Prólogo

O Reino de Haldoria ostenta uma das histórias mais longas deste continente central. Seu castelo real, desde a mudança da capital há uns seiscentos anos, erguia-se no coração do reino sem jamais ter caído uma única vez. Receber nesse castelo a educação de rainha era o que eu fazia todos os dias depois do instituto. Dito isso, minha educação de rainha já estava concluída, então, sob o nome de estudo, o que eu fazia de fato era despachar os assuntos no lugar de Sua Alteza a rainha, ausente, e de Sua Alteza o príncipe herdeiro, que fugia do trabalho.
Certo dia, quando eu atravessava a passos rápidos um corredor do castelo para comparecer a uma reunião.
— Senhorita. Aquilo ali…
— Ora?
Segui o olhar de Mireille, minha dama de companhia, que franzia o rosto, e descobri duas silhuetas no pátio interno, um andar abaixo. Os dois estavam sentados lado a lado num banco do pátio, encostados um no outro.
— É Sua Alteza Friede. E a outra… será a tal senhorita Sylvia de que tanto se fala?
Eram meu prometido, Sua Alteza Friede Haldoria, príncipe herdeiro, e a senhorita Sylvia Lockit, de quem ultimamente se dizia ser especialmente próxima dele.
— Quem é ela?
— Filha bastarda do barão Lockit, uma jovem dama um ano mais nova do que eu e do que Sua Alteza. Foi acolhida pela casa Lockit há pouco tempo mas, talvez por ter sido criada até agora entre o povo, mantém uma proximidade excessiva com os rapazes; somando isso ao rosto bonito, parece fazer sucesso entre os rapazes levianos e os que não têm nenhuma imunidade a mulheres. Em compensação, os rapazes sérios e as jovens damas a olham de cara feia. Eu não a conheço pessoalmente, mas ultimamente circula pelo instituto o boato de uma relação especialmente íntima com Sua Alteza Friede. Vou ter de chamá-la a um chá qualquer dia desses e adverti-la sobre como uma nobre deve tratar os rapazes. E preciso perguntar se ela pretende mesmo se tornar amante de Sua Alteza.
— Será mesmo necessário que a senhorita vá até cuidar da amante de Sua Alteza?
Mireille falou com desagrado, mas não havia como evitar.
— Preciso cumprir minhas responsabilidades como nobre.
Desde que me entendo por gente até hoje, vivi por Sua Alteza Friede e pelo reino. Não brinquei como as outras jovens damas, não me animei em conversas sobre qual rapaz é bonito; vivi impondo disciplina a mim mesma, como futura mãe da nação. Por isso encaro também isto como mais uma das minhas funções.
— Com a posição da casa da senhorita Sylvia, será difícil que ela chegue a consorte secundária, cujos filhos têm direito de sucessão. Não é impossível, mas, quando houver disputa de poder, sem força da família de origem ela não consegue proteger nem a si nem aos filhos, e só lhe resta a infelicidade. Preciso ensinar-lhe também essas coisas.
O castelo real, que à primeira vista parece pacífico, mal se olha para os bastidores e é só gente puxando o tapete uma da outra. É um lugar em que até eu, nascida na primeira casa ducal do reino, posso ser esmagada se descuidar.
— Amanhã, no intervalo do almoço do instituto, vamos chamá-la ao salão e deixar o recado bem claro. Cuide dos preparativos.
— …Às suas ordens. Deixarei tudo pronto.
Respondi a Mireille com um aceno de cabeça e segui às pressas para a sala de reuniões.
◇
Quando o céu começava a clarear e o menino que vende jornal já corria pela rua, eu me levantei na cama.
— Que sonho ruim.
Não houve resposta às palavras que murmurei enquanto afastava sem cuidado a franja úmida de suor.
De nada valeram as minhas advertências: foi mais ou menos naquela época que Friede e Sylvia passaram a estreitar a convivência sem se importar com olhares alheios. “A vida é coisa que não se dobra à vontade da gente” — de quem era mesmo essa frase? Não, para uma fala desse calibre, basta um bêbado de taberna resmungando.
Criei água por magia, lavei o suor do corpo inteiro e dissipei a umidade no ar. É uma técnica que exige controle fino do poder mágico, mas uma magia muito prática em acampamentos. Como não estou em viagem, poderia ter tomado um banho quente; só que mandar preparar a casa de banho de madrugada daria trabalho a alguém.
