Capítulo 3 — Exploração da Masmorra
Partindo da aldeia de Milista, Misha e eu seguíamos pela estrada de volta à capital imperial. Diferentemente da ida, não levávamos as caixas de madeira abarrotadas de ovos de aqua crawler, então o peso era bem menor e as rodas da carruagem giravam com facilidade.
Quem segura as rédeas agora é Misha. No combate em Milista acabei impondo uma carga pesada a ela. Mas tenho a impressão de que Misha atravessou um limiar. Durante a viagem houve alguns combates contra monstros, e o manejo do corpo e das habilidades melhorou de forma marcante. Quando a conheci na casa de escravos de Cedric, sua capacidade dava para se defender e nada mais; hoje já se pode chamá-la de escolta sem exagero.
Depois de uma noite de acampamento, voltamos à Fortaleza de Brocken e, desta vez sem carga, passamos de imediato.
Enquanto eu conduzia, com Misha descansando sob o toldo, cruzamos com algumas carruagens.
— Serão carruagens de comerciantes?
Disse Misha, pondo a cabeça para fora.
— Devem ir fazer negócio na região de Sarjas. Logo depois do fim do conflito os comerciantes, tirando alguns, ficaram cautelosos e seguraram qualquer movimento em relação a Sarjas, observando; mas neste último mês o trânsito de mascates parece ter começado a aumentar. Se a economia da região de Sarjas se aquecer assim, isso leva à conquista de clientes novos — é um movimento desejável.
O Reino de Sarjas era um país de turismo, desenvolvido como destino de férias. Se conseguirmos consolidar um turismo voltado à nobreza imperial, há oportunidade de negócio ali. E, se a produção de aquasilk se estabilizar, o lucro é grande.
— Destino de férias e cosméticos parecem combinar. Que tal criar fragrâncias e embalagens exclusivas daquela terra?
— Boa ideia. Ao voltar à capital, vamos reservar orçamento para isso também.
Anotei a sugestão de Misha. Também é preciso avançar em paralelo com a escolha do novo polo de produção que discutimos em Gana. Pensando alguns anos à frente, já está até tarde.
Passamos de novo pela aldeia de Gana, recebemos um relatório rápido, pernoitamos e na manhã seguinte partimos rumo à capital imperial. Já faz tempo demais que estou longe da capital; preciso voltar logo. Como deixei tudo com Mireille, imagino que não haja com que se preocupar.
Algumas horas depois de trocar a boleia com Misha. Pouco antes do meio-dia, talvez. Enfim chegamos ao ponto de onde já se avista a capital imperial.
Foi de fato uma viagem de meses e, depois de resolver alguns assuntos na capital, ainda preciso aparecer na cidade-sede do território do conde Lebrick.
Os negócios se ampliaram, a influência e a receita subiram muito — mas na mesma medida o meu trabalho dobrou. Está na hora de aumentar o número de pessoas a quem eu possa delegar a operação, senão não dou conta. Era o que eu pensava quando Misha, na boleia, me chamou com hesitação.
— Ahn… Senhorita Ellie, posso?
— Hm? O que houve?
— Sim… é que… tenho a impressão de que a capital imperial está um pouco estranha…
— A capital?
Saí do toldo e sentei ao lado de Misha; o portão da capital imperial entrou no meu campo de visão.
— …………É estranho mesmo.
A capital imperial é, naturalmente, a maior cidade deste Império. Em condições normais o portão exibiria filas de comerciantes e aventureiros aguardando a vez de entrar e sair. Mas diante da capital havia apenas algumas carruagens e, por cima disso, o grande portão que de dia fica sempre aberto estava fechado. Observando, vi os guardas conversarem algo com as pessoas das carruagens e, exceto uma, todas mudarem de rumo e se afastarem da capital; a que ficou entrou por uma fresta estreita do portão.
— Será que aconteceu alguma coisa?
— Alguma coisa aconteceu, sem dúvida. Misha, acelere um pouco.
— Sim!
Misha tocou os cavalos e a carruagem ganhou velocidade.
— Alto!
Ao chegarmos diante da capital, um guarda nos deteve.
— Aconteceu alguma coisa?
À pergunta de Misha, o guarda assentiu com o rosto grave.
— Vocês moram na capital?
— Somos comerciantes de uma companhia com base na capital.
Mostrei a carteira da Guilda Comercial.
— Certo… No momento circula pela capital uma doença de causa desconhecida. Como há possibilidade de epidemia, a entrada e a saída estão restritas.
Comerciante com base na capital pode entrar, mas por um tempo não poderá sair.
— Epidemia?!
— Por ora é apenas uma possibilidade, mas já há bastante dano. O que vão fazer? Vão entrar?
— Vamos. Misha, você…
— Eu também vou.
Afaguei a cabeça de Misha, assinei o documento de registro que o guarda estendeu e entramos na capital.
Dentro, a capital estava num silêncio que fazia parecer mentira a agitação habitual. Ao chegarmos à minha casa perto do bairro nobre — que é também a base da Companhia Traitre —, saímos à procura de Mireille para saber logo da situação. A primeira que encontramos foi uma criada contratada havia pouco. Ela atravessava o corredor a passos rápidos, carregando um balde de água.
— Ah! Senhorita Ellie! A senhorita voltou?!
— Voltei. Onde estão Mireille e Arnaud?
— É que…
— Mireille?!
Quando entrei no quarto sem sequer bater, Mireille estava na cama, repetindo uma respiração pesada e sofrida. Na cama ao lado, Lunoa dormia do mesmo jeito.
— Mireille! Lunoa!
Corri até as camas e as chamei, mas não veio resposta alguma.
— Senhorita Ellie, mantenha a calma.
— M-mas, Misha!
— Senhorita Ellie! Aqui a senhorita atrapalha o corpo da Senhora Mireille e da Senhorita Lunoa.
— …………É… é verdade. Sim, obrigada, Misha.

Mudamos de cômodo e recebi de Arnaud o relatório do período em que estive fora.
Além de Mireille e Lunoa, muitos funcionários da companhia e seus familiares também estão de cama.
— E a resposta do Império?
— Sim, saiu determinação para que toda a capital evite sair de casa. E, nos bairros com mais doentes, como este, a saída está proibida em princípio.
E há a ordem de não ingerir nada além da comida e da água distribuídas pelo Império.
— Comida e água?
— Acredita-se que há epidemias que se transmitem tendo comida e água como veículo. Também existem teorias que apontam animais e ar viciado como causa.
— Sim. Animais e ar não se resolvem de imediato. De fato, depois que a distribuição de comida e água imperial começou, os casos diminuíram.
— Certo, bom trabalho. Pode voltar ao serviço.
— Sim, com licença.
Depois do relatório, fiquei sozinha despachando o serviço acumulado e pensando numa saída. Mas, talvez pela pressa, não me ocorria nada. Na capital já há muitos mortos, ao que consta. Assim, Mireille e Lunoa também…
— Argh!
A caneta-tinteiro que eu segurava trincou, e percebi meu próprio abalo.
— Assim não dá.
Soltei o ar devagar para acalmar o espírito e, quando ia pegar outra caneta, bateram à porta do gabinete. Autorizei a entrada e Misha pôs o rosto para dentro.
— Senhorita Ellie, chegou uma visita.
— Visita?
Numa hora dessas?
— Sim, um enviado da Guilda Comercial.
— Da Guilda Comercial?
— Sim.
Quase certamente é sobre esta doença…
— Mande entrar.
Pouco depois Misha trouxe um homem com o uniforme da Guilda Comercial.
— Com licença, presidente Leis. Trago um documento de Albert Guido, Grão-Mestre da Guilda Comercial.
— Vou ver.
Recebi o envelope lacrado do funcionário. O lacre trazia o selo da Guilda Comercial, indicando tratar-se de documento oficial. Peguei o abridor de cartas na mesa, abri e li.
— Isto é… uma ordem de convocação de emergência.
Em princípio, mesmo pertencendo a uma guilda, ninguém recebe ordem unilateral dela. A guilda é uma associação de ajuda mútua, e parte-se do princípio de que membro e guilda estão em pé de igualdade. Só que há exceções. Em emergência nacional, como uma catástrofe, cumpridas certas condições a guilda pode obter poder de comando sobre os membros. Recusar a ordem sem justa causa implica multa ou expulsão. O documento do Grão-Mestre registrava que todas as condições estavam satisfeitas.
Ignorar, evidentemente, não dá.
— Misha, fui convocada; vou sair.
— S-sim!
— Há uma carruagem preparada lá fora.
Levei Misha e subi na carruagem que o funcionário da guilda providenciara.
— Do que se trata, afinal?
— Provavelmente desta doença. Eu uso magia de água, então talvez a convocação seja por isso.
Água criada por magia é seguramente confiável. A água hoje distribuída pelo Império também é gerada pelos magos da corte e por magos convocados. Expliquei isso e Misha assentiu, convencida.
— Entendo… Ué? Passamos da Guilda Comercial.
— Passamos mesmo. Mais adiante fica… a Assembleia dos Súditos?
A Assembleia dos Súditos é o órgão em que representantes exclusivamente plebeus discutem e encaminham petições ao Estado. As propostas aprovadas ali são apreciadas na Assembleia Imperial, formada por nobres. Sua sede fica no centro do distrito das guildas. Como eu previa, a carruagem parou na sede da Assembleia dos Súditos e fomos conduzidas à sala de reuniões do fundo.
— Daqui em diante, apenas a presidente Leis, por favor.
— Entendi. Misha, espere.
— Sim.
Abri a porta e entrei.
— …?!
Dentro estava um time de peso. A começar pelo conde Guido, Grão-Mestre da Guilda Comercial, que me convocara; os mestres das várias guildas, inclusive o da Guilda dos Aventureiros; o presidente da Assembleia dos Súditos; e ainda nobres do escalão burocrático do Império. No assento mais afastado estava também Elsa, aventureira rank A. E, bem à minha frente, no lugar de maior hierarquia, sentava-se alguém que eu conhecia.
O príncipe herdeiro imperial de Yutear, Sua Alteza Orkist Yutear. Cumprimentei Sua Alteza Orkist algumas vezes em saraus, quando eu ainda estava no reino. Ele certamente me reconhece. Naturalmente, trata-se de um membro da família imperial já adulto e envolvido com política. Deve saber da minha fuga; a questão é como vai me tratar…
— Obrigado por vir. Ellie Leis, presidente da Companhia Traitre, correto? Eu sou Orkist Yutear, príncipe herdeiro do Império de Yutear.
Entendo: pretende manter a moldura de que somos duas pessoas que se apresentam pela primeira vez…
— É um prazer conhecê-lo, Alteza. Sou Ellie Leis, presidente da Companhia Traitre.
— Hm, desculpe convocá-la desta forma abrupta. Sente-se, por favor.
— Com licença.
Sentei-me na cadeira vaga ao lado de Elsa, e Sua Alteza Orkist conduziu a conversa.
— Pois bem, presidente Leis. O motivo de tê-la chamado hoje… hm, dada a situação, serei direto. Ouvi dizer que seu artefato divino guarda grande volume de suprimentos. É verdade?
— Sim, é verdade.
O 【Grimoire Mammon】. Bem, usando aquilo tão às claras no conflito, a informação corre mesmo.
Assentindo devagar à minha resposta, Sua Alteza Orkist começou a explicar.
— A senhorita sabe da emergência que hoje atinge a capital?
— Sim, uma doença com possibilidade de ser epidemia.
— Hm. Mas a verdade é outra.
— Como?
Sua Alteza Orkist advertiu que aquilo não podia sair dali.
— A causa desta doença é uma variante de king poison slime surgida no aqueduto subterrâneo.
— King poison slime… e ainda por cima uma variante.
Slime é um monstro fraco que existe em toda parte. Só que, como demonstra o Ooze Origin, a espécie ancestral que habita o mundo dos mortos, não é monstro para se subestimar. Tem altíssima capacidade de adaptação ao ambiente e evolui, em qualquer lugar, para a forma adequada àquele lugar.
Além disso, quando muitos indivíduos se juntam, fundem-se e passam a se chamar big slime ou king slime. O poison slime é o slime adaptado ao veneno, uma espécie superior capaz de produzir peçonha por conta própria. E, sendo king, deve carregar veneno de sobra para matar uma pessoa.
— O king poison slime em si já foi abatido por aventureiros de alto nível, mas ele se dividiu num número considerável de corpos menores.
Neste momento confiamos a caça a aventureiros de confiança e, ao mesmo tempo, mobilizamos todos os magos de afinidade luz e água para purificar a água. Slime que seja, se souberem que um monstro de espécie superior apareceu dentro da capital, haverá pânico. Felizmente a propagação da doença está contida, então, até terminarmos com os corpos menores, não comente com ninguém.
Sua Alteza Orkist fez uma pausa, molhou os lábios no chá e entrou no assunto.
— E o motivo de tê-la chamado é este: quero que a senhorita vá a uma masmorra.
— …Posso ouvir os detalhes?
— Evidentemente. O objetivo é obter um minério que serve de catalisador para o antídoto. Sendo um king poison slime comum, não seria raro e há estoque suficiente de antídoto; mas a investigação mostrou que, para o veneno da variante, é preciso água mágica carregada tendo o minério de emaya como catalisador.
— Minério de emaya… é um minério usado modestamente em forjas. Mas…
— Sim, como há minérios mais baratos e mais eficazes, o estoque é ínfimo.
Para obtê-lo em quantidade por estas bandas só existe uma masmorra a alguns dias da capital.
Só que os aventureiros de alto nível estão todos ocupados com os corpos menores do poison slime, e não há gente para descer aos andares profundos de uma masmorra perigosa, coletar o minério e voltar. Foi aí que o seu nome apareceu. Alguém com alta capacidade de combate e capaz de transportar grande volume de minério.
— Ou seja, a encomenda é ir à masmorra e trazer minério de emaya?
— Isso. Cumprida a tarefa, prometo recompensa. Naturalmente a masmorra é perigosa e não há garantia de vida. Deixo claro que, se recusar, não haverá punição alguma.
Fechei os olhos e organizei as informações.
— Compreendi a situação. Para aceitar, tenho duas condições.
— Ouçamos.
— A primeira: que o antídoto hoje existente na capital seja destinado prioritariamente às pessoas ligadas à minha companhia.
— Hm, sem problema. A Elsa, ali, aceitou nas mesmas condições.
Olhei para Elsa e ela disse que Marti e Salina estão de cama.
— E a segunda condição?
— Sim: que se registre por contrato mágico que a propriedade de todo o minério de emaya coletado é minha.
— Presidente Leis.
O conde Guido lançou um olhar afiado, mas Sua Alteza Orkist o conteve com a mão erguida.
— Ouçamos a razão.
— A razão é uma limitação do meu artefato divino. O 【Grimoire Mammon】, capaz de guardar muitos suprimentos, só guarda aquilo sobre o que eu tenho propriedade. Para cumprir essa condição, é preciso deixar clara a propriedade do minério coletado. Naturalmente, doarei o minério ao Império sem cobrar nada.
— Entendo, compreendido. Guido.
— Sim. Mando providenciar imediatamente.
— Muito obrigada.
Firmado o contrato no documento que o conde Guido providenciou, levei Misha e voltei à casa para me preparar.
— Uma masmorra… Eu não entendo muito do assunto, mas não é perigoso?
— Deve ser. Só que, sem obter o minério de emaya na masmorra, Mireille e Lunoa correm risco. Não há alternativa.
— É verdade, mas…
Misha estava com uma cara de quem não se convence.
— Você não concorda com o método de Sua Alteza Orkist?
— …Não. Mesmo podendo recusar, isso não é praticamente usar a vida da Senhora Mireille e da Senhorita Lunoa como escudo para mandar a Senhorita Ellie a uma masmorra perigosa?
— É. Certamente ele me fez a encomenda contando com esse cálculo.
— Isso é…!
Afaguei com carinho as orelhas de Misha, exaltada, o pelo eriçado.
— Governante é isso. Governante santo é apenas governante incompetente. Chama-se bom soberano quem usa tudo o que for preciso para proteger o país. E, se usassem o poder de requisição, eu, como súdita deste país, teria de obedecer. Ter recebido direito de recusa já é consideração.
Bem, se eu recusasse ele usaria outro meio. Poderia perfeitamente acionar o poder de requisição e ameaçar prender-me como criminosa se eu não obedecesse. Sendo assim, o certo aqui é colaborar e deixá-lo em dívida. E, de todo modo, o antídoto é necessário para salvar Mireille e as outras.
— Misha, fique aqui e cuide da Mireille e da Lunoa.
— Mas…
— Uma masmorra é perigosa de verdade. Nem eu talvez conseguisse voltar viva tendo de proteger você. Fique tranquila. Elsa, que é aventureira de primeira, vai comigo.
— Sim…
Acalmei uma Misha preocupada, terminei os preparativos depressa e segui para o portão da capital. O transporte desta vez, ao que consta, já está providenciado. Como preciso de consumíveis para dentro da masmorra, retirei o que era necessário do armazém da companhia. Isso será cobrado depois do Império como despesa.
