sinceridade, sem bajular.
— S-sim!
— Agora que se fala nisso, entre os clientes que vêm comprar cosméticos há poucos homens-fera.
Lunoa parece ter se lembrado do perfil de público da loja voltada a plebeus abastados. Levei a mão ao queixo, pensei um instante e sondei Mireille.
— Mireille, dá para ver o histórico de vendas dos últimos meses?
— Um instante.
Mireille tirou o livro contábil com o histórico de vendas do material que preparara para a inspeção.
— Entre os homens-fera plebeus, quase não vendemos.
— Pois é. Os nobres homens-fera compram, mas parece que escolhem cosméticos limitados, de origem natural.
— Os principais compradores de cosméticos de luxo são da classe nobre. Como na nobreza do reino só há humanos, isso me escapou. Sabe qual é a proporção de homens-fera entre os nobres do Império?
— O número exato só voltando à casa; mas cerca de vinte por cento dos nobres imperiais devem ser homens-fera.
— Então, entre os nobres do Império, só oitenta por cento podem virar clientes.
— Não, Lunoa. Não é assim.
— Hã?
— Não é que se vende só para oitenta por cento: é que ainda dormem vinte por cento de mercado potencial. Desenvolver um cosmético que os homens-fera possam usar dá um belo negócio.
E não é só isso. Entre os Estados vassalos do reino há vários compostos majoritariamente por homens-fera. Boa parte da nobreza do reino os despreza como bárbaros, mas o poder militar que vem da capacidade física dos homens-fera não é para se desprezar. Até agora, sem cartas para interferir, eu vinha deixando de lado esses vassalos — potencial força militar do reino — e me limitando a implicâncias mesquinhas; mas um cosmético que os homens-fera possam usar talvez seja o pé na porta para desmontar esses países.
Dei instruções ao serviçal da oficina que estava no canto da sala.
— Providencie esmaltes para pesquisa.
— Sim.
Coloquei todos os vidrinhos de esmalte trazidos sobre a mesa, diante de Misha.
— Misha. Ordene estes esmaltes do que mais incomoda para o que menos incomoda.
— Às suas ordens.
Misha abria os vidrinhos, cheirava e ia classificando, às vezes franzindo as sobrancelhas.
— Terminei.
— Obrigada. Só três são aproveitáveis.
— São todos os que usam material de origem natural praticamente sem processamento.
Com os dados preparados pelos pesquisadores da oficina em mãos, Mireille conferia os materiais dos esmaltes que Misha aprovara.
— Eu diria que este esmalte que ela reprovou tem um perfume mais forte que aquele.
Lunoa pegara um cujo ingrediente é uma flor de perfume intenso.
— Pois é. É uma coisa sensorial e para mim também é difícil explicar, mas não é bem a intensidade do perfume, é mais uma questão de compatibilidade. Uma raça de faro apurado como a minha consegue, até certo ponto, selecionar o que cheira — a gente treina para não prestar atenção nos cheiros do cotidiano. Por isso o perfume que outra pessoa usa não é problema; mas, quando é em mim e por muito tempo, passo mal.
— Mesmo sem prestar atenção, sentir o cheiro o tempo todo gera estresse.
— Isso.
— Vamos procurar materiais que não causem estresse aos homens-fera mesmo depois de horas. Mireille, monte uma equipe só com gente que não seja da raça humana, distribuindo o máximo possível entre raças diferentes. Que trabalhem no desenvolvimento de cosméticos para homens-fera.
— Às suas ordens.
Depois de instruir Mireille sobre a seleção, chamei o responsável pela oficina, expliquei o conceito do novo cosmético voltado aos homens-fera e encerrei a inspeção do dia.
De volta à casa, depois de uma pausa breve, arrumei-me para a negociação com o conde Hermit. Em puro poder financeiro eu não fico atrás nem de uma casa condal, mas tanto trajar-se acima do interlocutor quanto trajar-se simples demais é descortesia. Conferi as roupas de Lunoa e Misha e o presente de cortesia para o conde Hermit antes de sair.
A carruagem que Misha providenciou não tinha ornamento suntuoso, mas era feita de material de boa qualidade.
Entramos no bairro nobre e, avançando devagar por uma via bem calçada, avistamos a residência urbana do conde Hermit. Misha, na boleia, puxou as rédeas e parou a carruagem. O porteiro conferiu o convite do conde Hermit e nossos documentos, e fomos conduzidas para dentro. A residência urbana do conde Hermit é um tanto pequena para um nobre de posição condal; ele se dedica à administração do próprio território e, fora a temporada social, passa quase todo o tempo na casa das terras, então usa pouco esta.
Deixamos a carruagem e, guiadas por um serviçal da casa condal, entramos. Misha, sendo a cocheira, ficou de guarda na carruagem.
Lunoa e eu fomos conduzidas a uma sala de visitas. Pelo porte da residência, é a melhor sala destinada a receber convidados de posição inferior à do dono da casa. Acima desta só devem existir salas para hospedar gente de posição superior.
— Peço desculpas. Meu senhor teve um imprevisto e vai se atrasar um pouco. Perdoem o incômodo: poderiam aguardar nesta sala?
— Sim, não há problema.
— Muito obrigado. Vamos providenciar um lanche; fiquem à vontade.
O serviçal fez uma reverência e uma criada apareceu empurrando um carrinho com chá, biscoitos e sanduíches, servindo tudo diante de mim e de Lunoa, sentadas lado a lado no sofá.
O serviçal e a criada disseram “se precisarem de algo, chamem por aqui”, deixaram um sino e se retiraram — e Lunoa e eu ficamos a sós.
Levei à boca o chá servido e comi um sanduíche do tamanho de uma mordida; olhei para o lado e Lunoa estava paralisada, com um sorriso postiço colado no rosto. Nas festas e jantares de aproximação a que a levei já era assim: lidar com nobres ainda deixa Lunoa tensa.
— Lunoa. Sirva-se também.
— I-impossível. E-estou tensa demais…
— Ainda assim, encoste os lábios. Os nobres do Império fazem justamente isto com o comerciante da primeira negociação: deixam esperando e oferecem um lanche.
— Hã? O senhor conde Hermit não se atrasou por causa de um compromisso?
— Não. Fazer o comerciante esperar é afirmar tacitamente que ele está numa posição superior.
E, por acordo tácito, ao comer o lanche servido nessa hora, o comerciante demonstra que não está em guarda contra o nobre.
— É-é mesmo?
— É. Bem, hoje em dia isso já é só formalidade cerimonial com quem se negocia pela primeira vez.
Peguei um biscoito e enfiei na boca de Lunoa.
Passado algum tempo assim, bateram à porta, o serviçal apareceu anunciando que o conde estava pronto e, enquanto a criada retirava o lanche, o conde Hermit entrou na sala de visitas.
Lunoa e eu nos levantamos e baixamos a cabeça.
— É um prazer conhecê-lo. Sou Ellie Leis, presidente da Companhia Traitre.
— F-funcionária da companhia, Lunoa Carlton.
Com a licença do conde, erguemos a cabeça e voltamos a nos sentar no sofá.
— Alzeus Hermit, chefe da casa condal Hermit. Alegra-me travar conhecimento com a Companhia Traitre, de que tanto se fala.
Apertei a mão que o conde Hermit estendeu junto com aquelas palavras.
— O prazer é meu. Fico grata pela oportunidade de conhecer Vossa Excelência, que se dedica à administração do território e goza de boa reputação entre seus súditos. Faço questão de uma boa relação daqui em diante.
— Também eu quero manter boa relação com a Senhora Ellie, que se torna comerciante de licença especial.

O território do conde Hermit fica perto da capital imperial e tem um grande porto. Quero construir uma boa relação com o conde Hermit, que controla um porto que comercia com os países vizinhos e com outros continentes. Trocamos algumas gentilezas e falamos da região de Sarjas, recém-anexada ao Império, da ópera que faz sucesso na capital imperial, dos sabonetes e cosméticos da minha companhia. Essa maneira rebuscada de circular pelos assuntos é uma espécie de procedimento para se declarar que ficamos amigos. Entre comerciantes plebeus, terminados os cumprimentos, vai-se direto ao ponto; mas os nobres prezam a aparência e a forma, e é preciso acompanhar.
