Switch Mode

A Livid Lady’s Guide to Getting Even – Volume 2 Capítulo 2

Capítulo 2 — A Disputa por Milista

💗 Apoie o Nihon Project

Vire um apoiador mensal e ajude a manter as traduções saindo, com prioridade de capítulo e outras recompensas.

Apoiar no Apoia.se

Capítulo 2 — A Disputa por Milista

Depois de me separar de Mireille e das demais no território do conde Hermit, segui com Misha para a região de Sarjas na carruagem carregada com as caixas de madeira.

No caminho da fortaleza para a antiga capital de Sarjas, há uma aldeia pequena num desvio ao norte. Fica ao lado de um lago grande e bonito, e como esse ambiente combina com a natureza da mercadoria desta vez, negociei e contratei a aldeia inteira.

Como a distância é considerável, Misha e eu nos revezamos na boleia. Hoje eu conduzo de manhã e deixo a tarde até o anoitecer com ela.

Avançamos devagar pelo caminho de terra batida, por consideração à carga.

O tempo está bom e o clima, bastante agradável. Sob o toldo que barra o sol, Misha olha com interesse as caixas de madeira embarcadas.

— Senhorita Ellie, por que estas caixas não são transportadas dentro do seu artefato divino?

— Porque no meu 【Grimoire Mammon】 não é possível guardar seres vivos.

— Hã?! Tem bicho aí dentro?!

— Ovos, no caso. São ovos de aqua crawler.

— Aqua crawler?

— Um monstro aquático parecido com uma lagarta, que vive no continente ocidental.

— La-lagarta… é?

Misha se afastou discretamente das caixas, e eu abri um sorriso amarelo diante daquilo.

— No continente ocidental ele é tratado como praga, porque devora as ervas medicinais cultivadas nos lagos. Só que, quando se cumprem certas condições, o aqua crawler produz um fio de altíssima qualidade. O tecido feito com esse fio se chama aquasilk.

— Aquasilk?! Aquilo é o tecido lendário cujo método de produção ninguém conhece! Meu pai dizia que só se consegue, muito raramente, dentro de uma masmorra!

— Esse mesmo. As condições para o aqua crawler produzir fio são difíceis. Eu decifrei essas condições a partir de documentos antigos.

— É-é sério?!

Estava escrito num documento antigo guardado no acervo subterrâneo do Reino de Haldoria. Quando eu ainda estava no reino, tinha os olhos nisso como próximo negócio e pesquisava a respeito.

— Mas, ainda que o aquasilk seja artigo de luxo, é mesmo necessário que a Senhorita Ellie vá pessoalmente?

De fato não é um assunto que exija minha presença. Mas eu quero garantir o sucesso deste empreendimento.

— Também porque as condições de criação do aqua crawler são difíceis; mas, acima de tudo, porque este aquasilk é necessário para o meu objetivo.

— O objetivo da Senhorita Ellie… a vingança contra o reino?

— Isso. O aquasilk não é apenas um tecido caro. Processado por alquimia, dá armaduras poderosas e itens mágicos. É um material que artesãos, alquimistas e pesquisadores de primeira linha desejam com todas as forças. A ponto de não serem poucos os que decidiriam na hora deixar o próprio país e se mudar, se pudessem trabalhar com aquasilk. E, se um material perdido volta a circular, os comerciantes também aparecem.

— E isso é um ataque ao reino?

— É. Misha, o que você acha que determina a força de um país?

— A força de um país? Ahn… é o poder que o país tem, não é? Talvez as tropas que mantém e o orçamento nacional.

— Isso. E o que compõe essas coisas são as pessoas. Tropa e dinheiro são produzidos por pessoas; força nacional é gente. Pretendo usar o aquasilk como isca para puxar artesãos e comerciantes do reino. O reino já sofre com falta de pessoal — essa drenagem vai ecoar forte lá na frente.

Enquanto eu explicava a Misha as condições para produzir aquasilk, avistei à frente a primeira parada: a aldeia.

É a aldeia de Gana, no extremo do território do conde Lebrick, que serve de polo de produção da Companhia Traitre.

— Senhorita Ellie, há quanto tempo.

— Há quanto tempo, senhor chefe da aldeia.

Depois de chegar a Gana, Misha e eu nos reunimos no escritório da companhia, no centro da aldeia, com o chefe e o responsável pelas instalações de produção.

Naquele conflito houve saque de suprimentos, mas hoje a reposição de material e de pessoal está concluída e a produção de cosméticos começou.

— Senhor chefe, como vão a vida e o trabalho? Há algo incomodando?

— Que nada. Graças ao trabalho que a companhia nos deu, todos passaram a ter renda estável. E os senhores ainda mandaram gente para a defesa da aldeia. Somos gratos.

Depois do conflito, comprei da Companhia Cedric alguns escravos com capacidade de combate e os mandei para esta aldeia. Cuidam de conter os monstros dos arredores e da defesa. As condições deles são as mesmas de Misha, equiparadas às dos funcionários da Companhia Traitre; se trabalharem com seriedade por alguns anos, pretendo libertá-los da condição de escravo e, se quiserem, contratá-los como funcionários.

— Está indo bem com o pessoal da segurança?

— Sim, todos têm sido muito bons conosco.

— Que ótimo.

Comprei gente de capacidade mediana, mas de temperamento cooperativo, então parece que se entrosaram com os aldeões sem problema.

Assenti para o chefe e me voltei ao responsável pelas instalações, enviado pela companhia.

— E a produção? Nenhum problema?

— Não, por ora nada. Mas, se formos aumentar ainda mais o volume daqui em diante, os recursos desta aldeia não darão conta.

— É verdade. O faturamento da companhia sobe sem parar e a previsão é abrir mais filiais, então a demanda por cosméticos deve continuar crescendo. Daqui em diante vamos considerar usar esta aldeia como modelo e multiplicar polos iguais. Nesse caso, quem adquiriu experiência aqui talvez assuma papel central nos polos novos, então quero mais empenho ainda na contratação e na formação de pessoal local. O orçamento adicional necessário eu providencio.

— Às suas ordens. Conto com a senhorita.

Depois disso ouvi os funcionários contratados no local e os aldeões e fiz a inspeção das oficinas de fabricação de cosméticos; como o sol já se punha, acabamos hospedadas na casa do chefe da aldeia. A casa dele tem também função de salão comunitário e de hospedaria, por isso é maior que as outras. Ao nos receber, a esposa e a filha do chefe já tinham preparado a refeição.