— Por aqui, Ellie.
— Elsa!
Desci da carruagem perto do portão e encontrei Elsa ali. Conversando um pouco, chegamos ao portão. O recado já corria, porque nos deixaram sair de imediato.
Lá fora estavam reunidas algumas das pessoas daquela sala: Sua Alteza Orkist, o conde Guido e outras.
— Ouvi dizer que o transporte estava providenciado.
Elsa disse aquilo olhando em volta, mas só havia carroças de carga; nenhuma carruagem coberta capaz de viagem longa.
— Elsa, se não sabemos, vamos perguntar.
— Boa.
Chamamos o conde Guido e Sergio, mestre da Guilda dos Aventureiros, que estavam por perto.
— Lorde Guido, senhor Sergio, qual é o transporte?
— E eu soube que há outro aventureiro contratado além de mim.
— Ah, é verdade. Além de vocês, providenciamos mais um aventureiro.
— Um só?
— Isso. Um só, mas fiquem tranquilas. É de primeira linha, dizem que um dia chega ao rank S.
Sergio abriu um sorriso de canto, como quem tira do bolso um presente guardado. Rank S são os que superam até os aventureiros rank A, tidos como de primeira linha — gente que alcançou o domínio dos heróis. Hoje existem apenas sete aventureiros rank S.
Cada um deles tem força para decidir sozinho o destino de um país. Alguém com um lampejo dessa condição não se pode chamar de força insuficiente.
— E onde está essa pessoa?
— Ah, parece que chegou.
Sergio disse aquilo, mas em volta não havia vulto algum. Elsa e eu torcíamos o pescoço quando, de repente, escureceu ao redor. Não: uma sombra enorme se projetou sobre nossas cabeças.
— O quê?!
— O que é aquilo?!
E a rajada que desabou sobre nós foi provocada pelo bater de asas de quem projetava a sombra.
— Um thunderbird?!
Uma ave monstruosa de corpo várias vezes maior que um humano, que convoca nuvens de trovoada e de que, sozinha, nem uma wyvern se aproxima — um thunderbird pousou ao lado do portão da capital. Na pata trazia a marca que os domadores põem nos familiares e, agarrada nela, uma caixa de madeira grande. O thunderbird pousou a caixa no chão e desceu perto de nós.
E das costas dele saltou um vulto pequeno.
— Perdoem a espera. Recolhi o minério de emaya estocado nas cidades da região. Deve servir de algum reforço.
A altura dela não passava do meu peito; cabelos longos até a cintura e olhos cheios de vitalidade, negros como o céu noturno.
A menina, com um machado de guerra enorme e desproporcional às costas, era uma das conselheiras do Conselho da Guilda Comercial Imperial que eu conhecera meses antes. Sergio empurrou-lhe as costas e a trouxe à nossa frente.
— Deixem-me apresentar. É ela quem vai à masmorra com vocês: a aventureira rank A «Negrume», Yuka Kusunoki.
Apresentada por Sergio, a menina abriu um sorriso amistoso e estendeu a mão a mim e a Elsa.
— Yuka Kusunoki. É um nome estranho para o pessoal deste país, então podem me chamar de Yuu. Conto com vocês.
«Negrume», Yuka Kusunoki.
Boticária e aventureira vinda do país insular do oriente, que apareceu no Império alguns anos atrás.
Em poucos anos como aventureira acumulou méritos num piscar de olhos e chegou ao rank A. Como boticária também é excelente, e consta que às vezes recebe encomendas diretas de Sua Majestade o imperador. Já achei isso quando a vi pela primeira vez no Conselho da Guilda Comercial Imperial, meses atrás, e vendo-a de novo à minha frente confirmo: ela não parece ter tanta capacidade assim. Não: pelo porte, dá para ver que tem uma força incomparável à dos heróis autoproclamados de qualquer taberna; mas, na aparência, não passa de uma menina de uns doze anos. Os povos do país insular do oriente e do continente meridional são mais miúdos e de traços menos marcados que os dos outros continentes. Mesmo levando isso em conta, Yuu era miúda.
Elsa e eu apertamos a mão de Yuu e começamos logo a acertar os próximos passos.
— Os suprimentos, comida e afins, quem providencia é a Ellie, não é? Então acho melhor irmos hoje até a cidade perto da masmorra e descer amanhã de manhã.
— Concordo. Mas me disseram que até a masmorra são alguns dias de viagem.
— Ah, isso não é problema. O Orion nos leva; chegamos antes do sol se pôr.
E Yuu afagou a asa da ave monstruosa ao lado.
— Esse thunderbird é seu familiar?
— É, eu o choquei do ovo e criei. O nome dele é Orion.
Depois de acertar mais alguns pontos, entregamos a Sua Alteza Orkist a caixa que Yuu trouxera e partimos para a cidade onde fica a masmorra.
Subimos nas costas do Orion atrás de Yuu. A vista é muito mais alta que a de um cavalo, e a plumagem das costas é fofa — o conforto é surpreendentemente bom. Parece um tapete caro de pelo longo. Quando Elsa e eu conseguimos nos acomodar, Yuu, com as rédeas na mão, virou-se.
— Ellie, Elsa, prendam isto em vocês.
O que Yuu estendeu parecia um clipe. Dele saía um cordão ligado às rédeas que Yuu segurava.
— Estas rédeas são um item mágico com magia espacial. Quem segura as rédeas ou prende esse pino consegue fixar o espaço na posição em que está. Não sei explicar direito a lógica, mas assim não se é arremessado no ar; prendam por segurança.
— Entendido.
Prendemos com firmeza na barra da roupa o clipe que recebemos de Yuu.
— Então lá vamos nós.
Yuu deu o sinal com as rédeas e Orion abriu as asas enormes e começou a bater. Uma rajada varreu tudo em volta, mas ao redor de nós, nas costas dele, tudo permanecia calmo. Orion deve estar interferindo com magia de afinidade vento. Já li um artigo dizendo que o thunderbird convocar nuvens de trovoada e se envolver em raios é uma espécie de magia de afinidade vento. Logo veio uma sensação leve de flutuação e Orion foi ganhando altitude em espiral diante da capital. Alcançada altura suficiente, deu uma grande batida de asas e começou a voar rumo à cidade da masmorra.
No começo Elsa e eu ficamos de rosto contorcido com uma altura que ninguém experimenta vivendo normalmente; mas, à medida que nos acostumamos, sobrou folga para olhar a paisagem. Vista de uma altura próxima às nuvens, a terra se estendia sem nada que barrasse os olhos, até bem longe. Lá adiante via-se a cidade-sede do território do conde Lebrick. E, mais além, mal se distinguia o castelo real do Reino de Haldoria.
Da floresta, bandos de pássaros assustados com as asas de Orion alçavam voo e fugiam para o lado oposto. A luz do sol já passado do meio do céu refletia na água do rio formando uma faixa luminosa, e dentro dela um bando de kelpies nadava com toda a calma.
— Isto… é impressionante…
— …Concordo.
Elsa e eu esquecemos por um tempo a situação apertada da capital e ficamos de olhos presos naquela paisagem bela, imensa, mística. Nas costas de uma ave gigante, cortando o céu — um tempo digno de conto de fadas ou de trecho de epopeia — e, quando a luz do céu começou a se apagar, uma cidade pequena apareceu lá embaixo.
Orion foi baixando rumo àquela cidade. Girando devagar, pisamos o chão pela primeira vez em horas… e o Orion que nos trazia estava cercado pelos guardas da cidade, de armas em riste.
— Yuu… isto é…
— Ah… b-bem, em lugar que se visita pela primeira vez isso é comum. Esta é a minha quarta vez.
— …………Sei.
Aparentemente há outras três cidades que passaram pelo transtorno. Soltei um suspiro resignado, e Elsa, com um sorriso amarelo, disse “vou explicar” e foi, com cara de quem marcha para a morte, até a guarda que encarava o thunderbird. Graças à intermediação de Elsa, conseguimos entrar em Dordo, a cidade mais próxima da masmorra. E então Orion levantou voo para algum lugar. Perguntei a Yuu: por ser grande demais, não dá para deixá-lo numa fazenda, como os outros familiares.
— Na capital imperial há uma fazenda com contrato especial que o abriga, mas fora de lá não dá. Ele se esconde no fundo da mata do jeito mais discreto possível e, quando eu preciso, chamo com este apito.
E Yuu mostrou um apito pequeno, que cabe na palma da mão.
Aparentemente é um item mágico.
— Como ele usa a marca de familiar não deve haver problema, mas convém avisar a Guilda dos Aventureiros.
— Concordo. Se descobrirem um thunderbird perto de uma cidade destas, vira alvoroço. E precisamos comprar as informações da masmorra.
— Informações da masmorra?
Diante da minha dúvida, Elsa explicou.
— Também não tenho muita experiência com masmorras, mas, se não me engano, a Guilda dos Aventureiros comercializa informações sobre elas. Informação sobre veios de minério raro ou sobre onde crescem ervas raras vende caro. Bem, em geral ninguém vende essas informações à guilda, para não perder o monopólio; então o que se vende é sobretudo mapa dos andares superiores, monstros que aparecem, zonas seguras.
— Isso. Mas o minério de emaya tem pouca demanda, então talvez haja informação do veio.
— Ah, é assim que funciona.
Aqui o certo é seguir o plano das duas, que são do ramo. Entramos no prédio da Guilda dos Aventureiros, visível a partir da avenida que sai reta do portão da cidade. Construção de madeira, dois andares. Dentro, a recepção fica em frente à entrada; na parede da direita, um quadro de encomendas coberto de papéis; à esquerda, uma taberna, onde aventureiros que terminaram o serviço e outros de folga bebiam num barulho geral.
Enquanto eu olhava o interior da guilda com curiosidade, seguindo as duas rumo à recepção, dois homens de rosto vermelho de bebida barraram nosso caminho. Um homem-fera do tipo urso e um humano.
— Hic. Que é isso? Aqui é Guilda dos Aventureiros. Não é lugar de mocinha vir.
— Rê-rê-rê, ei, façam companhia pra gente. A gente diverte vocês.
— Então existe aventureiro assim de verdade.
Eu estava impressionada. No romance de aventura que Lunoa lia havia uma cena parecida. Segundo ela, o padrão é o protagonista moer de pancada o aventureiro folgado que vem provocar.
Yuu, à nossa frente, girou a mão como quem enxota bêbados e tentou dispensá-los com displicência.
— Sim, sim, a gente está com pressa. Por mais atraente que eu seja, cantada não…
— Hã? Que é isso, nanica? Criança vai dormir.
— Anda, sai. Volta daqui a dez anos.
Os dois bêbados ignoraram Yuu e vieram na direção de mim e de Elsa. Yuu ficou dura, imóvel.
— Ei, Elsa. Neste caso, qual é a resposta correta do ponto de vista de um aventureiro?
Aliás, no mundo da nobreza, despacha-se sem alarde e depois se usa aquilo como fraqueza para cutucar sem parar e drenar tudo o que for possível.
— Do ponto de vista de um aventureiro, pode moer de pancada. Nesta situação, tentar resolver na diplomacia é convite para ser subestimada.
— Entendo. Igual ao romance.
Então vamos experimentar a resposta à moda dos aventureiros?
— Ei, mocinha, se é encomenda, a gente aceita. Se vier pra nossa hospedaria, a gente até faz preço.
— Contratando na regra a gente é caro, hein.
Dei uma olhada rápida na qualidade, nos amassados e no estado de conservação das armaduras e armas dos bêbados e girei a mão como quem espanta uma mosca.
— Sinto muito, mas vocês não têm capacidade. Se querem ser contratados, treinem mais e voltem.
— O quê?! Que é que você disse, sua vaca!
O homem-fera urso ficou ainda mais vermelho e ergueu o punho. Os aventureiros que observavam e um funcionário — ex-aventureiro — chamado pela recepcionista que notou a confusão correram para separar; mas, antes disso, meu punho já entrava na couraça peitoral do urso. Para permitir movimento, a peça não é grossa, mas ainda assim é de ferro.
Ela se despedaçou com meu soco, e um grandalhão de mais de dois metros voou alguns metros pelo ar, derrubando mesas até parar. Naturalmente não é força de braço natural, e sim resultado de reforço corporal instantâneo por magia — mas reforço instantâneo, sem encantamento e só numa parte do corpo, é técnica avançada.
Todos ao redor, que esperavam me ver socada, ficaram em silêncio pasmo.
Entendo: é de fato uma sensação bastante revigorante, como Lunoa dizia. Quando eu conseguir o minério de emaya e voltar à capital, conto para ela.
— S-sua…!
O companheiro humano levou a mão à espada na cintura. Só que a espada continuou embainhada. Se a tivesse desembainhado, matá-lo não seria crime. Bêbado como estava, aparentemente não cruzou a linha.
O homem levou a espada bem para trás — e ela parou, imóvel.
— Hã?
Ao se virar, era Yuu, com um sorriso de orelha a orelha, quem segurava a espada embainhada. Com um estalo agudo de metal partido, Yuu quebrou com a mão, como quem parte um graveto, a espada curta de aço junto com a bainha de couro reforçado; agarrou o homem pela gola e o estampou no chão com toda a força. O assoalho de madeira se rompeu e a parte superior do corpo dele sumiu por baixo.
— …………A minha altura é a média da minha terra.
Yuu disse aquilo fervendo de raiva; mas, a julgar pelos naturais do país insular do oriente que já conheci, ela deve ser bem miúda até lá. Naturalmente não pretendo dizer isso em voz alta.
— S-sejam bem-vindas; em que posso ajudar hoje?
Perguntou, com o rosto contorcido, a recepcionista do povo demoníaco, com pequenos chifres na testa.
— Queremos descer à masmorra a serviço. Providencie as informações da masmorra.
Elsa estendeu a carteira de guilda com toda a calma, como se o tumulto de instantes atrás não tivesse existido.
— Por favooor.
Já de bom humor, Yuu também apresentou a sua.
— …?!
Ao ver as duas carteiras, a recepcionista arregalou os olhos e prendeu a respiração.
— O que houve?
— N-nada! Perdoem!
Recompondo-se às pressas, a recepcionista lançava olhares de relance para cá.
Hm, para mim?
— Eu não sou aventureira. Sou apenas uma comerciante.
— A-ah, sim? Desculpe.
— Ah, e trouxemos também uma carta do contratante.
Yuu tirou do peito uma carta e a entregou à recepcionista, que sorria com o rosto travado.
— …?!
A recepcionista congelou com a carta na mão. Natural. Eu vi de relance: o lacre daquela carta é o brasão da casa imperial. Não é coisa que se tire do bolso e se entregue assim.

— P-peço desculpas, mas e-eu não tenho como atender; aguardem na sala de visitas. Vou acionar imediatamente um superior.
A sala de visitas para onde a recepcionista nos levou estava mobiliada com peças finas, que não combinavam com a imagem de uma Guilda dos Aventureiros.
— Não sabia que havia uma sala destas.
— Na Guilda dos Aventureiros da capital imperial também há.
— É mesmo?
— Deve ser a sala para atender contratantes nobres.
— Ah, faz sentido.
Pouco depois, bateram à porta e um homem de idade entrou.
Está claro que o auge dele já passou, mas de relance se percebe que aquele corpo é plenamente treinado.
— Perdoem a espera. Bren, mestre da Guilda dos Aventureiros da cidade de Dordo. Li a carta de Sua Alteza Orkist. Este é o material sobre a masmorra.
Nada de cumprimentos rebuscados como os de nobre: direto ao ponto. Isso também deve ser à moda dos aventureiros. Elsa abriu na mesa o material que recebeu de Bren e perguntou:
— E há informação sobre o veio de minério de emaya?
— Há. Aquele minério não tem demanda relevante. E, de todo modo, entre os minérios que se tiram de masmorra, fora os metais raros como mithril e oricalco, quase nada tem procura.
— Não tem procura?
— Comparado a ervas e material de monstro, minério é pesado. Fora alguns metais de valor unitário alto, quase ninguém coleta.
— Ah, é assim.
De fato há um limite para o volume que se consegue levar de volta. Deve haver poucos aventureiros dispostos a coletar minério pesado.
— Parece que não aparecem monstros muito fora do comum.
— Não. No máximo, uma quantidade um pouco alta de mortos-vivos.
— Pois é. Mas ultimamente os monstros do tipo morto-vivo parecem estar aumentando.
— Ora?
Depois disso, com os dois aventureiros à frente, seguimos arrancando do mestre da guilda as informações sobre a masmorra.
◆
Hoje também deveria ser um dia igual a todos.
Atravessei sem sobressaltos a correria da manhã, dei conta dos trâmites dos aventureiros que terminaram o serviço da tarde e, depois de despedir a colega mais velha que saía cedo, fiquei sozinha na recepção. Dito isso, a esta hora não costuma ser tão movimentado. Para começar, esta cidade de Dordo fica logo ao lado de uma masmorra, então quase toda encomenda é de coleta ou de escolta. Hoje também os aventureiros de ida e volta no mesmo dia já voltaram, acertaram as contas e fazem barulho na taberna anexa, a título de comemoração.