Cumpridas essas etapas, o conde Hermit enfim entrou no assunto.
— Pois bem, o motivo de eu ter pedido este encontro não é outro. Gostaria muito que a Companhia Traitre instalasse uma filial no meu território, e por isso a procurei.
— É uma honra ser procurada. Também nós consideramos que instalar uma filial no território do conde Hermit, com um porto tão grande, traria grande proveito à companhia.
Com os interesses alinhados, a negociação correu fluida. Do conde Hermit obtive isenção de imposto territorial por cinco anos e a promessa de apadrinhamento na compra do terreno e do prédio da companhia; em troca, a Companhia Traitre se comprometeu com a venda prioritária de produtos e com dar à casa condal Hermit uma participação na abertura de rotas comerciais para outros continentes pelo porto. Assim se encerrou o primeiro encontro.
Depois da negociação, ele agradeceu muitíssimo pelo estojo de cosméticos de luxo da marca Companhia Traitre que entreguei como cortesia. Acontece que a esposa e a filha do conde Hermit viviam pedindo que ele atraísse minha companhia para o território, e a aproximação de hoje tem bastante da opinião das duas. Quando eu disse que, concluída a filial, elas teriam tratamento preferencial, ele ficou radiante.
Na carruagem de volta, confortei uma Lunoa que só então soltou o ar, livre da tensão, e voltamos para casa, onde todos aguardavam. Amanhã mesmo preciso selecionar os funcionários a enviar ao território do conde Hermit. Por ora, é preciso alguém que vá na frente e possa cuidar da compra do prédio e da abertura de canais de venda, e que também dê conta, em alguma medida, de lidar com nobres. Será que mando um dos responsáveis de alguma das companhias que absorvi inteiras? Se houvesse alguém natural do território do conde Hermit seria o ideal — será que há?
Enquanto eu instruía Lunoa a levantar candidatos no dia seguinte, chegamos em casa.
— Bem-vinda, Senhorita Ellie.
— Cheguei, Mireille. Lunoa e Misha, podem descansar.
— Sim. Muito obrigada.
— Boa noite, Senhorita Ellie, Senhora Mireille.
Entreguei o casaco a Mireille, que nos recebeu no saguão, disse a Lunoa — esgotada emocionalmente — e a Misha, que voltava de entregar os cavalos ao cavalariço, que já podiam descansar, acompanhei as duas indo para os quartos e voltei ao gabinete com Mireille.
— Tenho alguns relatórios.
Mireille abriu o assunto ao me ver sentada na cadeira, tomando um café e soltando o ar.
— Sobre o quê?
— Assuntos do Reino de Haldoria.
— Certo. Vamos ouvir.
— Sim. Depois do conflito com Sarjas, o trabalho de dissuasão junto aos Estados vassalos do reino, que vínhamos conduzindo por ordem da Senhorita Ellie, parece estar emperrando um pouco.
— Hm? Que coisa estranha. Aquele episódio foi um caso grande o suficiente para rachar a relação entre Haldoria e os vassalos. O Reino de Sarjas declarou guerra ao Império por ordem de Friede, o príncipe herdeiro, e o Reino de Haldoria, seu suserano, o abandonou; não há dúvida de que os outros vassalos pensaram “o próximo somos nós” e ficaram desconfiados. É verdade que descartar Sarjas era o que causava menos dano ao reino; mas, naquele momento, eles deveriam ter engolido algum prejuízo e defendido Sarjas.
— Sim. Antigamente o primeiro-ministro Leiston talvez propusesse algo com mais consideração pelos sentimentos alheios; mas, como era a Senhorita Ellie quem barrava as propostas exageradas, e com a correria para responder às catástrofes de monstros que vêm se repetindo na área de influência de Haldoria, ele deve ter recorrido a uma solução de curto prazo.
— O primeiro-ministro Leiston — aquele homem — sempre foi especializado em campos que não envolvem a fundo o sentimento humano: contenção de monstros, legislação, desenvolvimento territorial. E, pela situação, entre os burocratas ao redor dele não parece haver ninguém capaz de adverti-lo.
Foi por isso que eu vinha explorando as falhas do primeiro-ministro, infiltrando agentes e conduzindo trabalho de dissuasão junto aos vassalos do reino.
— Conforme as instruções da Senhorita Ellie, espalhamos o boato de que “o reino usa e descarta os vassalos” e, além disso, compramos todo o trigo e todo o ferro nas terras do reino que fazem divisa com os países próximos de Sarjas, simulando preparativos de guerra para atiçar o senso de perigo dos vassalos. E fizemos chegar armas a eles, por vias de outros países.
— Eu previa que o ânimo antirreino já estivesse alto o bastante para não ser estranho estourar uma revolta, mesmo pequena.
— Mas, por ora, não houve revolta alguma; e a relação com o reino parece estar melhorando pouco a pouco.
— O motivo?
— Não sabemos ao certo. Quase todos os que deixamos no reino para colher informação são gente comum; não temos olhos dentro do palácio. Por isso a informação oficial não vem com qualidade.
— Não há jeito. Dentro do palácio a gente não sabia quem era inimigo e quem era aliado. Manter contato com os nobres e criados que me eram amistosos daria mais informação, mas o risco é alto demais.
— Sim. De fato, confirmamos a traição de nobres que eram amistosos com a Senhorita Ellie.
— Naquele dia, a sequência com que Friede me impôs o rompimento do noivado foi limpa demais. Eu não percebi absolutamente nada dos movimentos daqueles idiotas. Não é plano que Friede e Sylvia tenham traçado. Provavelmente vários ministros apoiam Friede. Isso fica claro também pelo fato de ninguém ter agido para me libertar quando fui trancada no calabouço. Ainda que não houvesse quem tivesse autoridade superior à ordem do príncipe herdeiro, na época restavam no palácio burocratas de escalão ministerial e vassalos de posição ducal — alguma providência era possível.
— Mas não houve vestígio de ação da parte deles. Se foram contidos de cima, se estavam todos no esquema, ou se há alguém maior puxando os cordéis nos bastidores, não sabemos; de todo modo, sem saber quem é inimigo, trazer nobres do reino como colaboradores é arriscado.
— Ainda assim, os olhos e ouvidos que mantemos entre o povo trazem alguma informação. O que houve agora provavelmente tem dedo da Roselia.
— Roselia… a Senhorita Roselia, da casa ducal Fadogal?
— Sim. Depois que atingi a maioridade e ela foi liberada da condição de candidata a noiva, Roselia ficou noiva, por indicação da Casa Real, de Brennan Lambrest, herdeiro da casa do marquês de fronteira Lambrest, e deveria estar vivendo no território deles; mas há relatos de que ultimamente ela vem entrando e saindo do palácio com frequência. Provavelmente chamaram Roselia para assessorar Friede no meu lugar.
— Limpar a sujeira de um idiota. A Senhorita Roselia também tem azar.
— Mas é uma boa jogada. O primeiro-ministro vai levar tempo para recuperar o tato político com gente, e precisa somar à administração normal a resposta aos monstros — não dá conta. Roselia é um pouco orgulhosa demais, mas é competente, e tem ótimo senso de equilíbrio entre a vontade popular e a política. Só que, para Roselia, isso não deve ser nada agradável.
— Nos tempos de estudante a Senhorita Roselia vivia disputando com a Senhorita Ellie, de olho no posto de princesa consorte.
— Só que, no fim, a escolhida foi eu, como previsto. Ser convocada para fazer as minhas vezes assim que eu sumi deve ser humilhante. Se Roselia ainda estivesse de olho no posto, talvez visse uma chance; mas a relação dela com o filho do marquês de fronteira Lambrest vai bem. Ela já me escreveu dizendo que uma vida tranquila na fronteira não é nada mau. A esta altura não deve ter interesse nenhum em poder na corte.