Sentamo-nos em torno da mesa grande, a esposa pôs uma panela enorme no centro e a filha serviu nas tigelas.

— Sirvam-se, por favor. Perdoem a comida de roça; é o prato típico daqui.

— Muito obrigada.

— Obrigada.

O que a esposa e a filha prepararam foi um cozido cheio de dádivas da montanha: cogumelos, brotos, verduras do mato.

— Ora, os cogumelos deram um caldo excelente.

— Está uma delícia.

Não é o que se chamaria de refinado, mas o sabor terno e nutritivo e a profundidade que vem da quantidade de ingredientes fazem um prato excelente.

Misha, que não aguenta comida quente, comia soprando, visivelmente satisfeita.

No dia seguinte conversamos com o responsável pela segurança — que ficara até tarde em ronda — e com os escravos enviados como escolta, conferimos o que faltava de suprimentos, deixamos Gana antes do meio-dia e, dois dias depois, no começo da tarde, chegamos à Fortaleza de Brocken. Hoje essa fortaleza serve também de posto de fronteira para a região de Sarjas.

Quando minha carruagem se aproximou, soldados cruzaram as lanças e bloquearam o caminho.

— Alto! É mascate? No momento é preciso autorização para passar por aqui.

— Sou comerciante, mas não mascate. A autorização está aqui.

Apresentei o salvo-conduto com a assinatura de Lucas e a carteira de guilda que comprova a licença especial de comerciante.

Sendo comerciante de licença especial, esse tipo de inspeção fica bastante simplificado.

— Autorização conferida. E a carga?

— Ovos de um monstro chamado aqua crawler.

— Ovos de monstro?

— Sim. Misha.

— Sim.

O soldado fez cara de desconfiança, mas eu me antecipei, recebi de Misha os documentos que lhe confiara e os estendi a ele.

— Esta é a autorização de posse dos ovos de aqua crawler; esta, a autorização de entrada deles na região de Sarjas.

— H-hm.

O soldado conferiu os papéis, checou com cuidado os selos das caixas com os ovos e liberou a passagem.

— Foi bastante rigoroso.

— Foi. A região de Sarjas estava em conflito até outro dia, e é território recém-anexado. Pode haver terrorismo ou guerrilha antiimperial, então por um tempo a entrada e a saída ficam rigorosas. Você viu como os soldados estavam todos tensos?

— Vi, havia bastante tensão.

— Ainda que, na minha opinião, estejam tensos demais.

Respondi assim a Misha, que segurava as rédeas, e conferi o mapa até a aldeia de destino.

— Ufa, foram embora.

O soldado encarregado da conferência na Fortaleza de Brocken olhou a carruagem se afastar e relaxou os ombros junto com o parceiro.

— Aquela era a «Bruxa de Prata» da Companhia Traitre?

— Era. Antes de ser designado para cá eu servia no exército do território. Estive no conflito com Sarjas. Vi de perto, não tem erro.

Naquele dia, quem chegou à Fortaleza de Brocken foram duas mulheres — e ainda por cima duas jovens que quase se poderiam chamar de meninas.

Por um instante o soldado se preocupou com a imprudência daquilo; mas, ao receber o salvo-conduto e a carteira de guilda, percebeu que uma delas era a comerciante que liderou o exército voluntário naquele conflito.

— Era tão impressionante assim?

— Impressionante é pouco. Não sei que artifício ela usa, mas dispara magias grandes de várias afinidades, uma atrás da outra. Eu só cercava a fortaleza por fora, e mesmo assim vi, por cima da muralha, tornado e coluna de pedra varrerem os soldados inimigos.

— Tá de brincadeira.

— E, por cima, transformou o campo inimigo num mundo prateado com uma magia de gelo descomunal. A quantidade de inimigos congelados que eu vi quando tomamos a fortaleza me apareceu em sonho várias vezes.

— Então é por isso «Bruxa de Prata»…

— É. E dizem que ela é próxima de Sua Excelência o conde Lucas, então nunca irrite essa mulher. Perde-se a cabeça — em todos os sentidos.

— E-entendido.

Encerrada a conversa fiada, os dois soldados voltaram aos seus postos.

Entramos na região de Sarjas e, pouco mais de um dia depois, num acampamento saímos da estrada que leva à antiga capital e passamos do caminho pavimentado para uma trilha só de terra batida, seguindo entre as árvores por um tempo. À frente apareceu uma aldeia cercada por uma paliçada tosca de madeira.

— É aquela a aldeia de destino?

— É, a aldeia de Milista.

A aldeia de Milista foi construída encostada num lago grande e bonito; não tem indústria de que se fale, e os aldeões vivem modestamente de um pouco de lavoura, da caça na floresta e da pesca no lago. Foi o lugar que encontrei ao procurar uma aldeia com o ambiente adequado ao aqua crawler e, depois de mandar funcionários e negociar algumas vezes, ficou acertado que entrariam para o grupo da Companhia Traitre e assumiriam a produção de aquasilk. Misha tocou a carruagem em direção à aldeia — e algo me pareceu estranho.

— Tem alguma coisa errada.

— Concordo. É como se estivesse tudo eriçado…

Quando chegamos ao portão, cinco homens saltaram de trás dele. Nas mãos, lanças toscas talhadas em madeira.

Saltei do toldo passando por cima de Misha, na boleia, e me plantei diante da carruagem com a mão na espada.

— O que significa isto?

— Mulher?!

Os homens ficaram um pouco surpresos.

— V-vocês não são o bando de bandoleiros?

— Bandoleiros? Eu sou comerciante. Companhia Traitre. Avisei ao chefe da aldeia de Milista que viria nos próximos dias.

— Companhia Traitre! Ei, vocês, abaixem as armas! Elas não são bandoleiras. São as visitantes de que o chefe falou!

Um homem que arrastava uma perna, aparentemente o líder, mandou os companheiros baixarem as armas.

— Desculpe. Ouvi falar da senhorita. Venham comigo que eu levo até o chefe.

Paramos a carruagem e Misha e eu seguimos o homem até a casa do chefe. Dentro da aldeia só se viam homens de lança na mão, todos com cara de desgraça.