Um dia igual a todos.
A porta rangeu e novas pessoas entraram na Guilda dos Aventureiros.
Uma menina de uns doze anos, de raros cabelos e olhos negros; uma jovem ruiva com toda a cara de aventureira; e uma mulher de cabelos prateados cuja boa criação transparecia em cada gesto.
Um trio vistoso demais para um fim de mundo destes.
Pensei que fossem contratantes, mas a menina de cabelo preto e a mulher ruiva vieram para a recepção com naturalidade. A outra, de cabelo prateado, olhava a guilda com curiosidade. A de cabelo prateado é a contratante, a ruiva é a aventureira de escolta e a menina de cabelo preto é aprendiz de aventureira, imaginei…
Foi quando eu pensava isso que, do lado da taberna, dois aventureiros bêbados foram provocar o trio. Péssimo. Aqueles dois são rank B, a nata desta cidade. São bons no serviço, mas têm péssimo comportamento com bebida e com mulher, então as funcionárias e as aventureiras os detestam. Arrumar confusão com aventureiros de fora e com uma mulher que tem toda a cara de moça de família é ruim.
Corri para os fundos, chamei o funcionário ex-aventureiro e voltei. Quando ele ia intervir, o aventureiro homem-fera urso que provocava as mulheres de repente ergueu o punho.
— …!
Quase gritei; mas, antes disso, o corpanzil do urso saiu voando, arremessado pelo punho franzino da mulher de cabelo prateado.
— Hã?
Enquanto eu arregalava os olhos, foi a vez de a menina de cabelo preto estampar o outro aventureiro no chão. O assoalho se rompeu e a parte superior do homem sumiu por baixo.
— …………Não acredito.
O prédio desta guilda é construído com madeira de trent extraída no quarto andar da masmorra, reforçada por magia. Deve ser bem mais resistente que pedra comum. E, mesmo que não fosse, não é coisa que se resolva com a força de braço de uma menina.
O trio ignorou o entorno pasmo e veio à recepção… veio até mim.
Natural. Neste momento só eu estou na recepção.
— S-sejam bem-vindas; em que posso ajudar hoje?
— Queremos descer à masmorra a serviço. Providencie as informações da masmorra.
Disse a mulher ruiva, estendendo a carteira de guilda. Comportamento absolutamente normal para uma aventureira.
— Por favooor.
Em seguida a menina de cabelo preto pôs a carteira dela no balcão.
— …?!
Ao ver as duas carteiras, quase perdi o fôlego. O rank registrado nelas era A. Não só a ruiva: a menina de cabelo preto também era rank A. E não era só isso. No campo dos nomes estavam gravados nomes famosíssimos.
«Yuka Kusunoki»
«Elsa Archfield»
As duas são aventureiras com alcunha.
— O que houve?
— N-nada! Perdoem!
Por mais que a masmorra seja perto, esta cidade de Dordo é o interior. E a masmorra tem só trinta andares, é pequena. Não é como as cidades-labirinto, com várias masmorras ou com um grande labirinto de mais de duzentos andares.
Ou seja: aventureiro de rank alto como A quase nunca aparece nesta cidade.
Pedir que eu não fique tensa é pedir demais. Voltei o olhar para a outra mulher, a de cabelo prateado.
Será que ela também é aventureira de rank alto? Isso explicaria ter despachado o urso com tanta facilidade. Talvez percebendo meu olhar, a mulher de cabelo prateado esclareceu quem era.
— Eu não sou aventureira. Sou apenas uma comerciante.
— A-ah, sim? Desculpe.
Comerciante? Só pode ser mentira.
— Ah, e trouxemos também uma carta do contratante.
Diante do meu atrapalho, a menina de cabelo preto — a Negrume, Yuka — me estendeu uma carta. Recebi por reflexo e me espantei de novo. É que o brasão gravado no lacre entrou no meu campo de visão. Se eu não estiver enganada, é o brasão da casa imperial. Por qualquer ângulo, é coisa grande.
— P-peço desculpas, mas e-eu não tenho como atender; aguardem na sala de visitas. Vou acionar imediatamente um superior.
Levei as três à melhor sala de visitas, a de atender nobres, e corri para o gabinete do mestre da guilda.
— Mestre! Mestre da guilda!
Bati com força na porta e o mestre, senhor Bren, abriu com cara de incômodo. Está quase entrando na terceira idade, mas o corpo é coberto de músculo e ele tem uma energia que não deixa sentir a idade.
— Que barulheira, Tina!
— É-é grave! I-isto aqui…
Quando estendi a carta, o senhor Bren franziu o cenho.
— Calma. E isto aqui… quem trouxe?
— As aventureiras rank A «Negrume» Yuka e «a Fênix» Elsa. Ah, e vinha junto uma comerciante absurdamente forte.
— Que história é essa?
O senhor Bren torceu o pescoço, abriu a carta e leu.
E o rosto dele foi endurecendo a olhos vistos.
— Onde estão as três?
— Na sala de visitas.
— Certo. Eu vou; você volta para a recepção. E deixe bem claro aos idiotas que não encostem nelas.
— S-sim!
Aparentemente havia algo muito grave escrito ali. Em princípio a guilda não interfere em atritos entre aventureiros. Evidentemente, se envolver a lei do Estado é outra coisa; mas briga ou implicância não geram intervenção. Se eu tentei conter o tumulto de agora há pouco, foi porque não tinha certeza de que elas fossem aventureiras.
— Que abacaxi… esse aqui…
Voltei à recepção torcendo para não ser arrastada para o meio. Aqui é criar coragem e atravessar: se der problema em algo que envolva a família imperial, pode virar responsabilidade da guilda.
— Atenção, todos!
Bati com um tapa no balcão da recepção e ergui a voz para alcançar todo o salão e a taberna. As duas palmas ardiam. Confirmando que todos os olhares tinham convergido para mim, anunciei com a voz mais ameaçadora que consegui (ou que achei que consegui):
— Vocês viram o tumulto de agora há pouco! Elas são aventureiras rank A, que vieram a esta cidade a serviço de uma encomenda especial! De agora em diante não admito que ninguém atrapalhe o que elas fizerem! Se houver problema, a Guilda dos Aventureiros não protege ninguém! Está claro?
Diante do anúncio, os aventureiros começaram a burburinhar.
— Rank A? Mentira.
— Mas eles derrubaram um rank B.
— Aqueles ali estavam era bêbados.
— Não, espera… isso mesmo! Aquela ruiva! Eu achei que já tinha visto essa cara em algum lugar — é a Elsa, a Fênix!
— O quê?! É sério?!
— Então a que estava junto…
— A de cabelo prateado eu não conheço, mas aventureira rank A de cabelo e olhos pretos só pode ser a «Negrume», não?
— A de cabelo prateado disse agora há pouco que era comerciante.
Bati de novo na mesa e ordenei aos aventureiros com a voz mais assustadora de que fui capaz (ou que achei ser).
— De-qual-quer-jei-to! Ninguém encosta nelas! Por alguns dias, todo mundo quieto! E de bom comportamento! Ficou claro?
— E-entendido…
Tiradas as informações do mestre Bren, ficamos de dormir na hospedaria e descansar o corpo naquele dia. Pensando na situação da capital eu queria ir à masmorra imediatamente, mas o veio de minério de emaya fica no fundo do décimo sexto andar. Mesmo indo pela rota mais curta, sem explorar nada pelo caminho, é caminho de alguns dias. Não havia como discordar de Yuu e Elsa quando disseram que é melhor ir em plenas condições do que forçar cansadas.
— Vão à «Trigo Dourado», na avenida. Dizendo meu nome, eles liberam o quarto que a guilda mantém sempre reservado.
— Obrigada.
— Muito obrigada.
— Você me ajudou.
Agradecemos cada uma ao mestre da guilda e deixamos a Guilda dos Aventureiros. A «Trigo Dourado» ficava logo ali. Já havia escurecido e tochas estavam acesas por vários pontos da cidade, mas a «Trigo Dourado» fervia com as vozes de quem vinha beber, jantar ou dormir.
— Parece uma hospedaria bem boa.
— Parece. E o cheiro é ótimo.
— É. Temos de agradecer ao mestre da guilda.
Entramos recebidas pelo som do sino da porta.
— Sejam bem-vindas.
Ao nos ver, uma mulher de meia-idade e boa compleição, na recepção, ergueu a voz com simpatia.
— Fomos indicadas por Bren, mestre da Guilda dos Aventureiros…
— Ah, já sei. Um mensageiro passou aqui agora há pouco. E o jantar?
— Aceitamos.
— Certo. Meu marido está no salão dos fundos; peçam o que quiserem.
Instadas pela dona, seguimos para o salão de onde vinham as vozes animadas. Lá, jovens com cara de aventureiro e homens saindo do trabalho aproveitavam comida e bebida cada um a seu modo. Quando íamos nos sentar no balcão, de um canto do salão veio um coro grave de aclamação masculina.
— O que é essa confusão?
— Disputa de bebida, imagino. É comum.
— Mas está animado demais.
Voltamos o olhar para o canto barulhento.
— É demais! Já derrubou quatro!
— Ei, alguém desafia.
— Nem pensar, não tem como ganhar.
Parece que há por ali um bebedor de respeito.
— A-rá-rá-rá! Que bando de banana! Eu ainda vou longe, viu!
Essa voz eu já ouvi em algum lugar. No instante em que pensei isso, meus olhos encontraram, entre as pessoas, uma jovem de cabelos cor de fio de ouro cortados na altura dos ombros.
— Ué? Não é a Ellie! Há quanto tempo! Está a trabalho?
A jovem de hábito religioso abriu um sorrisão, acenou para nós e veio saltitando na nossa direção com uma garrafa na mão.
— ………………Há quanto tempo, Tida.
Recebi com a mão erguida, meio pasma, uma Tida de rosto avermelhado de bebida. Apresentei-a às duas e expliquei rapidamente a situação da capital e o motivo de estarmos naquela cidade.
— I-isso é grave!
— É, por isso amanhã, logo cedo, descemos à masmorra.
— Sei… Não há nada que eu possa fazer, mas torço por vocês.
Eu ia dizer obrigada quando Yuu me cortou e entrou na conversa.
— A senhorita Tida é clériga itinerante, não é? Então usa magia de cura?
— Hã? Uso, sim, magia de cura de afinidade luz.
As magias ditas de cura existem em cada afinidade e têm características próprias: a de água é excelente em desintoxicação, a de terra em cura contínua, a de vento em cura de área. Entre elas, a de afinidade luz é especialmente poderosa.
— E magia de exorcismo?
— Também uso. Eu sou uma devota exemplar.
— Nesse caso, senhorita Tida, a senhorita viria conosco à masmorra?
— Hã?!
— Ei, Yuu.
Yuu deteve a fala de Elsa com a mão erguida.
— Pelo que vejo, a senhorita Tida é bem forte. Pelas informações da guilda, ultimamente os mortos-vivos vêm aumentando na masmorra.
— É verdade; contra morto-vivo a magia de exorcismo funciona.
Também apoiei a proposta de Yuu. Mortos-vivos com corpo, como zumbis e esqueletos, não são problema; mas os sem corpo, como wraiths e fantasmas, são chatos. Ter alguém que use magia de afinidade luz ajuda muito.
Eu também consigo usar magia de luz com o 【Grimoire Beelzebub】, mas, pensando em usar o 【Grimoire Mammon】 para transportar o minério de emaya, nunca é demais poupar poder mágico. Por isso também convidei Tida para a exploração.
— Hã?! Sério mesmo?! É uma masmorra! Isso é perigo… eu ia só atrapalhar vocês, viu.
Tida agitava as duas mãos, sem conseguir esconder direito o que de fato pensava; mas, considerando a capacidade dela, atrapalhar é o que não vai acontecer.
— Não seja modesta. Pelo que vejo, você treina bastante, não?
Diante do reforço de Elsa, Tida desviou o olhar. Hm, para trazer Tida para o nosso lado só há um caminho…
— Naturalmente, se vier conosco, há pagamento.
Tirei do peito, fazendo tilintar, um saquinho com moedas de ouro e o pus sobre a mesa. Afrouxei a boca do saquinho e deixei que ela espiasse.
— Ai… m-moedas de ouro… n-não! Sem vida não há moeda de ouro, viu! A-ah, não, eu tenho a missão sublime de difundir a glória divina…
Tida segurava com a mão esquerda a direita, que já se esticava para as moedas, e desviava o olhar com expressão de mártir.
Não vai dar…
Nisso Yuu olhou para a garrafa que Tida mantinha abraçada desde antes.
— A propósito, senhorita Tida, a senhorita gosta de bebida?
— Hã? Gosto, mais ou menos… ah, não, é que… bebida é coisa que os deuses deram aos homens, viu. É isso.
— Entendo.
Convencida de alguma coisa, Yuu tirou uma garrafa da pequena bolsa que trazia a tiracolo.
A garrafa é visivelmente maior que a bolsa.
— Uau! É uma «bolsa mágica»! Nunca tinha visto!
Bolsa mágica é um item mágico que guarda mais do que a aparência permite. É rara demais, e os artesãos capazes de fabricá-la estão quase todos a serviço de um Estado ou de um grande nobre. Como esses artesãos gastam materiais raros e caros e longos anos para fazer uma, comprá-la exige um valor absurdo. Uma com capacidade de uma carruagem já seria valor que faz até a Ellie de hoje hesitar.
— Esta aqui? Encontrei numa ruína, tempos atrás. A capacidade é boa e me ajuda muito.
— Que coisa, hein. Vendendo isso dá para viver sem trabalhar o resto da vida, viu.
— Rá-rá, não solto uma coisa tão prática.
Rindo, Yuu pediu ao dono da hospedaria copinhos de dose para todas. A garrafa que ela tirou estava cheia de um líquido transparente, com folhas, raízes e frutos secos dentro. Quando Yuu tirou a rolha, veio um cheiro peculiar de remédio.
— Faça o favor.
Serviu meio copo, uma dose pequena, e estendeu a nós, incluindo Tida.
— O que é isso?
Tida cheirou o copo que Yuu lhe passou e franziu o rosto. Cheirei também: um odor herbáceo, acompanhado do aroma do álcool.
— É bebida? Mas cheira muito a remédio…
— Dá para beber isso?
— Dá, sim. Provem.
Instadas por Yuu, encostamos os lábios com receio.
— …?!
— I-isto é…
— Impressionante. Amargor e corpo complexos se entrelaçam, e ainda assim é fácil de beber.
— Verdade. Como dizer… isso, tem profundidade.
Ouvindo nossos sons de espanto, Yuu estufou, satisfeita, aquele peito modesto.
— É um licor medicinal que eu faço. Ficou bom, não?
— Está uma delícia, viu. Absurdamente. E essa bebida transparente da base também é uma que eu nunca tomei.
— É bebida da minha terra. Um destilado claro feito de um cereal chamado arroz.
Explicando com orgulho, Yuu tirou mais uma garrafa igual e a empurrou na direção de Tida, junto com a que acabara de arrolhar e com as moedas de ouro que eu tinha posto.
— Se colaborar conosco, eu dou.
— Ai…
O olhar de Tida vagava entre o licor e o ouro.
— ………………M-mais uma garrafa…
Yuu tirou a terceira.
— N-não dá para abandonar gente inocente sofrendo de doença, né? Encontrar vocês aqui hoje só pode ser desígnio divino. É isso mesmo, com certeza!
Tida guardou o saquinho de moedas no peito, radiante, e abraçou as garrafas.
— …………Eu não desgosto desse seu lado, não.
E, quando voltar à capital, quero comprar licor medicinal da Yuu também. De manhã cedo, depois de um café simples de frutas e leite na hospedaria, saímos rumo à masmorra.
— Ei, Tida. Vai mesmo com esse hábito?
Tida está com o hábito religioso de sempre. Perguntei se não seria melhor comprar uma armadura de couro na loja da cidade, mas ela recusou dizendo que assim está bom.
— Vou! Este hábito é especial, viu. Tem resistência a magia, claro, e ainda resistência a lâmina, a calor e a frio. Uma maravilha.
— E por que um hábito tem esse tipo de encantamento?
— Um artesão de encantamento, como “garantia” de uma dívida de cartas, de graç… ah, não! Digo, um artesão preocupado com o corpo desta fiel serva dos deuses encantou por boa vontade, viu. A-rá-rá…
Bem, sendo assim a defesa é maior que a de uma armadura ruim. Conversando nisso, saímos da cidade e, pouco adiante, avistamos uma rocha cercada por um muro robusto e protegida por um grande portão de metal. A fenda naquela rocha é a entrada da masmorra. Aproximando-se, há em frente à muralha um portão de aço com guardas armados. Eles não estão de olho em quem entra na masmorra: a função deles é vigiar para que os monstros não transbordem de lá.