— Então por que a Senhorita Roselia atendeu mansamente à convocação da Casa Real? Pelo temperamento dela, eu não imaginaria que aceitasse um pedido desses.
— É a mesma coisa que eu era antes. Porque acredita que trabalhar pelo país e pelo povo é dever de nobre. Eu mesma, se não tivesse sofrido aquela traição do rei e do primeiro-ministro, teria continuado a trabalhar pelo país mesmo deixando de ser noiva.
Mas, ainda que seja recurso desesperado, engolir a Roselia — a Casa Real também está numa saia justa.
— Sim. Tanto a casa ducal Fadogal, de origem da Senhorita Roselia, quanto a casa do marquês de fronteira Lambrest, da família do noivo, são nobres da facção militar. Não vão poder fazer o que bem entenderem como faziam quando a noiva era a Senhorita Ellie, da casa ducal Leiston, da facção da Casa Real.
— E, acima de tudo, na facção militar há sempre um certo número de radicais que defendem a guerra. Uns parasitas que não lutam mas querem os lucros e as honras da guerra. Nem mesmo Roselia consegue vigiar o descontrole da própria facção e ainda me enfrentar.
Abri um sorriso de canto de boca e olhei o mapa sobre a mesa. É o mapa dos arredores do Reino de Aft, um dos vassalos do reino em que concentro hoje o trabalho de dissuasão.
Dispus algumas peças, anotei as informações que Mireille reportava sobre o lado do reino e organizei tudo.
— Roselia parece estar normalizando os preços do trigo, do ferro e dos remédios — os suprimentos de guerra que eu mexi — e convencendo a cúpula, por via diplomática, de que o reino não vai abandonar o Reino de Aft.
— Sim. Com isso, a cúpula do Reino de Aft, antes dominada pelos dissidentes, parece ter se acalmado bastante.
Rolei na boca o café já morno, saboreando, e pensei.
— Ficou difícil agir pela via política. Hoje eu não passo de uma comerciante plebeia. Em influência política, o reino, como suserano, está esmagadoramente acima. E, embora estejam buscando recuperar a confiança na base da negociação e da explicação, se apertar eles podem exibir força militar e ao mesmo tempo oferecer o doce. Do jeito que está, é impossível desgarrar do reino o Reino de Aft e os demais vassalos.
— O que a senhorita pretende?
— …Vou mudar a estratégia. Em vez dos nobres, propaganda dirigida à população. O conteúdo… além do de sempre, que o Reino de Haldoria abandonou o Reino de Sarjas, vamos exagerar os massacres e saques cometidos em território imperial e ainda jogar a culpa disso em Sarjas. Talvez não chegue à ruptura, mas dá para implantar no povo um sentimento antirreino.
Convém que seja quase tudo verdade. Melhor exagerar o verdadeiro do que inventar história.
Recebendo minhas instruções, Mireille curvou-se com precisão.
— Providencio imediatamente.
◇
Não tinha se passado um mês daquela conversa quando, no gabinete, eu segurava um relatório entregue por pássaro.
— Como se esperaria da Roselia. Já reagiu.
Li o relatório escrito em código e o queimei em seguida. Mudei a estratégia de informação contra os vassalos do reino, de infiltrar-me na política para manipular a opinião popular — e Roselia reagiu de imediato.
— Ela arrumou um pretexto qualquer para isentar os vassalos da contribuição ao reino e vem ganhando popularidade com distribuição de comida aos pobres e tratamento gratuito por magos curandeiros enviados. Consta que tudo isso é feito em nome de Friede e com o patrimônio pessoal dele; mas, como é impossível que Friede se mova pelo povo, isso é obra da Roselia, com quase toda a certeza.
— Vamos responder?
— Evidentemente.
Respondi à pergunta de Mireille com um aceno de cabeça.
— Não há como apagar um boato por completo. Por mais caridade que se faça, isso só salva uma parcela ínfima. Do nosso lado, basta gastar tempo e deixar o boato penetrar. Mireille, mantenha o trabalho junto aos vassalos. Além dos boatos atuais, vamos espalhar que “o custo da distribuição de comida sai do imposto que vocês pagaram, e parte disso a nobreza do reino embolsa” e que “os magos curandeiros são enviados primeiro às cidades que pagaram propina à nobreza do reino”. O efeito não aparece de imediato, mas vamos com calma, sem pressa.
— Às suas ordens.
Dadas a Mireille as instruções sobre o reino, estendi a mão à papelada para despachar o trabalho da companhia.
◇
Alguns dias depois da negociação com o conde Hermit, eu conferia o balanço mensal da companhia que recebera de Lunoa quando Misha trouxe documentos junto com uma encomenda.
— Senhorita Ellie. Chegou uma consulta do departamento de gestão de imóveis.
— Sobre o quê?
— Eles organizaram os imóveis que pertenciam às companhias absorvidas recentemente e sobraram alguns em boa localização, sem destinação. Perguntam se não seria melhor dar algum uso a eles em vez de simplesmente vender.
— Quais imóveis?
Perguntei a Misha enquanto trocava um olhar com Mireille. Captando na hora minha intenção, ela tirou da estante o mapa da capital imperial. Enquanto a via fazer isso pelo canto do olho, recebi os documentos que Misha estendia.
— Está tudo resumido neste material.
Um terreno de primeira perto do bairro nobre, um terreno amplo junto ao bairro dos artesãos, o centro do distrito comercial. Cruzando o material que Misha trouxe com o mapa da capital imperial que Mireille abriu, de fato são todos imóveis em localizações boas demais para largar.
— Só que agora não há necessidade de aumentar o número de lojas.
— Concordo. Oficinas e pontos de venda já temos de sobra.
— Então só resta deixá-los parados até o novo negócio engrenar. Quando o perfume em pesquisa e os cosméticos para homens-fera ficarem prontos, podemos abrir lojas especializadas.
A esse perfume novo dei o nome de «Elmia», tomando emprestada a palavra do povo élfico extinto. Quando a linha Elmia, com sua variedade de tipos e efeitos, entrar à venda, há de varrer o mercado.
Lunoa, que trabalhava na mesa ao lado da minha, também parou os cálculos de orçamento e folheou o relatório de pesquisa recém-chegado naquela manhã.
— A pesquisa da flor talkus parece estar rendendo bons resultados. Além de perfume feminino, avançam também colônia masculina e aromatizantes de ambiente. E o relatório de hoje diz que a pesquisa descobriu, ao contrário, um efeito de eliminar odores. Isso não poderia ser aplicado ao desenvolvimento dos cosméticos para homens-fera?
— Pode. Vamos comunicar às equipes da pesquisa da talkus e do desenvolvimento para homens-fera que trabalhem em conjunto.
Enquanto discutíamos o desenvolvimento dos produtos, bateram à porta e ouviu-se uma voz pedindo permissão para entrar. Autorizei, e o velho cavalheiro Arnaud Langley, de cabelos grisalhos penteados para trás e traje de mordomo impecável, entrou com uma reverência. Arnaud é um subordinado que trouxe do reino e a quem confio sobretudo a administração desta casa. Já tem bastante idade, mas com uma disposição enérgica que não a denuncia, estendeu-me uma carta sobre uma bandeja.
— Senhorita Ellie. Chegou um documento da Guilda Comercial.
— Obrigada.
Conferindo o documento que recebi de Arnaud, era o tal assunto do comerciante de licença especial. Dizia que a autorização saíra formalmente naquele dia e que eu fosse à Guilda Comercial quando conviesse.
— Misha, providencie a carruagem. Assim que eu organizar estes papéis, vamos à Guilda Comercial.
— Às suas ordens.