— Aconteceu alguma coisa? Você falou em bandoleiros agora há pouco.

— Ah, deu um problema aqui. Os detalhes o chefe explica.

Dito isso, o homem abriu a porta da casa do chefe.

— Vô, chegou a comerciante que o senhor falou.

— Com licença.

— Com licença.

Entrando atrás do homem, o chefe e alguns aldeões mais velhos cercavam uma mesa com cara fechada.

— Comerciante? Ah, a moça da Companhia Traitre. Desculpe tê-la feito vir até aqui, mas a aldeia está passando por um apuro.

— O que aconteceu? Se estiverem em dificuldade, eu ajudo.

— Mas… a senhorita, com essa idade…

— Chefe, não custa ao menos ouvir, custa? E, além do mais, ela já entrou na aldeia…

— Hm…

O chefe e os aldeões conversaram entre si e então explicaram. Segundo eles, na tarde do dia anterior um bando de bandoleiros atacou a aldeia de repente. Mataram o guarda do portão e levaram bebida e comida. E, ao sair, disseram que amanhã — isto é, hoje — deixassem prontos bebida, comida e moças jovens. Provavelmente o de ontem foi um reconhecimento em força, para medir a capacidade de defesa; hoje pretendem fazer o saque de verdade. Pela localização, as estradas desta aldeia para uma cidade grande com Guilda dos Aventureiros são poucas, então devem ter posto vigias nelas. Ou seja: desde que entrei na aldeia, minha presença já é do conhecimento dos bandoleiros. O chefe se desculpou por ter nos envolvido, e eu o acalmei dizendo que não se preocupasse.

— Senhorita Ellie, qual a diferença entre salteador e bandoleiro?

— Não há definição exata, mas em geral salteador é quem ataca gente fora das cidades para tomar dinheiro e carga, às vezes a vida. Agem em quatro ou cinco, no máximo uns vinte. Bandoleiro é quando muitos salteadores se juntam num bando: além do saque, aceitam encomenda de assassinato, sequestram gente para virar escravo ilegal. É grupo criminoso. Na maioria dos casos tem ligação com organizações criminosas de cidades grandes ou com nobres corruptos.

Quando o bando fica grande, o número de integrantes pode chegar às centenas.

De modo geral, bandoleiro é bem pior. O chefe assentiu à minha explicação.

— Aqueles ali tinham equipamento bom, não pareciam salteadores comuns. O guarda do nosso portão era um aventureiro aposentado por idade. Se mataram ele, nós não temos a menor chance. Moça, no extremo da aldeia há um galinheiro. Esconda-se ali e, quando os bandoleiros chegarem, fuja pela floresta. No meio da confusão do ataque talvez consiga escapar. Não sei se vai dar certo, mas ficar nesta aldeia é perigoso para vocês também.

— Não se preocupe.

Assenti devagar, para tranquilizá-lo.

— Esse bando de bandoleiros, eu esmago para os senhores.

— E-esmagar… n-não, mesmo assim…

Contive o chefe, que tentava me deter, boquiaberto, e estalei os dedos.

Ao sinal, espinhos de gelo afiados irromperam ao meu redor.

— Uau!

— M-mas o que é isso?!

— Iiih!

Estalei os dedos de novo e o gelo sumiu. Naturalmente não é preciso estalar dedo nenhum. É só encenação.

— A-a moça é maga?

— E agora ela não recitou encantamento nenhum.

Esperei o burburinho dos aldeões acalmar um pouco e ergui a voz.

— Como veem, tenho a convicção de que luto acima da média. Tenho capacidade para viajar até aqui só com esta menina. Sendo assim, aceitam deixar comigo?

Diante da pergunta, os aldeões se entreolharam e, no fim, assentiram. Pedi ao chefe que reunisse os aldeões capazes de lutar e fui distribuindo-os pela aldeia. Dei a eles o apito que eu tinha e os que se juntaram pela aldeia toda, e os encarreguei da vigilância. Se os bandoleiros aparecessem por outro ponto que não onde eu estivesse, o combinado é sinalizar com o apito.

Ao norte e ao sul da aldeia há floresta, a oeste o lago, e o portão fica a leste. Dividi os aldeões em três grupos: os que vigiam as duas direções fora do leste, onde eu me posicionei, e os que protegem o armazém comunitário, no centro da aldeia, onde se abrigam os não combatentes — mulheres, crianças e idosos.

Ontem os bandoleiros apareceram no começo da tarde. Se vierem no mesmo horário, não há muito tempo. Chamei Misha, de olho nos aldeões que corriam de um lado para o outro.

— Misha, proteja os não combatentes no armazém central.

— Sim!

— E, se os bandoleiros atacarem divididos em dois grupos, vá socorrer o lado de onde vier o apito.

— Entendido.

Misha respondeu deixando transparecer alguma tensão. Ela ainda pode ser chamada de criança, mas continua treinando desde que veio para mim. No combate contra os arruaceiros, dias atrás, lutou sem passar perigo. Recebe instrução também de Mireille e já domina algumas 【Skill】, então sua capacidade de combate é muito superior à de aldeões que, no máximo, já espantaram um goblin perdido.

Uma preocupação existe. Misha teve os pais mortos por salteadores. Pelas conversas que tivemos, sei que ela superou esse passado; mas não sei como reagirá ao se ver diante deles de verdade, então deixo um recado por garantia.

— Quero que proteja os aldeões, mas a prioridade máxima é a sua vida. Se sentir que a diferença de força é evidente, fuja sem hesitar. É uma ordem.

— S-sim.

— É perigoso, mas conto com você. Estes bandoleiros precisam ser liquidados sem falha.

— É mesmo?

— É.

Baixei um pouco a voz para explicar.

— Os bandoleiros que atacaram esta aldeia são desertores do conflito com o Reino de Sarjas.

— Hã?!

— Pela época e pelo lugar, a probabilidade é bem alta.

— Mas os oficiais e soldados do Reino de Sarjas não seriam responsabilizados, seriam?

— É verdade que o Império deu o conflito com o Reino de Sarjas por encerrado com o suicídio do rei e a transferência do governo; mas, à parte disso, os militares que praticaram saque e violência contra civis foram investigados e punidos. Ou seja, esses desertores devem ter muito na consciência. Minha hipótese é que esse grupo de ex-soldados absorveu salteadores e criminosos locais e virou um bando de bandoleiros. Se isso chegar aos aldeões, a imagem dos imperiais — o inimigo do conflito — pode piorar. Como afeta a relação futura da minha companhia, não dá para deixar passar.