Pouco mais de um ano atrás, monstros transbordaram de uma masmorra num Estado vassalo do Reino de Haldoria e causaram estrago considerável. A masmorra traz recursos e materiais de todo tipo, mas em contrapartida traz também o risco de catástrofe de monstros.
Os guardas já tinham sido avisados pelo mestre da guilda e passamos sem atrito. Atravessando o portão de aço, logo à frente há uma grande fenda na rocha, e uma rampa que desce.
— Muito bem, vamos entrar. Todas, confiram o equipamento mais uma vez.
Por instrução de Elsa, verificamos armas e armaduras. Nesta empreitada Elsa é a líder. Nem eu nem Tida somos aventureiras, e não temos experiência de masmorra. Naturalmente a liderança caberia a uma das duas aventureiras.
Elsa disse que Yuu, sendo mais forte, é que deveria liderar; mas, como Yuu ponderou que em experiência pura de aventureira Elsa está acima, a liderança ficou com Elsa.
Ajustei a fivela da manopla esquerda, conferi a adaga na cintura, desembainhei a espada e examinei o fio. Para esta exploração preparei, em vez da Flügel, um florete de aço de alta qualidade comprado numa loja de armas da capital. Numa masmorra deve haver muitos pontos de má visibilidade. Se um monstro atacar de surpresa de um ponto cego, ter uma espada capaz de defender amplia as respostas possíveis.
Por isso pretendo usar esta espada como arma principal aqui.
Elsa está com uma espada de manejo mais fácil, não a que usava antes. A armadura é de couro com reforços de aço em alguns pontos.
Yuu carrega às costas um machado de guerra mais alto que ela e confere as lâminas de dois machados de cabo vermelho e branco e de um facão grande, tirados da bolsa mágica. Veste, sobre o traje de combate típico do país insular do oriente chamado hakama, um manto negro como a escuridão da noite.
Tida está com o autoproclamado hábito especial e o cajado de ferro de sempre. O licor medicinal que recebeu de Yuu deixou na hospedaria.
Confirmando que todas estavam prontas, Elsa abriu o mapa obtido na guilda.
— O objetivo é o veio de minério de emaya no extremo sul do décimo sexto andar. Ignorem os monstros do caminho na medida do possível e sigam pela rota mais curta. Hoje a meta é chegar à zona segura logo após a entrada do sétimo andar.
Elsa percorreu o mapa com o dedo, confirmando a rota, o destino, as zonas de risco e os monstros a evitar. Confirmando nossos acenos, guardou o mapa.
— Muito bem. Vamos.
E assim pusemos os pés na masmorra.
◆
— Senhora Mireille, Senhorita Lunoa. Como estão se sentindo?
Misha chegou ao quarto em que Mireille e Lunoa se recuperavam, trazendo um mingau de pão fumegante. Pouco depois de Ellie e as demais partirem para a encomenda de coleta do material necessário ao antídoto da variante do king poison slime, chegou antídoto aos doentes da Companhia Traitre e a seus familiares. Além disso, um mago curandeiro da corte, por instrução do príncipe herdeiro Orkist, vinha uma vez por dia aplicar magia de cura em quem se recuperava na casa.
Com o antídoto e a magia de cura, Mireille e Lunoa melhoraram bastante e, pelo diagnóstico do médico, mais alguns dias de repouso e voltam à vida normal.
Misha passou a ajudar na casa, no lugar de Arnaud, que corria de um lado para o outro assumindo interinamente a operação da companhia.
— Trouxe a refeição. Está quente, tomem cuidado.
— Desculpe o trabalho, Misha.
— Obrigada, Mishazinha.
Misha pôs a panela de mingau na mesinha ao lado da cama, serviu em pratinhos e entregou às duas.
— Será que a Presidente Ellie já chegou à masmorra?
— Em condições normais ainda não teria chegado; mas, como a Senhorita Ellie foi no familiar da aventureira rank A Yuka Kusunoki, talvez já esteja lá.
— É verdade. Ouvi dizer que é um thunderbird enorme e muito rápido.
Enquanto servia água de uma jarra num copo, Misha repetia o que ouvira do médico que vinha tratá-las.
◇
O interior da masmorra não parecia nada além de uma caverna comum. Mas aquilo é uma masmorra: apesar de não haver fonte de luz alguma, e embora o lugar seja mal iluminado, a visão nunca é tomada pela escuridão. Em condições normais deveríamos avançar devagar e com cautela, mas nós corríamos pela rota mais curta, guiadas pelo mapa.
Ignorando os goblins e os giant bats que apareciam de vez em quando, processávamos rapidamente só os monstros que barravam o caminho.
Estamos no terceiro subsolo.
Levamos umas quatro horas para chegar aqui. A masmorra, que no começo parecia apenas uma caverna, foi ganhando corredores mais largos e tetos mais altos no segundo e no terceiro andares. Fizemos uma pausa de dez minutos num trecho aberto e de boa visibilidade.
Bebi água do cantil, soltei o ar e olhei o teto, lá no alto.
— O teto está claramente mais alto do que a altura que descemos, não está?
— É esquisito mesmo, viu. Será que masmorra é tudo assim?
— Não. Dizer “masmorra” agrupa coisas diferentes. Há caverna comum em que monstros se instalaram, ruína de civilização antiga, e há um monstro chamado dungeon mimic, que tem um núcleo enorme de pedra mágica chamado núcleo de masmorra.
— Esta aqui tem o espaço interno claramente anormal, então é dungeon mimic. Ou seja: neste momento estamos dentro da barriga de um monstro.
— Hã?! É sério?!
— As características do dungeon mimic são a estrutura interna anômala, o aparecimento ocasional de baús chamados baús do tesouro e o desaparecimento dos corpos de monstros e de aventureiros.
— Que os corpos de monstros e de aventureiros sumam eu entendo. Se a própria masmorra é um monstro gigante, ela está digerindo. Mas por que os baús têm itens dentro?
— É hipótese, mas há a teoria de que os baús são isca para atrair humanos… ou seja, aventureiros.
— Ora.
— Que esquisito, viu.
— Bom, a pausa acabou. Vamos em frente. Um pouco adiante há a escada para o quarto andar. Do próximo andar em diante o ambiente muda por completo, ao que consta.
— Entendido, vamos.
Quando íamos nos mover, presenças cresceram ao nosso redor, como quem cerca.
— Hm?! Estamos cercadas.
— Estes aqui são… kobolds.
— O-o-o-o que a gente faz?!
— Rompemos, evidentemente.
Yuu tirou da bolsa mágica os dois machados de cabo vermelho e branco e se pôs em guarda.
Nós também empunhamos as armas.
— Não é preciso exterminar. Derrubem o mínimo e rompam! Vamos!
Ao comando de Elsa, disparamos.
— Grrráb!
Trespassei a garganta do kobold que baixava uma espada em farrapos e, ao puxar a lâmina, decepei a perna do kobold ao lado.
— Iih! S-seu…! Mirar em mim, uma devota piedosa… ira divina, viu!
O cajado de ferro de Tida rachou o crânio de um kobold.
— Muito bem, Tida. Com essa capacidade dá para confiar minhas costas a você.
— Que nada, eu sou gente comum, viu! Não me comparem com duas aventureiras rank A!
— Mas a senhorita Tida e a Ellie são fortes. Que tal? Se quiserem virar aventureiras, eu escrevo a carta de recomendação.
— Eu passo. Comerciante combina mais comigo.
— Eu também recuso! Não tenho vidas suficientes, viu!
— Não; conseguir acompanhar o ritmo meu e da Yuu já é capacidade de sobra.
Conversando, derrubamos os kobolds que atrapalhavam, rompemos o cerco, encontramos a escada e descemos correndo. Curiosamente, os monstros dentro de um dungeon mimic não costumam se aproximar das escadas.
Há exceções, então não dá para relaxar; mas em torno das escadas é comparativamente seguro. O bando de kobolds que vinha atrás sumiu. Enquanto recuperávamos o fôlego descendo, avistamos uma saída transbordando de luz. Uma luz clara como a de fora, ainda que estivéssemos dentro da masmorra.
Vigiando o entorno, chegamos ao quarto andar.
— Isto é…
— Como é que funciona, viu?
Eu e Tida, na primeira masmorra da vida, arregalamos os olhos diante da cena estranha. Nós, que descíamos por dentro de uma caverna rumo ao subsolo, tínhamos à frente uma floresta imensa.
Eu tinha ouvido falar, mas ver com os próprios olhos é impossível esconder o espanto. Olhando para cima, nuvens correm lá no alto e um sol despeja luz. Não parece de forma alguma o interior de uma caverna.
— Aquele sol não é de verdade, é?
— Não. Segundo os estudiosos, isto aqui é um espaço à parte criado pelo dungeon mimic. Dizem que nos grandes labirintos das cidades-labirinto há até deserto, tundra, vulcão e cidade antiga.
— Que impressionante, viu.
— Pois é. Parece coisa de conto de fadas.
Sem nos determos muito na estranheza da masmorra, começamos a caminhar rumo ao andar seguinte. Neste andar estende-se uma floresta de árvores tão grandes que eu não conseguiria abraçar nem de braços abertos. Como as árvores em volta atrapalham a visão, andamos naturalmente mais devagar, atentas a emboscadas.
— Pelas informações, este andar tem muitas espécies de monstro. Goblin, kobold, grey wolf, combat monkey — parece haver muitos que formam bando.
— Ser cercada aqui seria ruim.
— Não fale coisa assustadoraaa.
— Nosso objetivo não é colher erva nem caçar monstro. Descemos logo. Felizmente a escada deste andar não é longe.
Como Elsa dissera, meia hora de caminhada atenta e chegamos à escada. Pelo caminho cruzamos com um bando de goblins, mas com esta formação não havia como sofrer, e terminou num sopro. Descendo a escada, saímos de novo numa fenda de rocha dentro de uma floresta. A rocha se projeta uns três metros do chão e não há nada acima dela. Ainda assim, espiando por dentro, há uma escada que sobe. Estranho.
O quinto andar é igual ao quarto. Também aqui seguimos com cautela rumo à escada.
— Alto!
Elsa, à frente, avisou em voz baixa e afiada. Com um gesto, apontou para além do matagal.
Espiamos com cuidado: ali havia um bando de monstros de corpo enorme e carnudo, com mais de dois metros, e cabeça de porco.
— Orcs.
— Sim. E têm faro bom. Aqui estamos a favor do vento e ainda não nos notaram, mas, avançando, seremos vistas com certeza.
Orc é insistente. Uma vez visto, ele persegue sem parar.
— Não dá para contornar?
— Dá uma volta enorme.
— Vamos abrir caminho. Como ainda não nos notaram, podemos surpreendê-los.
— V-vamos lutar?
— Neste andar ainda falta distância até a escada. Quero evitar ser perseguida por orcs.
— Então vamos.
Escondidas no matagal e atentas ao vento, encurtamos a distância. Sincronizando pelo olhar, saltamos do mato.
— Buá?!
— Fugó!
— Rá!
Cobri a distância de uma vez e trespassei o olho direito de um orc surpreso com o florete. A ponta alcançou o cérebro e o matou na hora.
— Guboo!
Desviei com um passo atrás do porrete que um orc baixava e desferi um golpe afiado.
Como é um florete de aço, e não a Flügel, não decepa o braço grosso de um orc. Mas cortar o polegar que segura o porrete não é problema.
— Fugó!
Ele deixou cair o porrete e cambaleou; avancei para dentro da guarda dele e enfiei a espada por baixo do queixo, destruindo o cérebro. Atravessei o crânio robusto de um orc como quem costura, causando ferimento fatal.
Em volta, o machado de guerra de Yuu partia orcs ao meio sem se importar com crânios grossos e carne feito armadura, e a espada de Elsa feria com precisão e decepava cabeças assim que eles caíam de joelhos.
Tida, aos gritos, esmagava crânios com a força de braço reforçada por poder mágico.
Resultado: Yuu e Elsa liquidaram três cada uma, eu duas e Tida uma.
— Ufa. Alguém ferida?
— Estou bem.
— Sem problema.
— Inteira, mais ou menos.
— Vamos sair antes que o cheiro de sangue atraia outros monstros.
Liquidados os orcs, retomamos a caminhada rumo à escada do sexto andar. Em condições normais a regra é descartar os monstros abatidos para não atrair outros; num dungeon mimic, porém, a própria masmorra se encarrega, então deixar ali é aceitável.
O sexto andar também era floresta igual. Diante da paisagem que não muda, dá a sensação de estar rodando em círculos pelo mesmo lugar.
— A paisagem é sempre a mesma, viu.
Tida teve a mesma impressão que eu.
— Não dá sensação de progresso; o cansaço dobra, viu.
— No sétimo andar, o próximo, há uma zona segura em que os monstros dificilmente entram. Hoje descansamos lá. Aguentem até lá.
Elsa acalmou Tida com um sorriso amarelo. Reclamando de uma coisa e de outra, Tida nos acompanha sem problema. Como força de combate ela basta e, quando aparecerem mortos-vivos, a magia de luz dela será arma poderosa. Avançando pela mata, Yuu vai colhendo aqui e ali frutos e flores que avista. Serão coisas úteis?
— Ah! Achei uma coisa boa.
Yuu colheu, contente, um fruto maior que a palma da mão. Como estamos com pressa, ela não para para colher, mas vai recolhendo tudo o que salta aos olhos. Ouvi dizer que, na masmorra, mesmo colhendo tudo, em poucos dias volta ao normal.
— Yuu, que fruto é esse?
— É um fruto que eu nunca vi, viu. Dá para comer?
— Este é um fruto chamado cacau. É uma fruta do sul, que não cresce no clima deste continente. Comer também é bom, é doce e ácido; mas, secando e fermentando as sementes, vira matéria-prima de remédio.
— Cacau…
Eu já ouvi isso. No continente meridional é valorizado como fruta e como remédio… mas, fora isso, em algum outro lugar… se não me engano, num documento antigo do Reino de Haldoria? Quando isto aqui terminar, vou pesquisar. Tenho pressentimento de negócio grande.
Depois disso, entre pausas curtas, ouvindo de vez em quando as explicações botânicas de Yuu e repelindo monstros, avançávamos quando Elsa parou de repente.
— Abaixem-se!
Ao grito de Elsa, encolhemos o corpo por reflexo. E, por cima de nossas cabeças, passaram um assobio de ar cortado e o estrondo de árvores sendo derrubadas.
— M-mas o que foi isso?!
— I-impossível! Isso é…
— Este é grande.
— Não havia informação disso, havia?
Diante de nós apareceu um monstro humanoide de mais de cinco metros, um olho só e um porrete que parecia um bloco de rocha.
— É um ciclope.
— Não é monstro de masmorra rasa como esta.
— E a escada para baixo é atrás dele.
— Não tem jeito. Vamos derrubar.
Saltamos para os lados desviando do bloco de rocha que descia e assumimos posição de combate imediatamente.
— Estou arrependida de ter vindo, sério! Guiai-nos a nós, extraviados: 【Flash】!
Da ponta do cajado que Tida ergueu correu uma luz intensa que cegou o olho enorme do ciclope.
— Rá!
Elsa cortou a perna dele, mas o ferimento mal rasgou a pele.
— Superficial.
— Elsa, recue!
Ao ouvir minha voz, Elsa saltou para trás. Trocando de lugar com ela, avancei — e o ciclope fechou o punho e me arremessou.
— O quê? Ellie?!
Elsa arregalou os olhos ao me ver receber o golpe sem desviar.
Só que o corpo que recebeu o punho se estilhaçou num instante.
— Aquilo é… gelo?!
Usando um 【Ice Doll】 como substituta, corri pelo braço do ciclope e golpeei o rosto dele.
— Gubuu!
— Boa! 【Power Slash】!
Elsa atacou de novo a perna do ciclope, que se expusera. Usando a habilidade e envolvendo a lâmina em poder mágico, o corte ganhou potência e feriu fundo a perna.
— Guh!
O ciclope voltou o olhar furioso para Elsa.
Mas então uma 【Light Arrow】, magia de afinidade luz, acertou o rosto dele e, com a atenção dispersa, uma pequena sombra negra avançou em alta velocidade por trás.
— 【Godan】.
A habilidade de Yuu parece elevar de forma marcante a potência do machado descendo. Com aquele único golpe as costas se rasgaram fundo.
— Gubuu!
O ciclope, tomado de raiva, varreu o porrete.
— Concedei proteção a este corpo frágil: 【Light Wall】!
O porrete foi barrado pela parede de luz criada pela magia de Tida e, nessa brecha, tornei a escalar o corpo do ciclope e corri a lâmina pela base das presas daquela boca enorme.
— Rááá!
Sob dor insuportável, ele largou o porrete e levou as duas mãos à boca — e a espada de Elsa se cravou em seu peito. O corpanzil do ciclope tombou, e o chão tremeu junto com a poeira levantada.
— D-derrubamos?
— Bem, mesmo sendo ciclope, contra duas rank A mais eu e a Tida, era isso mesmo.