Já limpa, arrumei-me no meu quarto e, antes de sair, conferi minha aparência no grande espelho de corpo inteiro. Houve tempo em que eu vestia os melhores vestidos; hoje visto o uniforme da companhia. Ainda assim, o tecido é da mais alta qualidade e a peça foi costurada numa alfaiataria fina da capital imperial — não fica devendo nada aos vestidos de antes.
Eu, Elizabeth Leiston, nasci numa casa ducal do Reino de Haldoria. Prometida do príncipe herdeiro Friede Haldoria, vivia me esforçando para cumprir meus deveres de nobre. Dediquei-me até os ossos pelo reino e pelo povo.
O que Friede fez comigo, em troca, foi romper o noivado e me jogar num calabouço. Além disso, o rei Brato Haldoria e o primeiro-ministro Sieg Leiston — meu pai — souberam que eu estava presa e não tomaram providência alguma. E o povo, acreditando nos boatos sem pé nem cabeça que Friede espalhou, me xingou de mulher pérfida que tentara tomar o reino.
Foi só então que enfim decidi romper com o reino. Com minha dama de companhia de confiança, resolvi buscar asilo com a ajuda de um nobre do Império de Yutear.
Mas não fugi apenas.
Jurei vingança contra o prometido que me derrubou, contra o país que me abandonou e contra o povo que me traiu.
Ajeitei rapidamente a franja um pouco desalinhada. Atualmente, para acumular força para a vingança contra o reino, mudei de nome para Ellie Leis e me dedico ao comércio no Império. A Companhia Traitre que fundei vinha crescendo bem, sustentada por cosméticos de alta qualidade. Quando saí do meu quarto na casa da capital imperial — que é ao mesmo tempo residência e base da companhia —, uma mulher de traje de criada impecável baixou a cabeça num gesto rápido.
— Bom dia, Senhorita Ellie.
— Bom dia, Mireille.
Mireille é a dama de companhia que se exilou comigo do reino; foi graças a ela que consegui tomar a decisão de partir.
Mireille olhou o cabelo que eu havia domado de qualquer jeito, pegou a escova em silêncio, sentou-me diante do espelho e o penteou com cuidado.
Conheci Mireille pouco antes de entrar no instituto. Na volta de uma visita a um orfanato, ao passar perto da favela, encontrei Mireille encolhida, abraçada aos próprios joelhos. Estranhei que suas roupas fossem de bom material e ao mesmo tempo estivessem em farrapos, e falei com ela. A família de Mireille era de nobres decaídos e, como ela dizia não ter mais para onde ir, eu a levei comigo. Mireille tinha apenas alguma instrução, mas se esforçou sem parar para ficar à altura de estar ao meu lado — e é a confidente que continua a me servir mesmo depois de eu ter perdido minha posição.
Depois de tomar um café da manhã simples com Mireille, ela foi tratar de assuntos com Arnaud, o velho mordomo encarregado da casa, e eu comecei o trabalho no gabinete. Mal havia começado e soaram batidas na porta.
— Pode entrar.
Autorizada a entrada, apareceram duas meninas miúdas.
— Bom dia, Presidente Ellie.
— Bom dia, Senhorita Ellie.
— Bom dia, Lunoa, Misha.
As duas são as que mantenho por perto. Ainda têm traços de criança, mas ambas são competentes.
Lunoa é filha do homem a quem confiei a companhia no território do conde Lebrick, e uma aprendiz de comerciante muito promissora, capaz de usar a rara magia inata 【Item Analysis】. Misha é a menina do povo-gato que comprei de um mercador de escravos da capital imperial como aprendiz de dama de companhia; ultimamente venho lhe confiando também trabalho de secretária e, um dia, quero libertá-la da condição de escrava e contratá-la formalmente. Fora os que vieram comigo do reino, essas duas estão entre as pouquíssimas pessoas a quem contei minha origem e meu objetivo.
— Vocês duas, hoje à tarde eu passo na sede comercial, então deixem tudo preparado.
— Sim.
— Às suas ordens.
Nós quatro, com Mireille, seguimos de carruagem de aluguel até o distrito onde fica a sede. A sede da Companhia Traitre fica passando o mercado, na área em que se alinham as lojas de luxo. Daria para ir de carruagem até lá, mas ver o mercado e acompanhar a variação diária dos preços também é importante, então, quando tenho tempo, faço questão de passar os olhos pessoalmente nas mercadorias.