— Mas aquele conflito foi o Reino de Sarjas que começou.

— Foi. Só que isso não interessa aos aldeões. O próprio país e o Império brigaram, e o resultado foi a aldeia ser atacada por bandoleiros. É esse o fato, e só.

— …Entendo.

Afaguei com carinho a cabeça de Misha, que baixou as orelhas e o rabo.

— Por isso nós precisamos esmagar esse bando aqui e agora. Neste momento os aldeões ainda não guardam reserva contra o Império. Soa feio dizer, mas, tirando as cidades grandes como a capital, aldeão do interior não se interessa muito por quem manda lá em cima, desde que não lhe imponham imposto pesado. E o Império, que cresceu anexando outros países, é craque nesse tipo de manejo: arrumou um pretexto e isentou a região de Sarjas de tributos por um ano, entre outras políticas de acomodação.

Quem é beneficiado está contente. Não posso deixar que atravessem essa corrente.

— É por isso que conto com você, Misha.

— Sim. Pode deixar comigo!

Mandei Misha para o armazém central, tomei posição na entrada da aldeia e fiquei à espera do bando. Para raptar mulheres ou fazer saque em escala, é preciso carroça ou carro de carga. Se vierem, é por este lado que vem o corpo principal.

— Moça, tem certeza mesmo?

Ao meu lado está o tal homem que arrasta a perna.

— Não há problema.

— Sei… Eu me aposentei por causa da lesão, mas fui aventureiro rank D. Se apertar, eu ganho pelo menos o tempo para a moça fugir.

— Ora, que confortável.

Foi quando eu devolvia um sorriso às palavras dele que avistei, mais à frente na estrada, um grupo puxando um carro de carga.

— Parece que os convidados chegaram.

— Ei, aldeões! Espero que esteja tudo pronto.

Os bandoleiros, de sorriso escarnecedor, adiantaram-se do carro e vieram até nós.

— E outra: hoje de manhã chegou uma carruagem de comerciante, não foi? Passa a carga do comerciante, e a carruagem junto.

O homem da perna ruim — que se apresentou como Aldo — cerrou os molares e encarou os bandoleiros com ódio.

Olhando Aldo de esguelha, dei um passo à frente.

— Ó! Que mulherão. O que uma gata dessas faz num fim de mundo…

O bandoleiro ia pôr a mão no meu ombro com um sorriso besta, mas a mão cortou o ar.

— Hã?

Foram as últimas palavras dele.

— O quê?!

Os companheiros do bandoleiro se espantaram. O colega que se aproximara da mulher à frente deles fora retalhado em pedaços num instante. Usei 【Quick Move】 e avancei para dentro do grupo paralisado. No primeiro golpe matei os dois mais próximos e, no seguinte, cortei junto com a espada o bandoleiro que tentava se pôr em guarda.

— Sua vaca!

Encostei o dorso da mão esquerda na lâmina que descia sobre mim, desviei de leve, pisei na espada que golpeou o vazio e decepei a cabeça do sujeito. Vendo-me matar quatro num piscar de olhos, os bandoleiros que estavam junto ao carro correram a sacar arcos e encaixar flechas — tarde demais. Aproximei-me com força suficiente para partir o chão, e eles morreram sem sequer conseguir apontar as pontas de metal. Em seguida, espinhos de gelo trespassaram mais alguns.

— Iiih!

— M-monstro!

— Que grosseria.

Monstro é a mãe. Congelei e chutei em pedaços o bandoleiro que me chamou de monstro e, em seguida, acertei um bloco de gelo na cabeça de outro, que estava caído de susto, e o desmaiei. Deixei mais alguns vivos e desacordados para capturar e liquidei todos os que não me serviam.

— Bem, é isso.

— …………Não acredito.

Aldo veio se aproximando por entre os corpos com uma expressão de quem sonha.

— Senhor Aldo. Pode me ajudar a amarrar os bandoleiros capturados? Precisamos fazê-los falar sobre a localização do covil e sobre companheiros que estejam em outra frente.

— E-entendido.

Deviam pretender amarrar as mulheres raptadas: no carro havia panos e cordas, então nos servimos deles e fomos amarrando os bandoleiros, dividindo o trabalho. Quando tínhamos amarrado uns metade, ouviu-se um apito agudo.

— Som de apito!

— Havia um destacamento separado. Senhor Aldo, cuide daqui. Se algum bandoleiro resistir, pode matar.

— Eu também… não, entendido. Cuide do pessoal da aldeia.

Aldo quase disse que iria junto, mas engoliu as palavras na hora. Assenti para ele e saí correndo na direção do apito.

Misha, que por ordem de Ellie protegia com os aldeões as mulheres, crianças e idosos não combatentes no armazém central, sentia a tensão crescer com os ruídos de combate vindos da entrada da aldeia. Por mais que o inimigo fosse ex-soldado, era impensável que Ellie perdesse.

Desde que entrou na Companhia Traitre como escrava, Misha vem recebendo treino de combate de Ellie e de Mireille — e até hoje não consegue encostar nelas. A possibilidade de Ellie perder e os bandoleiros chegarem até ali é baixíssima.

Quando a área da entrada, a leste, ficou um pouco mais silenciosa, do lado voltado à floresta ecoou pela aldeia tensa o som de um apito. É o sinal que anuncia ataque por outra direção.

Misha apertou algumas vezes o punho da adaga na cintura, como quem confere, e voltou o olhar para onde vinha o som.

— Eu vou! Cuidem daqui, por favor!

— E-ei! Menina!

— É perigoso!

Os aldeões tentaram detê-la, mas ela ignorou as vozes e disparou.

Entrou na floresta, correu escondendo-se entre as árvores e avistou cinco homens da aldeia diante de três bandoleiros.

O que os aldeões empunhavam eram lanças improvisadas de madeira talhada. Seguravam-nas trêmulos, tentando conter os bandoleiros, mas estes, vendo os aldeões acuados, sorriam com escárnio. Escondida atrás de uma árvore, Misha espiou com cuidado: a atenção dos bandoleiros estava voltada para os aldeões, e nenhum notou sua aproximação.