— Verdade. Mas tomou mais tempo do que eu esperava.
— Sim. Mas por que raios havia um ciclope aqui?
— Aliás, pelas informações não havia registro de ciclope avistado nesta masmorra.
— Hmm, isso me dá um mau pressentimento.
Sentindo uma inquietação difícil de nomear, seguimos ao andar seguinte e chegamos ao sétimo.
O sétimo andar também é área de floresta. Só que, logo depois da descida, no fundo de um trecho rochoso, há um terreno em que os monstros têm dificuldade de entrar; ali há uma barreira repelente de monstros, e é possível descansar com relativa segurança.
— Aquilo é…
— Já tem gente.
Na zona segura já havia um grupo de aventureiros.
Nesse caso, como nem eu nem Tida entendemos da etiqueta entre aventureiros, pretendo deixar com Yuu e Elsa. Quando entramos na área da barreira, dois do grupo que já estava lá — um homem com cara de espadachim e uma mulher com cara de maga — vieram na nossa direção.
— O homem provavelmente é o líder do grupo. Vendo que somos um grupo só de mulheres, trouxe uma companheira mulher junto, imagino.
Elsa explicou em voz baixa quando olhei para ela.
Os dois pararam a uma certa distância de nós.
— Somos o grupo rank C «Caminho da Luz». Vocês vêm dos andares de baixo?
— Não, de cima.
— …?!
Os dois se entreolharam, surpresos.
— E-e o ciclope? Ele não estava plantado na frente da escada, bem no andar de cima?
— O ciclope nós abatemos agora há pouco.
— Abateram?!
Os dois soltaram outro som de espanto e os demais membros do «Caminho da Luz» também vieram correndo. Levei a mão à espada por reflexo, mas o líder conteve o próprio pessoal.
— Vocês! Calma! …Desculpem. Não temos hostilidade.
Passamos alguns dias caçando dentro da masmorra e, quando fomos voltar, aquele bicho estava instalado na frente da escada e ficamos presos.
— Entendo. Abatemos o que estava na escada, mas pode haver outros. Se forem voltar, tomem cuidado.
— Sim… e… desculpe, não é que eu duvide, mas vocês abateram mesmo?
— Abatemos. Yuu.
— Sim.
Yuu tirou da bolsa mágica a orelha direita do ciclope, comprovante de abate.
— Uau! É orelha de ciclope!
— É sério?!
— A-a gente pode voltar…
— Obrigado… obrigado…
Os membros do «Caminho da Luz» agradeciam sem parar.
Sendo grupo rank C, derrubar um ciclope seria difícil mesmo arriscando a vida. Felizmente comida não era problema, porque dá para caçar na masmorra; mas o limite emocional deles estava perto.
— Obrigado, vocês salvaram nossas vidas. A propósito, posso saber os nomes? Não havia na cidade nenhum grupo com força para abater um ciclope, então vocês devem ser aventureiras de fora.
— Sou Elsa, aventureira rank A. Estamos juntas em caráter temporário, não temos nome de grupo.
— Eu sou Yuka. Também rank A.
— Eu sou Ellie. Não sou aventureira, sou comerciante.
— Tida, muito prazer; agradecimento não em palavras, e sim em dinheiro… ai!
Dei um cascudo na cabeça de Tida, que fazia um círculo com os dedos e falava aquela grosseria.
— Que coisa mais baixa.
— Que maldade, viu! Neste caso, exigir gratificação é direito legítimo!
— …………É mesmo?
Bem, de fato, se um mascate atacado na estrada é salvo por um aventureiro de passagem, o costume é pagar gratificação. Quem enrola para pagar é apontado como sem-vergonha que falta com o dever. Talvez este caso seja próximo disso.
O líder do «Caminho da Luz» também assentiu às palavras de Tida.
— Naturalmente. Agora não temos muito em mãos, mas… material serve? Se preferirem dinheiro, peço que seja pago via guilda.
— Não, não é preciso.
Elsa recusou a proposta.
— Aquilo nós abatemos por objetivo nosso. Não é preciso agradecer. Tida, tudo bem, não? A recompensa pelo abate do ciclope também entra.
— Bem, é… tudo bem.
E assim Elsa recusou a gratificação.
— Eu não entendo bem, mas tudo certo?
— Hmm, se tivéssemos salvado um comerciante, receber a recompensa direito é melhor para os dois lados; mas entre aventureiros é diferente. Entre iguais, exigir recompensa sem cerimônia é o normal; mas nós somos aventureiras de rank alto. Se o outro fosse arrogante seria outra coisa, mas ficar arrancando trocado de aventureiro de rank inferior que se curva não pega bem para muita gente. Naturalmente isso não significa que somos obrigadas a ajudar quem é de rank inferior. É capricho, voluntariado.
Parece que é assim.
— Portanto, não é preciso agradecer.
— Não, assim não dá.
— …Hm, se insiste tanto, então tenho um pedido. Nós estamos com pressa e não temos tempo de esquartejar o ciclope. Deixado ali, amanhã à noite a masmorra o absorve. Então quero que vocês o esquartejem e levem até a guilda. Descontando a gratificação de hoje e o trabalho de esquartejar e transportar, dez por cento do valor da venda fica com vocês.
— Hã?! N-não, isso é receber demais…
— Não faz mal; é dinheiro que sumiria de todo jeito. Quando subirem de rank, apoiem os que estão abaixo. Vocês concordam? Eu não quero o dinheiro.
— Eu também não. Ah, mas quero o globo ocular do ciclope. Depois entrego um recipiente; posso pedir isso?
— A-ah, claro.
— Por mim tudo bem; que o dinheiro seja recompensa adicional para a Tida, que veio às pressas.
— É-é sério?! Noventa por cento da venda de um ciclope?!
— Bem, deve dar um valor razoável. O nível da masmorra é mais alto do que se previa; um acréscimo desses não é problema.
— Concordo. Eu também aprovo.
— Uau! Que bom que eu vim com vocês! Vamos lá, pessoal do «Caminho da Luz»! Tem alguém ferido? Eu curo com magia! Fiquem bons e levem material para casa!
Tida, radiante, começou a tratar os feridos do «Caminho da Luz». Que criatura interesseira.
No dia seguinte, despedidas do «Caminho da Luz», que ia esquartejar o ciclope, seguimos pela floresta rumo aos andares de baixo. Depois de já termos repelido alguns ataques de monstros, conversávamos, atentas ao entorno, sobre o que os membros do «Caminho da Luz» tinham dito na véspera.
— É estranho mesmo.
— Pois é. Será que há alguma causa?
Segundo o «Caminho da Luz», nestes últimos dias a presença de monstros nesta masmorra está anormalmente densa. Somando-se a isso, aparecem monstros poderosos como o ciclope, cuja existência aqui nunca fora confirmada.
Haverá alguma relação entre as duas coisas?
— No estado atual não dá para julgar.
— Ah?! Ataque!
— São army monkeys! Estamos cercadas!
— Aqui tem árvore demais. Vamos romper de uma vez até o descampado! Yuu e Tida à frente! Eu na retaguarda! Ellie, ataque livre!
O que surgiu das árvores em volta é um monstro que forma bando e caça em grupo, coordenado. Individualmente não é forte, mas a coordenação parece de militar experiente e, às vezes, até aventureiro veterano vira presa.
Com as ordens de Elsa, formamos posição depressa e disparamos.
— Estão no caminho!
— Sai da frente!
O facão de Yuu rasgava os army monkeys que se aproximavam, e o cajado de Tida quebrava ossos frágeis.
— 【Ice Hammer】.
O bloco de gelo criado pela minha magia esmagou de uma vez dois que tentavam entrar no ponto cego de Tida.
— Falta pouco!
Corremos rumo ao descampado à frente, com Elsa atrás cortando os army monkeys. Chegando à clareira, ficamos de costas umas para as outras, encarando o bando ao redor.
— É um bando bem grande.
— Um bando comum de army monkey deveria ter no máximo uns quinze…
— Contando os que já derrubamos, tem uns trinta, viu!
— Felizmente nesta clareira o ataque das árvores e o movimento em três dimensões ficam limitados. Vamos liquidar logo e seguir.
E foi assim, dispersando ataques de monstros cada vez mais numerosos, que fomos avançando.
◇
Passada a área de floresta, descemos a escada e desta vez se abriu um grande lago subterrâneo. Um lago circular, cercado por um corredor estreito. Pelo que se via, não havia monstros; mas também não havia escada para baixo. Elsa abriu o mapa e conferiu.
— A escada para baixo está… dentro do lago.
Diante das palavras de Elsa, todas olhamos ao mesmo tempo a superfície daquele lago estranho, que emitia um brilho fraco.
— Argh, a gente vai ter que mergulhar?!
— Não tem jeito.
— Felizmente neste andar não há monstro de…
A frase de Yuu foi cortada por uma coluna d’água que irrompeu de repente. Um monstro parecido com um jacaré enorme, de uns três metros de circunferência. É um monstro que eu nunca vi, mas deve ser algum tipo de dragão aquático.
— …Havia.
— Havia mesmo.
— É grande. Espécie dracônica?
— L-lá vem ele!
O jacarão, ao contrário do que a aparência sugere, girou o corpo com leveza e desceu a cauda grossa como um tronco.
— Opa.
Mas a cauda foi decepada por um golpe do machado de Yuu. O jacarão se contorceu de dor e, com o impacto, pedrinhas caíram do teto.
— Ei, não o deixem se debater tanto!
— Ah, chega!
Tida saltou alto e desceu o cajado de ferro com toda a força na cabeça do jacarão, virada para cima. Com o som surdo de osso partido e carne esmagada, a cabeça foi jogada contra o chão.
— Que dureza! A escama é bem dura, viu.
— Grrrá.
O jacarão abriu a boca enorme na direção de Tida, no ar. Aquele movimento… não vai me dizer! Dentro da boca, poder mágico gerava água em altíssima compressão.
— É sopro de água!
— Deixa comigo!
Elsa golpeou com força a boca escancarada do jacarão. Com a boca fechada à força, o sopro que não saiu explodiu por dentro e virou vapor. Aproveitando a hesitação, cobri a distância e desferi um golpe no pescoço. Grosso demais para partir em dois, mas suficiente para ferimento fatal.
Diante do jacarão abatido, discutimos um pouco a masmorra que não bate com as informações prévias.
— É estranho. Pela informação, neste lago subterrâneo há apenas alguns peixes e nenhum monstro.
— Somando ao ciclope de cima, será que há alguma anomalia na masmorra?
— É antinatural, não? Este monstro eu também nunca vi.
— Parece espécie dracônica, mas é a primeira vez que vejo. Será variante?
— Hmm? Isto aqui deve ser um monstro chamado alligator drake, viu.
— Você conhece?
— É espécie dracônica que vive em alguns rios do continente meridional e do ocidental. Acho que não havia registro no continente central, viu.
— Terá sido a masmorra que o gerou?
— Não sei, mas, se há coisas assim, não dá para entrar na água sem cuidado.
— E o que a gente faz? Sem mergulhar não dá para descer, viu.
— Pois é… Para garantir segurança o certo seria explorar bem e abater os monstros, mas não temos tempo. Eu garanto o ar em volta com magia; vamos avançar depressa, todas atentas.
— Entendido.
— Por mim tudo bem.
— Entendido, viu.
Guardei o corpo do alligator drake no 【Grimoire Mammon】 e criei com magia uma grande bolha para garantir o ar. Conferindo bem no mapa a posição da escada, entramos no lago subterrâneo.
O lago é bem fundo e, normalmente, os aventureiros mergulham seguindo uma corrente que alguém instalou. Desta vez, como o ar está garantido por magia como se estivéssemos em terra, dá para andar normalmente. A água é bastante límpida e, ao longe, viam-se as sombras de algum monstro grande. Contendo o poder mágico para não sermos detectadas, escondendo-nos atrás das pedras, avançamos depressa. A escada para o andar de baixo, quando enfim chegamos a ela, talvez fosse melhor descrita como buraco do que como escada.
— Vamos.
— Sim.
Elsa saltou primeiro, Yuu logo atrás. Também pulei sem hesitar e, lá de cima, ouvi a fala de Tida: “Espeeerem por mim!”.
Deslizamos por um corredor estreito como um escorregador e fomos lançadas de um morrinho de pedra rumo a um rio que corta uma campina.
Subimos à margem e tiramos a água das roupas encharcadas com magia. Sequei também as roupas de Elsa e de Yuu, que tinham subido antes, e as de Tida, que caiu no rio junto com um grito.
◆
No castelo real do Reino de Haldoria, Roselia recebia um relatório de mau humor. Era mais um relatório sobre Friede torrando dinheiro.
— Sabe de onde vem esse dinheiro?
— Sim. Parece que ele obteve escrevendo cartas de recomendação.
— Entendo.
Nobre escrever carta de recomendação para ligar uma pessoa a outra acontece. Não é coisa louvável, mas há nobres que recebem pagamento para escrever. Como essa carta serve apenas de apresentação, e o nobre que apresenta não assume responsabilidade nem obrigação alguma, não parecia coisa de virar problema grande.
— O que devemos fazer?
— Deixe para lá. Agora não há tempo para se ocupar daquele idiota.
Dias atrás, monstros transbordaram de novo de uma masmorra na divisa com um Estado vassalo e causaram enorme dano. O rei e o primeiro-ministro estão às voltas com isso, e parte do expediente comum foi repassada a Friede — ou seja, a Roselia.
— Membro da família real vender cartas de recomendação como nobre de baixa posição não me agrada; mas neste momento não sobra gente para ficar de babá do príncipe idiota.
Roselia resolveu apenas pôr alguém de vigia, para que Friede não fizesse besteira, e deixar por isso mesmo. Havia trabalho muito mais importante aos montes.
— É preciso montar um plano para o caso de a doença que circula na capital imperial contaminar o reino.
— Concordo. Vamos articular com o encarregado da embaixada imperial no reino e acompanhar de perto.
Assentindo às palavras do subordinado, Roselia estendeu a mão para o documento seguinte.
◇
A água que rescende do teto vira gota e cai com um som miúdo. Caminhávamos por um corredor de pedra, úmido e abafado. Esta masmorra passou de caverna a floresta, a lago subterrâneo, a campina. E, do décimo terceiro subsolo em diante, a feição muda por completo: seguem-se corredores de pedra. Já é o quarto dia desde que entramos.
Quanto mais fundo, mais aumentava a frequência dos ataques. Por qualquer ângulo é situação anormal, mas nós quatro vencíamos a masmorra sem problema, dentro do previsto.
— Hm?
De repente notei passos ecoando à frente. Trocamos olhares, nos afastamos umas das outras para poder reagir e observamos. Do escuro adiante surgiram homens com cara de aventureiro, que nos chamaram.
— Hm, colegas de ofício… Vocês vão para baixo?
— Vamos, ao décimo sexto andar.
— Certo. Mas hoje é melhor voltar.
Do andar abaixo deste começam a aparecer mortos-vivos; e apareceram vários mortos-vivos de alta categoria, como wraiths e dullahans, que quase nunca surgem. Nós também interrompemos a exploração e estamos recuando. É melhor vocês desistirem por hoje.
— Entendo. Mas nós também temos motivo para pressa.
— Pressa? Ao décimo sexto? E o que… ah, não, desculpe. Não quis bisbilhotar. Esqueça.
— Não se preocupe. Agradeço o aviso.
Erguemos a mão de leve para os aventureiros que passaram e voltamos a andar.
— Então do próximo andar começam os mortos-vivos, viu.
— Ao que parece. Living deads e esqueletos nós resolvemos; mas wraiths e ghosts ficam com você.
— Deixa comigo, viu! Eu tenho proteção divina de sobra, então alma penada é fichinha. Já estou vendo o wraith implorando perdão diante da minha magia sagrada!
E Tida ria a valer.
— Aaaai! P-p-perdãããoo, viuu!
O grito de uma Tida de olhos marejados ecoou pelo corredor escuro.
— E-ei! Tida! Purifica! Usa o 【Purification】!
— A-ai, ai! Está aumentando de novo!
— Depressa, Tida! Eles nos alcançam!
Correndo pelo corredor, atrás de nós, um bando de wraiths se espalhava por toda a largura, avançando com um coro de rancor. Wraith é a alma de quem morreu deixando ódio neste mundo e que se tornou monstro pelo poder mágico. Por ser corpo espiritual, ataque físico não funciona; e basta tocar em você para absorver força vital — monstro incômodo. A resposta é magia, sobretudo de afinidade luz.
E o 【Purification】 que Tida usa é magia superior, capaz de aniquilar num golpe os mortos-vivos ditos espirituais, sem corpo, como os wraiths.
— D-d-deuses! Concedei misericórdia às almas tristes acorrentadas a este mundo! 【Purification】!
Os wraiths banhados pela luz que Tida disparou se dissolveram e sumiram. Mas logo outros vinham preencher o buraco.
— O-o que está acontecendo? Não é gente demais, mesmo assim?
— Nem nós conseguimos enfrentar de frente essa quantidade de wraith.