Parei numa loja de cereais e, olhando os sacos grandes de trigo, cevada e centeio expostos na frente, perguntei a Lunoa:
— Lunoa. Olhando esta mercadoria, você percebe alguma coisa?
— Sim. Está um pouco mais barata que na semana passada.
— Isso. E sabe por quê?
— Ahn… seria efeito do conflito com o Reino de Sarjas?
— Isso. Os preços, que tinham subido por causa do conflito, estão se estabilizando. E o que vai acontecer daqui em diante?
— Daqui em diante?
Lunoa franziu o cenho, matutando. Ficou assim um tempo, mas não achou a resposta.
— Deve levar alguns meses, mas os preços vão voltar a subir. Sobretudo os dos alimentos. O Reino de Sarjas, anexado pelo Império, é um país de turismo, com pouca terra cultivável e baixa autossuficiência alimentar. Os alimentos que até agora dependiam de importação do reino passarão a ser importados do Império. Como será difícil atender a esse aumento enorme de demanda ainda este ano, a alta dos alimentos é inevitável. Naturalmente o governo imperial vai fazer ajustes, então não se chegará ao ponto de faltar comida e haver fome.
Lunoa ouvia minha explicação assentindo. E eu encomendei ao dono da loja dez sacos grandes de trigo, pedindo que fossem entregues em nome da Companhia Traitre aos orfanatos da capital imperial.
A Igreja de Ibris, que administra os orfanatos, responde por parte do poder judiciário do Império — não custa nada manter boas relações.
— Ellie.
Enquanto eu caminhava olhando frutas e secos em outras lojas, alguém me chamou por trás.
Virei-me: uma mulher com o cabelo vermelho como fogo preso num rabo só vinha na minha direção com a mão erguida.
— Elsa.
É Elsa, aventureira rank A. Ao lado dela estavam também as companheiras de grupo, Marti, do povo-raposa, e Lisa, a maga curandeira. O grupo delas, «Sharp Edge», atuou comigo durante o conflito.
— Que coincidência. Fazendo compras?
— Sim, aproveitando uma inspeção na sede.
Depois de uma conversa rápida com Elsa e as demais, nos despedimos e eu segui para a sede comercial que administro.
É um prédio grande, de quatro andares, voltado para a avenida perto do bairro nobre. Era uma hospedaria de luxo, reformada. Ao atravessar a entrada, um funcionário me notou e baixou a cabeça.
— Bom trabalho, Presidente Ellie.
— Bom trabalho. Mande levarem ao meu gabinete os livros contábeis desta semana.
— Às suas ordens.
Muito bem, vamos ao lucro de hoje também.
◆
— Já chega!
No castelo real erguido no centro da capital do Reino de Haldoria ressoou o berro do rei Brato Haldoria, e os funcionários que por acaso estavam no gabinete encolheram os ombros e prenderam a respiração. A ira do rei se dirigia a uma pessoa só: o príncipe herdeiro Friede. E Friede não conseguia disfarçar o ar emburrado. Fazia bico de insatisfação e desviava os olhos.
— O que tu propões não se chama política! É fantasia pura!
— Meu pai vive nas mãos desses funcionários! Se me deixasse comigo, a arrecadação até subiria!
— E por que não entendes que, com isso, a vida do povo desmorona?! Já não te disse que, ao apresentar uma proposta, confirmes com a senhorita Roselia?!
— Mulher não tem como entender de política! Aquela mulher arrogante…
— Cala a boca! Isto está assim porque tu, na tua tolice, rebaixaste a Elizabeth! A casa ducal Fadogal ganhou projeção e a facção militar está com força demais!
— Isso é porque aquela mulher…
— Se Roselia não estivesse segurando, já estaríamos em guerra faz tempo!
— Ugh.
— Chega! Volta para o teu quarto!
Friede cerrou os molares com força e saiu do gabinete.
Repreendido por Brato, Friede entrou irritado no gabinete que lhe era destinado.
No centro daquele gabinete, despachando papelada, estava Roselia Fadogal, que virou assessora de Friede no lugar de Ellie, saída do reino. Vestindo com elegância um suntuoso vestido vermelho, Roselia não dirigiu o olhar nem cumprimentou o príncipe herdeiro, dono da sala, quando ele voltou. E isso irritou ainda mais os nervos de Friede.