— Não me perceberam… então…

Misha respirou fundo, ajustou o ânimo, abaixou o corpo e disparou, elevando a capacidade física com a habilidade de reforço corporal. Antes ela só conseguia reforçar o corpo inteiro, mas, com a orientação de Ellie e de Mireille, passou a conseguir elevar a proporção do reforço em partes específicas, controlando o poder mágico com precisão. Reforçando sobretudo as pernas para ganhar velocidade, Misha avançou sobre os bandoleiros como uma flecha disparada. O alvo é o pescoço do que tem arco. Empunhando ao contrário a adaga que Ellie lhe comprara, saltou os últimos metros.

Mas nesse momento o bandoleiro percebeu a aproximação. Um bandoleiro comum teria a garganta cortada sem poder fazer nada. Só que esse, como Ellie previra, era ex-soldado treinado. Por isso ergueu o arco por reflexo e conseguiu bloquear a adaga de Misha.

— Ugh!

Torcendo o corpo no ar para não dar as costas ao bandoleiro, Misha apoiou uma das mãos, deslizou pelo chão, recompôs a postura depressa e ergueu a adaga.

— O que é isso?!

— É uma pirralha! Homem-fera?!

Os bandoleiros ergueram as armas e se moveram para cercá-la. Seguindo os movimentos com os olhos, Misha viu o rosto de um deles e arregalou os olhos. Na cabeça, a memória antiga se repetindo. O cavalo empinando com uma flecha cravada, o pai saltando de espada em punho, a mãe tentando escondê-la com o próprio corpo, o pai de joelhos numa poça de sangue ainda agarrado ao salteador, a mãe montando um cavalo sem arreios com Misha nos braços enquanto era golpeada pelas costas. Era uma cena de que ela vinha se lembrando cada vez menos. O rosto do salteador que tentava arrancar o pai moribundo para perseguir a mãe e a filha era exatamente o rosto do homem à sua frente.

Misha foi tomada pela sensação de que o sangue do corpo inteiro fervia. Os sons ao redor sumiram, o campo de visão estreitou e se tingiu de vermelho.

— Aaaaargh!

Sem nenhum jogo de medir distância, saltou usando o reforço corporal no máximo; o bandoleiro não conseguiu reagir à velocidade dela, mas o que estava ao lado — outro ex-soldado — a golpeou de lado. Misha amorteceu a queda por reflexo, chutou o chão como quem é arremessada e projetou a adaga; o bandoleiro, porém, abaixou-se com frieza e desferiu um soco. Atingida no tronco, Misha, leve como é, voou longe.

— Agh!

— Rá, que pirralha atrevida. Parece que ela está atrás de você. Aconteceu alguma coisa?

— Pirralha eu não conheço… não, espera. Uns anos atrás, quando a gente atacou um casal de comerciantes do povo-gato, a mulher e a filha fugiram… Você é aquela pirralha?!

Enquadrando no olhar o bandoleiro espantado, Misha conteve o enjoo que subia e se ergueu devagar, checando o próprio estado. Talvez graças ao reforço corporal, nenhum osso quebrado. O reencontro repentino com o assassino dos pais lhe subira à cabeça. Enquanto Misha continha desesperadamente o impulso de saltar de novo, os bandoleiros diante dela trocavam palavras vulgares.

— Magrela, mas a carinha não é ruim.

— Que é isso, você gosta de pirralha desse tamanho?

— Algum problema? A mãe dela eu não comi. Essa aqui fica pra mim, né?

— Faça o que quiser, seu tarado.

— Rá-rá-rá!

O dano recebido não é grande. Mas, com os bandoleiros se aproximando, sobem a raiva e o ódio. Para espantá-los, ela evoca as pessoas que lhe importam. O pai, que lhe ensinou os cuidados da estrada e a esgrima com adaga; a mãe, que lhe ensinou a cozinhar e a estudar.

Mesmo depois de ficar sozinha, Misha teve sorte com as pessoas ao redor.

Cedric, que pôs um preço alto nela e ofereceu quantia suficiente para quitar a dívida de uma vez. Os companheiros escravos, que lhe ensinaram tanta coisa. Mireille, que lhe ensinou os modos de serva e as técnicas de combate. Lunoa, que, apesar da diferença de condição, virou sua amiga. E Ellie, que trata como dos seus uma escrava e lhe deu um lugar novo no mundo.

Lembrando disso, o calor ardente do corpo permaneceu, mas a frieza voltou. Aos poucos o campo de visão vermelho e estreito voltou ao normal e os sons ao redor voltaram a chegar aos ouvidos.

— Não pode ter pressa… com frieza… com calma…

Com a cabeça de novo fria, o que lhe voltou foi a memória do treino com Mireille.

Foi no campo de treino dentro do terreno da casa de Ellie, quando ela treinava com Mireille. Naquele dia, depois do condicionamento básico, aprendeu a manipular poder mágico.

— Preste atenção. A maioria dos homens-fera é ruim de magia. Mas isso não quer dizer que não saibam usar poder mágico. Misha também usa reforço corporal com poder mágico, não usa?

— Uso. Só que eu mesma não sei como estou usando o reforço corporal.

— Pois é. Na verdade, o reforço corporal que eu e a Senhorita Ellie usamos e o que a Misha usa são, a rigor, coisas diferentes.

— Hã?!

— O nosso reforço corporal é magia; o reforço corporal que os homens-fera usam por instinto é habilidade.

— E qual a diferença entre magia e habilidade?

— Magia é o que se monta de forma teórica, por fórmula mágica e imagem mental. Habilidade também usa poder mágico, mas é a técnica de manipular o poder mágico diretamente, pelo sentido, sem passar por fórmula mágica.

— Então, mesmo um homem-fera ruim de fórmula mágica consegue usar habilidade?

— Exato. Quer que eu mostre uma?

Mireille entregou uma pedrinha a Misha e se afastou um pouco.

— Acerte esta pedra em mim.

— S-sim.

Depois de hesitar um instante, Misha girou bem o braço e atirou a pedra contra Mireille.

— Hã?!

O projétil voou na direção dela, mas atravessou seu corpo sem acertar e caiu atrás — e Misha soltou um som de espanto. Nisso a figura de Mireille se dissolveu e ela reapareceu como quem aflora do ar, logo ao lado.