— Corram! Tida, 【Purification】!
— À frente! Dullahan!
— Não parem! Vamos em frente!
Golpeamos sem reduzir a velocidade o cavaleiro sem cabeça montado num cavalo sem cabeça e corremos desesperadamente para não sermos alcançadas pelos wraiths. Arrastando o bando pela masmorra, íamos dispersando os mortos-vivos que apareciam à frente e conseguíamos manter distância. Só que, ao dobrar uma esquina, a situação virou.
— Péssimo! É um beco sem saída!
— Atrás! Os wraiths estão chegando!
— Só nos resta lutar.
— Argh! Não tem jeito! Pessoal, ganhem tempo para mim!
Dito isso, Tida recuou e nós avançamos para cobri-la. Não sei o que ela vai fazer, mas agora só resta confiar. Envolvi o florete em poder mágico e comecei a cortar wraiths. Com arma carregada de poder mágico há algum efeito sobre eles. Mas são numerosos demais.
Yuu e Elsa também usavam poder mágico contra os wraiths, mas a quantidade as empurrava.
Quanto a Tida, ela espalhava água benta tirada do peito e riscava um círculo mágico no chão com o cajado de ferro.
— Afastai o mal e protegei-nos: 【Sanctuary】!
Quando Tida terminou o círculo e completou o encantamento, um anel de luz se abriu e barrou a entrada dos wraiths.
— Isto é… uma barreira?
— Nos salvou.
— Dá para respirar um pouco.
Recuperando o fôlego, nos juntamos no centro da barreira. A que Tida ergueu tem uns cinco metros de raio a partir do círculo mágico. Parece impedir a entrada de mortos-vivos na área.
— E agora… o que a gente faz?
Tida olhou a multidão de wraiths e esqueletos aglomerada do lado de fora e soltou junto com um suspiro.
— Boa pergunta. Tida, quanto tempo dura esta barreira?
— Normalmente uns trinta minutos, viu. Mas, do jeito que estão raspando agora mesmo, uns quinze.
— Elsa, onde fica a escada para o décimo quinto?
— Um instante.
Elsa tirou o mapa e traçou o caminho a partir da escada por onde descemos do décimo quarto.
— Aqui é onde estamos. A escada para o décimo quinto é por esta rota… passando por este salão… aqui.
— É relativamente perto.
— A esta distância é melhor romper à força rumo à escada do que exterminar os mortos-vivos.
— Concordo, viu. Com tempo, uma magia bem forte varre os que se juntaram por aqui. Nessa brecha a gente corre.
Definido o plano, cercadas por mortos-vivos e sem sossego, empurramos ração de viagem com água e cuidamos das armas. Nesse meio-tempo Tida ficou ajoelhada no centro da barreira, mãos juntas diante do peito, rezando com concentração.
— Rachou a barreira.
— Pela misericórdia dos deuses…
— Está quase.
— …guiai as almas extraviadas.
— A barreira vai quebrar!
— Bem-aventurado este mundo cruel, bem-aventurados os que vivem na tristeza, bem-aventurados os servos dos deuses, faça-se a luz… 【Vanish】.
No mesmo instante em que a barreira se quebrou, um clarão correu tendo Tida por centro. Um brilho de queimar os olhos e que, curiosamente, não cegava; o entorno se encheu de um ar morno e sereno. Quando a luz se apagou, todos os mortos-vivos que ali estavam tinham desaparecido sem deixar o menor vestígio.
— Isso! Deu certo! Eu sou demais! Como sempre!
— Corram!
Arrastando uma Tida exaltada com o sucesso do golpe grande, disparamos. E, logo, wraiths surgiram do nada.
— Vieram de novo!
— Deixa; a escada está perto!
— Estou vendo o salão.
Entramos no salão com o mesmo ímpeto. Era um lugar completamente diferente dos corredores estreitos: um espaço amplo, com colunas que subiam até o teto aqui e ali. Só que ali também uma multidão de mortos-vivos nos esperava. Entre eles, um dullahan montado num cavalo sem cabeça.
— Péssimo, eles vão nos alcançar!
— Não tem jeito!
De repente Tida parou e se plantou diante do bando de mortos-vivos que nos perseguia.
— Tida?!
— Pessoal, deixem esta parte comigo e sigam!
— Está bem.
— Muito obrigada.
— Conto com você.
— Ué, ahn? Não é aqui que vocês dizem “não vou deixar você bancar a heroína sozinha” e a gente luta junto?!
Deixando a multidão de mortos-vivos com Tida, corremos pelo corredor rumo à escada, empurradas pelo grito de “bando de ingratas!” dela.
— Eu disse “deixa com você”, mas a Tida vai ficar bem?
Elsa comentou pelo caminho, cortando um living dead que se aproximava.
— Deve ficar. A senhorita Tida parecia ainda ter fôlego de sobra.
— Não, não é isso que eu…
— Eu sei. A Tida também percebeu. E, sabendo disso, disse para deixar com ela — então tudo bem.
— …É verdade. Vamos confiar na força dela. Ah, a escada!
Descemos quase saltando os degraus e chegamos ao décimo quinto andar.
— …?!
No instante em que entramos, um arrepio correu pela espinha.
— Artefato divino: 【Period】.
— Artefato divino: 【Grimoire Beelzebub】.
— Artefato divino: 【Fenice Spada】.
As três acionamos os artefatos divinos ao mesmo tempo. No instante seguinte, Yuu aparou com o artefato o monstro que saltou da escuridão.
O artefato divino de Yuu é um machado de guerra de cabo preto riscado de ouro, prata e vermelho, com uma lâmina negra que parece sugar toda a luz. O que ela aparava com o cabo era uma foice grande, de brilho azulado — um monstro de tipo inseto com mais de dois metros: um great mantis.
— Este também não é monstro de masmorra rasa de trinta andares!
Para começar, pelas informações da guilda, neste andar só apareciam mortos-vivos. Não havia como um monstro desses surgir.
E, no décimo quinto andar, não havia só o great mantis. Giant worm, sand burrower, death scorpion e por aí vai. Todos monstros poderosos.
— Rá!
Quando Yuu girou o 【Period】, o great mantis bateu as asas finas e abriu distância.
— A Tida vem atrás de nós; não dá para deixar assim.
— É, vamos.
— Eu prefiro inimigo claro como este do que wraith.
E nos pusemos em guarda para aniquilar o great mantis, que erguia as duas foices em ameaça, e o bando de monstros atrás dele.
◆
— Bando de ingratas!
O grito de Tida ecoou pelo corredor escuro. Com aquela voz nas costas, Ellie e as demais sumiram além do corredor com a escada para o décimo quinto.
— Ufa. Fui deixada para trás mesmo, viu.
Soltou o ar fundo, com um dar de ombros. E o bando de wraiths se precipitou. A absorção de força vital por um wraith, morto-vivo de alta categoria, é ataque terrível: transforma até um homenzarraço robusto em galho seco.
As mãos dos wraiths que aplicam isso avançaram sobre Tida como uma onda.
— …………【Vanish】.
Um murmúrio baixo.
Quando a luz sagrada da poderosa magia de afinidade luz, disparada sem sequer encantamento, encheu o salão, os inúmeros mortos-vivos — os wraiths que espalhavam coro de rancor tentando arrastar os vivos para o seu lado, os living armors possuídos por ódio, os living deads imundos — foram purificados num piscar de olhos e sumiram sem deixar um grão de poeira.
Sumidos os mortos-vivos, no ar sereno, Tida não deixava transparecer nem um traço do ar frouxo de sempre: encarava uma das colunas do salão.
— Ei, você aí. Que tal aparecer de uma vez?
Ao chamado de Tida, depois de um instante, uma silhueta saiu de trás da coluna. Pelo corpo dava para ver que era mulher, mas o capuz escondia o rosto.
— …………Desde quando você percebeu?
— Você vem nos seguindo desde o décimo andar, viu. Todas devem ter percebido.
— …Entendo. Ainda me falta muito.
— E então? Quem é você? A anomalia dos monstros da masmorra é obra sua, não é?
— Ora, será?
— Bem, eu não esperava resposta sincera, viu. No mínimo é uma necromante contratada, imagino. Contratada por quem?
— Sei lá.
— Ufa, claro que você não ia dizer. É aquele clérigo safado que eu moí de pancada mês passado? Ou sobra da seita herética que eu esmaguei ano passado?
— …………Do que você está falando?
— Hm? Você não veio atrás de mim por encomenda de alguém que eu castiguei?
— Não entendo o que você está dizendo. De todo modo, se atrapalhar meu caminho, eu elimino você, irmã.
— Hã?
Diante da resposta da mulher, Tida arregalou os olhos.
— Você não é assassina contratada contra mim?
— Você não tem nada a ver. Só não atrapalhe.
— ……………………Ahh, e-então vamos combinar que não houve nada entre nós.
— Sinto muito, mas, tendo visto meu rosto, não posso deixar você voltar viva. Entende, não?
— Pois é, né…
Do chão sob os pés de uma Tida que baixava a cabeça em desânimo, um braço rompeu a terra e se ergueu.
— Opa?!
Tida saltou para trás por reflexo e, do chão, living deads foram rastejando para fora, um atrás do outro.
— Você não escapa.
A mulher girou o braço e surgiram também wraiths.
— De novo essa enxurrada… é sempre assim com necromante…
— Reclamar? Que tranquilidade a sua.
— É que eu estou tranquila mesmo. A proteção da deusa em mim é absurda. Por mais que os mortos-vivos se juntem, não me vencem. Você deu azar na compatibilidade.
— …………Matem-na!
Ao comando da mulher, os mortos-vivos se lançaram todos ao mesmo tempo sobre Tida. Mas, mesmo diante de uma horda que enchia o campo de visão, não se via nela a menor pressa.
— Eu já disse que é inútil. Morto-vivo não me vence. 【Vanish】.
Terceira magia superior do dia, e Tida não dava sinal de cansaço; a magia funcionou normalmente e apagou a parede de mortos-vivos à sua frente.
E então…………
— O quê?!
Do outro lado da parede de mortos-vivos.
Atrás dos que sumiram havia outro inimigo à espera. Usando os mortos como cortina, avançava sobre Tida uma criatura repugnante com espadas e lanças de brilho afiado.
Eram hobgoblins.
Diferentes dos goblins, do tamanho de uma criança humana. São monstros de porte comparável ao de um adulto, com musculatura de nascença. E as armas nas mãos não eram os produtos de saque que um hobgoblin qualquer carrega. Sem ferrugem nem trinca, com manutenção em dia.
Além disso, os hobgoblins cobriam mutuamente os pontos cegos e avançavam coordenados sobre Tida. Movimento claramente treinado.
As espadas e as lanças dos hobgoblins rasgaram o hábito de Tida e abriram a carne.
Sangue jorrou e, em pouquíssimo tempo, formou-se uma poça sob os pés dela.
— Guh… vo-você… não é… necromante… guh… é… mestra de monstros?
— Correto. Mais precisamente, necromante e mestra de monstros. Eu sou «Escorpião» — Escorpião, a titereira.
Dizendo isso, a mulher tirou o capuz.
Era uma jovem de pele morena, olhos dourados e cabelos negros de ondas suaves.
— Adeus, irmã cujo nome eu não sei.
Quando Escorpião desviou o olhar de Tida e deu um passo na direção por onde Ellie e as outras tinham ido, soou um assobio que rasgou o ar.
— É «Tida», viu.
— Hã?
— Igreja de Ibris, Grande Templo: Tildania Nautilus. Pode me chamar de Tida.
Escorpião se virou para Tida, empalada pelos hobgoblins.
Não era possível falar com aquela tranquilidade depois de ferimentos daquele tamanho.
Então por quê…
Foi o que ela pensou; e, no instante em que seu olhar encontrou, por entre os corpos dos hobgoblins, os olhos de Tida, os corpos deles desabaram.
Não — a descrição não é exata.
O que desabou foi a parte superior dos hobgoblins. Cortados no tronco por uma lâmina afiadíssima, apenas a metade de cima caiu ao chão.
Quem fez aquilo foi uma foice grande.
O hábito rasgado, o sangue infiltrado.
Mas na pele não havia um único ferimento — e o que Tida segurava era uma foice inteiramente branca, do cabo à lâmina.
— Artefato divino: 【Harvest】.
Tida girou algumas vezes a foice gerada e a apoiou no ombro.
Escorpião mostrou surpresa ao descobrir que Tida usava artefato divino, mas logo passou a observar com frieza. Os golpes dos hobgoblins atravessaram de fato o corpo dela. Só que agora, embora a roupa estivesse rasgada e houvesse marcas de sangue, não havia ferimento algum; somando ao fato de Tida ter aptidão de afinidade luz, concluiu que o poder do artefato era de tipo curativo.
Escorpião assobiou com os dedos e os hobgoblins escondidos atrás das colunas de pedra vieram em bando e formaram fileira diante dela. E, quando estalou os dedos, do chão surgiram living deads e esqueletos, e ghosts e wraiths atravessaram paredes e teto: num instante, o espaço amplo transbordou de monstros.
— Por maior que seja a capacidade de cura e a magia de luz, você não dá conta desse volume, não é?
— Será? Experimente e a gente descobre.

Diante de uma força capaz de tomar uma cidade pequena numa noite, Tida apenas deu de ombros e sorriu, audaciosa. Escorpião estreitou os olhos e girou a mão: com os mortos-vivos à frente, o exército de monstros se atirou sobre Tida.
Trocando o sorriso travesso de sempre por um sorriso feroz, ela brandiu a foice em todas as direções — de través, de baixo para cima, de cima para baixo. Os mortos-vivos cortados pela foice se dissolviam, e os hobgoblins eram partidos junto com a armadura com que se defendiam. E, a cada monstro cortado, a velocidade e a força dos golpes de Tida aumentavam. E, ainda por cima, os ferimentos que recebia se curavam de imediato — Escorpião se espantou.
— Impossível!
Ela invocou mais mortos-vivos, mas Tida os apagou com uma única magia de luz e, longe de perder velocidade, acelerou ainda mais, abatendo os monstros que barravam o caminho e avançando sobre Escorpião.
O poder do artefato divino de Tida, o 【Harvest】, é a absorção de poder mágico. Cortando coisas e criaturas com poder mágico, ela o absorve e o usa em cura e em reforço próprio. Contra alguém assim, Escorpião — cuja tática básica é a pressão pelo número — tinha compatibilidade péssima.
Percebendo que não conseguiria deter Tida, Escorpião tirou um pergaminho do peito; ao ver aquilo, Tida cobriu a distância com um impulso que fez o chão explodir sob seus pés.
— Você não escapa!
Girou a foice e desferiu um golpe de baixo para cima, como quem colhe.
— Guh!
Sangue voou e o braço que segurava o pergaminho foi decepado no ombro; mas Escorpião estendeu o braço restante e arrancou o pergaminho do próprio braço.
— 【Gate】.
Tida girou a foice na direção de Escorpião, envolta em luz. Só que a transferência foi um triz mais rápida, e a figura dela se apagou.
— Escapou… mas eu senti que acertei, viu.
Com a foice branca no ombro, Tida lançou um olhar à poça de sangue nada pequena e ao braço decepado que ficaram no lugar de onde Escorpião desaparecera.
◇
A foice que vinha sobre mim foi desviada pelo 【Period】 de Yuu, que se meteu de lado. Na brecha, carreguei de poder mágico o 【Grimoire Beelzebub】 que eu segurava com uma das mãos e disparei magia.
— 【Fire Lance】. 【Thunder Rain】. 【Light Slash】.
Uma chama rubra virou lança e trespassou a carapaça rígida do monstro-inseto, queimando-o por dentro; sobre o bando de werewolves desabou um trovão estrondoso. E uma lâmina enorme feita de luz rasgou fundo o ombro de um giant orc.
Elsa, posicionada de costas para mim, foi cercada por um grupo de kobolds com equipamento estranhamente bom.
— Rá!
Elsa entrou no bando num único passo, manteve o corpo baixo e, girando sobre uma perna, desferiu um golpe com a 【Fenice Spada】 que partiu o grupo inteiro ao meio.
— Kishááá!
Yuka girou o 【Period】 com precisão e decepou a foice direita do great mantis, emendando na hora uma sequência de golpes. Ao meu lado, Elsa se aproximou sacudindo o sangue da lâmina, já tendo liquidado os kobolds.
— É estranho.
— É. Há coordenação demais. Não há como monstros selvagens de espécies diferentes se articularem assim.
— Será mesmo aquela pessoa que nos seguia desde o décimo andar?
— Deve ser. Provavelmente algum tipo de mestre de monstros. Tomara que a Tida dê conta…
— Ellie! Elsa! Um passou!
Olhei na direção da voz de Yuu: um monstro em forma de tigre, coberto por uma carapaça que parecia armadura, corria na nossa direção.
— É um iron tiger. Bicho chato.
— Elsa, me cubra um instante.
— Deixa comigo.
Elsa avançou e eu acionei o artefato divino.