◇
Pouco depois do meio-dia, eu seguia de carruagem pela avenida principal da capital imperial rumo à Guilda Comercial. Mireille conduzia, e dentro da carruagem só ia eu. Percorrido o caminho já familiar, cheguei à Guilda Comercial, deixei a carruagem e entrei. A Guilda Comercial está sempre cheia de comerciantes e artesãos, e no amplo espaço de negociação à esquerda corriam muitas conversas.
Fui direto ao balcão da recepção em frente e falei com a recepcionista livre. O recado já devia ter chegado, porque me conduziram imediatamente a uma sala de visitas. Quem esperava lá era Calvan Main, mestre da Guilda Comercial da capital imperial. É um homem do povo demoníaco, tido como braço direito do conde Albert Guido, o Grão-Mestre que responde por todas as Guildas Comerciais do Império, e com quem já troquei palavras algumas vezes em razão de trâmites.
— Estava à sua espera, Presidente Ellie.
— Perdoe a demora, senhor Calvan.
Apertei a mão de Calvan e, a convite dele, sentei-me no sofá; Mireille recuou em silêncio para trás de mim.
— Pois bem, Presidente Ellie. Já comuniquei por escrito, mas a partir de hoje a senhorita é reconhecida como comerciante de licença especial da Guilda Comercial do Império de Yutear. Como comerciante de licença especial, receberá uma série de privilégios: compra de terras, financiamento estatal, flexibilização dos limites sobre artigos de posse restrita. Em contrapartida, surgem obrigações — recolher o tributo de licença exigido dos comerciantes de licença especial e submeter-se a auditoria da Guilda Comercial. Até aqui está claro?
— Sim.
— Além disso, a auditoria sobre a sua companhia será mais rigorosa que a normal. Isso se deve à sua origem. Peço sua compreensão.
— Sim. Não há problema.
— Então receba isto.
O que Calvan estendeu foi uma caixa com o brasão do Império e o brasão da Guilda Comercial.
Ao abrir, havia os documentos certificando meu reconhecimento como comerciante de licença especial e uma nova carteira de guilda com essas informações.
— De agora em diante use essa carteira nova. A antiga eu descarto.
— Por favor.
Assinei o documento atestando o recebimento do certificado e da carteira, entreguei a Calvan a carteira que tirei do bolso e guardei a nova.
— Com isto encerra-se o processo de licenciamento de Ellie Leis, presidente da Companhia Traitre.
— Perdoe o trabalho que dei.
— Continue se empenhando pelo desenvolvimento da economia imperial.
Foi assim que me tornei comerciante de licença especial. Com essa posição, posso estender os negócios muito além do que já fazia. Já que vou abrir uma filial no território do conde Hermit, que tem porto, seria bom importar alguns materiais de outro continente. Que tal encomendar aqueles materiais que eu pesquisava nos tempos do reino? Na época, com a correria, desisti; agora consigo lidar com eles. Há artigos com restrição de importação e outros que exigem autorização de posse, mas com o título de comerciante de licença especial obter as licenças não é difícil. Assim que chegar em casa, faço o pedido. Contratar um domador ou um invocador que tenha um familiar capaz de cruzar continentes sai caríssimo, mas aquele material vale o preço.
Subi na carruagem cheia de ânimo.
◇
Vestida para viagem, eu seguiria ao porto do território do conde Hermit — a pouca distância da capital imperial — para receber de um navio mercante os materiais encomendados e depois ir à região de Sarjas. Uns dois meses antes eu enviara uma equipe formada sobretudo por funcionários naturais do território do conde Hermit para preparar a loja e negociar com o conde, então vou conferir isso e também cumprimentar o conde antes da abertura e firmar os contratos sobre os negócios futuros.
Na região de Sarjas faremos a produção de um artigo usando o novo material importado. O clima e a qualidade da água daquela área atendem às condições de fabricação, então será uma espécie de preparação.
Os acompanhantes são três — Mireille, Lunoa e Misha —, mas Mireille e Lunoa voltam à capital imperial depois de receber os relatórios da filial e os contratos com o conde Hermit; à região de Sarjas seguimos só eu e Misha.
Quando terminei de conferir a carga posta na carruagem, chegou Misha, que dera água e ração aos cavalos e preparara os arreios.
— Senhorita Ellie. Deste lado está pronto.
— Aqui também. E Mireille e Lunoa?
— A Senhora Mireille está passando o serviço ao Senhor Arnaud para o período em que estivermos fora. A Senhorita Lunoa foi ao banheiro… ah, já voltou.
— Desculpem! Perdão pela demora!
Atrás de Lunoa, que vinha correndo, aparecia também Mireille, saindo do saguão.
— Pois bem, vamos.
A estrada para o território do conde Hermit é bem conservada, porque nela transitam mascates que vivem da venda de importados, e a viagem foi confortável. De fato, o calçamento de pedra faz uma diferença enorme na carga que recai sobre os cavalos e sobre a estrutura da carruagem, comparado ao chão apenas batido.
Seguimos pela estrada e chegamos a um acampamento numa clareira. O sol ainda estava alto, mas dali em diante o caminho corta uma floresta, e continuar significaria passar a noite dentro dela; então paramos ali mesmo para descansar cedo e, de manhã, atravessar a floresta de uma vez.
Partimos cedo na manhã seguinte e, quando o sol chegou ao topo, saímos da floresta — e o cheiro de maresia começou a fazer cócegas nas narinas. Passando uma pequena colina, entrou no campo de visão o mar reluzindo com a luz do sol.
— Uau! Aquilo é o mar?!
— É. Lunoa, é a primeira vez que vê o mar?
— Sim.
— E você, Misha?
— Eu vi algumas vezes quando meus pais eram vivos. Cheguei a andar de navio uma vez.
Misha disse aquilo, mas, como Lunoa, olhava o mar mexendo as orelhas de gato e o rabo, agitada.
— A agenda tem folga, então, terminados os compromissos, damos uma olhada no mar.
— Sim!
Com a resposta animada das duas às costas, Mireille, segurando as rédeas, acelerou um pouco a carruagem.
— É uma cidade bem movimentada.
Apresentamos os documentos no portão e entramos na cidade-sede do território do conde Hermit. Uma cidade bonita, de ruas calçadas e prédios de pedra branca.
Uma avenida por onde passam sem parar carruagens que devem ser de comerciantes, e uma praça com barracas vendendo peixe e mariscos na grelha. Em toda parte, muita gente em movimento. Por ser cidade de comerciantes, boa parte das hospedarias tem estrebaria ampla anexa. Mas nós não precisamos de hospedaria: temos a filial da Companhia Traitre.
Mireille apontou o focinho dos cavalos para a filial da Companhia Traitre no território do conde Hermit, avisada com antecedência.
A filial é um prédio de dois andares construído com a mesma pedra branca dos demais, com porão e um armazém anexo em construção separada. Diante dele, Howell, o encarregado da filial, esperava nossa chegada.
— Bom trabalho, Presidente Ellie.
— Não precisava vir me receber.
Abri um sorriso amarelo e entreguei a carruagem ao ajudante que esperava com Howell.
— Você marcou a audiência com Sua Excelência o conde Hermit, não é?
— Sim. Temos hora marcada para as duas da tarde.
— Ainda temos algum tempo.
— Preparei água quente. Que tal tirar a poeira da viagem antes de encontrar Sua Excelência?
— Boa ideia. Vou aceitar.
Instadas por Howell, entramos na loja recém-reformada e nos revezamos no banheiro preparado na área dos funcionários, nos fundos, para lavar a sujeira da viagem.
Arrumadas, chegou a hora marcada com o conde Hermit.
A residência do conde Hermit fica numa elevação de onde se avista o mar. Construída com a mesma pedra branca dos outros prédios, harmoniza-se muito bem com a cidade. Conduzidas à sala de visitas, desta vez Lunoa e eu conseguimos encontrar o conde Hermit sem esperar.
— Olá, Presidente Ellie. Senhorita Carlton. Há quanto tempo.
— Há quanto tempo, Excelência. Fico muito grata pela consideração especial que tem dispensado à nossa companhia.