— Isto é uma habilidade chamada 【Mirage Step】.

— Incrível! Eu também posso aprender essa habilidade?

— Deixe-me ver… Para aprender 【Mirage Step】 é preciso aptidão de afinidade luz. Vamos verificar a aptidão da Misha.

Então a Senhora Mireille tirou um pequeno cristal.

— Com isto dá para conferir. Toque e faça o poder mágico fluir. É a mesma sensação de acender a luz de um item mágico.

— Sim.

Quando Misha pegou o cristal e concentrou poder mágico, ele mudou de cor levemente para o marrom.

— A aptidão da Misha é afinidade terra.

— Então eu não posso usar 【Mirage Step】…

Mireille afagou a cabeça de uma Misha um pouco desanimada.

— Não fique assim. Na afinidade terra também há habilidades poderosas. E há habilidades sem afinidade, que qualquer um usa, e algumas são muito úteis. Para começar, vou lhe ensinar uma habilidade parecida com 【Mirage Step】.

— Rá-rá-rá, ei, pirralha. Venha para cá quietinha.

O bandoleiro estendeu a mão para agarrar o braço de Misha. Mas a mão cortou o ar.

— Ué?

O que ele tentou agarrar foi o lado do braço dela. Tentou apanhá-la de novo, e outra vez não conseguiu tocá-la. Misha, movendo-se de forma bamba, estava envolta em poder mágico e, com o movimento irregular e a oscilação instável desse poder, os sentidos do bandoleiro se desregulavam e a mira saía errada. É a habilidade 【Fake Step】, aprendida com Mireille. Misha observava com frieza os movimentos do bandoleiro, concentrada nos menores gestos.

— Bá-rá-rá-rá! Você não consegue nem pegar uma pirralha que fica cambaleando?

— Cala a boca!

Irritado com a risada do companheiro, o bandoleiro projetou a espada; Misha desviou com fluidez do ataque de mira errada, encolheu o corpo e passou por baixo das pernas dele.

— Guá!

O bandoleiro perdeu o equilíbrio. Ao passar, ela correu a adaga pela parte interna da coxa dele, cortando. Na parte interna da coxa há um vaso grande — o dano é grande e ainda tira mobilidade, então ensinaram-lhe a mirar ali sempre que possível.

— Sua…!

Vermelho de raiva, o bandoleiro ergueu a espada. Misha, contendo com força no baixo-ventre a perna que por reflexo queria recuar, encarou de frente a lâmina que descia sobre sua cabeça, prendeu a respiração e bateu com o pomo da adaga no dorso da espada dele, desviando o golpe.

— 【Power Slash】!

O que ela usou foi uma habilidade simples, que apenas reforça o corte. Brandiu com toda a força a adaga envolta em poder mágico e girou o corpo desenhando um círculo. Quando o rabo, que girou atrasado pela inércia, voltou à posição, as vísceras do bandoleiro escorreram do abdômen.

— Guáh! Ah… ga…

O sangue jorrou como uma cachoeira e o bandoleiro tombou por cima.

— C-consegui!

— Sua pirralha!

Ao ouvir aquilo, virou-se e a espada de outro bandoleiro já vinha.

— Ugh?!

— Aaaargh!

Quem salvou Misha do golpe que quase a pegou desprevenida foram os aldeões com suas lanças toscas. Eles projetaram as lanças contra o bandoleiro sem técnica alguma. Foi um ataque desajeitado e acuado, mas pegou-o de surpresa e conseguiu fazê-lo hesitar por um instante.

— Tsc! Merda!

— Uôô!

— Aaah!

Feridos ou não, os bandoleiros são ex-soldados com treinamento especializado, e a diferença de força para simples aldeões é grande demais. Ao perceberem que não tinham perdido a vantagem, recuperaram logo o ímpeto.

Ilustração

— Tsc! Bando de merda!

— Morre! Anda!

— Aah!

— Iih!

Misha ia saltar para proteger os aldeões, mas não chegaria a tempo. Quando a espada do bandoleiro ia rasgar um aldeão, um impacto como uma rajada atravessou o meio deles. E a cabeça de um bandoleiro caiu; outro teve o corpo inteiro congelado e perdeu a vida.

— Hã?!

— Uaah?!

— M-mas o que…?!

Os aldeões se afobaram, mas Misha correu até a pessoa de pé no centro dos corpos e das estátuas de gelo.

— Senhorita Ellie!

— Misha, você se saiu muito bem.

Ellie afagou a cabeça de Misha e voltou o olhar para os bandoleiros que matara.

— Muito bem, agora falta arrancar deles a localização do covil.

Deixando a vigilância do local com os aldeões, Misha seguiu com Ellie para a entrada da aldeia, onde estavam os prisioneiros.

Liquidados todos os bandoleiros do ponto em que Misha e os aldeões ganhavam tempo, voltei com ela à entrada da aldeia. No caminho, ouvi o relatório. E soube que o bandoleiro que Misha matou era um dos salteadores que atacaram os pais dela. Devia ser um dos salteadores que se juntaram aos ex-soldados. Cheguei a pensar em mandá-la de volta para junto dos aldeões abrigados, mas Misha, embora um pouco exaltada, não parecia fora de si nem ausente, então a levei comigo.

— Senhor Aldo.

— Ó, voltou!

— Voltei. Do outro lado já está tudo bem. Há aldeões feridos, mas todos vivos.

— Que bom.

Aldo relaxou os ombros, aliviado.

— Agora falta arrancar deles o covil e os companheiros.

Misha. Vou lhe ensinar como se conduz um interrogatório. Se ficar difícil para você, diga.

— Sim, Senhorita Ellie.

Ao me aproximar dos prisioneiros dizendo isso, alguns já tinham acordado e estremeceram. Escolhi dois quaisquer entre eles e os arrastei para um ponto fora da vista dos demais. A distância suficiente, sentei-os de frente um para o outro, saquei a adaga do peito, agarrei um deles pelo cabelo e cravei a lâmina em um dos olhos.

— Aaaargh!

Levei o homem que gritava, com o olho furado, para a frente do outro.

— Senhor Aldo, vire o rosto daquele bandoleiro para o meu lado.

— …E-entendido.

— …Não…!

Chutei a barriga do bandoleiro que tentava desviar os olhos.