— Artefato divino: 【Grimoire Mammon】.
Desfiz o 【Grimoire Beelzebub】 e troquei pelo 【Grimoire Mammon】. Folheei depressa e retirei o que estava guardado. Desembainhei a Flügel, tomei o lugar de Elsa e retalhei o tal iron tiger. A carapaça robusta dele não é capaz de deter o fio da Flügel.
— Esse corte continua assustador.
— E, na mesma medida, é difícil de manejar.
Respondi dando de ombros.
— Não serve para aventureiro… hm?
Sentindo um poder mágico forte, que fazia a pele arder, Elsa e eu saltamos dali. O ponto em que estávamos até um instante antes explodiu com estrondo. Terra levantada choveu com barulho de temporal. Segui com o olhar o chão escavado e ali havia uma criatura com aparência de espécie dracônica. Escamas vermelhas, pernas robustas, garras afiadas e cauda grossa: é um fire drake. Mas diferente dos fire drakes que conheço. Em vários pontos do corpo brotavam protuberâncias que pareciam cristais e emitiam uma luz estranha.
— Parece um fire drake, mas… que cristais são esses?
Elsa se pôs em guarda com a espada e Yuu veio correndo, varrendo os monstros pelo caminho.
Observando aquele fire drake esquisito, senti algo fora de lugar.
— …Ele é meio deformado.
O poder mágico que o envolve é antinatural. A natureza do poder emitido muda conforme a parte do corpo. O próprio poder mágico dele se repele, e isso cria aquela aura anômala.
— Será variante?
— Deve ser. A espécie de origem parece fire drake; impressiona uma variante tão deformada ter chegado à idade adulta.
Em geral, monstro com anomalia desse tipo é eliminado logo ao nascer. Crescer normalmente é quase impossível. Como não parece monstro nascido nesta masmorra, será que quem armou esta anomalia toda o trouxe para cá?
O fire drake, desnorteado pela própria distorção mágica, não se articulava com os outros monstros: atacava sem distinção tudo o que estivesse por perto. Pisoteou um desert viper que mostrava as presas a Yuu, matou à mordida um rock bison que ia saltar sobre Elsa e então, tendo aparentemente me escolhido como alvo, começou a juntar poder mágico junto à boca.
— Vem sopro!
Com a voz de Elsa alertando às minhas costas, usei magia por reflexo.
— 【Ice Wall】.
Uma parede grossa de gelo se interpôs entre mim e o fire drake. De novo um estrondo sacudiu a masmorra, e a parede de gelo recebeu o sopro de fogo. Só que o sopro carregava poder mágico de fogo poderosíssimo, e minha 【Ice Wall】 ia evaporando a olhos vistos.
— Recue, Ellie!
Troquei de posição com Elsa. No instante em que a parede de gelo se partiu, Elsa baixou a 【Fenice Spada】 e cortou o sopro do fire drake em dois.
Cortar o sopro de uma espécie dracônica, que é massa de poder mágico de alta densidade — como se esperaria de uma aventureira rank A com alcunha.
No instante em que o sopro cessou, Elsa cobriu a distância num passo e desferiu um golpe. Fechou o movimento da 【Fenice Spada】 sobre o braço do fire drake, mas o ferimento saiu superficial.
— Argh, ele é duro.
— 【Ice Lance】.
No mesmo instante em que Elsa se afastou, disparei a lança de gelo. Também ela foi barrada pelas escamas duras como aço. Ainda assim serve para distrair. No momento em que a atenção dele se desviou, Yuu entrou pelo ponto cego, girou meio corpo apoiada na perna direita e cravou na perna do fire drake o machado negro carregado pela força centrífuga.
Talvez pelo poder do artefato divino dela, a potência foi maior do que aparentava: o fire drake voou com as escamas rasgadas e se estatelou contra a parede de pedra da masmorra.
— Eu queria ter decepado a perna, mas… ele parece ter defesa bem mais alta que a de um fire drake comum.
— É. E olhe ali.
Elsa apontou com o queixo o braço do fire drake. O ferimento que ela abrira já tinha parado de sangrar.
— A regeneração também é alta.
— Coisa chata.
Cambaleando com o golpe de Yuu, o fire drake nos ameaçou e liberou poder mágico por todos os cristais do corpo.
— O que é isso?
— Não sei, mas é melhor se afastar.
Alertadas por aquele comportamento que um fire drake comum não tem, tomamos distância e observamos: o poder mágico liberado pelos cristais se condensou por um instante e chamas correram em ondas.
Disparei espinhos de gelo contra as chamas que avançavam como maremoto e, quando o ímpeto enfraqueceu, mergulhei protegendo o corpo com poder mágico. Elsa e Yuu também escaparam do fogo do mesmo jeito; os poucos monstros que restavam e não conseguiram fazê-lo morreram queimados. Olhando, boa parte dos corpos estava carbonizada. Talvez não seja fogo comum.
— Aquele fogo dos cristais parece perigoso.
— É combustão por poder mágico de afinidade fogo. Recebendo de cheio, a gente é consumida em questão de segundos.
— Tanto o sopro quanto o fogo dos cristais têm preparação longa. Eu travo o movimento dele e nós atacamos de uma vez! 【Ice Prison】!
Do chão que toquei correu um ar gelado e o gelo envolveu o fire drake a partir das patas.
Elsa passou correndo ao meu lado e foi golpeando, uma após a outra, as articulações de escama fina, e Yuu ergueu bem alto o 【Period】.
Quando Yuu concentrou poder mágico na lâmina do machado, o poder comprimido emitiu luz. Impressiona conseguir manejar tanto poder mágico já tendo gerado o artefato divino.
— 【Dankoku】.
Yuu baixou o machado. A lâmina envolta em poder mágico, deixando um rastro de luz negra, partiu escamas e cristais e rasgou fundo do tronco à perna. Na brecha em que ele apoiou um joelho, Elsa ia avançar, mas o fire drake soltou um rugido e girou, atirando o corpo, e varreu a cauda grossa. Um golpe capaz de virar qualquer humano em carne moída. Da lâmina da 【Fenice Spada】 que Elsa segurava irrompeu uma chama azulada. O poder do artefato dela é o reforço corporal que cresce quanto mais ela é encurralada. O corte poderoso decepou a cauda do fire drake num único golpe. Sem a cauda, perdeu o equilíbrio e, somando o ferimento da perna, tombou fazendo o chão retumbar.
No instante em que Elsa e Yuu se afastaram, aproximei-me com a Flügel na mão e desferi o golpe para acabar com ele. A lâmina, fina e afiada ao extremo, cortou sem resistência alguma as escamas de espécie dracônica e os cristais estranhos, rasgou a carne — e eu levei o braço até o fim.
— O quê?!
Por um instante, houve um impacto. Olhei a lâmina da Flügel: despedaçada.
Não cortou. O fio da lâmina não desviou nem um pouco. Então por quê… existe ali algo que nem mesmo a Flügel consegue cortar?
— Ellie!
— Ellie!
Foi um intervalo mínimo, mas eu vacilei. Quando as vozes de Elsa e Yuu me trouxeram de volta, na boca escancarada do fire drake diante de mim já se juntava um poder mágico imenso.
— Argh!
Concentrei poder mágico nos braços para ao menos me defender um pouco. Com um impacto que fez o ar tremer, o sopro foi disparado; cerrei os dentes tentando aguentar a dor — e o ataque foi barrado por Elsa, que se atirou à minha frente para me proteger. A onda de calor do sopro queimava a pele dela, mas ela aguentava com a defesa elevada pelo forte reforço corporal do artefato divino.
— Elsa!
— Recue, Ellie!
Quando saí da linha do sopro, Yuu golpeou de baixo para cima, com o machado, o maxilar inferior do fire drake, que estava parado para disparar — e interrompeu o sopro.
— 【Heal】.
Gerei o 【Grimoire Beelzebub】, apliquei magia de cura em Elsa e disparei magias superiores em sequência.
— 【Light Pillar】. 【Storm Slash】.
Uma coluna de luz trespassou a espécie dracônica e incontáveis lâminas de vento rasgaram seu corpo.
— Gruaaaah!
O fire drake se feriu, mas o sangramento já parara, e o corte grande que Yuu abrira e o ferimento da cauda decepada por Elsa estavam sendo fechados pelos cristais.
— Elsa, Yuu. Podem me dar um tempo curto?
— Tem alguma carta na manga?
— Vou derrubá-lo de uma vez com uma magia do mais alto nível.
Usar uma magia do mais alto nível com potência plena exige recitar o encantamento. Disse isso resumidamente e Elsa assentiu.
— Entendido. Yuu, dá para segurar?
— Dá!
Deixei o fire drake com Elsa e Yuu e comecei a recitar. Como que para me interromper, os cristais liberaram poder mágico de novo e as chamas correram — mas Elsa e Yuu barraram também aquilo. Já comandei soldados e lutei com subordinadas como Mireille, mas lutar assim, ao lado de companheiras de igual para igual, não é nada mau. Percebi que os cantos da minha boca subiam sozinhos enquanto eu completava a magia.
— Torre branca erguida na tundra; o lamento dos cativos também se dissolve e some no mar branco; até a saudade termina em vão; quem reina sobre esse jardim recortado é a estagnação sem fim e o vazio. 【Niflheim】.
Esta magia não congela o alvo baixando a temperatura ou lançando frio sobre ele. É a magia que isola o espaço em torno do alvo e o congela junto. Mesmo tendo alto poder mágico de afinidade fogo, o fire drake foi congelando a partir dos ferimentos e, em poucos segundos, parou de se mover e congelou até o âmago.
— 【Break Statue】.
Em seguida disparei a magia que despedaça o alvo congelado. O fire drake já devia estar morto, mas trata-se de uma variante nunca vista. Reforçar demais a garantia não existe. Ouvindo o som das rachaduras e do estilhaçamento do fire drake congelado, apoiei um joelho no chão.
— Ellie!
— Só usei poder mágico demais de uma vez. Um pouco de descanso e passa. E você, Elsa, o ferimento do sopro está bem?
— Está. O reforço corporal do meu artefato eleva também a autocura. Com a magia de cura que você aplicou, os ferimentos fecharam por completo.
Naquele momento eu não tinha folga e só consegui usar o 【Heal】 mais básico, mas parece que bastou.
Repeti algumas respirações fundas e, passada a vertigem, levantei-me com a ajuda da mão de Elsa — e ouvi a voz confusa de Yuu.
— Ahn… o que é aquilo?
Diante daquilo, Elsa e eu seguimos o olhar de Yuu: no lugar onde o fire drake se despedaçara havia uma esfera grande. A esfera, do mesmo material dos cristais que brotavam no corpo dele, não tinha um arranhão nem uma mancha, apesar de ter recebido magia de congelamento e fragmentação do mais alto nível. Será que a Flügel se partiu por ter batido nesta esfera de cristal? Mas o que de fato nos confundiu foi o conteúdo dela.
— U-uma… menina?
Dentro do cristal havia uma menina encolhida, abraçando os próprios joelhos. A idade não deve chegar aos dez anos. Parece mais nova do que Lunoa quando a conheci.

— O que é… o que está acontecendo?
Quando Elsa murmurou, ouviu-se um estalo. Olhando, a esfera que continha a menina estava rachada. A rachadura foi se alastrando e, quando cobriu a esfera inteira, ela se estilhaçou com um som surpreendentemente leve. Os cacos se dissolveram no ar e sumiram, e restou apenas a menina. Enquanto Elsa e Yuu prendiam a respiração em guarda, aproximei-me com cuidado e a ergui nos braços.
O corpo da menina estava quente e o peito subia e descia. Parece viva. Cobri o corpo nu dela com o manto que eu vestia e ajeitei o cabelo que lhe caía sobre o rosto. Cabelos dourados a ponto de dar a ilusão de emitir luz; feições harmoniosas, mas em que a infância faz sobressair a graça, mais do que a beleza.
— Hm?
Então a menina se mexeu e abriu os olhos devagar. Que bonito — foi só o que pensei. O olho direito dela é vermelho, como se refletisse o pôr do sol; o esquerdo é azul, como se tivesse um céu imenso encaixado dentro.
— Isso é possível?
— Claro que não.
— Então esta menina é o quê?
Enquanto nos entreolhávamos torcendo o pescoço, a menina olhou o rosto de cada uma de nós, encontrou meus olhos e abriu a boca.
— …Mamãe?
Depois de murmurar aquilo, antes que perguntássemos qualquer coisa, ela fechou os olhos e começou a respirar em sono.
— E-e agora?
— Como assim? Não dá para deixar do jeito que está.
Não dá para largar uma menina pequena numa masmorra. Envolvi a menina adormecida no manto e a peguei no colo.
Sentamo-nos longe dos corpos dos monstros para descansar.
A menina não acordava e isso me preocupava um pouco, mas Yuu a examinou e disse que ela apenas dorme e que o estado de saúde está bem. Fizemos uma fogueira para que ela não sentisse frio e, enquanto descansávamos, Tida nos alcançou.
— Aaai, que sufoco, viu… ué, quem é essa criança?!
Dei de ombros para uma Tida espantada com a menina.
— É uma história longa… na verdade não é, mas nem nós entendemos direito.
Quando explicamos a situação absurda em que encontramos a menina, Tida ficou entre acreditar e não acreditar.
— Sair de dentro de um monstro? Isso é possível, viu?
— Eu diria que não é, mas aconteceu diante dos nossos olhos.
— O mundo tem muita coisa que a gente não conhece.
As duas aventureiras aceitaram o fenômeno estranho com uma rapidez notável.
Eu queria entender o motivo de a menina ter saído de dentro de um monstro, mas há uma urgência maior agora, então ficou para depois. Em seguida ouvimos o relato de Tida, que contou os próprios feitos com gestos largos.
— …E aí eu peguei o exército de monstros que aquela tal de Escorpião invocou e fui arrancando e jogando, arrancando e jogando…
— E ela escapou.
— Ai… bem, eu decepei o braço dela, e no instante da transferência ainda senti que acertei — então é vitória minha por decisão dos juízes, viu.
— Tudo bem. Mas então: pergaminho de transferência.
— Se não me engano, o bando mercenário do conflito com Sarjas também usou pergaminho de transferência.
— Sim. Um bando mercenário sem identidade e uma necromante que trouxe um monstro com uma menina dentro de um cristal no corpo — que coincidência é essa de os dois terem pergaminho de transferência, que é raro?
Pela situação, quem levou o ciclope e a variante de fire drake à masmorra e soltou o king poison slime na capital deve ser essa tal de Escorpião. E, se essa Escorpião tem ligação com o bando mercenário que agia nos bastidores daquele conflito, o objetivo seria… o mais provável é terrorismo contra o Império, ou alguma manobra de distração. Quando eu voltar, é melhor investigar.
Não sei qual é o objetivo, mas já há mortos, e não poucos. E, acima de tudo, preciso retribuir o que fizeram com Mireille e as outras. Vou investigar isso também.
Bebi a poção de recuperação de poder mágico que Yuu me deu e, com o poder já razoavelmente recuperado, encerramos o descanso e avançamos rumo ao veio de minério de emaya. Eu levava a menina adormecida nas costas, e Yuu e Tida guardavam o entorno.
— Ellie, está perto.
A voz de Elsa trouxe meu pensamento de volta. Assim não pode. Ainda estamos dentro da masmorra, zona perigosa em que a falta de concentração custa a vida.
Quando me recompus, uma parede rochosa apareceu à frente.
— Achamos! Aquele é o veio de minério de emaya!
O veio, espalhado por toda a parede, estava praticamente intocado. Em condições normais ninguém mexe nele, pelo baixo valor e pelo trabalho de transporte.
— Eu e a Elsa extraímos o volume necessário; então, Ellie, cuide da criança, e a senhorita Tida vigia o entorno, por favor.
— Certo.
— Entendido, viu!
Enquanto Tida e eu nos afastávamos um pouco para vigiar a entrada do corredor do veio contra monstros, Yuu e Elsa tiraram picaretas e começaram a extrair o minério com vigor. Por cerca de uma hora — talvez porque Tida tenha afugentado a mestra de monstros —, ao contrário do caminho, não apareceu monstro algum. Então nos chamaram e, ao chegar até Yuu e Elsa, havia ali várias pilhas de minério de emaya empilhadas a muitas vezes a minha altura. Como se esperaria de aventureiras rank A: mesmo tendo extraído tudo aquilo, nenhuma das duas estava sequer ofegante.
— Com isto deve dar.
— Ellie, por favor.
— Certo. Artefato divino: 【Grimoire Mammon】.
Passei a menina a Tida e acionei o artefato. Fiquei um pouco insegura sobre conseguir guardar todo aquele minério, mas — talvez graças ao contrato mágico que deixou a propriedade explícita — coube sem problema.
— Uau… é impressionante mesmo. Entrou tudo.
— Que poder prático. O meu não serve para nada além de combate; que inveja.
— Hmm… bem usado, dá para ganhar dinheiro sem limite, viu. …………Será que eu também consigo um artefato assim…
— Sim, sim; o serviço acabou, vamos voltar depressa.