— Ei! O que houve com o projeto de lei que apresentei?
— Projeto de lei? De que o senhor está falando?
— O projeto que entreguei esta manhã! Eu ordenei que fosse aprovado!
Quando Roselia voltou um olhar de enfado para o Friede que berrava, um subordinado tirou o tal projeto da caixa em que se juntam os documentos de prioridade mais baixa e o entregou a ela.
Roselia deu no projeto uma olhada de relance e disse uma palavra:
— Rejeitado.
E jogou o documento na caixa de descarte.
— O quê?! Sua… o que é que não lhe agrada no meu projeto?!
— Elevar em trinta por cento o piso salarial dos trabalhadores. Como o senhor imagina que uma proposta idiota dessas seria aprovada?
— Se entra dinheiro, esses plebeus imbecis vão ficar contentes, é óbvio! E, virando lei, meu bolso não sofre!
— Quem paga em troca é o empregador. Em época de economia aquecida talvez merecesse consideração; mas fazer isso agora significa demitir todo mundo que não seja estritamente necessário. Vai haver desemprego em massa, entende? Se entendeu, pare de fazer besteira e vá para junto daquela vagabunda. Aqui o senhor só atrapalha.
— Ugh.
Vencido na discussão por Roselia, Friede deixou o gabinete com o rosto vermelho.

Naquela noite, Brato virava um copo no próprio quarto e soltava um suspiro. À frente dele, Sieg, o primeiro-ministro, também segurava uma taça.
— Os Estados vassalos andam bastante agitados.
— Perdoe-me. É falha minha.
— Quem deu a autorização final fui eu. É a conta de ter largado esse tipo de assunto inteiramente com a Elizabeth. O trabalho do Friede, na prática, também era ela quem fazia. A esta altura não acredito que o Friede dê conta de trabalho decente. Do episódio do conflito também não demonstra nenhum arrependimento. E a senhorita Roselia, que enfiei como assessora dele à força, quer voltar para a fronteira. De minha parte, eu gostaria de trazer a Elizabeth de volta o quanto antes, mas…
— Sobre o paradeiro de Elizabeth há algumas hipóteses. Só que, no momento, não temos nem folga para enviar gente.
O Reino de Haldoria estava extremamente apertado: além de recompor a relação com os Estados vassalos, precisava lidar com a deterioração da ordem pública — consequência da desconfiança que o povo da capital passou a nutrir contra a nobreza depois do episódio provocado por Robert na volta da guerra. A busca por Elizabeth ficara para depois.
— Majestade… é a respeito de Sua Alteza Friede…………
— O que houve? É raro tu hesitares. Podes falar à vontade.
— …………Não, isto eu não posso dizer como primeiro-ministro. Portanto… quero que ouças como palavra de um amigo.
— …Está bem.
— Então… Brato. Sua Alteza Friede não tem mais jeito. Se entregares este país a ele, num prazo não muito longo ele fará algo irreparável.
— ………………
— Sei que depositas esperança no Friede por ele ter herdado com força o poder mágico de raio da Casa Real. Mas tu tens, como rei, o dever de tomar a decisão certa para este país.
— ………………Entendo.
— Pois é.
— Preciso decidir… é isso?
— Sim. E não há muito tempo.
— Está bem. Amanhã mesmo mando uma carta.
Ao ouvir aquilo, Sieg engoliu a decisão de Brato.
— …………É uma decisão sábia.
Sem que nenhum dos dois tomasse a iniciativa, Brato e Sieg encostaram as taças e beberam tudo de um gole.
— E então, o que houve com a questão do Reino de Sol?
Brato voltou ao rosto de rei e interpelou o Sieg primeiro-ministro.
— Sim. Ao que consta, a revolta já foi contida.
— Certo. Desta vez foi numa região pequena de um Estado vassalo, mas, se a relação continuar azedando, é ruim.
— Sim. Em alguns países já se percebe movimento de juntar armas e alimentos.
— Como assim?
— Não se trata de rebelião: parece preparação para defender o próprio país caso surja atrito entre nós e os vassalos. Ainda assim, não é uma situação nada desejável.
— Hm. Perder o Ernest doeu.
— Doeu. A intenção era deixá-lo um tempo na fronteira e depois chamá-lo de volta; mas ele driblou a vigilância e se matou…
Brato soltou um suspiro fundo.