— Se desviar mais uma vez, trocamos de lugar.

Dito isso, castiguei com insistência, muitas e muitas vezes, o bandoleiro de olho furado, diante do outro.

— Preste atenção, Misha. Quando há muitos prisioneiros a interrogar, escolha primeiro um subalterno qualquer, castigue e mate. É para deixarem claro que você não tem a menor intenção de poupar ninguém. Nessa hora, ignore se o prisioneiro despejar informação ou o que quer que ele diga.

— Sim.

Cravava a adaga e girava, abrindo a ferida; decepei uma orelha, arranquei unhas. Nesse meio-tempo o homem de olho furado gritava e falava desesperadamente sobre o covil e os companheiros, mas eu não respondi uma única vez: cortei-lhe os dedos e, quando os gritos foram rareando, enfim degolei-o. Agarrei pelo cabelo o outro, lívido, banhado pelo sangue esguichado, ergui-lhe o rosto e cravei a adaga no olho direito.

— Aaargh!

— Muito bem, conte tudo o que sabe.

— E-eu conto! Eu conto!

— Como você vê, do segundo em diante eles ficam bastante dóceis. Repetindo isso algumas vezes, sem deixar que combinem versões, obtém-se informação de confiabilidade razoável. O segredo é fazer tudo com frieza, como quem executa uma tarefa.

— S-sim.

Talvez por ser ex-aventureiro, Aldo mantinha o rosto impassível; Misha estava um pouco pálida. Mas, como não deu sinal de vomitar nem de desmaiar, segui com o interrogatório. Depois arranquei do homem já dócil tudo o que ele sabia — covil, companheiros, o resto. Em seguida repeti o mesmo com alguns bandoleiros para conferir as informações.

— Covil numa caverna dentro da floresta, dezessete companheiros. Parece não haver ninguém em cativeiro; o que fazemos?

— Deixe-me ver… deixar assim não é bom. Vamos até lá exterminar.

— E-ei, moça. Vai agora?!

— Vou. Se demorar, eles podem desconfiar de que os atacantes foram repelidos e fugir. Felizmente o covil não parece ser tão distante.

— M-mas…

— Senhor Aldo, cuide da defesa da aldeia. Misha, vamos.

— Sim, Senhorita Ellie.

Levei Misha e entrei na floresta para caçar os bandoleiros do covil.

Corri com Misha mata adentro. Pelas informações arrancadas, no fundo desta floresta há uma caverna que usam como covil. Restam dezessete bandoleiros. Não há ninguém em cativeiro. Corremos pela trilha da encosta desviando das árvores. De vez em quando olhava para trás, mas Misha acompanhava sem dificuldade. Somando a agilidade natural à habilidade de reforço corporal, ela não fica para trás nem no meu ritmo quase máximo. Quando as pedras começaram a se multiplicar na mata, chegamos a uma clareira. Pelo que apurei no interrogatório, a caverna deve ser por aqui.

— Shh!

Quando ergui a mão em silêncio e me agachei, Misha também parou e se escondeu depressa à sombra de uma árvore.

— Misha, espere aqui; fique atenta a algum apito vindo da aldeia.

— Sim.

— Artefato divino: 【Grimoire Mammon】.

Troquei a espada da cintura pela Flügel, que estava guardada no 【Grimoire Mammon】, e espiei detrás da árvore. Diante da caverna, dois bandoleiros faziam guarda, entediados. Um estava sentado, o outro encostado numa pedra, os dois em conversa fiada. Será que sabem o que significa fazer guarda?

— 【Ice Arrow】.

A flecha de gelo, de ponta afiada, atravessou a cabeça do bandoleiro encostado na pedra.

— Dois, para começar.

Aproximei-me do bandoleiro idiota que abria a boca diante da morte do companheiro e, com um golpe da Flügel, decepei-lhe a parte superior do corpo.

— …………

Observei um pouco, mas ninguém veio ver o que acontecera. Confirmado isso, entrei na caverna. A julgar pela aparência, a entrada parece caverna natural, mas alguns passos adiante fica claro que houve mão humana. Ainda assim, faz pouco tempo que este bando se instalou aqui. No máximo puseram uma porta e alguns candelabros. Avancei sem fazer ruído e, de uma curva à frente, aproximou-se uma presença. Agachada no escuro de um canto, prendi a respiração enquanto dois bandoleiros passavam por mim rumo à entrada. Como não estavam afobados, não perceberam que matei os guardas. Devem ser a troca de turno.

— Guh?!

— Hã?

Tapei a boca de um deles por trás e cortei a carótida com a adaga; no outro, que arregalou os olhos de espanto, cravei a adaga por baixo do queixo.

— Quatro.

Joguei os corpos num canto escuro, fora do alcance da luz das velas, e segui em frente até uma porta tosca na parede. Feita de tábuas com algum reforço, deixava ver o interior pelas frestas mesmo fechada. Lá dentro, cinco bandoleiros cercavam uma mesa, bebendo e jogando cartas.

— Droga! Perdi de novo!

— Rá-rá-rá, azar o seu.

— Rá, quando os que saíram voltarem com as mulheres, você fica de guarda.

— Rá-rá, faz tempo que não pego uma mulher. Vou me divertir.

— ………Ei, não está frio?

— Hm? Agora que você falou…

— Frio! O que é isso? O que está acontecendo?

— E-enfim, vamos para fora…

Quando um dos que cercavam a mesa se levantou, um som de coisa arrancada à força ecoou pelo cômodo apertado.

— Hã?

O bandoleiro olhou para a mesa. Ali estavam, congelados e grudados nela, os próprios braços.

— Aaaaaargh!

— M-mas o quê… o que é…

— Iih! Ah…

Um dos que gritavam tropeçou nas próprias pernas, caiu e se estilhaçou.

— Iih, a-ah…………

— A-ai…

— …………

Os demais também congelaram junto com o cômodo e foram parando de se mover. O silêncio, como se o próprio som tivesse congelado, foi rompido pelo estalo das estátuas de gelo se despedaçando.

— Com isso, nove.

Afastei-me da porta e segui explorando; mais adiante encontrei uma cela mal feita. Como informado, não há ninguém preso. Só restam grilhões com marcas de sangue não muito antigo e tábuas encardidas, provavelmente usadas para carregar corpos.