Desfiz o artefato divino, recebi a criança de volta das mãos de Tida e apressei a partida.
◆
A capital imperial do Império Reki, no continente meridional.
No bairro plebeu, de construções com telhado de tábua, uma jovem conversava com alguns homens. Uma jovem bonita, de cabelos negros até a cintura. Tem quinze anos e há pouco atingiu a maioridade, mas neste país a tomam por mais velha. Cabelo e olhos negros são comuns no continente meridional, mas seus traços marcados e definidos e os olhos verdes contam que há sangue estrangeiro nela.
— …E é por isso que quem anda desviando o dinheiro da loja deve ser o gerente, Maren.
— O-o quê?!
— Eu sabia que era ele!
— Se o que vocês contaram é verdade, não há outra explicação.
— Entendido. Vamos levar isso ao magistrado e pedir que investiguem!
— Obrigado, mocinha. As moedas de prata combinadas.
— Sempre às ordeeens.
A jovem recebeu as moedas dos homens e as guardou no peito.
— Senhorita Adel!
— Maolan?
Depois que os homens se foram, de trás de uma árvore apareceu uma mulher um pouco mais velha que a jovem. Com um ar de quem vive se preocupando, correu até a jovem que chamara de Adel.
— O que houve, tanta pressa?
— Como não?! Já disse várias vezes: pare de escapulir sozinha!
— Desculpe, desculpe. Mas comigo não tem problema.
— Mesmo que não tenha para a senhorita, para nós é gravíssimo!
— T-tudo bem, tudo bem; a Maolan é preocupada demais… E, além disso, o combinado era nada de tratamento formal quando estamos na rua.
— Se é para cobrar acordo, a senhorita Adel que cumpra o acordo de me avisar quando sair.
— Ai… f-foi mal, foi mal.
Maolan pareceu se acalmar um pouco e o rosto vermelho de raiva foi baixando.
— Francamente… Ah, e o navio mercante voltou ao porto.
— O navio do capitão Guen?
— Sim.
— Ótimo! Vamos ao porto!
— Capitão Guen!
— Hm? Ó, a mocinha Adel!
— Bem-vindo de volta! E então, como foi?
— Muito bem! Graças a esse “chucrute” que a mocinha me ensinou, desta vez também não morreu ninguém! Os comerciantes do continente central ficaram espantados. E aqui: os livros que você encomendou.
— Obrigada!
Adel pagou, recebeu os livros, despediu-se do capitão Guen e pegou o caminho de volta com Maolan. Depois de andar um pouco, num trecho de pouco movimento, subiram numa carruagem que aguardava — providenciada pela sempre atenta Maolan.
— Então é como a senhorita Adel dizia: a doença dos marujos dá para prevenir com a alimentação.
— É. Mas eu só juntei conhecimento e cheguei à resposta combinando as peças. Impressionantes são os pesquisadores que descobriram cada uma delas.
Conversando nisso, a carruagem atravessou o bairro plebeu e ultrapassou também o bairro nobre. O destino era a área chamada bairro imperial, domínio da pessoa mais alta deste país. Passaram direto por um portão de vigilância cerrada e chegaram a um palácio num canto do bairro imperial. As duas desceram e entraram com naturalidade.
— Adel.
Enquanto caminhava rumo aos próprios aposentos por um corredor de colunas vermelhas de ornamentação delicada, alguém a deteve. Não são muitas as pessoas com posição para fazer isso neste palácio. O imperador e o príncipe herdeiro deste país poderiam, mas este palácio é área privativa concedida a Adel. É difícil imaginar o imperador aparecendo sem aviso. Maolan, sua dama de companhia, preceptora e amiga, é uma das poucas pessoas que se dirigem a Adel sem formalidade — mas não é gente que cometeria a descortesia de deter a senhora num lugar com tanta gente. E, de todo modo, ela caminha ao lado. Então a possibilidade se reduz a uma.
— Minha mãe.
Adel se virou e ali estava, como previsto, uma mulher sedutora de cabelos e olhos negros.
— Escapuliu de novo.
— Ai…
— Francamente… desculpe o trabalho, Maolan.
— Perdoe-me, Senhora Gyokuryou. É falha minha…
A mãe de Adel, Gyokuryou, conteve com um gesto de mão a demonstração de desculpas de Maolan, que se prostrara assim que ela apareceu.
— Não precisa se desculpar. Sei que você tenta impedir com todo o empenho. Obrigada.
— São palavras generosas demais.
Adel ouvia com evidente desconforto aquela conversa entre a mãe e a dama de companhia; mas, ao ver o que lhe estendiam, inclinou a cabeça.
— Minha mãe, o que é isto?
— Uma carta que chegou para você.
— Uma carta?
E Adel recebeu, intrigada, a carta que a mãe lhe estendia.
◇
— Senhorita Ellie, trouxe café.
— Obrigada, Mireille.
Recebi o café que Mireille preparou. Assim que voltamos da masmorra, o Império mobilizou boticários e alquimistas para começar a preparar o antídoto; o antídoto chegou aos doentes e, como resultado da investigação, o caso da variante do king poison slime foi divulgado. Pela situação, é bem provável que aquele king poison slime também seja obra da tal Escorpião com quem Tida se deparou. Não se divulgou ao público, mas a cúpula do Império investiga a hipótese de terrorismo de outro país contra a capital. Eu também contratei gente por conta própria para investigar, mas até agora não veio informação relevante.
Tida, ao sair da masmorra, ficou na cidade de Dordo. Eu disse que, se voltasse à capital, o Império lhe daria ao menos uma recompensa, mas ela recusou com uma desculpa altamente suspeita: “Que nada, que nada! Lugar público é probl… digo, eu só fiz o que qualquer serva dos deuses faria! Já recebi pagamento de sobra! Então guardem segredo a meu respeito! Por favor! Eu sou uma irmã bela e discreta, viu!” — e nos despedimos na Guilda dos Aventureiros. Ela disse que volta à capital depois que a venda do material do ciclope, encarregada ao «Caminho da Luz», for concluída e ela receber o dinheiro.
E, quanto à menina misteriosa que saiu de dentro do fire drake… passos leves ecoaram pelo corredor e a porta do gabinete se abriu com ímpeto.
— Mamãe!
Uma menina miúda, os cabelos dourados esvoaçando, entrou correndo no quarto e se agarrou a mim.
— Alice. Ao entrar num cômodo é preciso bater.
— Desculpa.
Enquanto eu afagava sua cabeça e a repreendia, ela se desculpou com a voz alegre. É a menina que apareceu de dentro da esfera de cristal que saiu daquele fire drake. Por alguma razão me chama de “mamãe” e, se eu me afasto, chora aos berros; então, depois de muita idas e vindas, acabei ficando com ela.
Nisso pesa também minha própria intenção: hesitei em deixar aos cuidados de terceiros uma menina ainda cercada de tanto mistério. Assim, dei à menina — que dizia não ter nome — o nome de «Alice» e resolvi mantê-la por perto. E, atrás de Alice, Misha pôs o rosto para dentro.
— O que houve?
— É que… posso brincar no jardim com a irmã Misha?
— Pode, sim. Mas não saia do portão. Misha, cuide dela.
— Às suas ordens. Vamos, Senhorita Alice?
— Vamos!
Alice puxou Misha pela mão e foi para o jardim.
— A casa ficou animada de repente.
— Pois é. Bem, isso também não é nada mau.
Conversando amenidades com Mireille enquanto virava páginas, parei ao encontrar o que procurava. O que eu consultava era um documento antigo guardado no Reino de Haldoria e registrado no 【Grimoire Lucifer】. O fruto chamado cacau que encontrei na masmorra me parecia familiar — e era neste documento que eu o tinha visto.
— É o modo de usar o fruto que a Senhorita Ellie trouxe?
— Sim, veja. Ao que parece, secando e fermentando, e acrescentando açúcar e manteiga, dá para fazer um doce.
— Um doce?
— Sim, restou a receita do cozinheiro particular de um nobre do antigo reino. Consta que era um doce muito popular. E, além disso, serve para uma porção de usos, a começar por biscoitos e bolos.
— Isso… bem conduzido, promete lucro considerável.
— Promete. Primeiro, protótipos. E mais: mande contatar a Guilda dos Aventureiros da cidade de Dordo e emita, em meu nome, uma encomenda nominal ao grupo «Caminho da Luz». Se aceitarem, firme sigilo por contrato mágico. Como as plantas dentro da masmorra se reproduzem depressa, não vai faltar; mas, até nossa companhia consolidar o negócio, não podem nos copiar.
— Às suas ordens. Faço a encomenda à guilda e reúno cozinheiros de boca fechada.
— Por favor. E chame também, entre os comerciantes que fugiram do reino, gente que entenda do ramo de cafés. Se conseguirmos consolidar isto como sobremesa, dá para usar como arma e abrir uma rede de casas de refeição leve.
— Sim, providencio com urgência.
◆
Informada pelo encarregado da embaixada imperial de que o alvoroço da epidemia na capital do Império era veneno de king poison slime, Roselia mal teve tempo de se tranquilizar: trabalhando no gabinete, ao ver o relatório de arrecadação que um subordinado trouxe, sentiu o sangue fugir do corpo.
O relatório consolida a arrecadação das grandes companhias, as de capital acima de certo patamar — e o valor caíra muito em relação ao exercício anterior.
— O que é isto?! Por que a arrecadação caiu tanto?!
— Há algo de errado? De fato caiu, mas não estaria dentro da margem de oscilação conforme a economia?
Em condições normais este trabalho não é repassado ao príncipe herdeiro; foi parar ali por causa da correria com as catástrofes de monstros. Por isso não é de espantar que o subordinado não perceba.
Pensando assim, Roselia explicou de modo que ele entendesse.
— Isso vale para companhias de porte pequeno e médio. Numa companhia deste porte é impensável a arrecadação cair tanto… Não me diga! Você, vá agora mesmo à Guilda Comercial e traga o registro das companhias desta lista!
— Hã? S-sim!
O subordinado saiu apressado e voltou cerca de meia hora depois. Lívido, estendeu documentos em que boa parte das grandes companhias, que deveriam constar como «matriz na capital do reino», aparecia como «filial na capital do reino». Mantendo prédios e operações na capital, apenas a matriz foi transferida para outro país. E constava ainda que muitos dos artesãos e alquimistas ligados a essas companhias deixaram a capital em remanejamento.
— O que está acontecendo? Como tantas companhias transferem a matriz sem que chegue relatório?!
— É que houve alguém que intermediou a transferência das matrizes, dizendo que, mudando a matriz para determinado país, obteriam facilidades na pesquisa e na venda de um material raro…
— Material raro?
— Aquassilk, ao que parece.
— O quê?!
Material raro que só raramente aparece em ruínas antigas ou masmorras. Para artesãos e alquimistas é, de fato, material desejado com todas as forças; e um comerciante que soubesse negociá-lo bem obteria lucro imenso. Mudar apenas a matriz, para a companhia, significa só trocar a quem se paga tributo — não é golpe grave.
— Mas tantas companhias engoliram a possibilidade de cair em desgraça com o reino e aceitaram a proposta?
Se fossem uns trinta por cento, não seria estranho apostarem no aquasilk mesmo azedando a relação com o reino; mas cerca de oitenta por cento se mexeram. Deveria haver muitos avessos a risco.
— É que… ao que parece o intermediário portava uma carta de recomendação de Sua Alteza Friede.
— …?!
Fomos pegos! De fato quem emite a carta de recomendação não tem responsabilidade. Só que, no caso desta transferência de matriz, não há ilegalidade nenhuma: é questão de dever moral. Sair sem aviso do reino em que se tinha assento faria a relação azedar, e paciência; mas, se quem intermediou portava carta do príncipe herdeiro, moralmente também não há o que apontar.
— Encontre esse intermediário agora mesmo e recompre a carta daquele idiota! Autorizo até o triplo do que Sua Alteza Friede recebeu!
— S-sim! Ahn, e se, mesmo por esse valor, ele não abrir mão da carta…
— …Vamos ter de usar um meio que eu preferiria não usar.
O subordinado, lívido, saiu em passo apressado.
◇
— Senhorita Ellie. A Senhorita Roselia parece ter percebido o caso das companhias do reino.
Mireille relatou depois de tirar a carta do pássaro e lê-la.
— Certo. Então vamos vender pelo triplo do que ele pagou.
— A senhorita permite?
— Se eu não fizer isso, ela é capaz de mandar assassinar para reaver.
— A Senhorita Roselia usaria um meio desses?
— Usaria. “Não poder usar” e “não querer usar” são coisas diferentes. Aquela carta ela não consegue deixar em circulação nem torcendo o próprio princípio.
— Às suas ordens. Faço assim.
Enquanto Mireille redigia as instruções aos agentes no reino, levantei-me porque a hora combinada se aproximava e comecei a me preparar para sair.
— Que delíciaaa.
Tida jogou na boca um dos docinhos dispostos sobre a mesa e soltou um som de admiração. Há vários tipos.
Biscoitos, panquecas, doces com frutas secas e nozes dentro — de tudo. O que existe em todos eles é aquilo que reproduzimos a partir do doce que fazia sucesso no antigo reino: o chamado chocolate. Esse doce, que tem amargor e doçura, guarda um número enorme de possibilidades. O chocolate, concluído depois de meses de protótipos, ainda tem muito o que pesquisar, mas por ora chegou a um nível que permite vender. E temos estoque razoável de cacau.
O «Caminho da Luz» se mostrou melhor do que eu previa e guarda bem o segredo. Por isso, dias atrás, os contratei como aventureiros exclusivos da Companhia Traitre. Encomendamos a eles também uma quantidade fixa de cacau todo mês.
E assim provávamos os protótipos de doces de chocolate com Tida, que voltou à capital em boa hora, e com Alice, Mireille, Lunoa e Misha.
— Está delicioso.
— É doce e gostoso!
— Eu gosto deste com nozes.
— Os menos doces também são bons.
Boa aceitação.
— Isto aqui combinaria com bebida, viu.
— Bebida?
— Sim, meu instinto sussurra! Este doce encorpado tem cara de casar com álcool.
— Entendo… vou passar aos cozinheiros.
— Quando ficar pronto, faço questão de provar, viu.

— Se der certo, tudo bem.
Já criamos dentro da Companhia Traitre um setor de cafés e começamos a garantir pontos e a treinar funcionários.
— Isto promete.
— Promete. Falta servir os protótipos num chá para a nobreza e espalhar o falatório sobre o doce novo — aí está completo.
— Sim, providencio imediatamente.
— Por favor. E mande os cozinheiros prepararem um doce de chocolate para presentear a casa imperial.
Não se preocupe com orçamento; quero o melhor possível.
— Às suas ordens.
E assim o café «Grimoire» abriu as portas sem contratempos.
Fica no distrito comercial, num ponto próximo ao bairro nobre, e parece movimentado com filhas de casas de comércio abastadas e moças da nobreza em passeio incógnito.
— Que bom ver a casa cheia.
— Sim, parece que virou assunto também entre a nobreza.
◇◆☆◆◇
Uma jovem de cabelos vermelhos como fogo, presos num rabo de cavalo, aproxima da boca o microfone que tem na mão direita e lê o texto.
«Naquele momento, no Império daquela época, o quadro completo ainda estava envolto em mistério. Mas foi este episódio que se tornou o começo de um caso enorme, que mais tarde arrastaria muitos países.»
A ruiva projeta a mão esquerda num gesto firme e assume a pose de encerramento.
«Registro Real! História Histórica — assistam também na semana que vem.»
O rosto dela aparece em primeiro plano e ela pisca.
— …………Isso! Cortou. Bom trabalho, Akari.
— Bom trabalho.
— Nossa, desta vez também ficou ótimo.
— Muito obrigada.
— Conto com você na próxima.
— Sim, bom trabalho a todos.
— Até maais.
Cumprimentada a equipe, Akari recebeu o casaco de Marie, sua empresária, e voltou ao camarim. Para Akari, ídolo novata em ascensão, este trabalho era o primeiro como repórter principal — uma tarefa importante. E ainda por cima um programa novo, no horário nobre da emissora pública do principado. Ela encarou a gravação decidida a fazer dar certo de qualquer jeito.
A gravação terminou e a reação do diretor foi boa.
— Ufa.
— Bom trabalho, Akari.
— Obrigada, Marie.
Ao receber o chá de Marie, a barriga de Akari roncou baixinho. Diante de uma Akari que corava de vergonha, Marie abriu um sorriso.
— É que você gravou desde de manhã. Ainda é antes do jantar, mas quer comer alguma coisa leve na volta?
— Pode?
— Pode. Para comemorar o sucesso de hoje… deixa ver, vamos ao «Grimoire»?
— Oba! Uma amiga minha disse que o bolo de chocolate novo é uma delícia!
— Rá-rá, então troque logo de roupa.
E Akari, imaginando o bolo novo daquela casa de chá tradicional, começou a se trocar, animada.