— Ora. Se a Companhia Traitre instalar filial no meu território, vamos obter grande proveito econômico daqui em diante. Vamos de coexistência e prosperidade mútua. Vamos, sentem-se.
— Com licença.
— C-com licença.
— Deixem-me apresentar minha família.
O conde Hermit indicou as duas mulheres que entraram atrás dele e se sentaram no sofá.
— Minha esposa, Camila, e minha filha, Manila. Tenho também um filho herdeiro, mas ele está matriculado numa escola da capital imperial e não se encontra aqui.
— É uma honra conhecê-las, Senhora Camila, Senhorita Manila.
— O prazer é nosso; eu queria muito conversar com a senhorita.
— Sim. A atuação da Presidente Ellie é assunto na alta sociedade.
— Ora, ora, tenho até um pouco de medo de perguntar que assunto é esse.
Rimos juntas e voltei o olhar para Lunoa, cujo sorriso saía um pouco duro de tensão. Percebendo meu olhar, Lunoa tirou da bolsa que eu lhe confiara alguns belos frascos de vidro. Recebi-os e os estendi às duas com toda a reverência.
— Este é o perfume que nossa companhia desenvolveu: «Elmia». O lançamento está previsto para daqui a dois meses. Se lhes agradar, experimentem.
Diante do contentamento da esposa e da filha, o conde Hermit abriu um sorriso amarelo; trocou comigo mais algumas palavras, assinou os contratos e voltou ao trabalho. Depois de conversar um pouco com Camila e Manila, Lunoa e eu nos despedimos da residência do conde Hermit, encontramos Mireille e Misha e seguimos a pé até o porto.
No caminho, paramos na praça das barracas e resolvemos almoçar um pouco tarde com frutos do mar.
Cada uma pediu espetos de peixe e de mariscos dispostos numa grelha de ferro.
Lunoa provou com receio um camarão coberto de um molho perfumado e abriu um sorriso; Misha devorava com gosto um peixe assado no sal.
— Camarão é doce, tem essa mordida firme, é uma delícia.
— Este peixe também tem a carne consistente, está ótimo.
Enquanto as duas trocavam impressões e eu as observava com ternura, mordi, com um pouco de má educação, um espeto de mariscos tostados. O cheiro forte de mar subiu pelas narinas e a acidez do molho com o sabor do marisco tomou a boca inteira.
— Se peixe também se vende na capital imperial, por que camarão e marisco não?
— Não é que não se possa comer na capital. Marisco e crustáceo estragam mais rápido que peixe, então na capital só se come em restaurante de luxo, com reserva prévia. E é caríssimo.
— Senhorita Ellie. Dá para comer na capital camarão e marisco, que estragam tão rápido?
— Dá. Contratando um mago que use magia de gelo para manter tudo resfriado durante todo o trajeto e trocando os cavalos várias vezes, come-se na capital. Não dá para transportar em grande quantidade e, com os cavalos de reserva e o mago, o frete sobe.
Quando lhes disse quanto custa comer camarão na capital imperial, Lunoa e Misha ficaram com o rosto contorcido.
Seguimos provando comidas pouco vistas e chegamos ao porto.
O navio que combinei chega amanhã; hoje tenho outro assunto. Pelas informações que reuni de antemão, deveria ser neste porto… Enquanto Lunoa e Misha olhavam com olhos brilhantes os veleiros atracados, percorri os arredores do porto com o olhar. E encontrei um ponto: uma fresta entre dois prédios, dando para um beco escuro.
— Vamos.
Chamei Mireille e as demais e entrei no beco.
Ali reinava um clima decadente e um ar de violência que faziam parecer mentira a rua clara e movimentada de instantes atrás. É uma cidade assim. Com entrada e saída de navios estrangeiros, por mais que o senhor do território administre bem, é impossível que não haja degradação. Ao contrário: é admirável que a área de moradia da população comum não sofra nenhum efeito. Andamos um pouco e alguns homens se plantaram à nossa frente, bloqueando a passagem.
— Mocinha. É perigoso ficar num lugar destes. A gente leva vocês até um lugar seguro. Cobrando, claro. Ou, se preferirem, vocês pagam passando a noite com a gente.
Quando um deles falou, os outros começaram a rir com escárnio.
— Muita gentileza. Mas não precisa.
— Hã?
— Misha.
— Sim.
— Derrube todos menos o metido do meio. Consegue?
— Consigo, Senhorita Ellie.
Quando Misha deu um passo à frente, os homens caíram na gargalhada.
— Ei, ei, por mais homem-fera que seja, uma pirralha sozinha é de subestimar o buá?!
Misha se abaixou, disparou e acertou um chute no queixo de um deles. Os outros congelaram de susto. Não têm experiência de troca de vidas como salteadores, nem capacidade de aventureiro para enfrentar monstros. Salvo alguma exceção, arruaceiro de cidade é isso aí.
Misha se movia entrando nos pontos cegos dos homens e os foi apagando num piscar de olhos. Restou apenas o primeiro que nos abordara. Apontei a mão para ele.
— …?!
Nisso a orelha de Misha estremeceu e ela saltou para trás, às pressas. Evidentemente eu não tinha a menor intenção de acertá-la, mas Misha, sensível a presenças, deve ter se assustado.
— Ah… agh…
O homem caiu de joelhos, tremendo o corpo inteiro, o rosto lívido.
— Hã? O-o que foi isso?
— Aquilo é uma habilidade chamada 【Suppress】. Lançando sobre o alvo poder mágico carregado de sede de sangue, provoca medo e trava os movimentos. Não funciona contra quem é superior, mas é uma habilidade prática para fintar em combate e para interrogatórios.
Com a voz de Mireille explicando a Lunoa às minhas costas, desfiz a pressão sobre o homem, e ele voltou a respirar como quem se lembra de fazê-lo.
— Cof… hah!
— Muito bem, o senhor. Disse que ia nos guiar, não disse? Então poderia nos levar até o seu chefe?
— Hã?! N-não, tenha dó! F-foi mal! A gente já vai sumir daqui! Ugh?!
— Poderia nos levar?
Apliquei 【Suppress】 mais uma vez e repeti a pergunta. Repetindo isso algumas vezes, o homem ficou realmente dócil e se ofereceu de bom grado para nos guiar.
— É… é por aqui.
O homem nos levou a um prédio grande. Ar decadente, mas os vários vigias na entrada claramente não são do nível de arruaceiros.
— Ei. Que mulheres são essas?
— Ahn, isto é… é que…
— Tenho assunto com o chefe de vocês. Digam que Ellie Leis chegou.
— …………
Recebi olhares desconfiados, mas um dos vigias entrou. Fez-se um breve silêncio, e logo ele voltou.
— O chefe vai recebê-la.
Dentro, ao contrário da fachada de ruína, a decoração exibia vasos e pinturas — obras de arte que fariam inveja à casa de um nobre.
O vigia que nos conduzia parou diante de uma porta de ornamentação especialmente suntuosa e bateu.
— Chefe, trouxe a senhora Ellie Leis.
— Entre.
A porta se abriu e entramos. O vigia não entrou; parece que voltou.
Dentro havia três pessoas.
A mulher do povo demoníaco que abriu a porta, com ar de secretária. Um homem élfico cercado de papelada numa mesa diante de uma estante de documentos.
E, apoiando o queixo na mão sobre uma escrivaninha finíssima de madeira de elder trent, um homem da raça humana que me olhava como quem examina.
— Então você é a tal Ellie Leis. Ouvi dizer que aprontou bastante no conflito. E o que quer comigo? Alguma facilidade nos negócios?
Nesse caso, se você ou aquela criada aí passar uma noite comigo, eu penso no assunto.