Enquanto examinava a cela, por uma porta diferente daquela por onde entrei apareceram alguns bandoleiros, que arregalaram os olhos ao me ver.

— M-mas o que é você?!

— Invasoraaa… guh?!

— Aaah!

— Sua…!

Arremessei uma faca no que ia gritar, esmagando-lhe a garganta, e abati de uma vez o que se espantou e o que tentava sacar a espada.

— Merda! Guh!

Agarrei a garganta do último e o joguei contra a parede. Ele tentou de todo jeito arrancar a mão que o estrangulava, mas não conseguiu soltar minha mão reforçada por poder mágico, e assim lhe esmaguei a garganta.

— …Treze.

Abrindo a porta de onde eles vieram, havia outra porta. Espiei pela fresta: dois homens. Um bebia, o outro dormia numa rede. Arrombei a porta com um chute e girei a mão diante do bandoleiro que ficou boquiaberto, ainda com o copo cheio de bebida.

— 【Ice Slash】.

A distância era de uns cinco metros. A lâmina de gelo correu e partiu ao meio o bandoleiro do copo e o que dormia.

— Quinze… faltam dois.

Cheguei ao fundo do covil e o número não fecha. Pelo caminho não havia passagem secreta. Saí da caverna e olhei em volta: Misha estava justamente cravando a adaga na garganta de um homem com jeito de bandoleiro. Aos pés dela havia um corpo com aparência de ter sido pego de surpresa por trás.

— Com isso, dezessete.

Empilhei e queimei os corpos dos quinze que abati e dos dois de Misha, e recolhi todo o produto de saque acumulado dentro do covil. Nesses casos a propriedade é reconhecida a quem extermina o bando, então depois pretendo repassar metade a Misha, como parte dela.

— Senhorita Ellie, deste lado terminei.

— Bom trabalho. Falta o arremate. Artefato divino: 【Grimoire Beelzebub】.

Meu poder mágico se condensou na mão esquerda e formou o grimório azul.

— 【Earth Eater】.

Ao disparar a magia registrada no 【Grimoire Beelzebub】, o chão se rasgou com um estrondo e a caverna que servia de covil desabou até não restar sinal. Com isso evita-se que outro bando, salteadores ou monstros a aproveitem. Desfiz o artefato divino e girei os ombros de leve.

— Ufa, acabou. Vamos voltar?

— Sim.

No dia seguinte ao aniquilamento do bando, Misha e eu fomos recebidas com festa pelos aldeões.

Gente que não é de forma alguma abastada preparou um banquete e trouxe até a bebida guardada, então aceitamos com gratidão.

— Pois bem, senhor chefe. Sobre o assunto que pedi por carta.

— Ah! É verdade. Se não me engano, criar um inseto chamado aqua crawler. Já escolhi quem vai cuidar deles.

— Que bom. A partir de amanhã, por um tempo, vou explicar como se faz o manejo; conto com os senhores.

Depois disso, ao mesmo tempo em que orientava a criação dos aqua crawlers, gastei alguns dias erguendo com magia uma muralha e torres de vigia ao redor da aldeia. É preciso garantir que a aldeia não seja atacada de novo. E vou precisar contratar pessoal de escolta na Companhia Cedric.

E, alguns meses depois de chegar à aldeia, resolvidas as diversas pendências, Misha e eu subimos na carruagem para pegar a estrada de volta.

— Senhor chefe, obrigada por tudo.

— Nós é que agradecemos. Se as senhoras não tivessem vindo, a esta altura a aldeia estaria devastada pelos bandoleiros.

— Ainda bem que chegamos a tempo do aperto. Quando eu voltar à capital imperial, mando o responsável pela gestão dos produtos e uma força de defesa; conto com os senhores.

— É bondade demais.

— Então, até um dia.

— Sim, até.

Apertei a mão do chefe, chamei Misha e a carruagem partiu.

◇◆☆◆◇

A cidade de Milista fica longe da capital do principado, seu centro, mas dizem que sua prosperidade não fica atrás da capital.

Cercada por uma muralha de dez vezes a altura de um adulto e tendo nos arredores um lago grande e belo, foi nesta cidade que pus os pés, com meu equipamento já bem gasto.

Aventureiro e também autor de relatos de viagem, viajei por todos os cantos do continente central, mas não vi cidade com tantos técnicos reunidos quanto Milista. É a cidade dos artesãos e dos alquimistas, como se esperaria.

Milista foi um dia uma aldeia pequena do interior, sem indústria alguma; mas, desde que a senhora Bruxa de Prata trouxe o aquasilk, muitos artesãos e alquimistas vieram de toda parte do continente atraídos por esse material raro, e atrás deles vieram os comerciantes atrás do que produzem — e a aldeia virou uma cidade grande.

Eu ouvira falar, mas ver oficinas e ateliês de alquimista em cada canto da cidade dá a impressão de se ter chegado a um mundo do futuro.

Na praça da cidade, aprendizes de oficina e alquimistas iniciantes montam barracas e vendem a preço de banana armaduras e itens mágicos feitos com aquasilk — mantos, gambesons. Enquanto eu andava xeretando as barracas, uma voz animada me chamou. Era uma aprendiz de tecelã, vendendo tecidos e roupas de fabricação própria. Disse que os produtos expostos são só os aprovados pela mestra dela, e de fato o acabamento é notável. O que ela me ofereceu foi um lenço de aquasilk. O toque era o mais liso que já senti — como água em forma de tecido. Perguntei e, comparado ao aquasilk que circula em outras cidades, o preço é muito mais baixo. Ainda assim era um valor que exigia coragem de mim, mas o argumento de venda — “é o presente perfeito para a namorada que espera na sua terra” — me convenceu a comprar. Lembrei-me do rosto da amiga de infância de quem eu vinha quase me esquecendo. Vou voltar à minha terra depois de tanto tempo, largar a vida de aventureiro e pedir em casamento a amiga de infância que fiz esperar tanto. Foi essa a decisão que tomei enquanto recebia o lenço de aquasilk.

De «Crônica do Continente, de Zangut Ilsalis»

Volume seis, «Um amor perdido e uma nova partida», abertura


💚 Gostou do capítulo?

Um PIX rápido ajuda demais a manter o site no ar. Arrecadado esse mês: R$ ...

Fazer um PIX

Comentários

Opções

não funciona no modo escuro
Redefinir