Diante do homem que ria de forma vulgar, Misha estreitou os olhos de repulsa e Mireille, embora sem expressão, teve um leve aumento do poder mágico em volta do corpo. Eu soltei um suspiro e, com um gesto de espantar mosca, atirei um bloco de gelo do tamanho de uma cabeça humana que jogou o homem longe. Ele derrubou a cadeira e ficou encravado na parede atrás; dosei a força, então deve ter alguns ossos quebrados, mas nada que arrisque a vida.
— Não preciso desse teatrinho para me testar.
E encarei o homem élfico. Ele abriu um sorriso amarelo, levantou-se e curvou-se com elegância, num gesto refinado.
— Peço desculpas. Sou Million, encarregado de coordenar esta região.
— Ellie Leis, presidente da Companhia Traitre.
— Conheço a senhora de nome. É uma honra. Faça o favor, sente-se. E as suas acompanhantes também.
Depois de mandar a mulher do povo demoníaco retirar o homem desmaiado, Million se dirigiu à mesa de visitas.
— Não, eu fico aqui.
— Eu também.
— Lunoa, venha para cá.
— S-sim.
Quando me sentei no sofá que Million indicou, Mireille e Misha se postaram lado a lado atrás dele, então acomodei Lunoa ao meu lado.
Million sentou-se à minha frente, com a mesa entre nós, e um sorriso amarelo apareceu naquele rosto bem-feito.
— De todo modo, foi uma visita bastante radical.
— Adaptei-me aos costumes da casa. Ou havia algum código de vestimenta?
Diante da minha pergunta, Million deu de ombros.
— E então, a que devo a visita de hoje?
— Nada de mais. Vou começar a operar nesta cidade e vim apenas cumprimentar.
— Ora, a Companhia Traitre está sob a proteção do senhor do território; cumprimento a nós é desnecessário.
— Sei muito bem que não posso me acomodar usando a proteção do senhor conde como escudo. Para proteção diante de nobres e companhias do Império o poder dele basta; mas, pela posição de nobre, há casos em que ele não pode meter a mão em atritos com marinheiros estrangeiros, não é? E organizações como a sua, enraizadas na região há muito tempo, têm laço forte com os moradores. Não pretendemos quebrar a harmonia local.
Quem zela pela ordem desta cidade é, evidentemente, o conde Hermit; mas quem zela pela ordem dos bastidores é a organização liderada por este homem chamado Million — o que se chama de máfia. As companhias lhes pagam pedágio e, quando surge problema, recebem ajuda. Numa cidade que funciona assim, operar como dono do lugar só porque se tem a proteção do senhor das terras gera atrito. E isso não é o que eu quero.
— Sendo assim, quero que minha companhia também entre sob a proteção da sua organização. Naturalmente, pagarei o preço correspondente.
— E se eu recusar, o que acontece?
— Pode recusar, sem problema. Nesse caso vai dar um pouco de trabalho, mas basta eu trocar a sua cabeça por alguém de minha confiança.
Junto com essas palavras apliquei um leve 【Suppress】, mas Million absorveu com o rosto tranquilo e deu de ombros.
— Ser tratado assim por alguém do seu porte mostra que não somos tão desprezíveis.
— Significa que considero muito importante fazer negócio nesta cidade.
— Mas, pensando no risco que assumiria ao me prejudicar, não sai caro demais?
— Está falando do senhor Hawkins, que está atrás do senhor?
— …………
Ao ouvir isso, a expressão de Million se mexeu pela primeira vez. Ele escondeu depressa, atrás do sorriso, a surpresa que aflorou por um instante — mas eu não deixei passar. Million pretendia medir quanta informação eu tinha; como teve o próprio segredo apontado de saída, deve ter se abalado.
— A sua organização é, na aparência, uma organização ilegal de autogestão local com o senhor no topo; na realidade, é uma das organizações subordinadas a «o Chefão», Darc Hawkins, um dos conselheiros do Conselho da Guilda Comercial Imperial. Mexer com o senhor significa ter contra mim o homem que domina o submundo do Império. Como também quero evitar isso na medida do possível, antes do uso da força eu vim até aqui negociar.
Ao ouvir aquilo, Million soltou o ar de leve, relaxou os ombros e ergueu as duas mãos.
— Eu me rendo. Peço clemência.
— Naturalmente, se aceitar acolher minha companhia sob a proteção da sua organização, não tenho intenção de fazer coisa tão trabalhosa.
— Compreendido. Também eu não quero ter contra mim alguém que enxerga hostilizar «o Chefão» como algo que apenas “quer evitar na medida do possível”. Prometo que, quando houver problema na filial da Companhia Traitre no território do conde Hermit, nós resolvemos.
Assenti para Million e olhei para Lunoa. Ela acompanhava a nossa conversa prendendo a respiração e, apressada, tirou da bolsa um saquinho e o pôs sobre a mesa. Million pegou e conferiu o conteúdo.
— Como contrapartida, minha companhia pagará todo mês quantia igual a essa.
— É bastante.
— Considere uma compensação pelo transtorno que lhe causei hoje.
Assim, prometido o pagamento à organização de Million, deixamos o lugar. Pela posição do interlocutor não houve contrato assinado, mas com isso eliminei, tanto quanto possível, as preocupações relativas ao negócio nesta cidade.
Na volta do covil de Million, Lunoa parecia bastante esgotada pela negociação com uma organização criminosa.
— Ufa, fiquei tensa demais.
— Lunoa precisa ficar mais forte emocionalmente.
— Ai… vou me esforçar. M-mas por que era preciso negociar de um jeito tão provocativo? Pelo comportamento do senhor Million, se marcássemos uma audiência normal, acho que ele concederia a proteção.
— Nós é que pedimos colaboração; mas o outro lado é gente fora da lei, então é preciso não deixar que nos subestimem. E, sendo o primeiro contato com uma organização ligada a «o Chefão» Darc Hawkins, eu queria mostrar um pouco da nossa força. Negociar medindo a envergadura do outro exige equilíbrio entre atacar e recuar; mas negociar com o submundo será necessário mais vezes, então guarde bem o dia de hoje.
— S-sim.
De volta à companhia, larguei a bagagem e observei Lunoa e Misha. As duas conversavam animadas enquanto trocavam a roupa de sair por algo confortável. Estão cansadas, mas não há sinal de que estejam forçando a barra ou escondendo mal-estar.
Lunoa estava tensa, mas agora está calma. Misha quase não deixou a tensão transparecer nem diante de um nobre, e se manteve serena também diante de gente do submundo.
Nenhuma das duas vai quebrar com tão pouco. Lunoa ainda precisa de mais rodagem, é verdade.
— Hoje vamos jantar no restaurante aqui perto.
Hoje merecem uma refeição um pouco mais luxuosa, a título de reconhecimento.
No dia seguinte, não havia compromisso de trabalho.
O navio mercante só chega amanhã, então eu pensava em passar o dia conhecendo a cidade; mas, como recebemos convite de Camila e Manila, esposa e filha do conde Hermit, quando visitamos a residência, hoje íamos ao encontro delas.
— Sejam bem-vindas, Ellie.
— Muito obrigada pelo convite de hoje.
Recebidas pela senhora, mal terminamos os cumprimentos e fomos conduzidas pela casa até o jardim dos fundos. A residência do conde Hermit fica numa elevação da cidade, e do jardim dos fundos há um caminho que desce; descendo por ele, chega-se a uma praia bonita. Este trecho, com formato de enseada, é a praia particular da casa condal Hermit. No continente central o banho de mar não é muito comum, mas os nobres às vezes nadam em lagos, quando vão veranear. Ainda assim, isso é sobretudo coisa de nobres homens; mulheres raramente entram na água.
— Uau! Que bonito!
— A gente entra no mar aqui?
— Sim. Meu pai, o conde Hermit, quer difundir o banho de mar e atrair gente para a cidade pelo turismo. No ano passado foi construída na cidade uma praia que os plebeus podem usar, e aos poucos começam a aparecer turistas.
Manila disse aquilo com um sorriso para Lunoa e Misha, que estavam exaltadas.
Nossas roupas são o que se chama de maiô, próprias para nadar. É peça pouco vista no continente central, mas talvez porque o conde Hermit as tenha reunido para promover o banho de mar, nesta cidade vendiam-se maiôs de vários tipos.
Lunoa está com um maiô de duas peças com babados, Misha com um maiô inteiro com abertura para o rabo, próprio para homens-fera, Mireille com um biquíni preto e branco; eu, no mesmo tipo de biquíni, com um pareô amarrado e um casaco leve por cima.
— Vamos, Lunoazinha, Mishazinha.
— S-sim.
— Sim, Senhorita Manila.
— Vocês duas, antes de entrar na água, alonguem bem o corpo.
As duas correram para o mar com Manila, também de maiô, e atrás delas foram devagar Mireille e a dama de companhia de Manila.
Com Mireille e a dama por perto, e sendo esta enseada rasa e de ondas calmas, não deve haver perigo.
Sentei-me com Camila numa cadeira posta à sombra do guarda-sol que as damas da casa condal prepararam e aceitei uma água de frutas bem gelada.
— É a primeira vez que tomo banho de mar, e é bastante agradável.
— Sim. Eu também passo muito tempo aqui na época quente.
— Acho que isto vai virar moda como novo destino de veraneio da nobreza.
— Rá-rá. Na verdade eu convidei algumas amigas minhas mais de uma vez. As crianças se divertiram, mas as senhoras, preocupadas com o sol, só entravam por pouco tempo. Só que, com o protetor solar que a companhia da Ellie lançou há uns seis meses, que continua fazendo efeito mesmo dentro da água, todo mundo passou a se divertir.
— É uma honra ter sido útil.
O produto lançado há seis meses deve ser o protetor solar desenvolvido por acaso durante a pesquisa do Elmia. Mais que remédio, é um item mágico que sustenta um efeito curativo fraco por muito tempo. É caro, mas vende bem entre os nobres que não querem se bronzear. Se o banho de mar virar moda entre a nobreza, a demanda por esses produtos também cresce. E esta cidade é uma das portas de entrada do Império. Entre os países com que o território do conde Hermit comercia está o Reino de Haldoria. Aprofundar a relação com o senhor desta cidade pode ser útil para alguma coisa.
Com esse segundo motivo, fiz uma proposta a Camila.
— Que tal? Daqui em diante a Companhia Traitre pretende investir, além dos produtos de beleza, no desenvolvimento de protetores solares; quando isso ocorrer, enviaremos amostras à Senhora Camila. A senhora colaboraria com a divulgação?
— Faço questão de colaborar.
Enquanto engatava com Camila uma boa conversa sobre produtos de beleza, aproveitava a água de frutas gelada e acompanhava com o olhar Lunoa e Misha, que brincavam de jogar água uma na outra na parte rasa.

◇
No dia seguinte ao da praia particular do conde Hermit, acordei nos aposentos do segundo andar da companhia, tomei o café da manhã e segui ao navio mercante ancorado no porto. Fomos só eu e Mireille. Nesse meio-tempo, Lunoa e Misha ficaram de folga, com uma mesada na mão, e Howell as levaria para conhecer a cidade.
— Senhorita Ellie, a carruagem está pronta.
— Já vou.
Respondi a Mireille e me voltei para Lunoa e Misha.
— Vocês duas, voltem até as três da tarde.
— Sim.
— Entendido.
— Howell, cuide das duas.
— Deixe comigo.
Reforcei o recado a Howell e subi na carruagem cujas rédeas Mireille segurava.
Dá para ir ao porto a pé, mas desta vez era preciso receber a carga encomendada, então a carruagem era necessária.
O navio mercante que contratei é do Império Reki, o Estado unificado do continente meridional, e vem ao continente central passando pelo continente ocidental.
Encontrei o navio entre os mercantes e cargueiros enfileirados no porto e falei com um marinheiro que descarregava.
— Com licença. Sou da Companhia Traitre; o senhor capitão está a bordo?
— Companhia Traitre? Ah, é aquela companhia que mandou um familiar voando com a encomenda?
— Sim.
— Espere um pouco… Ei! Cadê o chefe?
O marinheiro perguntou a um companheiro ali perto e descobriu onde estava o capitão.
— É por aqui. Venham.
Guiadas pelo homem, Mireille e eu subimos ao grande navio mercante. Muitos marinheiros trabalhavam atarefados, gritando com energia, descarregando e cuidando da manutenção.
Conduzidas a uma câmara ampla, encontramos o capitão. Um homem musculoso, queimado de sol. Cabelo e olhos pretos, como os de Yuka Kusunoki, que conheci antes. Mas ele não é do país insular do oriente: é do Império Reki, no continente meridional.
— É um prazer conhecê-lo, capitão Guen.
— Ah, da Companhia Traitre… Presidente Ellie, era?
— Sim.
— Bem, eu não vou muito com essas voltas. Dispenso conversa fiada. Ei, tragam a tal carga!
Guen, que aparentemente não é bom nas negociatas de comerciante, encerrou depressa os cumprimentos e deu ordens aos subordinados.
Pouco depois, alguns homens vieram trazendo cinco caixas de madeira hermeticamente lacradas e com tratamento mágico.
— Esta é a encomenda. Confira.
— Com licença.
Desfiz a magia de selagem das caixas e examinei o interior: havia água e uma porção de grãos parecidos com pérolas. Peguei alguns na mão, verifiquei o estado, devolvi à caixa e refiz o selo. Essa magia de selagem está gravada na própria caixa, que é uma espécie de item mágico. Examinei também as outras quatro caixas e confirmei que estava tudo em ordem.
— Sem problemas.
— Então entrego assim mesmo.
— Deixei uma carruagem lá fora; peço que levem até ela.
— Certo. Vocês aí, levem a carga até a carruagem.
Guen ordenou aos subordinados e eles começaram a carregar as caixas.
— De todo modo, para que serve uma coisa dessas?
— É semente de um negócio novo. Se vai dar certo, não sei.
— Ora, comerciante pensa cada coisa.
Deixei passar de leve a cara de estranheza de Guen e perguntei o que vinha me intrigando um pouco.
— A propósito, os marinheiros do navio do capitão Guen estão todos muito bem, não?
— Hã? Bem, somos homens do mar. Não é como esses brotos de feijão franzinos da terra firme.
— Não, não é isso. O navio do capitão Guen saiu do continente meridional e chegou a este continente central passando pelo ocidental, certo? Numa navegação de longo curso dessas, não é comum haver muitos casos da doença dos marujos?
A doença dos marujos é o mal estranho que acomete os navegantes em travessias longas, afastados da terra. Dizem ser terrível: sangramento das mucosas da boca, queda de dentes, ferimentos que não cicatrizam.
— Ah, isso. É verdade que até agora já perdi vários homens para a doença dos marujos. Mas, graças a isto aqui, desta vez ninguém adoeceu.
E, dizendo isso, Guen tirou da prateleira da sala uma conserva de folhas picadas em vinagre.
— Isto é… chucrute?
— Isso. Comendo isto todo dia, não se pega a doença dos marujos.
— É verdade?!
— Eu não tenho estudo, então não sei por quê. Mas no meu país tem uma mocinha danada de inteligente que aconselha sobre um monte de coisa. Perguntei de brincadeira e ela me ensinou esse tal de “chucrute”. Disse que, segundo a pesquisa de um professor importante do continente setentrional, se a gente comer isso já em terra firme, não pega a doença dos marujos.
— Uma coisa dessas… isso é uma descoberta enorme!
— É, no continente meridional já se espalhou bastante. A guilda marítima deste continente também já deve ter recebido o relato, então em breve se espalha.
Quer dizer que no Império Reki há alguém sábio capaz de obter e aplicar resultados de pesquisa tão recentes. Um tanto intrigada com essa pessoa culta de outro continente, entreguei a Guen o pagamento.
— E aqui está o que o senhor me encomendou.
— Valeu. É que eu não tenho muito contato neste continente.
— Imagine. O custo já está descontado do que pago.
O que lhe entreguei foram os livros que ele me encomendara. O conteúdo é dos mais variados: obras técnicas e artigos de pesquisa recentes de vários campos, romances populares, peças de teatro.
— Por acaso são encomendas da tal “mocinha inteligente”?
— Mais ou menos. Ela quer conhecimento a qualquer custo. Eu, com cinco páginas, já durmo que é uma beleza.
Guen riu com estardalhaço.
Depois disso, Mireille e eu descemos do navio e voltamos à companhia com a carga na carruagem. Lunoa e as outras ainda não tinham voltado, e o prédio novinho da companhia estava silencioso. Enquanto eu avançava no gabinete alguns trâmites para iniciar a operação nesta cidade, Lunoa e Misha voltaram.
Recebi as duas, agradeci a Howell e conversamos os quatro sobre os próximos passos.
— Sobre o que vem agora: conforme o previsto, eu e Misha partimos amanhã de madrugada para a região de Sarjas, e Mireille volta à capital imperial com Lunoa numa diligência.
O material que obtive não se conserva por muito tempo. Como já passou por uma travessia longa, é preciso levá-lo logo ao local reservado na região de Sarjas. Por isso mando Mireille e Lunoa de volta à capital e transporto com Misha.
— Eu e Misha vamos ficar alguns meses fora, trabalhando na região de Sarjas, então nesse período a companhia fica com Mireille. Lunoa, auxilie Mireille.
— Às suas ordens.
— Vou me esforçar!
— A filial do território do conde Hermit fica com você, Howell. Se surgir qualquer problema, avise imediatamente a capital imperial.
— Sim. Deixe comigo.
Acertados os detalhes, Howell foi para casa e nós jantamos num restaurante ali perto. O assunto era a pessoa sábia do Império Reki, de quem Guen falara.
— Império Reki é aquele grande império que domina o continente meridional, não é?
— É. Tem uma cultura bem diferente daqui. Eu também nunca fui.
— É uma coisa tão impressionante assim? Quem descobriu a prevenção da doença foi um pesquisador do continente setentrional, não foi?
— Não é bem assim.
Misha pôs a dúvida em palavras. De fato, a tal moça do Império Reki pode parecer alguém que apenas transmitiu o que um pesquisador descobriu. Mas a coisa não é tão simples.
— Eu já li a tese desse pesquisador.
Como algo na história de Guen me incomodava, lembrei que tinha o tal artigo registrado no 【Grimoire Lucifer】 e o revi por alto.
— De fato o pesquisador considerava que a causa da doença dos marujos tinha a ver com a alimentação. Só que a tese não chegava a apontar a causa detalhada nem a solução.
— Então a moça descobriu por conta própria?
Mireille perguntou sem esconder a surpresa.
— Isso eu não sei. Só que, pelo que o capitão Guen contou, ela não parece ser do meio da pesquisa; então não teria chegado lá cruzando artigos de outros pesquisadores?
— Que impressionante!
Ter conhecimento e saber aplicar o conhecimento que se tem não são a mesma coisa. Se essa moça deduziu a causa da doença dos marujos em meio a inúmeros artigos e ainda obteve a solução a partir de outro conhecimento, então é, sem sombra de dúvida, um gênio.
Depois disso, nós quatro ficamos especulando sobre a sábia do sul que ainda não conhecemos e, com o tempo, o assunto migrou da conversa com Guen para o material que acabávamos de adquirir.
◆
Decoração sóbria, cara mas sem suntuosidade; num cômodo mal iluminado por lampiões, um homem inclinava uma taça acomodado numa cadeira. Diante dele, um homem grande, com uma grande cicatriz atravessando o rosto, estava ajoelhado de cabeça baixa.
— Entendo. Uma comerciante capaz de lutar de igual para igual com você.
— …Não. Se aquilo tivesse continuado, quem teria perdido seria eu.
— Ora.
Ao ouvir o relatório, o homem aprofundou o sorriso, divertido.
— Bom trabalho, Graham. Pode se retirar.
— Sim, senhor! Com licença.
— Corvo.
Depois que Graham saiu, o homem dirigiu a voz ao vazio.
— Sim.
E houve quem respondesse. Atrás dele, como se estivesse ali desde sempre, havia uma mulher de pé. Um vestido preto que se dissolvia na escuridão e um véu preto cobrindo o rosto: uma mulher de presença apagada.
— O que achou do que ele disse?
— Se o coronel Graham vai a esse ponto, não é uma comerciante qualquer.
— Pois é… vamos cutucar um pouco.
O homem fechou os olhos por um tempo, como quem pondera, e voltou a falar.
— O Escorpião ainda está em Haldoria?
— Está.
— Certo. Mande o Escorpião seguir para o Império. Que reúna informações sobre a comerciante de que Graham falou e a sacuda um pouco. O método fica a critério dele.
— Deixe comigo.
Num cômodo da área privativa da família real, nos fundos do castelo do Reino de Haldoria, uma mulher fez uma reverência cuidadosa.
— Então, por hoje, com licença.
— Sim, volte outro dia.
— Hm, podes voltar.
— Sim, Alteza Friede, Senhora Sylvia.
Kris, que ultimamente caiu nas graças de Sylvia, noiva de Friede, e passou a frequentar o castelo, baixou a cabeça diante dos dois e se retirou. Depois de ser levada por uma criada até fora do castelo, Kris agradeceu com toda a cortesia também à criada que a acompanhou e voltou à hospedaria em que estava. Ao entrar no quarto alugado, havia sobre a mesa uma carta que ela não reconhecia. Correu os olhos rapidamente pelos arredores, mas não havia nada de diferente.
Depois de uma pausa, Kris examinou a carta. Não havia nome de remetente, mas junto dela vinha uma pena de corvo.
Kris pegou a carta, leu o conteúdo de uma vez, jogou-a no braseiro do canto do quarto, ateou fogo com magia e queimou tudo sem deixar rastro.
— Agora o Império…
Murmurou sem se dirigir a ninguém, e começou a preparar a viagem.
◇◆☆◆◇
O mar de hoje está calmo e a visibilidade, boa. O navio de propulsão mágica de última geração, nesta que é sua viagem inaugural, comporta-se às mil maravilhas.
Décimo sexto dia desde que zarpamos do porto do Principado de Haldoria; depois de amanhã, à tarde, está previsto o atracamento no porto do território do conde Hermit, no Império de Yutear.
Neste momento escrevo estas linhas na cabine do capitão, depois do almoço. O curry que o cozinheiro de bordo prepara é realmente saboroso, e a harmonia com os picles especiais é impecável. Repeti duas vezes. Ainda não perco para os marinheiros jovens.
Nesta viagem assumi também a tarefa de entregar ao conde Hermit uma carta pessoal da presidente da companhia. O território do conde Hermit é um dos polos de venda do perfume, produto principal da companhia a que pertenço, e o conde Hermit está, há gerações, profundamente envolvido com nossas exportações — manter a relação com ele também é trabalho importante.
Nisso, entramos na área de comunicação mágica do porto do território do conde Hermit. Interrompo para a comunicação.
Comunicação concluída. Ao chegar ao território do conde Hermit vou acabar tendo de pagar bebida aos comunicadores do navio. Aquele Tom, francamente. Falar o que não devia.
Registro ainda que a permanência prevista no Império é de uma semana. Que lembrança comprar para a esposa e a filha que aguardam na capital do principado? Da última vez comprei uma boneca que diziam fazer sucesso no Império e minha filha detestou; desta vez não posso errar. Preciso decidir com cuidado, consultando John, o chefe dos navegadores. Ou terá sido John quem recomendou aquela boneca? Também ouvi dizer que ele caiu em desgraça com a namorada; talvez seja melhor consultar outra pessoa.
Do diário pessoal de bordo de Garrett Markson, capitão do navio de propulsão mágica Lunoa Carlton, de bandeira do Principado de Haldoria